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James Bond na nova ordem mundial















Marcelo Miranda

Já está nos cinemas a nova aventura do agente James Bond. 007 – Cassino Royale, na verdade, se vende como a primeira grande missão do personagem, até por se inspirar no romance que o apresentou ao mundo, em meados dos anos 50. O inglês Ian Fleming criou Bond na literatura, mas foi no cinema que o espião ganhou a glória e protagoniza, ainda hoje, a mais longeva série de filmes no universo das grandes produções. Só que, como qualquer produto do gênero, precisa ser renovado aos novos tempos. Foi o que motivou a recauchutagem de James Bond, depois dos quatro capítulos estrelados por Pierce Brosnan.

Na verdade, Bond não podia mais ser um espião lutando contra dominadores de mundo. Nos últimos cinco anos tem existido uma forte reação do cinemão norte-americano à política de combate ao terrorismo. Filmes como Guerra dos Mundos, A Lenda do Zorro e Batman Begins, entre tantos outros, elegeram o terror como o inimigo a ser enfrentado. Não dá mais para Hollywood deixar de lado os perigos da nova ordem mundial. A questão, agora, é “brincar” com essa nova ordem inserindo antagonistas que se aproximem do que se vê diariamente nos noticiários. Não é por outro motivo que Zorro enfrenta, em plena Guerra da Secessão, um francês aspirante a terrorista. É o cinemão dando seu recado a quem quiser entender.

Jason Bourne, Ethan Hunt, Jack Bauer, Sidney Bristow, todos são agentes secretos que não medem forças para proteger seus governantes e a população de seus países. Do outro lado, o do “mal”, nada de planos mirabolantes de dominação planetária. O interesse é sempre a vingança contra as superpotências, ou alguma tentativa de se enriquecer às custas justamente dos ricos. O que filmes como A Supremacia Bourne e Missão Impossível e séries como 24 Horas e Alias pregam é a defesa irrestrita do próprio território e o embate entre “invasores” e “invadidos”. Em praticamente todos estes casos, nem sempre os “invadidos” são heróis e os “invasores”, vilões. Às vezes, muito pelo contrário – vide o comportamento contestável e controverso de Jack Bauer em muitas das situações vividas pelo personagem. Na geopolítica do novo século, não há mais espaço para maniqueísmo. A autocrítica e o alerta para os perigos da defesa irrestrita da autonomia da nação são comuns nessas mídias todas.

James Bond não podia ficar de fora, sob risco de envelhecer. Já era o que acontecia desde 007 – O mundo não é o bastante (1999), quando a franquia apontou sinais de esgotamento. A impressão explodiu com 007 – Um Novo Dia para Morrer, que em pleno ano de 2002 aparentava não ter olhos para a realidade ao seu redor – afinal, os atentados ao World Trade Center ocorreram no ano anterior. Enquanto isso, Bond corria em carros invisíveis e invadia grandes mansões de gelo atrás de um vilão asiático disfarçado de milionário por conta de uma radical cirurgia plástica. Os espectadores, em especial dos EUA e Inglaterra, não pareceram aceitar tanta ficção com facilidade. Por mais que o mundo precisasse de fantasia num momento como aquele, era impossível deixar de lado o que ocorria fora do universo do agente britânico.

Os produtores, nada bobos, entenderam o recado. Não podiam mais fazer filmes cheios de traquitanas, deboches e cenas meramente ilustrativas. Era preciso renovar, dar outra cara e adequar o personagem aos novos tempos. Era preciso recomeçar. E foi o que fizeram, literalmente: buscaram no primeiro romance de Fleming em que Bond aparecia, a chave rumo ao renascimento. Tiraram Pierce Brosnan da equação, convocaram um semidesconhecido para o papel principal (Daniel Craig, de Munique e Nem tudo é o que parece) e assumiram postura diferenciada. Iriam apresentar Bond quase como um aprendiz. Cassino Royale retrata a “origem” do espião, ou como ele conseguiu a famosa licença para matar. No lugar dos maquiavélicos lunáticos, agora a batalha é contra um financiador do terror planeta afora que consegue dinheiro jogando pôquer nos cassinos mais grandiosos do mundo. Equipamentos surreais, muitas mulheres e conquistas, planos bem elaborados? Nada disso. James Bond está começando a carreira de agente “00”, e como todo iniciante ainda tem muito a aprender – e a errar, para acertar depois.

