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Oito textos (outubro de 2012)                                                  (publicado: 03/2014)

“MOMENTOS DE CINEMA QUE EMOCIONARAM”


Por Cid Nader

Tentarei achar algumas das sequências que mais me emocionaram nessa caminhada cinéfila. Como sempre tenho feito aqui no Facebook, o critério nem sempre estará ligado à obrigatoriedade do filme citado como sendo dos imprescindíveis para a arte. E nem sei o quanto durará, já que estou iniciando sem ter acumulado ou pesquisado os instantes que gostaria de postar: será meio ao Deus dará e à sorte de poder encontrar tais trechos vagueando aqui pelas Internets da vida.


(Post 1 – 01/10/2012), retirado do “Viagem ao Princípio do Mundo” (1996), de Manoel de Oliveira. Mesmo não sendo considerando como dos maiores filmes desse gênio português, o filme marcou mais em grande escala por ser o último em que atuou Marcello Mastroianni. Mas, quando o vi numa Mostra de Cinema de São Paulo, além de fã incondicional do diretor (fã que consegue enxergar nele até trabalhos que não são bons, por raras vezes), lembro de ter ficado absolutamente pasmado ante cenas criadas no ambiente da morada dos camponeses portugueses, de forte matiz pictórica referindo às artes plásticas, e, principalmente, com o momento em que, após muitas dúvidas impostas por uma tia quanto à sua origem por “não falarem o mesmo idioma”, Afonso (Jean-Yves Gautier) lhe mostra o braço, dizendo que naquelas veias correm o mesmo sangue.

Cena (que ganha o ponto máximo na casa dos 3 para os 4 minutos):



(Post 2 – 03/10/2012), retirado do “Terra e Liberdade” (1995), de Ken Loach. Tá certo que na comparação com o primeiro post (que aludia “simplesmente” a uma obra de Manoel de Oliveira), trazer Ken Loach para esta seara pode até parecer heresia decadente. Mas é que, cenas que emocionam podem ser encontradas em filmes (e de autores) nem sempre imprescindíveis. Além do mais, Terra e Liberdade é provavelmente o melhor filme de Loach, que tem seu valor (como realizador) por insistir num cinema político-idealista, justamente no período (final dos 80 ao início dos 2000) em que as belas utopias sugeridas pelo socialismo ruíam ante golpes definitivos do capitalismo, sob alcunha enganadora de “Globalização”.

Nessa sequência (de imagem sofrível, mas foi a única que encontrei), o corpo da guerrilheira, Blanca, vivida por Rosana Pastor, é levado para ser enterrado em sua aldeia, no campo. Para quem acompanhava em tela a maluquice-abnegada empreendida por comunistas/socialistas do mundo todo (vindos dos mais variados setores da sociedade) - que foram à Espanha nos meados dos anos 30 na tentativa de derrubada do violento governo fascista (aconteceu naquele lugar e naquele momento uma das mais insanas guerras civis da história moderna) –, num crescendo catártico de situações acumuladas, a comoção ante o corpo da jovem bateu forte demais: e marcou.

Cena (que ganha o ponto máximo na casa dos 5 minutos): (veja aqui)



(Post 3 – 05/10/2012), retirado de “Os Vivos e os Mortos” (1987), de John Huston. Na realidade, agora que resolvi pensar mais a sério nesses momentos que mais me emocionaram no cinema, notei que já postei alguns deles aqui no Facebook, durante o ano, sob outras justificativas. Portanto, sem mais delongas novas (mas com delonga longa postada em abril, resgatada agora e repostada junto com o trecho extremamente emocionante – que me serviu de um dos “companheiros fílmicos por algumas madrugadas natalinas), a ele.

“Sob as imagens de uma Irlanda coberta por neves, em 1904, John Huston concluiu sua carreira - para ele, a morte viria logo após -, sobre cadeira de rodas. Essas imagens faziam parte de um dos filmes mais emocionantes que já vi: Os Vivos e os Mortos. Conta de tempos onde os humanos tinham valores que os permitiam como seres de um seu meio: bem antes da "empobrecedora" globalização. Se é possível aludir a esses isolamentos milenares como os proporcionadores de alguns dos terríveis momentos de segregação, também é possível pinçar deles alguns dos capítulos mais belos de nossa existência.

