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Sururu – 4ª Mostra de Cinema Alagoano




















































Sururu – 4ª Mostra de Cinema Alagoano



UM BALANÇO GERAL

Numa mostra em que vim principalmente como jurado, minha obsessão mandava obrigatoriamente emendar um balanço ao final das funções: novamente, obsessivamente, quando na frente do computador me pego escrevendo sobre cada filme visto. Mesmo assim, algo a falar antes, mas sem me estender demais nas explanações, já que creio que os textos críticos que fiz sobre todos os curtas em competição contem bastante do que notei da “Mostra Sururu”.

Vale, de toda forma, lembrar que raramente passei por um evento tão regional e com tanta competência na organização (presteza e carinho se misturaram de modo incrível); que o quesito projeção (sempre tão importante, quanto relapsado), ainda mais feito ao ar livre, conseguiu dar conta bem bacana do recado, e com som bastante tranquilo para a compreensão; que teve curadoria, ou inacreditavelmente boa, ou que teve a sorte de contar com trabalhos bastante acima da média na quantidade de boas realizações (ficou óbvio pelo passar dos dias que um tanto dos dois); realizações que chamaram – em boa parte - demais a atenção desde o primeiro filme, conduzindo a percepção a notar produções de raro afeto e atenção às imagens (chegando por vezes a obras surpreendentes, o que me obrigou a resgatar o terno “rigor”, que já não usava há bom tempo); e de constante colaboração conjunta nos trabalhos, algo bastante importante, quando algo como ação entre amigos fez notá-los, um trabalhando no filme do outro (e vale dar uma chamada de atenção ao dinamismo, quantidade e qualidade, principalmente, e como um exemplo que valeria para muitos, para a bela obsessão por fazer cinema de Alice Jardim).

Num ano em que já completo algo como quinze viagens pelo país, jamais imaginei terminá-lo de forma tão estupefata: mesmo.

Às críticas.


Primeira Noite

Futebol na Terra da Rasteira, de Thalles Gomes Camelo (16m50)

Mesmo em se sabendo que um dois procedimentos mais comuns na feitura de documentários consiste na utilização alternada de depoimentos tomados “ao vivo” (em tempo presente) com a da imagens de arquivo; mesmo quando se pensa que no exíguo período de tempo do curta-metragem o ideal seriam soluções obtidas por manipulações mais “milagrosas/originais/inventivas” na hora da edição, para que os dados pudessem ser ordenados a ponto de conseguirem se contar e ao que o filme deseja; mesmo que o assunto (no caso, aqui, o do futebol, e de modo muito mais específico naquele antagonismo tão mais acirrado entre somente dois times de mesmo local – CRBXCSA) seja dos mais comentados, dos mais alardeados, dos do dia-a-dia do país, o que poderia remeter a pensar na dificuldade de cooptação do espectador... Mesmo quando tudo indicaria que Thalles Gomes Camelo poderia enfrentar dificuldades em emplacar seu Futebol na Terra da Rasteira, o modo como o iniciou, com narração do sempre over Márcio Canuto de texto em que a rasteira é o verbo principal, para, numa guinada, trazer o que ditaria o mote principal – o contar da rivalidade entre antiga e histórica dos dois times principais de Maceió -, através de imagens de jogos, gols, dribles, e jogadas espantosas e os ex-jogadores falando nesses tempos recentes (com suas imagens de ex-atletas), revelou um realizador perspicaz, sabedor de que na dinâmica proposta pela montagem do material estariam o meio de caminho e vida em tela.

Contribui para tudo, o fato de ter conseguido entrevistas em “turma”, engraçadas, vivas, relembrando as figuras maduras com imagens de seus tempos nos campos; foi esperto ao trazer a maior figura do esporte para um breve e hilário comentário, e na construção (o púnico momento de “ousadia” externa ao realto real) de um momento movimento por uma espécie de stop-motion, onde as figurinhas não eram massinha, mas botões de futebol. Resumindo: ao perceber que o material que tinha em mãos era rico quase por si só, ordenou tudo de modo correto, mantendo fluxo constante, e acertou um trabalho que tem interesse natural, e, ainda mais, é síntese maior da técnica principal da arte: a edição. (FOTO 2)


