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Viva a Boca do Lixo - Amor de Perversão
















Viva a Boca do Lixo


Amor de Perversão                                       (publicado: 01/2014)


Por Gabriel Carneiro

Realizado como projeto de encomenda para Paulo de Tarso Silveira e Fritz Jordan, que queriam entrar para o mercado cinematográfico com um melodrama, Amor de Perversão é talvez a produção com mais dinheiro de Alfredo Sternheim. Além de elenco de primeira, que inclui nomes como Paulo Guarnieri, Leonardo Villar, Norma Blum, Raul Cortez, entre outros, e uma grande equipe, com Carlos Reichenbach na fotografia e Zé Rodrix na música, o filme tem até grua, coisa raríssima nas produções da Boca do Lixo. O filme se centra na desilusão com a vida de um jovem universitário (Guarnieri), filho de um magnata das indústrias que teve de reconstruir sua carreira do zero, depois de um grande incêndio.

Alfredo Sternheim, jornalista e crítico de cinema, começou como assistente de Walter Hugo Khouri – A Ilha (1963) e Noite Vazia (1964) – e dirigiu 24 longas, metade deles com sexo explícito, após a decadência da Boca. Até lá, dirigiu algumas pérolas, como Anjo Loiro (1972), Violência na Carne (1981), Tensão e Desejo (1983), e sua obra-prima, Pureza Proibida (1974). Sternheim, cinéfilo, sempre foi grande admirador dos melodramas e do cinema clássico. Não à toa, seus filmes sempre contavam grandes histórias de amor ou tragédias insólitas. Sempre com um tratamento clássico: o que lhe interessava, acima de tudo, era contar uma boa história, acessível a todos os públicos, de maneira a tocar sua audiência: a emoção acima da razão.

Amor de Perversão segue essa tendência: melodrama clássico, com o apelo erótico que a Boca exigia – com a musa Alvamar Taddei liderando o elenco feminino. A angústia de seu protagonista, o jovem ricaço, é de origem existencial: já que não há amor em sua vida, não vê propósito em se interessar por nada que lhe impõem – a profissão, os estudos, a noiva etc. Como filho de magnata, sua vida inteira foi traçada pelos pais. Deve, portanto, seguir a tradição e os bons costumes.

Quase como um Khouri com vertente social e moral – sem o mesmo brilhantismo, porém, ao trabalhar as angústias internas -, Amor de Perversão aposta na máxima tragédia. Quando, enfim, o rapaz encontra uma paixão, sua família a rejeita, por ser de classe social diferente e tida como inferior.

Há um elogio evidente à sensibilidade popular. O popular é autêntico – se fala na lata ou se é rude, aquilo faz parte de uma sinceridade crônica, sem o propósito de ofensa. Em oposição, vemos os ricos, que desdenham de qualquer pessoa que não se comporte da mesma maneira deles, ou que não tenha o mesmo dinheiro. São esnobes e controladores, limitados a uma visão de mundo antiquada. Sternheim sempre foi um libertário, que acredita na liberdade e na individualidade da mulher e das minorias, em oposição ao machismo reinante na Boca. Suas mulheres são fortes, decididas, quando heroínas. O papel marcante em Amor de Perversão é justamente o de Alvamar, a namoradinha de classe social tida como inferior. Ela se sustenta, sabe o que quer e sabe controlar em sua vida tudo aquilo que é reprovado socialmente – drogas, sexo etc. Se o personagem de Guarnieri entra num redemoinho sem volta é porque ele não sabe se portar sem a tutela financeira e comportamental dos pais. A crise, mostra Sternheim, não é a da falta de amor, e sim a de não saber ser independente dos outros. Quase como se dissesse que o problema de toda a família é não aceitar o mundo e sua independência – as expectativas para com os outros é que frustram a vida de todos.

O filme peca quando quer ser ainda mais melodramático. Se toda crise do jovem e a questão moral se coadunam muito bem dentro do classicismo de Sternheim, o excesso torna-se apelativo, num final extremamente desnecessário: a desilusão bastaria ao filme. Sternheim acaba pesando a mão no roteiro, buscando escancarar o drama, sem desenvolver propriamente, ou tentando, através do choque das revelações, potencializar a emoção. Nisso, perde justamente a força de até então – e afasta Amor de Perversão dos grandes filmes de Alfredo, ainda que seja um belo trabalho a ser conferido.


FICHA TÉCNICA:

Direção: Alfredo Sternheim
Assistência de Direção: Alberto Leonida Gieco
Direção de fotografia: Carlos Reichenbach
Operador: Carlos Reichenbach
Assistência de câmera: Luiz Antonio Oliveira
Fotografia de Cena: José do Amaral
Efeitos Especiais de Fotografia: Darcy Silva
Montador: Jair Garcia Duarte
Assistente de Montagem: Danilo Tadeu
Produtores: Paulo de Tarso Vianna Silveira, Carlos Frederico Jordan
Direção de produção: Antônio Jakoska Netto
Assistentes de produção: José Carlos Lampa
Gerente de produção: Ari Abramides
Roteiro: Alfredo Sternheim
Argumento: Paulo de Tarso Vianna Silveira
Música Original: Zé Rodrix
Figurinos: Selene Gonçalves
Consultoria de Cor: José Carlos Rosa Neto, Georges Dimitri
Chefe eletricista: José Manir
Eletricista: Ronaldo Pereira da Silva
Maquinista: Nilmon A. Santos, Francisco Angelo Baldin
Cabeleireiro: José Itamar Oliveira
Maquiagem: Josephina Vitale
Guarda-Roupas: Célia Baldin


Elenco: Paulo Guarnieri, Alvamar Taddei, Raul Cortez, Norma Blum, Leonardo Villar, John Hebert, Carmen Silva, Tássia Camargo, Antônio Petrin, Wilma de Aguiar, Armando Tiraboschi, Tadeu Menezes, Silvana Alves, Nilson Raman, Marta Vaz, Tony Fernandez, Ronaldo Ciambroni, Celina Favarin, Mauro Berbert, Débora Berbert, Paulo Domingues, Mauro Russo, Judith Krasbuch.

Ano: 1982

Companhia Produtora: J.J.P.J. Produções Artísticas Ltda.
Companhias Distribuidoras: Empresa Cinematográfica Sul; Ouro Nacional; U.C.B. - União Cinematográfica Brasileira S.A
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Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.