Huston "pinçou" a história de um dos contos do divino "Os Dublinenses" (obra de James Joyce, tão imprescindível quanto seu maravilhoso "Ulysses"). O filme: "pequeno", testamental, feito – de modo evidente - com muito coração. Raro retrato filmado de um momento comum - e como são contundentemente espantosos esses momentos comuns das pessoas e de seus locais.

Dentre vários belos instantes, dois se destacam na minha memória de então: aquela em que a câmera sobe lentamente as escadas, para adentrar na sequência ao quarto da velha tia - dona da casa onde se janta um jantar de festas natalinas - e pesquisar detalhadamente os pequenos objetos e fotos que contam sua vida desde a juventude.

O outro lindo instante se dá ao final (há muitos outros pelo filme), quando a sobrinha e o marido voltam a seu pequeno hotel, e a câmera vagueia pela noite de uma Irlanda ancestral, sob muita neve como disse acima, para percorrer recantos, e as cruzes de um cemitério.

Durante o filme, Angelica Huston e Donal McCann, junto com os outros falam de vida, de tenores, de arte, do mundo. Mas a grande força está no imaginário de uma Irlanda ilha isolada em si, e no discurso interior que remete à finitude, à morte. Preciso revê-lo.

Abaixo, o belo discurso que encerra com sons as imagens do passeio das lentes noturnas:
Sim, os jornais estavam certos: a neve cobria toda a Irlanda. Caía sobre toda a Planície Central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o Oeste, jazia Michael Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes de pequeno portão, nos espinhos estéreis. Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do Universo – como se lhe descesse a hora final – sobre todos os vivos e os mortos’ ”.

O trecho emocionante:



(Post 4 – 07/10/2012), retirado de “O Novo Mundo” (2005), de Terrence Malick. Num filme recheado de cenas e momentos – pictórica e sonoramente belos -, escolher uma delas para essa coisinha aqui dos “MOMENTOS DE CINEMA QUE EMOCIONARAM”, de dentro de O Novo Mundo, foi coisa complexa, tanto quanto prazerosa, pela quantidade generosa de instantes que Terrence Malick disponibilizou para contar a história de Pocahontas (na realidade, mais uma história contando do gênese dos EUA, como EUA).

Como em toda sua obra, o diretor (que já foi mais bem bissexto) cria instantes instigantes e provocadores à nossa capacidade mecânica/cerebral de apreensão do que se desenrola em tela, pois mantém um hábito muito próprio que consiste em emparelhar (porém, fora de sincronia linearizante) som e imagens (essas, quase sempre “flutuantes”) de maneira avolumada, criando sensação de escape do corpo para uma dimensão mais estranha, de onde olhamos o filme como se não estivéssemos simplesmente sentados numa poltrona de cinema. Pena que, pelo fato de ter se tornado mais constante nos últimos tempos, muito desse encanto tenha perdido a qualidade de impacto provocador para parcela de admiradores, que agora passaram ao destrato de diretor e novos filmes, sem que notem, na realidade (e aí essa coisa de rancorzinho e mimimis fica parecendo atitude de marketing pessoal), que ele sempre atuou na mesma “faixa” de construção: e que isso coaduna perfeitamente com a autoralidade que sempre defendemos.

Ver a sequência, a última do filme - que fala dos instantes finais da índia que sai de seu novo mundo, para ir a um outro novo mundo (na realidade a velha Europa) por amor, por desamor, tendo o momento da campa, o do espírito do índio que sai em desabalada e selvagem corrida, os da figura dela mesma ainda em vida, e tudo mais -, é embarcar tristemente nas consequências sofridas, levados pelo método de condução que somente Malick consegue fazer com tanta graduação de beleza e dor.

A sequência:



(Post 5 – 09/10/2012), retirado de “A Felicidade Não Se Compra” (1946), de Frank Capra. Pode-se dizer muita coisa a respeito da confiança de Frank Capra na “fé e pureza” do povo norte-americano, da crença dele na instituição familiar como a única razão nuclear possível para que mantivesse firme a pátria como resguardo das virtudes, e tal...

Tanto pode-se questionar esse “moralismo” que permeou toda sua obra, quanto é impossível não pensá-lo como um cineasta da ala das excelências, imprescindível, que sabia fazer cinema de altíssima qualidade, e que entregou obras com grande complexidade embrenhadora entre humor sutil e o melodrama deslavado.