Brêda, de Trinny Alarcon (8m20s)

Quando vez por outra deparamos com um filme que poderia ser “reduzido”, ao ser analisado, como fruto de rigor máximo no modo de captação, algo de “antigo” na maneira de fazer crítica parece assomar, como que quase representando certa preguiça na maneira de compreensão, e remetendo a procedimento que ficou um tanto datado por bom período, há alguns poucos anos: era comum demais, por exemplo, encontrar nos curtas-metragens nascidos na UFF (Universidade Federal Fluminense) a busca máxima de suas razões no rigor empreendido pela foto, pela adequação do ambiente ao que as lentes poderiam desvelar, por uma certa obsessão matemática de posicionamento do aparato de filmagem, com a intenção de que a potência do obtido, imageticamente, fosse quase a voz principal do discurso, do narrado, do contado – momento que ressuscitou a certeza de que as imagens são as coisas mais importantes no cinema (e embuta-se nisso todo o trabalho subsequente na edição/montagem delas).

Mas, tanto quanto pode parecer preguiçoso retrazer o termo “rigor”, nada mais justo, na realidade, do que colá-lo como virtude até inquietante - de tanto capricho e obsessão demonstrados – de Brêda, onde são contadas histórias de um edifício construído na década 1950 em Maceió, que já foi auge, sofre seu momento de quase queda, e justamente por essas “desavenças” ditadas pela passagem do tempo se torna “figura” ideal para ser pesquisada e contada. A diretora Trinny Alarcon intuiu – como até é bastante comum no mundo dos docs curtas – que as vidas passadas por ali, as que ainda o fazem respirar, e sua própria composição material, seriam dados suficientemente interessantes para serem seu trabalho, apostando de modo quase inacreditável na potência que as imagens oferecem quando observadas por diversos ângulos por lentes pensadas e calculistas, obtendo sequências que (com auxílio de narrações e depoimentos também de importância, mas que até poderiam ser “somente” penduricalhos se sua intenção fosse a de oferecer um filme exemplo de exercício de trabalho) marcam de modo bastante surpreendente e didático: didático para os que não conhecem o local, e conseguem após a exibição situá-lo na mente, até por alguns pequenos detalhes. Raro trabalho, principalmente vindo de quem inicia. (FOTO 3)


Lixo, de Paulo Silver (9m40s)

Sem saber ao certo se há mesmo cenas documentais alternando com as encenadas - na realidade, isso nem é a questão principal, e provavelmente nem o desejo de algum tipo de inquietação proposta por Paulo Silver -, chama a atenção de modo interessante os dois mundos construídos e obtidos para a construção de lixo. Se fosse necessário algum tipo de catalogação do curta, se fosse real que uma das situações foi obtida por observação de realidade, estaríamos facilmente de um filme híbrido, onde os limites de ficção e não ficção se imiscuem em um dado momento, sem a artificialidade da encenação, sem a construção da atuação para representar trechos regatados de fatos.

Pelo sim, pelo não, o que importa mesmo é que o filme se faz peça rara - sem tanta qualidade nas personagens dos jovens de classe média que vivem a vida (e seria bom não vê-lo como uma espécie de ditador de regras, de aula que direciona ao “bom” pobre/trabalhador como o antagonismo ao “desprezível” jovem que só quer se divertir – seria reduzir uma obra), mas bastante especial no trato das imagens quando atrás do catador de lixo, onde momentos de firmeza na câmera em movimento constroem sequências de caráter realista -, onde a condução das histórias, que parecem paralelas por quase toda a extensão, num dado momento as permite se encontrando, se cruzando, mas de modo sutil, bastante fugaz, sem mais alardes, sem ditos, ou estender a mais, artificiais. Importa mesmo é que há atenção ao som das situações como um elemento de preenchimento do trabalho, também, e que há noção bastante interessante de que não são somente por catarse, de idas ao topos, aos gritos (mesmo os gritos que chamem a atenção para malabarismos estéticos), que se concluem filmes que apostam forte justamente na sua conclusão. (FOTO 4)


Os Ratos Não Descansavam, de Michel Rios (7m14s)

