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Mataram o Crocodilo









Érico Fuks

Para esta regra, não existem exceções. Toda e qualquer distribuidora, mais cedo ou mais tarde, tomou ou tomará algum tipo de atitude que poderá prejudicar o cinéfilo assíduo. Principalmente no que diz respeito à promessa de lançamento nos cinemas em determinada data prevista. É de se compreender que são vários os motivos envolvidos que culminam nas costumeiras delongas ou até mesmo desistências de lançamento em telona: disponibilidade da cópia no momento da estréia, obter uma brecha no concorrido circuito, destacar-se diante da enxurrada de lançamentos simultâneos, verificar o potencial nível de aceitação do filme, fazer uma análise de mercado tendo em vista a repercussão no exterior, entre outros critérios. Em alguns casos, questões contratuais firmadas entre o prazo da tela X lançamento em DVD fazem com que o filme caia na obsolescência e vá direto pro home vídeo. A conclusão, de acordo com alguns jornalistas e profissionais diretamente envolvidos, é que há muito filme pra pouca sala. O resultado dessa guerra mercadológica de poucos sobreviventes é que, aos mais fracos, resta tão somente erguer a bandeira branca do arrego.

Esses filmes prometidos e não cumpridos representam uma faixa mínima em relação à quantidade anual de lançamentos (em torno de 1%). Entretanto, a má sina ocorre todos os anos, religiosamente: nesse ano tivemos como preteridos “Casanova” (Buena Vista International), “Camisa de Força” e “Seven Swords” (Imagem Filmes), “Nacho Libre” (UIP) e “Ricky Bobby (Sony Pictures), que eu me lembre. Este último ainda ostenta sua propaganda enganosa em algumas desavisadas salas de cinema. É de bom tom, portanto, se não for em caráter de denúncia, ao menos apontar essas falhas para que os mais assíduos e exigentes fiquem atentos. Pois a questão não é só matemática, há o fator agravante de não se tratar o público final com o merecido respeito. Guardadas as devidas proporções, é o mesmo que divulgar um show e cancelar ou adiar essa apresentação sem prévio aviso nem qualquer tipo de satisfação ao pagante. Além do fato de que essa trapalhada comercial traz prejuízos às próprias distribuidoras: há um gasto com produção de material de divulgação (cartazes, posters, banners, displays), com legendagem dos trailers, etc. Isso sem entrar no mérito dos meandros do Código de Defesa do Consumidor, que não vê com bons olhos as promessas indevidas da publicidade.

Visto que todos os prestadores de serviço do segmento estão sujeitos a falhas, resta então analisar a freqüência com que isso ocorre, os tipos de filmes sujeitos a esse descaso, as tentativas de se encontrar uma solução adequada e o tipo de tratamento que as distribuidoras e os assessores de imprensa oferecem aos jornalistas e, principalmente, ao público. E aí não tem jeito: cada caso é um caso, caindo no chavão popular. Para evitar correr o risco de generalizações, é bom então dar nomes aos bois. Algumas empresas, entre pequenas, médias e majors, não costumam reincidir nesses erros, e qualquer tipo de descuido fica no nível da exceção: Fox Filmes, Warner Bros., Paris Filmes, Playarte, Mais Filmes, Califórnia, Imovision, entre outras. A nanica Film Connection está tentando colocar os filmes “Os Gigolôs” e “Mulheres Desesperadas” no circuito comercial desde o fim da Mostra e não consegue espaço, mas ao menos sua assessoria avisa seu mailing em tempo hábil e justifica essa demora como uma maneira educada de dar satisfação e prestar serviços a quem trabalha com informação. A Buena Vista, por exemplo, costuma divulgar periodicamente seu calendário anual de lançamentos que, como sabemos, é impossível de ser cumprido devido a tais circunstâncias. Mas pelo menos serve de referência para os veículos se pré-programarem. A Europa Filmes, de porte médio, é um caso à parte. Nem eles mesmos sabem quando seus filmes serão lançados no circuito, se é que serão. O nacional “Lost Zweig” faz jus à primeira palavra de seu título. “El Aura”, exibido na Mostra retrasada, foi prometido pra ser lançado quando seu diretor Fabian Belinky (“Nove Rainhas”) ainda era vivo. Em compensação, o longa de ficção “Lemming” e o documentário “Murderball” foram lançados de surpresa, às pressas, sem divulgação prévia, pegando os jornalistas de calça curta. Há alguns meses atrás, foram marcadas as cabines dos filmes “Meu Encontro com Drew Barrymore” e de “Buena Vida Delivery” sem qualquer previsão de lançamento. Uma coisa meio que jogada à buena sorte, pegue quem quiser.