A fórmula de linguagem da cinessérie de já somados 20 filmes oficiais (excetuando o recente Cassino Royale) é fartamente conhecida: um prólogo seguido da abertura musical, a apresentação do perigo que o agente vai enfrentar, a explicação de sua missão, o desenvolvimento e os meandros da espionagem, o enfrentamento final com o vilão (e no meio, muita bebida e mulheres). Pois na tal ânsia de renovar o clima da franquia, Cassino Royale já distorce a fórmula logo no começo. Em vez do famoso alvo “localizando” James Bond e focando o enredo, o filme abre com um plano externo; em vez da cor, o preto-e-branco; o tiro em direção ao espectador precisa esperar mais alguns instantes.

A nova produção tem como principal objetivo, desde este prólogo, a modificação quase total dos caminhos que os filmes anteriores seguiam. James Bond, agora sim, é um autêntico espião do século XXI, inserido no mundo pós-11 de Setembro. O diretor Martin Campbell – que já tinha dado outra cara à série há alguns anos, em 007 Contra GoldenEye, e igualmente questionado, na época, a real “função” de um agente do governo cujo objetivo é completar sua missão à base de mortes e mais mortes – arma todo o seu filme em torno desse renascimento, da idéia de que o espectador assiste a um primeiro sopro de um personagem que ainda está se formando em todos os aspectos.

Há um sentido de urgência quase adolescente nas ações do novo Bond. Ele desobedece à superiora, viaja sem autorização, rouba informações, cria incidentes diplomáticos. A inconseqüência torna-se característica do espião, mas não como era nos filmes anteriores, em que ele fazia tudo de forma meio amalucada tendo um caminho certeiro. Agora, o ímpeto de quebrar regras é menos por convicção e mais por pura imaturidade (“acho que te promovemos cedo demais”, comenta M, a superiora). Bond, por mais calculado que seja, não parece medir seus atos, e nem suas conseqüências.

Adequando-se a este olhar específico, Campbell movimenta a câmera na busca pelos ângulos que mais transmitam a noção de desespero e afobação de Bond. Junto ao montador Stuart Baird, há excelente escolha de planos e contraplanos – de toda a decupagem, aliás – que, por mais que haja movimentos contínuos, jamais deixa o foco desaparecer. Não há, aqui, aquela mania irritante de cortes e mais cortes, típica de alguns modernos filmes de ação e terror, cujas seqüências mais parecem um grande emaranhado de imagens montadas numa “estética de trailer”.

A combinação da forma e conteúdo, aliada à preocupação em colocar o espião numa realidade muito próxima da nossa (por mais que as situações vividas por ele sejam exageradamente fictícias) dá um surpreendente frescor à recente aventura de James Bond. O ator britânico Daniel Craig, tão defenestrado quando escolhido para substituir Brosnan, mistura o melhor de cada um dos principais atores a terem interpretado o espião: há o jeito irônico e seco de Sean Connery; o deboche de Roger Moore; a violência brutal e o estilo de crueza de Timothy Dalton; e o lado meio bonachão e mais romantizado de Pierce Brosnan. Ainda assim, neste caldeirão, Craig cria um Bond único e muito particular que já marca a franquia desde as cenas iniciais. Ao final de Cassino Royale, é Craig quem fica na mente, e não aqueles a quem ele referencia. Temos, enfim, um James Bond finalmente adequado ao mundo global. Pelo menos por enquanto.


Marcelo Miranda é éditor do Cinequanon e crítico do jornal O Tempo (MG), escreve também para os sites www.digestivocultural.com.br e www.canalcinefilia.com.br.