Michel Rios apostou em desconstruir (talvez fosse melhor: fragmentar) qualquer sensação de maior fluidez nesse seu curta-metragem: não se encontra facilmente lá qualquer fio condutor de narrativa dos fatos, das falas ou pensamentos do personagem que o percorrerá; não há a explicação que mastigue para o espectador os dados jogados de forma quase hermética, quase aleatória, alinear, mesmo com a profusão das ideias estando constantemente sendo “proferidas” na banda sonora (banda sonora que sustenta, também, boa fusão de ruídos e outros sons como enriquecimento interessante do que é alardeado, e não tão facilmente contado), o que é sempre positivo, já que de filmes mastigados nossas sessões estão cheias; nubla, tira do alvo fácil o olhar da tela, através da desadequação formal do foco, através das emendas das sequências que não permitem em momento algum linhas desenhadas definindo cada trecho, o que acaba por provocar a necessidade de imersão maior, de atenção redobrada, de entendimento particular a cada um sobre o que se está processando.

Não fosse obra revelada em resenha como originada de (ou como uma que homenageia a) “Angústia”, de Graciliano Ramos (escrita de forte pendor existencialista, que remete a alguns momentos da literatura russa, onde o homem é jogado ao rés da similaridade aos da outras espécies animais, punidas pelo fato de serem seres vivos, basicamente, e estarem “jogados” naturalmente à sorte), os questionamentos interiores, as autocobranças, os porquês do personagem principal, por si só, pelas opções tomadas pelo diretor, já seriam suficientes para incomodar, para provocar, para exigir: e são bem-vindos os filmes que fazem isso (que tentam, já que esse tenta, mesmo sem ser a pérola das pérolas, tenta), indo, também e fortemente, aos atos técnicos para tal. (FOTO 5)


Missi, de Lays Lins Calisto (7m15s)

Se era para completar o susto positivo da noite de abertura aqui da “Mostra Sururu”, quando já havíamos passado por filmes de absoluto rigor formalista nas imagens, de raridade na desconstrução de linearidades, da montagem vigendo, deparamos, de repente, com essa peça rara que é Missi, que tem tudo o que foi citado aí acima como o que vinha surpreendendo, mas mais: com o aditamento de capacidade poética raríssima, alcançada, tanto na utilização (obtenção) de cores e luzes belas arrancadas dos locais de trânsito e da natureza, como no contar das coisas da mulher de um pescador, que se vê sem sua companhia e o conta, e se conta, e ás suas vidas e modos de viver; com o aditamento de noção etnográfica rara na coleta e ajuntamento de pessoas que vivem num rincão do mundo (rincão geográfico – extremamente belo – e como representação de isolamento, de ser à parte nos desejos e modos de ser), transformando tudo num tipo de documentário que conta muito mais do que docs de dados concretos conseguiriam através de cavações; com uma construção que se vale demais do ritmo de vida da localidade onde foi filmado, conseguindo trazer para a tela a sensação de que foi pensado como apêndice realista no ritmo, como extensão de um modo de vida que por si só já seria suficiente para encantar incautos “estrangeiros”.

E,como se fosse a natureza, as coisas dela, o mar, o céu, a lua ou o sol, ditando a velocidade e o modo das sequências, Lays Lins Calisto e sua equipe se “armaram” de lentes que observaram tudo como se um ser local observando cada recanto, depurando cada cor, apertando ou expandindo o olhar diante de cada luz diversa uma da outra (e tome observações através de uma viela que leva o olhar ao mar; e se fique com composições de cor tão raras que se as notamos frutos de manipulação pós obtenção pela captação; e que se veja detalhes dos trabalhos, das coisas do dia, das pedras ou da areia...), criando planos absolutamente rigorosos, mas sem a frieza que por vezes essa elaboração resulta (a tela é preenchida o tempo todo por certezas visuais, mas carregadas de sentimentos, seja lá como isso possa ser obtido).