Mas, mais ainda do que qualquer coisa, de maneira perfeita para esse “MOMENTOS DE CINEMA QUE EMOCIONARAM”, lembrar do filme talvez mais significativo quando se pensa nos Natais como momentos propícios para rememorações e tristeza saudosa de outros tempos, que é o A Felicidade Não Se Compra, significa um retrazer em jorro de momentos dos mais intensamente emocionantes que o cinema botou em tela nos tempos complexos e esperançosos do pós-II Guerra. É filme de humor fino, na figura de um pretendente a ser anjo, desastradíssimo, amealhando as costuras; de questionamento quanto ao poder dos bancos e do sistema capitalista achacando os que ainda mantinham como a “virtude pura do povo dos EUA”; de potência, quando insinua a possibilidade do suicido como a única solução ante o desespero; de esperança, que combina com o espírito redentor do período natalino, empreendido no momento decisivo e final da história.

E é esse momento final que busco para postar aqui: de emoção máxima, vibrante, quase puro, que combina como quase nada consegue combinar com boas madrugadas ante a o aparelho de TV na época do ano em que as urbes esvaziam de suas urgências, o espírito (querendo ou não, sei lá) desarma.

O trecho:



(Post 6 – 11/10/2012), retirado de “Amor à Flor da Pele” (2000), de Wong Kar-Wai. Se há um cineasta que consegue inflar seus filmes com cenas memoráveis nos tempos modernos, Wong Kar Wai talvez seja o alguém mais apropriado para assumir tal posto. Acusado por muitos como esteta que usa sua arte para impor excessos de visuais fru-fru que poderiam ser descartados em benefício de um cinema mais importante, e também justo ao que se imagina como manejos mais específicos em favor da fluidez das histórias, o que ocorre mesmo é que esse realizador (nascido na Grande China, mas de filmografia que relata e se concentra nas atipicidades de Hong Kong – para onde foi com 5 anos de idade) assusta quem imagina “pegá-lo” pelas camadas superficiais dos belos vernizes que usa e se acomoda, sem conseguir perceber que há continuidade humana contada (a saga de um homem que atravessa os tempos, desde uma Hong Kong colonizada e bela na padronização imitada dos colonizadores, até os momentos conturbados de insurreições, revoltas, e tentativas de “resgate” por parte da grande nação solar que a avizinha), e que há necessidade do belo trato estético para contar dessas nuances de vida em um lugar que tem identidade fracionada e, também, distendida.

A beleza que chama a atenção, as mulheres sempre lindas, o clima de criação artificial (o que é o cinema senão reconstrução imagética falsa das verdades que se desejam?), o resgate de musicalidade de tempos “glamourosos”, as imagens em slow-motion propositadamente forçadas para caberem ao olhar de lentes que optam por posicionamentos quase sempre incomuns... O que Kar-Wai faz é único, pessoal, autoral, raro.

Bem, talvez Amor à Flor da Pele seja o mais belo filme de amor das últimas décadas. É com certeza retrato urbano raro de uma Hong Kong totalmente inglesa, de luzes artificiais, hotéis, chuvas sobre asfaltos... Mas a cena que resgato se dá justamente no contraponto ao que o filme prega na camada superficial de entrega (sempre essas camadas superficiais...): num templo, longe de Hong Kong, com câmera que desliza em linha vertical e criando “tensão” dramático/visual, após um hábito ancestral ser cumprido (o se contar um segredo dentro de um buraco, para, após, cobri-lo), com um jovem monge observando... Momento resgatado, que encerra o filme (de muitos outros que caberiam aqui), e que fala muito de tempos, influências e amor.

Cena:



(Post 7 - 12/10/2012), retirado de “Terra” (1930), de Aleksandr Dovzhenko. Existiram os filmes da Propaganda do Regime Soviético no início do século XX. Diversos deles constam de listas de críticos entre as maiores obras do cinema: e realmente é difícil pensar em listas (pra quem gosta de listas) de melhores sem a presença de alguns títulos desse momento espertamente usado pelo sistema.