No campo das majors a pior de todas é, disparado, em todos os quesitos, a Columbia/Sony Pictures. Para se ter uma idéia do pouco-caso da empresa com a Sétima Arte, aqui vai um relato meio antigo de bastidores. No momento de lançamento do filme “Triplo X2 – Estado de Emergência” não houve cabine de imprensa, alegando-se indisponibilidade de cópias para exibição à categoria profissional. Entretanto, em newsletter posterior enviado à própria imprensa, havia uma notinha comunicando a boa receptividade do filme entre os espectadores da... cabine de imprensa! Após um abaixo-assinado de jornalistas e críticos profissionais, a diretoria comercial informou tratar-se de um “simulado de cabine”, uma exibição de trailer que contou com a presença de “críticos” em evidência na mídia (leia-se: pessoal do Pânico) para tirar fotos. Palhaçada pouca é bobagem. Esse sim é o verdadeiro estado de emergência em que se encontram os profissionais sérios do mercado. Ainda nas maledicências sobre a Columbia, parece que apostar todas as suas fichas em “007 – Casino Royale” faz todo sentido. A empresa que concentrou todos os seus esforços no blockbuster “Código da Vinci” e, em 2007, fará o mesmo com “Homem Aranha 3” parece dar um tratamento inferiormente disparatado àqueles que podem ser considerados filmes “de arte”. Desde o momento da promessa de estréia inicialmente prevista de “A Lula e a Baleia” e “Café da Manhã em Plutão”, ambos de 2006 (“A Caverna” também passou pelas mesmas obscuridades), foram diversas as remarcações. Podem ir se preparando que, ano que vem, muito provavelmente ocorrerá o mesmo com o italiano “100 Escovadas Antes de Dormir”, inicialmente programado pra estrear em agosto deste ano corrente. Serão, talvez, 100 procrastinadas antes de estrear.

Mas o fato mais hilário que concerne essa mesma distribuidora versa sobre “Maria Antonieta”, novo filme de Sofia Coppola. A Columbia parecia, em primeira instância, interessada em nos brindar com esse trabalho inédito da diretora do badalado “Encontros e Desencontros”, previsto para entrar em circuito em janeiro de 2007. Todavia, devido à má repercussão do filme lá fora, soltou um comunicado à imprensa declinando sobre tal decisão, deixando a coisa meio no ar. Logo em seguida, lançou outro comunicado pedindo para se ignorar a informação anterior, dizendo tratar-se de um “mal-entendido”, e que a estréia de “Maria Antonieta” nas salonas está confirmada e garantida. Sem saber mais em quem acreditar, resta aos veículos e aos cinéfilos a passividade de se aguardar ansiosamente a boa-vontade daqueles que controlam o que será visto e o que será deletado da grade de programação dos circuitos. São atitudes como essa, pequenas em número e grandes em intensidade, que corroboram com a péssima imagem dos detentores de que apreciar bons filmes é um favor que nos fazem, e que não existe uma relação estreita entre a cinefilia e o cinema, muito mais regido pelas regras de mercado do que pela avaliação artística.