O filme revela um mundo de teor/matiz visual-onírico, enquanto é bastante pé no chão (e poético, ao mesmo tempo) quando permite à mulher contar – na realidade, quando faz desse seu contar uma outra linha de condução do trabalho, que é justa e necessária para que se tenha ali um filme, para além do que já seria belo se “só” ostentação de local. Filme que fica fortemente na retina, enquanto sussurra à compreensão: sem querer ser exagerado nisso de dizer sobre retina marcada e sussurros, mas é exatamente essa a sensação que fica, que marca, que é entregue: e melhor, ao notarmos que foi pensada para tal, não chutada, ou arriscada sem razão real. (FOTO 6)


Hoje Não, de Wagner Sampaio (15m)

Parecendo que iria ser algo e descambando para outra coisa bem mais alentadora, onde o destino final da história e das situações salvam o que parecia, a princípio, um fiasco repleto de sensações juvenis (juvenis num sentido de pouca maturidade diante do que é o sofrimento e de como representá-lo, resultando em excessos causados por trejeitos e vícios de pouca monta na carga dramática pretendida), de caras, bocas e reações de um dos personagens, num contraste ao tom gozador, sarcástico e propositalmente violento de fachada.

Dá até para dizer que existe um certo modismo entre uma camada de curta-metragistas, onde se destina as situações para momentos onde um tom meio “tarantiano” de sagacidade e brincadeira diante da violência tomam a guia da jornada - na realidade, indo um tanto ,mais às especulações, notar que parte desse modelo de filmes se vale bastante do sangue servindo como textura ou “adensador non-sense” do modo piada e isso (mesmo para o Tarantino) tem sua origem em algo dos mangás ou de de produções de cinema oriental (mais recentemente, também derivados das mesmas origens, Takashi Miike ou Takeshi Kitano seriam bom exemplos). Alguns se valem mais de uma certa completude conceitual para não permitir fissuras entre as partes de seus trabalhos e resultam um todo mais “comprável”.

Wagner Sampaio finge estar pensando a sério no sofrimento inicial de um de seus protagonistas – deixando pulgas atrás de orelhas, e prevenções ligadas -, o que distancia um pouco a atenção. Mas quando dá a guinada na direção do que realmente pretendia, preenchendo a tela de visões falsamente violentas (excessivas, sagazes) e autopiadas sobre isso (proferidas pelo outro personagem), cumpre a missão almejada, e deixa de brinde um filme que tem seu valor: separadamente, pelos aspectos técnicos ou estéticos não chama a atenção; mas nesse todo pretendido após a “enganação”, o fazer graça dele vale a pena. (FOTO 7)


Menina, de Maysa Reis e Amanda Duarte (9m43s)

Outro filme da Mostra que revela uma atenção bastante rara e de exigente determinação para ser cumprida na direção da obtenção de imagens plenas de razões, e frutos de rigor máximo no trato de suas captações. Nesse, há mais movimentação da câmera, há mais variações nos ângulos que resultam no destrinchamento das situações, mais tentativas (o que não significa que seja melhor do que as situações criadas por câmeras fixas, que acabam exigindo mais rigor, também, da decupagem, da montagem), como até a da imagem subjetiva. Chama a atenção desde seu primeiro take nessas tentativas de correção e bom trato com o que será visto projetado em tela.

A história, desta vez, se fixa sobre uma personagem com mais densidade, com mais dramas pessoais, que sente desejos nascidos da observação dos desejos e sensações dos outros: uma faxineira de escola que se excita lendo restos de bilhetes trocados entre alunos, alimentando-se e buscando suas satisfações, mantida em sua invisibilidade de trabalhadora num meio que segrega os do não pensamento. Não é tema novo, e nem poderia causar choques: principalmente porque é tratado com muito carinho e pouca ida ás imagens de caráter mais íntimo. E, tanto quanto é bom nos resultados de cinema e coisas pessoais contadas, parece um tanto distante do que tem sido apresentado até agora aqui por Maceió: trabalhos com mais jeito de pudicos, com histórias que não buscam na sexualidade seus motes (sendo que isso não invalida as suas qualidades, nem condena suas opções nas essências das histórias contadas). Além de ser corajoso, também, por investir na ficção (modelo menos usual entre estreantes), e mais anda naquela que delega a somente uma pessoa a função de carregar tudo nas costas. (FOTO 8)


Segunda Noite

Diários, direção coletiva (7m40s)

Trabalhos nascidos de coletivos podem ser o céu ou o inferno – evidente perceber que quando muitas mãos são metidas na cumbuca, raramente coisas inteiras e de cara reconhecível serão resgatadas. Quando o trabalho revela que foi feito por crianças, ainda, em fase escolar e pertencentes ao mesmo grupo de convívio cotidianamente, normalmente fica fácil subentender que os tons amistosos e de amizade e cúmplice se imporão ao aprendizado. Não deixa de sofrer dessa “leveza” esse Diários.