Para mim há um especial (que nem é tão citado por repetição nas discussões sobre os mais importantes), que é o Terra, do ucraniano Aleksandr Dovzhenko, e que marcou especialmente por infinidade de momentos específicos (diversos por todo o filme), num trabalho que apostou fortemente em imagens bem filmadas (óbvio, mas não tão fácil) e edição elaborada de modo totalmente atípico como a melhor maneira de contrastar o que seriam as terras cultivadas por métodos mecanizados (que proporcionariam mais alimento para todos os camponeses), num sistema que pensava de modo pragmático na melhor maneira de chances iguais a todos (isso, obviamente, no pré-Stalinismo), suas frutas, pessoas, flores, trigais, nuvens...

De toda essa infinidade de momentos específicos e bons para serem resgatados, aqui, há um meio amalucado, simbólico até a medula, que se dá quando o líder campônio, Vassyl (ou Basil) percorre trecho de rua e estrada empoeirada, à noite, com dança típica substituindo seus passos para representar momento de extrema felicidade, e sendo alvejado numa tocaia covarde coordenada pelos poderosos donos antigos das terras (os kulaks): assassinato que se dá por um tiro, que no cinema mudo se faz perceptível ante a reação abrupta, por susto, de um cavalo, na penumbra enevoada, propícia camuflagem para as atitudes covarde.

Posto abaixo esse trecho mais específico, mas posto também o filme na íntegra, pois toda a sequência de muitos minutos (que vai à negação possante de Deus e da Igreja Ortodoxa, passando pela cena – muito criticada por setores do sistema, principalmente no período subsequente, que foi o de Stálin – da mulher nua e desesperada, e ainda, antes do enterro, na imagem inacreditável do homem que gira, também em desespero, com a cabeça tocando no solo) após está no contexto todo dos momentos mais emocionantes.

Trecho:

Filme na íntegra (a ver com o que me fez optar, mais especificamente, a partir dos 40 minutos):



(Post 8 – 14/10/2012), retirado de “Era Uma Vez em Tóquio”” (1953), de Yasujiro Ozu. É tão óbvio pra quem me conhece, ou pra quem conhece minimante cinema, ou ainda pros de alma curiosa, ou têm alma de artes, ou ainda para quem sabe que um dos deuses mais poderosos recebeu o nome de Yasujiro Ozu, que teria de haver ao menos uma cena (momento, sequência) desse que é mais do que maior dos nipônicos cineastas nessa série dos “MOMENTOS DE CINEMA QUE EMOCIONARAM”...

Mais óbvio ainda imaginar que, dentre dezenas de possibilidades, se uma só fosse a de ter chance teria de ser originada de Era Uma Vez em Tóquio. E escolho, sempre emocionado quando lembro do filme, a do encerramento (e repito: como são mais marcantes as cenas que encerram), que resume em todo um trecho de aproximadamente cinco minutos as essências mais relevantes de um cinema que falava em seus momentos mais importantes de um Japão empobrecido, recém-saído de uma guerra em que foi derrotado militar, religiosa, humana, ancestralmente (já que arrancado – e aceirando isso tacitamente - de suas tradições para poder ressurgir e sobreviver no único futuro possível que se lhe acenava.

Não é o momento de falar da “metodologia Ozu quase ditadora” sobre seus atores, nem de sua invenção (que era um preservar do olhar as coisas sob prismas originados na infância) do “plano-tatame”, mas de um trecho esplendoroso de cinema: que “inicia” quando o velho Hirayama diz para a nora (Noriko) viúva de seu filho - que se sente na obrigação ancestral de ter de abdicar do futuro para dedicar-se ao sogro, após a morte de sua mulher, ela, Noriko, que é a mais do que os próprios filhos do casal de idosos recebe e trata-os com carinho numa sua (deles) viagem a Tóquio) – que retome sua vida, que não abandone o futuro; passando pelo trem, pela cena em que a vizinha fala rapidamente com ele e ouve que “se ele soubesse que a mulher iria morrer teria se dedicado a ela mais nos últimos tempos”, para finalizar (entre sutis vozes de escolares cantando, casas e chaminés rescindindo a um país que sai de seu feudalismo e ingressa em outros tempos, barcos suaves sobre a água...) com triste melodia...

Para quem diz gostar de cinema e nunca viu... Aiaiaiaiaiaiai!

