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1 ano de Cinequanon: Por que escrever?







Fernando Watanabe

Hoje, não há dúvidas de que a crítica cinematográfica mais ousada, violenta e questionadora, encontra-se na Internet. César Zamberlan, em seu texto, já aponta as vantagens deste meio. Deve-se então diferenciar o mar de informações banalizadas da reflexão válida. Um grande desafio.

O Cinequanon faz parte – e talvez seja produto - deste fenômeno, e tem direcionado seus esforços a fim de conciliar a facilidade de expressão pessoal propiciada pela Internet com a consciência da necessidade de reflexão crítica que o cinema pede. Não é fácil. Pois essa suposta “democratização” dos meios de comunicação esconde muitos perigos, pois a facilidade das coisas pode contribuir para a inutilidade delas.

A outra questão de mão dupla que o Cinequanon enfrenta é no que diz respeito a seu posicionamento. Fazer coro com a crítica de resenhas publicitárias julgadoras de filmes/produtos? Definitivamente, não. Se isolar num nicho restrito que, radicalizando suas opiniões pré-concebidas, adota uma postura soberana? Somente em casos extremos, uma vez que hoje em dia o purismo ideológico dificilmente é duradouro. Mais uma vez, o Cinequanon se localiza na fronteira entre essas duas vertentes. Sem ser nem um, nem outro. Buscando outra coisa. Sem ter medo de mudar. Adequando-se ao momento atual, ao mesmo tempo em que o questiona.

A idéia editorial de que não há imposição ideológica fechada me parece ser adequada aos dias de hoje. A abertura para o novo, sempre. É entrar num filme desarmado (na medida do possível) de suas expectativas e pré-conceitos. É ter na sala de cinema sempre uma fonte de novidade, de surpresa. Pois, quando o cinema deixar de nos surpreender, talvez seja hora de buscar outras coisas.

A pluralidade de vozes segue essa postura aberta. Cada um possui espaço para ser autêntico. Claro, pensando e aprendendo com os companheiros, pensando no trabalho dos outros críticos, nos realizadores, no cinema em geral. Mas sempre manifestando sua individualidade. E a diversidade de mentalidades é o que há de mais saudável por aqui, uma vez que no grupo há muitas diferenças, de idade, de formação, de bagagem cinematográfica, de experiências de vida. São várias maneiras diferentes - e em alguns casos totalmente opostas - de se relacionar com os filmes. São vários olhares que, colocados lado a lado, ampliam a perspectiva sobre as obras, enriquecendo a procura de algo nos filmes. Cada um busca algo. E essa busca é solitária e ao mesmo tempo coletiva.

Sendo um site voltado principalmente para o cinéfilo, nos deparamos com outro problema. Como pensar o cinema de forma não exclusivamente voltada à história do cinema, ou seja, de forma não alienada? Relacionar cinema com os acontecimentos do nosso cotidiano. Esse esforço vem sendo concretizado na multiplicidade de áreas do site, como a dos Festivais, Ensaios e Pesquisas, Entrevistas, Em Discussão, e agora o Cinequablog. Integradas, elas configuram um dinamismo que enriquece as discussões, que não podem ficar limitadas a analisar cortes e atuações. A cinefilia é religiosa e fervorosa, mas a idéia é que ela não se encerre em si mesma de forma radical, mas sim que se faça um movimento de dentro dela para fora. Da sala escura para a realidade das ruas. Dos filmes para a vida. E é em meio a essa confusão – sem qualquer tipo de idealização romântica - entre cinema, filmes, vida pessoal e profissional, que escrevemos.

Afinal, escrever sobre cinema é um trabalho ou um hobby? Não chega a ser trabalho, já que não recebemos para isso. Não é hobby, uma vez que a diversão deslumbrada pura e simples não é a tônica do site. Então, por que diabos escrevemos? Por que você, caro leitor, lê críticas de cinema? Francamente, não sei.

Por que escrever sobre cinema sem ganhar um tostão, quando poderíamos investir este tempo em outras necessidades? Porque cinema , mais do que um hobby apaixonado, também pode ser uma necessidade. E aí está mais um problema, que é conciliar as atividades no site com outros compromissos pessoais e profissionais. Em condições ideais, o crítico/escritor poderia sobreviver de escrever. Mas, cada vez mais, a “profissionalização” torna-se um imenso inimigo da criatividade e liberdade de quem tem por ofício pensar. São poucos os que resistem. Então, a independência (financeira e ideológica) editorial é hoje o caminho propício para boas discussões, que só podem surgir em meio às condições não ideais, das dificuldades (como o companheiro Leonardo Mecchi comenta em seu texto), da tão falada “ decadência da crítica”.

E é diante deste panorama desafiador que tomamos fôlego e saltamos nos escuro (e nas salas escuras). Sem saber onde vai dar. Mas com a certeza de que este um ano de site já tem seu valor. Individual, e coletivo. Profissional, e pessoal.


P.S.

1 - Acho que este texto não deveria ser publicado, escrevi só pra me auxiliar.

2 - Escrever sobre o site Cinequanon é uma tarefa complicada. Como falar sobre nós quando, na verdade, a postura editorial do site é definida justamente pela opinião individual de cada um? Então, apesar de eu usar o pronome em terceira pessoa “nós”, é melhor entendê-lo como “eu”. O que tento aqui é abordar coisas que são importantes para mim, que talvez sejam de menor ou maior importância para os outros companheiros do site, demais críticos, e leitores.

Pessoalmente, vejo filmes e escrevo para me conhecer melhor. Tenho buscado uma aproximação mais pessoal e filosófica em meus textos, deixando a tarefa de julgar a técnica para outros que o saibam fazer melhor do que eu. Saber que alguns, mesmo que poucos, podem ter acesso aos meus textos no site, seja concordando, seja discordando radicalmente do que digo, para mim já é motivo de alegria. O importante é o contato com os textos, o prazer da leitura que o leitor deve sentir, sem que o conteúdo das críticas se sobreponha às palavras elas mesmas. O cinequanon tem me ajudado a me construir dessa forma.


Fernando Watanabe é graduando do Curso Superior do Audiovisual da ECA-USP desde 2004, fazendo parte da Comissão de Cultura e Extensão do Dept. de Cinema, Rádio e TV da escola.