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MINHA OPINIÃO (texto de dezembro de 2013)                                                                            (publicado: 01/2014)

Por Cid Nader

Cada vez mais vociferante contra listas e enfileiramentos de filmes por ordem de preferência; cada vez mais batalhando – cá com minha pouca força – contra premiações em festivais e mostras (contra disputas num mundo que é de arte), me traio de modo contundente e agressivo quando aceito participar de listas solicitadas por amigos, ou de júris em eventos de cinema. Tento apaziguar isso que me coloca como um ser a ser duvidado evitando alardear sobre as listas que fiz (sempre a convite, repito), sobre os júris dos quais participei, e abolindo já há uns bons anos essa brincadeirinha lá no Cinequanon.

Há poucos minutos, sem muito a fazer por uns instantes, pensava nas coisas boas que aconteceram no cinema nesse ano de 2013. Pensei nas minhas mais de quinze viagens pelo país, e nas surpresas que me atacaram em diversos desses e de outros instantes. Então, só para passar para texto escrito o que relembrei – sem ir atrás para valer, com possibilidade de ter esquecido algumas coisas pelos caminhos da memória -, cumprindo uma função íntima de me ver muito mais completo como “escrivinhador” do que por outros métodos, elenco algumas dessas situações que fizeram desse que termina um ano especial: sem ordem, sem um melhor que o outro, mas com todas as situações como de coração aquecido.

- foi bom notar que talvez a película ainda encontre longa vida: no mundo do Super-8. Situação que constatei quando estive no “Curta 8”, de Curitiba, onde se falou muito de um ressuscitamento da mídia nesse formato, onde notei a alegria e arrojo de se montar um filme no gatilho da filmadora, onde o erro era provocação pensada, e onde os organizadores se mostraram mais organizados do que os de muitos festivais grandes por aí.

- foi ótimo nosso ano curtista. Não há como negar que são feitos por aqui dos melhores curtas-metragens do mundo: com variedade de temáticas, com ousadia, com descentralização cada vez mais notada nas produções, realizadores que não encaram obrigatoriamente o processo como rito de passagem para o estágio “longa-metragem”, confirmações e tal.

- confirmações que se dão: por exemplo, na certeza de um Lucas Sá mais do que somente se insinuando como alguém que será importante, com seus prováveis 20 anos de idade, e de quem vi todos os trabalhos, em seu momento de “lançamento ao mundo”; ou no potencial lúdico (e de confecções corretíssimas) de uma Thaís Fujinaga...

- confirmações que já notava – e alardeava - há mais de três anos na potência (inclusive quantitativa) das produções curtistas da Paraíba, como um fenômeno que derivava quase fronteiriçamente pelo nordeste: surgido já decano no Recife; passando por Fortaleza; indo por Campina Grande e João Pessoa (dois núcleos paraibanos); aportando em Salvador (num início bem instável ditado nas obras surgidas na Universidade do Recôncavo, para ganhar vida e alternâncias com o tempo – tanto nos trabalhos da mesma universidade, como nos de outros realizadores locais); mas não parando por lá, quando noto na “Mostra Sururu” (agorinha mesmo, começo de dezembro) uma produção alagoana alentadora, bastante formalista, surpreendente, não fosse a impressão de ser isso um vírus que se espalha pelo nordeste de forma forte e constante.

- valendo lembrar que o Paraná (também com dois núcleos: o de Londrina e o da capital) anda botando as manguinhas de fora – mesmo sem incentivos como ocorre em Pernambuco, por exemplo; que as produções paulistas voltaram a apresentar boa quantidade de obras interessantes; e quando até a região norte começa a produzir com certa quantidade.

- dentre os diversos festivais frequentados vale alertar para: a “Mostra Canavial” (com quatro finais de semana se espalhando por oito cidades da Zona da Mata Norte, em Pernambuco), pela proposta principal que faz de sua razão maior de ser a formação de galera nova para o cinema, pensando novas possibilidades de carreira para pessoas da região (valendo lembrar que em Goyana, no primeiro final de semana, uma sala de 99 anos foi a sede dos filmes: a do Polytheama); o “Curta 8” já citado em Curitiba, cidade sede da “Mostra Olhar de Cinema”, que nasceu forte em 2012, neste ano se firmou mais, e promete muito mais ainda (da curadoria raramente rigorosa, à qualidade das projeções e respeito nos horários, salas descentes e organização extremamente competente); um veteraníssimo “Festival de Brasília do Cinema Brasileiro” com a melhor seleção de longas que presenciei desde que o cubro, há 6 anos (curadoria esperta e atenta na escolha dos filmes); um sempre necessário destaque à “Universo Produção”, com sua importante tríade mineira (Tiradentes, Ouro Preto e e CineBH)...