Tive que repostar o filme na íntegra aqui (quando fui resgatar o final, havia sido retirado do Youtube). Nada mal poder vê-lo inteiro, mas se a ideia é ir ao ponto que cito, após 2h06 minutos:



(Post 9 – 16/10/2012), retirado de font color="#FF7518">“Amantes Constantes”” (2004), de Phillipe Garrel. Aqui, na cena da dança jovem típica dos 60, pela beleza plástica que os trailers sugeriam (o filme chegou no Brasil, para poucos mas ansiosos fanáticos, somente dois anos depois de seu lançamento), pela música dos únicos “Kinks” (This Time Tomorrow), por ser de filme do raríssimo Philippe Garrel, tudo já prevenia para a certeza de que seria ela uma das mais marcantes e emocionantes que se veria por muitos anos (antes e após – com certeza de todos os tempos). Fui à minha crítica na época, e simplesmente arranquei dois enormes trechos dela ao invés de falar mais, com palavras novas, de um tempo que foi único nas mais variadas maneiras na história recente da humanidade: a dança era o resumo de tudo que os jovens de 68 sentiam e exerciam.

Trechos da crítica:
...” Garrel utiliza o tema 'Maio de 1968' de maneira recorrente em sua quase obscura extensão de obras. Mas quando envereda pelo assunto da maneira que o fez nesse seu recente trabalho está evidenciando uma visão muito particular de como foi marcado pelo momento histórico e mais, como enxergou e assimilou os momentos seguintes (no caso, o ano de 1969) aos manifestos 'embarricados' estudantis.

O mundo era fervilhantemente esperançoso nos idos de 1968. Praga era invadida pela União Soviética sob protestos e enfrentamentos. A Alemanha e a França protestavam - via juventude - de maneira contundente: nas ruas, nos carros incendiados, nas atitudes realizadas comunitariamente; o Brasil tentava enfrentar, quase que de maneira estéril - quem o fazia mais braçalmente, digamos assim, era basicamente a juventude culta e estudantil -, o endurecimento militar que havia se instalado sem pedir licença. Ao mesmo tempo, conceitos orientais de enriquecimento espiritual avolumavam nas jovens e combatentes cabeças que, após o fracasso consumado nas tentativas mais téte-a-téte de resolução das situações 'oficiais' que ameaçavam se instalar de maneira dura, passaram a valer-se deles (os conceitos orientais) como o entorpecimento requerido para os corpos momentaneamente derrotados, cansados e desesperançados”...

...”E o filme passará a tratar, então, despudoradamente, de um lado único da questão. Tomará para si, carinhosamente, a necessidade de contar o que aconteceu após aqueles momentos, o que poderia ter resultado de uma briga na qual os que combateram pelo lado civil sabiam que não atingiriam a vitória física, e a subsequente 'ressaca' após aquele porre de adrenalina, fraternalismo e esperança. E aí, então, Phillippe passará a nos contar a maneira pela qual aqueles jovens imaginaram persistir com seu maior ganho restado da derrota campal: as amizades. Tal maneira de persistência se amparou num substrato do 'orientalismo' citado anteriormente: o ópio. Os personagens passam a se refugiar na ilusão causada pela droga, na casa do mais rico do grupo que passa a amparar os companheiros 'derrotados' com carinho e o poder de seu dinheiro - passa a comprar as obras de arte de um, a amparar financeiramente outro, a acolher todos para as sessões de escape. Os momentos de amor entre homem e mulher também permeiam toda a trama e são de 'singeleza' muito própria. Louis Garrel e Clotilde Hesme encarnam a figura do par amoroso central e recheiam o trabalho de todo uma essência necessária e própria para a proposta do filme, de 'amantes intelectualizados' que lutarão contra a filosofia do 'modelo opressor' como amantes que se insurgem contra os ditos censuradores do imposto pelo oficial; lutarão contra o sistema que combatem desde 1968. Só que o mundo não é simplista, os ideais podem sucumbir - até mesmo estimulados pelo 'inimigo' - e o diretor encaminha seus protegidos para o destino trágico da lógica mundana”...

Trecho do filme que criava ansiedade nos fãs:





Em tempos de muita dedicação ás redes sociais na Internet (atualmente de modo maios nítido ao Facebook), para onde respingos da produção de Cid Nader têm derivado e ganhado vida, talvez fosse desperdício não aproveitar alguns desses instantes de inspiração mais leve. Surge, portanto, agora, a coluna que abrigará no site trechos dessa produção: trechos poderão até contar com análises mais densas, mas mantendo sempre o nível de pessoalidade/informalidade tão mais comum ao espaço nascedouro. Mensal, e sempre com diversos assuntos referentes ao cinema.