Mesmo em se entendendo que é realmente um primeiro trabalho de quem nunca antes – por muitas vezes – nem pensara em ter o cinema como um dos objetivos de vida, e que o filme é o trabalho de conclusão de um aprendizado que caiu de paraquedas em suas vidas, o tom de brincadeira entra amigos contamina por todo o tempo: e brinca-se com o movimento de claquete sem que ela exista pra valer; e trabalha-se com programas caseiros que dividem a tela em duas partes, para ostentarem a mesma pessoa tomada por duas câmeras distintas; e vai-se ao sonhos de cada uma sendo relatados como modificados pela oportunidade de trabalharem nessa nova arte em suas vidas. Mas, sem querer que essa sensação novidadeira em suas vidas seja alvo somente de observações “sabidas” por quem se aventura a escrever sobre, vale lembrar que o bom humor natural em suas relações rendeu também boas falas, boas soluções de cenas; rendeu, ainda, na coisa das duas câmeras, em alguns instantes, uma brincadeira com o metacinema, onde o aparato é revelado; e a possibilidade da contaminação que resulte ao menos em um ou dois querendo mesmo continuar na jornada, como meta de vida. (FOTO 9)


Rua das Árvores, de Alice Jardim (20m)

O “chato” de conversar com amigos e outras pessoas antes de escrever sobre o filme visto é que podemos ser “contaminados” em nossas sensações, em nossas futuras observações: podemos desvirtuar certezas que pareceriam inabaláveis: normalmente fujo dessa possibilidade como o diabo da cruz. Hoje pela manhã (domingo), um amigo, durante o café puxou assunto sobre alguns filmes vistos na noite anterior e expôs uma opinião que é realmente para ser levada a sério, que alerta para outras questões de filmes vistos aqui em Alagoas: falava da percepção dele sobre uma certa necessidade/obrigatoriedade intuída por ele nos docs que temos visto, em fugir do efeito talking heads (quando se constrói documentários com muitas falas e explanações oradas, tendo como alvo, principalmente, a filmagem dos depoentes), mesmo concordando na excelência das imagens filmadas e planejadas como os elementos que mais têm saltado às primeiras percepções.

Aí chega a vez de escrever sobre mais um belo filme daqui que privilegia o rigor nas captações, com excelências obtidas por tomadas através de câmera fixa, com forte detalhamento de ambientes amplos em espaço aberto (principalmente no final, quando a rua é devassada, e quando as imagens em movimento tomam o lugar das paradas que prevaleciam até então), mais fortes ainda na percepção das fotos, dos trechos da casa em ruína, de teias de aranhas, na brincadeira com fotos inertes ou sendo tomadas por líquidos que transformavam suas texturas e imprimiam movimento “criado”, como se estivesse sendo feito um escarafunchar ambiental que é de resto de memórias: vale lembrar, que nesse rigor imprimido, o único instante em que há o movimento mais perceptível da câmera é no último take, a partir de um breve giro, quando ela capta de baixo pra cima a copas de umas árvores (na rua das árvores, afinal), remetendo inclusive a lago que lembra os últimos filmes de Terrence Malick.

Bem, voltando à observação do amigo do café: e porque seria necessário pelo tempo todo o depoimento da senhora que morou na casa e na rua retratadas – mesmo tendo em suas falas alguns momentos de muita beleza e singeleza? E sim, pensando na questão – especificamente aqui -, me parece mesmo um ato a mais, um trecho que poderia ser mais enxuto, principalmente porque a beleza das captações e o feito com elas na edição já contariam por si só quase tudo que precisaríamos “ouvir”. Continua belo e importante na minha memória, mas realmente poderia ser mais corajoso se prescindisse de boa parte do narrado oralmente. (FOTO 10)


Jorge Cooper, de Victor Guerra (20m)