Normalmente esses deslizes esporádicos acabam passando batido, pois os grandes lançamentos conseguem o cumprimento dos prazos. Mesmo assim, na condição de restrita a um circuito específico, essa minoria não deixa de trazer problemas. Uma repentina mudança de planos obriga a mídia impressa a rediagramar seus periódicos. Se a notícia vem muito em cima da hora e a informação errada é publicada, a responsabilidade recai sobre o veículo e não sobre a distribuidora. Nesses casos, será que essas organizações se comprometeriam a arcar com os prejuízos e ressarcir os valores gastos com papel, ou prevalece novamente a lei do dar-de-ombros? Na Internet, a gastança é menor porque não há custos materiais gráficos, mas a preocupação e o compromisso com a probidade da informação, podem ter certeza, é idêntica.

É exatamente a esse ponto que eu quero chegar. Toda semana, a editoria do site decide qual lançamento será o destaque da homepage (o equivalente à capa de revista). Afinal, no meio de algumas colunas praticamente imutáveis ou de baixa periodicidade, a mais dinâmica, a que envolve um maior esforço de atualizações, é a coluna das estréias. Por uma questão de respeito ao leitor, procuramos nos mobilizar mais por esta que é uma das nossas páginas mais acessadas. Não se trata de uma mera escolha a dedo para ostentar o cargo de porta-bandeiras. Também fazemos questão de não nos pautarmos somente pela repercussão comercial das estréias. Procuramos sempre estampar como “capa” aquele filme que tem mais a “cara” e o gosto do nosso internauta. Isso gera, ocasionalmente, uma série de discórdias e discussões mais acaloradas (somos todos ótimos amigos, mas às vezes nos exaltamos no calor do debate). Ou seja, em semanas de empate técnico há um desgaste interno que tem como único objetivo final a sintonia entre quem lê e quem escreve, calcada na seriedade e na coerência. Não é com um descaso aleatório que embasamos nossas escolhas nem norteamos nosso fiel e crescente eleitorado. E nessa semana, coincidentemente, fomos vitimas desse desleixo mercadológico. Se fosse um longa desprezível, como “O Pacto” ou “Tow in Surfing”, o estrago seria menor. Mas o filme em questão tinha maiores proporções estéticas. Quem acessou o site logo no momento em que as matérias subiram ao ar pôde verificar que o destaque, durante o período recorde de algumas horas, tinha sido o novo filme de Nanni Moretti, “O Crocodilo”. Exibido na última Mostra, esse filme foi considerado uma unanimidade pelos editores que o viram. Distribuído pela Downtown Filmes, ex-Lumiére, o filme estava prometido para estrear no dia 24 último. A recém-remodelada empresa megalopólica na logotipia visual e provinciana em seu gerenciamento pisou na bola desta vez. Nenhum de nós foi notificado sobre qualquer alteração sobre a data de lançamento, tampouco qualquer justificativa sobre esse delay. Para se ter uma idéia, até no site da empresa, acessado hoje (segunda-feira), consta como data de lançamento 24 de novembro, sem entrar em detalhes sobre praças escolhidas. Normalmente recebemos de antemão a programação de alguns circuitos comerciais, o que nos permite trabalhar apenas com as certezas: a ausência de algum título na grade ainda abre esperanças para que seja lançado em outro circuito. Dessa maneira jogada ao deus-dará, só nos resta fazer consultas informais aos amigos da área ou contar com a margem de acertos. O que difere – e muito – da nossa conduta profissional. Somos internéticos, somos da mídia informatizada, fazemos parte do futuro da informação, somos economicamente anti-gráficos, somos ecologicamente corretos a tal ponto de não precisar cortar árvores para nos expressar. O que não quer dizer que não precisamos de um mínimo de profissionalismo para continuar a trabalhar decentemente, em respeito e reverência a quem nos cobra quase que diariamente um trabalho de qualidade. Será que um dia esses assassinos de película irão perceber isso?


Érico Fuks é editor do Cinequanon.