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Viva a Boca do Lixo – Padre Pedro e a Revolta das Crianças




















Viva a Boca do Lixo


Padre Pedro e a Revolta das Crianças       (publicado: 07/2014)


Por Gabriel Carneiro

Padre Pedro e a Revolta das Crianças é mais um daqueles filmes inacreditáveis que só a Boca poderia ter produzido. Aproveitando-se do sucesso com a criançada, Pedro de Lara, então jurado do Show de Calouros do SBT, escreveu, produziu e protagonizou essa história de aventura, em que um padre turrão e mal-humorado enfrenta um milionário inescrupuloso e sem coração que domina a cidade. Pedro, claro, faz o padre. O controlador da cidade é José Mojica Marins, numa caracterização que, só não é idêntica ao mítico Zé do Caixão, porque seu nome é Rodrigo Napu. É, talvez, o que mais próximo de filme infanto-juvenil a Boca tenha feito.

Padre Pedro e a Revolta das Crianças apresenta uma típica trama maquiavélica, do bem contra o mal, um tanto educativa e rasteira, com personagens facilmente identificáveis pelas vestes, com a inserção de crianças buscando uma ponte com seu público-alvo, além de alguns personagens um tanto infantilizados e mensagens cristãs. Era a alternativa da Boca à crescente e cada vez mais dominante produção de filmes de sexo explícito.

O diretor, Francisco Cavalcanti, dono de uma das obras mais prolíficas da Boca, continuada mesmo após seu fim, foi sinônimo de filmes policiais ou de horror, como O Porão das Condenadas (1979), Os Violentadores de Meninas Virgens (1983), A Hora do Medo (1986), e Horas Fatais (Cabeças Trocadas) (1986), entre muitos outros. Cavalcanti não é muito afeito a requintes. Seu cinema prescinde disso. É um diretor da crueza formal e da violência humana. Mais próximo, talvez, dos exploitation gringos que tivemos em nosso cinema.

É curioso ver Cavalcanti na direção desse Padre Pedro e a Revolta das Crianças em relação à sua filmografia, ainda que o filme pareça fazer sentido nela. Afinal, é um filme sobre a violência, mas tratado em tom muito mais leve e nada gráfico. Rodrigo Napu é um sujeito capaz de fazer de tudo para manter o mundo ao seu redor como gosta, independente de quem tenha que matar etc. E é um homem contrário à igreja e à religião católica. É um opressor, assim como boa parte dos personagens de Cavalcanti. Certo que, no filme em questão, há também Padre Pedro, esse homem de fé e simples, que preza apenas pelo bem e luta pela saúde das criancinhas.

O próprio Mojica já havia feito, fora dos esquemas da Boca, um filme de cunho religioso católico, Meu Destino em Suas Mãos (1963): bom drama doméstico. A Boca, por sua vez, investiu em alguns filmes religiosos, mas, em geral, espíritas, afiliando-se ao gênero horror, como os kardecistas Joelma 23º Andar (1979), de Clery Cunha, e O Médium – A Verdade Sobre a Reencarnação (1980), de Paulo Figueiredo. Padre Pedro e a Revolta das Crianças também tem um discurso doutrinário sobre a religião, acerca da necessidade da crença em Deus, ainda que suas mensagens se confundam mais com um ideário da moral e do bom senso.

É trabalho cru também, sem firulas e inventividades. Cavalcanti é direto, tanto em termos narrativos quanto em enquadramentos. Não lhe interessa filmar de modo a ressaltar a composição do quadro, e sim de modo a evidenciar o que propõe a história. O filme é mais rasteiro em termos de roteiro, parece, porém, por conta do desejo em opor, sem margens para o contrário, como o bem e como o mal se comportam. É a lógica usada até hoje por muitos filmes infanto-juvenis que se preocupam com o educar.

Um filme infanto-juvenil da Boca do Lixo, porém, é bastante distante da imagem que o público tem dos filmes infanto-juvenis em geral, especialmente dos norte-americanos da Disney e afins. Mesmo dos brasileiros, ainda que, para o padrão de hoje, Trapalhões e Mazzaropi, que faziam maravilhas com esse público-alvo, talvez fossem considerados deveras politicamente incorretos. Se a violência e a agressão estão em Padre Pedro e a Revolta das Crianças, em condições mínimas, o sexo está completamente ausente. Mas não deixa de ser uma visão curiosa para um gênero fílmico. Apostando na inocência, Cavalcanti cria uma aventura um tanto lúdica sobre o coronelismo, simplista e acessível, e bastante divertida.









Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.