Figura de forte marca em Alagoas (onde nasceu, e para onde voltava somente para tomar banho de mar, já que, pelo elucidado no documentário, detestava o “atraso” e a religiosidade de sua terra), que rendeu reconhecimento também no Rio de Janeiro (local onde sentia livre pela grandiosidade, mas quase mendigo, tendo de trabalhar loucamente para poder sobreviver), Jorge Cooper ganha nesse curta-metragem de Victor Guerra a oportunidade de ser reconhecido de maneira mais ampla por camadas maiores, por “distâncias mais distantes”, por quem não o imaginava ter existido ou só o conhecia por trechos do que escrevera (ele, de escrita tão particular, tanto quanto arriscada na forma). Entendo-se o trabalho de Victor Guerra como um que tenta contar mais da vida do seu alvo, isso da meta informativa que docs precisam carregar como um de seus motivos de ser, a missão foi plenamente cumprida, pois estão lá desde situações comuns arranjadas em arquivo (como as belas imagens de uma entrevista com ele, por exemplo), às imagens de seus locais em vida, passando por um bom amontoado de situações detalhadoras nascidas dos comuns depoimentos de entrevistados especialmente para tal.

Mas soa estranho, um tanto artificial, o fato de na sua construção existir uma tendência que tente fazê-lo similar aos mais radicais dos filmes experimentais (com muitas fusões, imagens sobrepostas, o antigo em cores e o recente tomado em PB...), optando pela descontinuidade, pela alinearidade forçada na narrativa, ao mesmo tempo que, por outro lado, sem a existência de fatos concretos, dos dados, das falas, passa a impressão de que não sobreviveria na memória. Mais especificamente: parece pelo tempo todo que há um embate em representar o Cooper do inconformismo na maneira da edição, enquanto a lógica dos dados teima em queimar esse processo, pela necessidade de criar a marca da figura real, da que penava, e não “somente” a que contestava. Longe de ser um trabalho ruim, resta estranho pela dualidade de procedimentos pilares tentados. (FOTO 11)


Bendita, de Antonio Castro (4m45s)

Bendita é daqueles curtas enganadores: bem-vindamente enganadores. Quando se o acompanha durante seu momento de vida em tela, soam estranhas (quase parecendo superficiais de cartilha que tenta imitar modismos; pela “brincadeira de serem duas irmãs, uma branca e outra negra; por terem todo o trejeito de manequins em desfile...) as maneiras de atuações impostas às duas protagonistas, parece que estamos diante de algo que abdica totalmente da lógica ou qualquer narrativa como modo de marcar pela esquisitice, muito acima do que desejáveis informações mínimas. Mesmo com sensações não tão capturadas no instante, pensar nele pela excelência visual, pelo grande trabalho na direção de arte, impede que o afastemos para algum recanto antropófago da memória, de onde jamais sairia novamente.

Enganador, porque quando se acorda no dia seguinte e se volta a ele para tenta escrever algo sobre, percebe-se que talvez seja nessas belas sessões aqui do Sururu o filme que mais se resolve como curta-metragem mesmo. Percebe-se que a opção pelos pulos/saltos (do sertão para o ônibus, do ônibus para o mar) representam a síntese que o modelo deveria quase sempre buscar na economia de tempo para contarem-se as histórias: e se isso não é feito de modo impecável aqui (algo facilmente compreensível), o é com coragem, sem o medo do erro que leva ao alongamento cada vez mais constante e desnecessário dos trabalhos no formato, e que acomoda o pensar em esoluções – e, novamente quando o trazemos para as camadas superficiais da rememoração para trabalhar sobre ele, nota-se que é bom, que é bonito, que é bem pensado, condensado na medida exata, e que ainda trata tudo com humor sutil e leve, mesmo em cima de assuntos de quebras e fugas, de rompimentos, de (literalmente) iconoclastias. (FOTO 12)


Flamor, de Leandro Alves (14m16s)

Quando Leandro Alves tomou sua vez de para falar um pouco de seu curta, Flamor, antes da exibição – essas situações diante das quais sempre busco algum escape, na tentativa de não me sentir informado fora do que o filme me contará, me passará, já que a arte necessitada da informação externa prescinde das possibilidades belas das compreensões individuais, ou não consegue se contar por si só, sem amparos paternalistas e protetores -, alertou meio em tom desafiador, num corte de si mesmo e do que desejava falar mais, sobre a capacidade das pessoas em compreender o que o curta contava em sua essência principal. Situação que incomoda a quem necessita pensar sobre o resultado: porque o distancia do cerne principal que é o todo visto, porque acaba gerando uma certa desconfiança, porque, principalmente, vem com carga de aviso a especificidade que deveria ser dispensado.