- e ano de longas-metragens consolidando momento espetacular de nossas produções (entre trabalhos que estrearam comercialmente e outros notados nas viagens): e tome o maravilhoso Avanti Popolo (do Michael Wahrmann), tão engraçado quanto melancólico, quanto inventivo e rigoroso na forma – obra-prima -; e vem o esplêndido Amor, Plástico e Barulho (da recifense Renata Pinheiro), que conta do mundo das luzes frágeis com imaginação plástica e sonora; e surge o belo Tatuagem (Hílton Lacerda), que imprime variações de percepções para além de ser “somente” filme de gueto – e sendo, também, de modo raro; ou estreia outra obra-prima (no caso, para provar que a edição é a consolidação das imagens em cinema), o As Hiper Mulheres (Sette, Tacumã e Fausto); enquanto, quase na contramão, conheço Os Pobres Diabos (do veterano Rosemberg Cariry), um filme de atores, e com a raridade na fotografia espantosa de Petrus, seu filho; e ressurge após muitas preces o Paulo Sacramento como diretor, regatando um cinema urbano (mais do que “apenas” paulistano) que ninguém mais faz na atualidade, entre buscas e riscos que felizmente tateiam as bordas, com seu Riocorrente; sendo que se é para falar de paulistanidade, houve o atipicamente bom Corpo Presente (Marcelo Toledo, Paolo Gregori)...

Ainda outra estreia tardia como o forte e ousado na construção, Boa Sorte, Meu Amor (do Daniel Aragão), que contou como companheiro de atraso na estreia com um dos nossos mais lindos filmes recentes, o Esse Amor que Nos Consome (do imprescindível Allan Ribeiro, lá do RJ); ainda no caminho estreias tardias, a obra rara de um diretor raro (Adirley Queirós, que escolheu a Ceilàndia como sua musa), que é A Cidade É uma Só?; uma outra raridade (para poucos e bons), o Doce Amianto (Guto Parente, Uirá Reis); uma obra que só poderia ser prima, já que é do Bressane, o Educação Sentimental, que é cinema na essência máxima, indo inclusive à revelação deslavada do aparato de construção. Foi ótimo, lindo, ver a grande Helena Ignez com o Feio Eu, filme que treslouca e transgride, como teria de ser, ainda bem; ver uma outra obra bastante rara (que não chegou a São Paulo), e que vai aos sentidos mais incorpóreos, mesmo tratando de gente na Terra, que é As Horas Vulgares (Rodrigo Oliveira, Victor Grazie); notar o quanto avançou o batalhador Cristiano Burlan, para chegar nesse chocante e tocante Mataram Meu Irmão; notar, também, Caetano Gotardo estreando nos longas de modo corajoso (resultando um outro filme belíssimo) com O que Se Move; ou o grande O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho), que mais ainda do que ser inquestionável (e é, pois filme de quem sabe o que faz), conseguiu a proeza de arregimentar elogios oriundos de locais e pessoas meio impensáveis...

Lembrando que posso ter deixado filmes e eventos pelo caminho – por não querer ir ás pesquisas, já que isso daqui é uma opinião só, um escrever, um quase nada de importância -, paro aqui somente com o nosso cinema em mente: valendo alertar que vi muitos estrangeiros notáveis, também.

P.S.: se já não curto lista dos melhores, essas que pululam brincalhonamente elencando os piores então... Me façam o favor, né? Não sou criancinha e não brinco com prazer maldoso avaliando outros...

P.S. 2: ano em que morreu aquele que talvez tenha sido nosso maior fotógrafo (aliás, fazendo seu último trabalho no Riocorrente), um amigo próximo, um ídolo, um maluco e um gênio – Aloysio Raulino.





Em tempos de muita dedicação ás redes sociais na Internet (atualmente de modo maios nítido ao Facebook), para onde respingos da produção de Cid Nader têm derivado e ganhado vida, talvez fosse desperdício não aproveitar alguns desses instantes de inspiração mais leve. Surge, portanto, agora, a coluna que abrigará no site trechos dessa produção: trechos poderão até contar com análises mais densas, mas mantendo sempre o nível de pessoalidade/informalidade tão mais comum ao espaço nascedouro. Mensal, e sempre com diversos assuntos referentes ao cinema.