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Por que "Diários de Motocicleta" é citado em "Match Point"?













Annete Fuks

Mesmo quando o filme é ruim eu reparo nos mínimos detalhes: pôster na parede, outdoor, placa de carro, pichação em muro, marcas de detergente ou geléia, nome de restaurante. Trilha sonora nem se fala. Depois, em casa, quando penso no filme fico me perguntando se tudo isso o diretor colocou consciente ou inconscientemente. Às vezes dá pra perguntar: numa Mostra Internacional de São Paulo, há uns dois anos atrás, sobre a escolha dos quadros na parede do apartamento de um filme sobre relacionamento com a mãe, recebi como resposta do casal de diretores: “Ah, você reparou?” Porque tinha a ver.

Agora quero falar sobre “Match Point”, último filme do Woody Allen, que pra mim é um primor, depois de uma safra de filmes só mais ou menos. Primeiro, a música é irrepreensível: a escolha de um personagem que gosta de ópera, especificamente a ária de Caruso (“Una Furtiva Lacrima”), executada somente a partir da segunda estrofe é genial (afinal, o personagem de J. Rhys Meyers não tem nenhuma lágrima escorrendo quando começam seus conflitos). A ária de “Otelo” na preparação do assassinato também vem muito a propósito. Mas o detalhe que mais me fez pensar: por que o filme “Diários de Motocicleta” nos letreiros de um cinema é o título escolhido por Allen?

O tema de “Match Point” é o conflito entre o impulso de Vida e o impulso de Morte, a oposição entre os dois (no final vamos concordar com Woody que este filme não tem nada a ver com “O Sol é para Todos”, com Montgomery Clift, Elizabeth Taylor e Shelley Winters). Levar uma vida medíocre de professor de tênis o personagem imagina ser a Morte, e casar-se com Chloe “golpe do baú” é tanto um impulso de Vida quanto de Morte: de Vida porque vai passar a ter dinheiro, projeção social, conforto, segurança. E de Morte porque vai estar casado com uma mulher que não o atrai, um emprego que não o satisfaz e um convívio social que nada tem a ver com ele. Conhece então a personagem interpretada por Scarlett Johanson e, novamente, o conflito entre os dois impulsos se manifesta. Ter um relacionamento com ela é Vida no sentido de recuperar o prazer, e Morte por estar jogando fora o que havia conquistado. Neste ponto, enquanto a esposa não consegue engravidar, apesar de uma parafernália de esforços, a amante vem com a notícia de estar, ela sim, grávida. Isso desencadeia novamente no personagem o eterno conflito entre seus impulsos de Vida e Morte: por qual impulso ele se deixará levar? Não há mais prazer na relação com a amante e, portanto, para ele parece que a Vida é se acomodar na situação anterior. Mas para isso ele precisa dar vazão aos impulsos agressivos (de Morte) matando o ex-objeto de prazer e a própria continuação da sua vida, que nada mais é do que a criança que ela tinha no ventre. Para tentar não morrer ele precisa matar, destruir para permanecer vivo, mas deixa tantas pistas que parece querer ser descoberto e se destruir.

No “Diários de Motocicleta”, Guevara faz o caminho inverso. Sai de uma situação privilegiada (estudante de Medicina, família classe média) para fazer uma viagem com o amigo. Ao entrar em contato com as desgraças da América Latina, aquela vida anterior deixa de ter significado, e o personagem vai em busca da nova Vida que é a revolução, e acaba morto.

Pergunto: Guevara morreu? Fisicamente sim, mas no imaginário dos jovens de todo o mundo continua vivo, “sem perder a ternura jamais”. E o personagem de Match Point? Fisicamente sobreviveu ao investigador, ao sonho do “coro grego” das mortas, mas será que está vivo com a mulher, filho, sogros, cunhados e com a vida sem emoção?



Anette Fuks é frequentadora assídua da Mostra, acompanha o evento desde a sua primeira edição. Nessa edição, viu mais de 120 filmes.