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Viva a Boca do Lixo – O Olho Mágico do Amor






















Viva a Boca do Lixo


O Olho Mágico do Amor                                                       (publicado: 05/2014)


Por Gabriel Carneiro

(pode conter spoilers)

O cinema paulista dos anos 1980 ficou marcado por uma renovação em seus quadros. Com a Boca do Lixo caminhando para o cinema de sexo explícito – sem volta, a partir de 1984 -, coube a uma série de cineastas estreantes ocupar o mercado: além, claro, de alguns notáveis cineastas egressos de outros períodos. Eram jovens, em geral, vindos da universidade, estudantes de cinema, fato meio raro – parte da primeira geração da Boca havia cursado a Escola Superior de Cinema, das Faculdades São Luís, mas todos abandonaram no meio. Diversos estudantes da ECA/USP estrearam como diretores em longas-metragens nos anos 1980.

Antes da Boca se entregar completamente ao cinema de sexo explícito, dois “uspianos” (estudantes da USP) aproveitaram-se dos meandros do sistema para fazerem seus filmes – quebrando bastante a lógica seguida pelos ex-alunos, que preferiam manter-se distantes da Boca quando encaravam a direção. Contemporâneos de ECA, mas amigos apenas depois do fim da faculdade, Ícaro Martins e José Antonio Garcia buscaram em Adone Fragano, produtor da Boca do Lixo, dono da Olympus Filmes, uma forma de transformar ideias em filmes. A Boca, apesar de trabalhar com baixos orçamentos e uma série de contrapartidas, era a melhor forma de se conseguir levantar dinheiro para se fazer um longa sem depender das migalhas que a Embrafilme oferecia na época ao cinema paulista. Martins e Garcia proporiam, de certa forma, dentro daquele esquema, um novo olhar para o fazer cinema ali.

A dupla estrearia com O Olho Mágico do Amor, em 1981, e ainda faria, com a Olympus, aos Onda Nova (1983) e Estrela Nua (1985), antes de se separarem. Garcia fez, solo, O Corpo (1991) e Minha Vida em Suas Mãos (2001) – preparava seu sexto longa quando sofreu um infarto fulminante, em 2005. Martins codirigiu com Helena Ignez Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010).

Atípico à época para o cinema da Boca, a dupla chamou bastante atenção da crítica com sua estreia, num filme que subverte algumas das principais convenções do cinema erótico praticado por aqui, sem se afastar completamente a ponto de perder seu público – similar ao que outro estreante faria no mesmo ano, Guilherme de Almeida Prado com o seu As Taras de Todos Nós. De fato estão lá a nudez e o sexo em abundância, uma história que envolve desejos etc. Martins e Garcia, porém, assumem o olhar feminino, fazendo de seu filme um libelo à liberdade sexual da mulher – busca constante, aliás, nos filmes da dupla. No longa, a jovem Vera (Carla Camurati) parte em busca de seu primeiro trabalho, como forma de sair de casa. Consegue um emprego de secretária da Sociedade Paulista de Amigos da Ornitologia, localizada na R. do Triumpho, coração da Boca – a locação foi o escritório redecorado de Adone, inclusive. Lá, encontra um orifício na parede, que dá para o apartamento de uma prostituta (Tânia Alves). Nos momentos de ausência do diretor da sociedade, Vera se descobre e se desprende do papel de mulher oprimida – pelos pais, pelo namorado, pela sociedade. Cada homem que passa, um fetiche diferente.

Mesmo, eventualmente, tendo de lidar com a truculência machista e ignorante do cafetão, Vera encontra no fascínio com a figura da prostituta e na fantasia que emerge disso sua liberdade. O voyeurismo no filme, assim, ganha um novo contexto para além da invasão de privacidade. O que Vera observa se espelha em sua vida e em seus desejos – não importa o que lhe acontece enquanto não vislumbra o olho mágico. A fantasia lhe permite outras experiências: experiências que suplantam qualquer outra coisa.

Nessa trajetória um tanto singular, vale destacar o caráter lúdico escolhido por Martins e Garcia em vários momentos: seja a cantoria de Cida Moreira na casa, seja na fuga do bandido – com sua iluminação completamente artificial, digna do “neon-realismo”. Em especial, porém, no encontro entre as duas moças do filme, num cenário de fundo infinito, como se uma festa acontecesse. Ali, pouco importa se a ação – que quebra completamente a imersão no longa – é fruto da imaginação da protagonista ou se é apenas a liberdade representacional de um fato real do filme. Tudo aponta para uma direção: sempre em frente, sem remorsos.


FICHA TÉCNICA:

Direção: José Antônio Garcia, Ícaro Martins
Direção de fotografia: Antônio Melande
Câmera: Antônio Melande
Assistente de câmera: Luiz Antônio de Oliveira
Assistente de fotografia: Luiz Antônio de Oliveira
Fotografia de cena: Hércules Barbosa
Montador: Jair Garcia Duarte
Assistente de Montagem: Wanderley Klein
Produtor: Adone Fagano
Assistente de produção: Marcos Cunha, Filet
Direção de Produção: Felix Aidar
Roteiro e Argumento: José Antônio Garcia, Ícaro Martins Correia
Música: Luís Lopes
Editor Musical: Jair Garcia Duarte
Direção de Arte: Cristina Mutarelli
Cenografia: Cristina Mutarelli
Eletricista: José Manir, Valdecy Rodrigues, Fu Manchu
Contra-regra/acessórios de cenografia: Filet
Maquiagem: Vavá Torres

Elenco: Carla Camuratti, Tânia Alves, Sérgio Manverti, Ênio Gonçalves, Cida Moreyra, Tito Alencastro, Leonor Lambertini, Ismael Ivo, Luiz Roberto Garcia, Sofia Loren, José Antônio Garcia, Luiz Felipe, Vavá Torres, Eduardo Mutarelli, Antônio Maschio, Gisele Reis, Maria Helena, Maria Duarte Mamberti, Hércules Barbosa, Alaor Santos, Arrigo Barnabé, Jorge Mautner, Nelson Jacobina, Wladimir, Pitta.

Ano: 1981

Companhia Produtora: Olympus Filmes.
Companhias Distribuidoras: Ouro Nacional Distribuidora de Filmes; Art Films Ltda.; Embrafilme - Empresa Brasileira de Filmes S.A.
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Filme na Íntegra




Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.