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Viva a Boca do Lixo - Duas Mulheres Estranhas
















Viva a Boca do Lixo


Duas Estranhas Mulheres                              (publicado: 03/2014)


Por Gabriel Carneiro

Por muito tempo, pensou-se que Duas Estranhas Mulheres, estreia na direção e no roteiro do então montador Jair Correia, estava perdido. Em meados do ano passado, o Canal Brasil trouxe novamente o filme à vida, em bela cópia. Dividido em dois episódios, Diana e Eva, Duas Estranhas Mulheres foi premiado como melhor direção e melhor atriz (Patrícia Scalvi) pela APCA, em 1983. Típico filme de gênero, com forte acento psicológico na trama, o longa de Correia aponta para um diferente caminho aos filmes usuais da Boca do Lixo, numa época em que a produção parecia saturada, trazendo, porém, ainda elementos comuns à Boca, como nudez e insinuação sexual.

Tanto Diana quanto Eva trazem personagens femininos à mercê de homens, esses sim frutos de uma estranha natureza psicológica. Conhecemos Diana já num interrogatório, tentando explicar porque matou seu marido. Num bar, vê seu marido, Raul. Mas não é Raul, e sim Otávio, uma figura idêntica fisicamente a Raul: um sujeito agressivo e opressor. Atormentada, confronta ambos, que negam ter conhecimento de qualquer coisa do gênero. Diana então começa uma relação paralela com Otávio, que se revela doce e respeitador. Eventualmente, vai à loucura tentando se relacionar com as duas faces da mesma moeda

O episódio Diana é quase um “O Médico e o Monstro” moderno e brasileiro. Raul/Otávio alternam entre o grotesco e o gentil, sem mudar, porém, de fisionomia. A caracterização reflete um distúrbio de personalidades: a mera fala possibilita a identificação de qual face está em domínio. Diana, que se apaixona por Otávio, se vê num fogo cruzado, especialmente quando Raul passa a desconfiar de um amante. Jair Correia trabalha com o jogo das personalidades num crescendo de tensão, que permite à sua protagonista adentrar nessa loucura – muito favorecido pelas belas atuações de Patrícia Scalvi e Hélio Porto.

Eva vai mais além, no sentido de traduzir o psicológico para cinema. China (John Doo), um vendedor, sonha sobre Eva (Fátima Celebrini), com quem vai para a cama – transferindo a situação do sonho, inconscientemente, para a realidade, com sua esposa (Misaki Tanaka). Mas não é o corpo de China que vemos no sonho, e sim o de um barbudo ruivo (Vandi Zaquias). No dia seguinte, China pega a estrada e encontra, no meio do caminho, Eva. Tudo para China parece muito familiar, sem conseguir diferenciar o sonho que vimos com uma possível memória. O episódio aproxima-se, dessa forma, da narrativa do sonho, apresentando personagens em diferentes corpos, descontinuidade narrativa, e ligações mirabolantes entre os principais eventos.

É em Eva que fica claro um aspecto forte no cinema de Jair Correia: o caráter não-explicativo dos acontecimentos fantásticos ou extraordinários de seus filmes. Tanto em Diana quanto em Eva, Correia não demonstra qualquer insinuação de explicar as situações: seja a possível dupla-personalidade de Raul/Otávio – que também poderia ser um sonho, uma ilusão de Diana -, seja a transmutação de China no barbudo ruivo. Fator em consonância com a lógica do embaralhamento da psique proposto em seu cinema – nunca sabemos se a imagem que vemos são os fatos da narrativa ou a interpretação/imaginação de seus personagens.

Correia, que começou como assistente de direção e de montagem de Egídio Eccio, em 1976, ainda realizaria os longas Retrato Falado de uma Mulher sem Pudor (1982), ao lado de Hélio Porto, e Shock! (1983), o primeiro e um dos únicos representantes dos slashers no Brasil, antes de se dedicar às artes plásticas e ao teatro em Ribeirão Preto Neles todos, a não-explicação e a manutenção do mistério e da incerteza é quase a tônica – com exceção, talvez, de Retrato Falado, em que não teve o controle sobre o material final.

Importa, afinal, para Correia, o adensamento nas personalidades, a tentativa de compreensão do estado emocional. Por isso, o uso frequente do zoom psicológico, aquele que se aproxima aos poucos do personagem, focando em seu rosto expressivo, quase como se buscasse adentrar sua mente e exprimir seus sentimentos – tipo de zoom muito frequente, por exemplo, no cinema de Walter Hugo Khouri.

Duas Estranhas Mulheres ainda antecipa outro ponto forte do cinema de Jair Correia: em seus três longas, a opressão frente à figura da mulher é sempre muito forte. Não à toa, Correia, em geral, escolhe as mulheres como centro de seu cinema, assumindo o lado delas na história – ainda que características tidas hoje já como manifestação de machismo possam ser percebidas.

Com produção de Cassiano Esteves, Duas Estranhas Mulheres rendeu uma boa grana, possibilitando a Jair Correia emplacar outros projetos dentro da Boca, ainda que seus filmes e sua figura pareçam não se ligar tanto ao cinema da região. Pouco importa, porém.


FICHA TÉCNICA:

Direção: Jair Correia
Direção de fotografia: Tony Rabatoni
Câmera: Tony Rabatoni
Assistência de câmera: Nicanor de Oliveira, Sérgio de Carvalho Dias
Fotografia de Cena: Ademir Carlos Catore
Efeitos Especiais de Fotografia: Waldir Sebert
Montador: Jair Correia
Produtor: Cassiano Esteves
Assistente de produção: Péricles Campos
Roteiro e Argumento: Maria Leila Bueno, Jair Correia
Diálogos: Jair Correia
Técnico de Som: Pedro Luiz Noble
Assistente de Som: João Corcelli
Figurinos: Áurea Lima
Cenografia: Jair Correia, Roberto Palma
Consultoria de Cor: Deoclécio de Araújo
Assistente de eletricista: Miro Reis
Eletricista: Sílvio de Carvalho Dias
Contrarregra: Waldir Sebert
Maquiagem: Ona Paranhos



Elenco: Fátima Celebrini, Hélio Porto, Joel Angrisani, John Doo, Mii Saki, Misaki Tanaka, Odilon Escobar, Patrícia Scalvi, Paulo Minervino, Sérgio Paula, Vandi Zachias, Zélia Diniz

Ano: 1981

Companhia Produtora: E. C. Marte Filmes Distribuidora e Importadora Cinematográfica; Jair Correia Cinema; U.C.B. - União Cinematográfica Brasileira S.A.
Companhias Distribuidoras: U.C.B. - União Cinematográfica Brasileira S.A.; Serrador Companhia Cinematográfica; Cobra Filmes
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Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.