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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados – “A dupla face de Alexander Kluge: artista e pensador da cultura”




















Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


"A dupla face de Alexander Kluge: artista e pensador da cultura¨                                                                                   (publicado: 04/2014)

Por Humberto Pereira da Silva

Alexander Kluge, nascido em 1932, é um dos mais respeitados intelectuais alemães do pós-guerra. Com formação em Direito, História e Música, destaca-se como pensador da cultura – ligado à Escola de Frankfurt, trabalhou com Theodor Adorno –, romancista premiado, poeta, teórico de cinema e cineasta. No que se refere propriamente ao cinema, foi talvez o porta-voz mais respeitado do Manifesto de Oberhausen (1962), que anunciou o movimento de renovação do cinema alemão, cujas diretrizes impulsionaram as obras de Rainer W. Fassbinder, Werner Herzog e Wim Wenders, os mais conhecidos realizadores do Novo Cinema Alemão. Na sequência da assinatura do manifesto ele realiza Anita G. - Despedida de ontem (1966), ao qual cabe a proeminência de ser o primeiro filme alemão premiado em importante festival internacional: Veneza.

O cinema, contudo, esteve longe de ocupar a atenção de Kluge nos anos iniciais de sua atividade intelectual. Seu envolvimento com o mundo cinematográfico ocorreu de modo até certo ponto casual, por orientação de Adorno, que o instigou a conhecer Fritz Lang. Aliás, a facilidade para transitar em áreas distintas da cultura e do conhecimento torna difícil alocar sua importância numa atividade circunscrita. O sociólogo Hans Magnus Enzenberger o descreveu como “o mais desconhecido dos escritores famosos”, numa ironia que evoca justamente um prestígio externo à literatura e ao debate teórico em sociologia: famoso por assinar importantes e premiadas películas renovadoras do cinema alemão nos anos de 1960. Daí que, para Enzenberger, caso Kluge não tivesse realizado nenhum filme, ou se dedicado à militância no cinema, sua reputação como escritor e pensador cultural seria maior.

A questão aqui, contudo, não é de mera especulação sobre o real alcance de seus projetos, de seus ensaios sociológicos ou intervenções no debate público, mas de se atentar para a posição que ocupa no universo cinematográfico: quando se pensa no Novo Cinema Alemão, inegável destacar, evocando a ironia de Enzenberger em tom irônico, que Kluge é notoriamente “o mais desconhecido dos cineastas famosos”. Este oximoro decorre de sua atividade multifacetada. Na Alemanha, sua capacidade de se expressar em diversos formatos gera certa reserva pública: as diversas premiações com que foi agraciado – como diretor de cinema ou como romancista – são interpretadas por muitos como fruto do reconhecimento de seu prestígio como intelectual público, e não propriamente de talento artístico.

Kluge, de fato, tornou-se conhecido principalmente em razão dos projetos a que se lançou, do ativismo político e cultural em que se envolveu, e das iniciativas que abraçou e que representam um marco no pensamento alemão das décadas recentes. Assim, a subscrição do Manifesto de Oberhausen indica a necessidade de o cinema alemão fazer frente ao Neorrealismo italiano e à Nouvelle Vague francesa. Situar, pois, as realizações alemãs no âmbito das cinematografias mais representativas e inovadoras da Europa à época.

Mas ele entende que o Manifesto em si não é suficiente para forjar uma mentalidade cinematográfica com identidade própria, motivações artísticas, políticas e culturais, em confronto com o mero entretimento do cinema comercial: por conseguinte, ele se engaja na fundação do “Instituto para Pesquisa de Filme”, organizado sob os mesmos preceitos do “Instituto para Pesquisas Sociais” (Escola de Frankfurt). É com essa capacidade de articulação, agregação em torno de projetos amplos de cultura que ele firmou seu nome: como decorrência, o creditou para realizar sua obra fílmica, ao mesmo tempo em que o manteve ligado ao sentido da produção de imagens no mundo contemporâneo.

Assim sendo, ele se engajou na criação e codirigiu os três grandes projetos comuns no Novo Cinema Alemão: Alemanha no Outono (1977), O Candidato (1979) e Guerra e Paz (1983). Do mesmo modo, a partir de meados dos anos de 1970 – num giro inesperado para muitos em razão da posição refratária da Escola de Frankfurt – ele se envolveu no espinhoso debate sobre as diferenças entre cinema e televisão, com ênfase na defesa desta última.

Para ele o cinema é o local público. Já a televisão penetra na vida privada. Enquanto a singularidade do cinema produz a permanência, a TV vive da dispersão: porém, nela, um conteúdo emancipatório, uma autêntica voz humana pode ser ouvida nas salas privadas, para as quais se estendem imagens de mercadorias. Com essa premissa no horizonte, Kluge trilhou caminho televisivo e desenvolveu um formato de programa no qual procura refletir, por meio de talk show, as características específicas do público e da intimidade que caracterizam esse meio de comunicação.

Se a multiplicidade de interesses, e intervenções, gera desconfiança com relação a seu talento artístico, expressa pela máxima irônica de que ele é “o mais desconhecido dos escritores famosos”, também se deve ver que ele é autor do “mais desconhecido dos filmes famosos”: Anita G.- Despedida de Ontem. Premiado em Veneza, fortemente influenciado pela Nouvelle Vague, especialmente Viver a Vida (1962), de Jean-Luc Godard, nessa obra marco do Novo Cinema Alemão a origem de muito que em seguida foi realizado por Fassbinder - tenho em mente principalmente, O Desespero de Veronika Voss (1982).

Tanto quanto Godard e Fassbinder, Kluge constrói um personagem feminino que transita num mundo estilizado, disforme, modelado por enquadramentos vazios, por movimentações desdramatizadas: enfim, um personagem que se fecha em si mesmo, em permanente descompasso com a realidade ao lado. Lembrar a esse respeito que para Kluge “a realidade não é realista”, pois não há uma realidade externa dada que permita conciliação entre a experiência sensorial, o vivido, e o mundo, mas a elaboração solipsista dos acontecimentos. Esse o apelo mais notável em Anita G. – Despedida de Ontem: o entendimento de que o jogo que opõe fatos e sentimentos, enquanto meramente exteriorizado, permanece sem expressão, ou circunscrito ao indizível.

Anita G. é uma jovem judia do outro lado da cortina de ferro que se encontra desajustada na Alemanha ocidental, ou seja, em Frankfurt. A chave do filme é o roubo de um casaco de lã. No julgamento, inquirida pelo juiz, a justificativa: ela estava com frio. Condenada, logo é posta em liberdade condicional. O filme então gira em torno de suas andanças a esmo, até que, numa escolha livre, ela retorna à prisão. Tendo o furto do casaco como mote, Despedida de Ontem alude à questão do despertencimento: Anita não faz questão de esconder o furto, simplesmente porque lhe falta a noção de propriedade privada, assim como da lógica de circulação do capital. Nem todos podem ter o casaco de lã que ela furtou e assim, para não ser presa, ela seria livre para passar frio.

No filme, então, o tema da liberdade posto entre os opostos “civilização” e “barbárie”. Anita G. fugiu da Alemanha oriental para encontrar a liberdade e encontrou a prisão. O que está em pauta nesse jogo de sinais trocados não é o furto do casaco propriamente, mas o quanto o casaco significa como símbolo de desumanização na lógica da propriedade privada. Não que o furto se justifique, ou que se tenha sociologia de ocasião (a sociedade é culpada pela violência que gera), mas tão somente que se trata de estabelecer as bases da civilização num mundo que se move pela opressão, pela exploração do trabalho, pelo fetichismo da mercadoria. Nesse mundo “livre” e “civilizado”, propõe Kluge, é nonsense falar em humanização.

Anita acaba por se mover através de uma série desenfreada de ações que renegam o sentido dado pela civilização. Ela tenta se ajustar, procura emprego, vai à universidade, mas ao final a questão: como é possível viver em consonância com um mundo sem sentido, que justifica a barbárie e anula o indivíduo, ainda que se constitua sob o pressuposto da liberdade individual? Na singeleza do furto do casaco – podia ser um pedaço de pão –, Despedida de Ontem assume feição de alegoria.

Assim sendo, Anita G. espelha o quanto a liberdade individual alcançada com a emancipação de gênero humano, pressuposto iluminista por excelência, é falseada por uma experiência banal, trivial. A concepção de mundo que se impôs com o século das luzes, se leva à humanização, também justifica a barbárie: o comércio de peles faz parte da lógica do consumo à medida que concebida como forma-mercadoria, como objeto de fetiche, portanto. Com a implacável lógica do mercado na ordem capitalista, a questão de fundo expressa no título do filme: como despedir-se de ontem? Como é impossível escapar a essa lógica, a busca pela liberdade não passa de quimera: a busca de Anita por reparação leva-a, fatalmente, à autodestruição.

Alexander Kluge podia ter construído sua reputação como cineasta exclusivamente pelo veio aberto por Anita G. – Despedida de Ontem, como Fassbinder em grande parte influenciado por ele o fez em seus perfis femininos. Não foi essa sua escolha, e nisso uma peculiar disposição de temperamento, de gênio artístico. Se essa disposição de temperamento implica em desconfiança no valor deste filme, talvez seja o caso de ponderar que se Kluge apenas o tivesse feito não precisaria ter feito mais nada em cinema. Devidamente contextualizado no ambiente de renovação do cinema alemão dos anos de 1960, este filme está para aquele momento como O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, para as concepções expressionistas da década de 1920.





Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).