Visto o filme em tela, o que resulta – para além da compreensão sobre o desafio proposto pelo diretor – é um trabalho dos mais comuns vistos aqui em Maceió, que não é ruim, mas o que mais trafega por vias comuns de condução técnica: ampara-se em atuações com tom mais televisivo; constrói atemporalidades comuns que se cruzam num ir e vir para, no fundo, retratar os desejos que nascem numa menina vinda do interior para trabalhar na sedutora e provocadora cidade grande; quando aposta na estética o faz com iluminação excessiva sobre batom vermelho e boca feminina, ou numa banheira em que pouco se extrai pra valer, além de roçar texturas visuais, além de triscar sensações carnais, contentando-se com “somente” isso... Algum dia diretores de cinema – entre os jovens e iniciantes como é o caso de Leandro isso é mais compreensível – entenderão que falar demais sobre suas crias as carregam de expectativas desnecessárias, impondo-lhes peso desnecessário nos ombros.
,br /> P.S.: “nos cheiros estão os segredos”. (FOTO 13)


Criatura, de Nivaldo Vasconcelos (6m32s)

Estranho: juro que antes da sessão ainda ouvi – enquanto tentava abstrair – o diretor Nivaldo Vasconcelos dizer que Criatura se tratava de uma animação... Aí, quando inicia, vem a primeira sensação de que estava diante de um equívoco de projeção, pois a tela é preenchida pelo corpo de uma mulher que parecia se contorcer em busca de algum tipo de desvencilhamento. Logo em seguida, já certo de que era mesmo o filme que aguardava, prestar atenção e notar que foi o primeiro, daqui da Mostra, que dedica atenção plena á atuação de alguém. E mesmo tendo como fundo lateral do plano um mar que vai e vem quase que capturando a figura que se transforma em outra, numa metamorfose que dispensou totalmente os “truques” técnicos para ater-se e fazer-se pela qualidade e potência da expressão corporal de Carolina Brandão (provavelmente uma bailarina), notar que a aposta do diretor foi na atuação, na qualidade de uma figura representando diversos outros quinhões possíveis de serem tentados, soou como mais um alento favorável á gama do que tem sido vista.

E mesmo com o belo tratamento dado às lentes que captam quase tudo sob luz natural – o iniciozinho, talvez não -, que deriva da estirada para a iluminação mais “compreensível”, mesmo com a sutil e certeira observação empreendida pelas lentes que “constroem” esse plano com forma maior na água (lembrando que um tanto antes há todo um processo de libertação gestualizado em outro espaço), toda a força está mesmo centrada na atuação de Carolina: que não nega fogo. e quebrando um tanto de certezas sobre nem sempre filmes necessitarem de boas atuações para serem bons. Raro ver um curta que aposta na atuação e se dá tão bem assim: mesmo que se o queira remetido ao designador mais comum de “videodança”.

Vale também pensar – já que a arte oferece essas possibilidades – que a partir de um primeiro take sobre o umbigo/ventre dela signifique que a criatura, a possível metamorfose, seja a metáfora do parir, da transformação e força que isso exige do corpo feminino; mais ainda quando se tem a água (elemento natural do feto que se desenvolve) como a companheira, que atrai um ser e evidentemente repulsa/expulsa o outro que se transforma. (FOTO 14)


Miss, de Alice Jardim e Lis Paim (2m30s)

Miss é tão direto quanto explicativo no que apresenta como modos de informações: um passeio. Mesmo também sendo amparado em seu curto espaço por narrativas orais – mas, aqui, não sob forma de depoimentos formais, indo à inclusão das falas como que entremeando-as com a sucessão de imagens resgatadas de algo como uma mesa -, o que mais fixa é o fato de contar a história de alguém, história que resgata o passado, principalmente pelo olhar da lente e de adereços. Na realidade, todo esse engendramento imagético – pleno de cores e formas – talvez não se sustentasse se não fosse possível capturar algumas informações de entre os dados narrados: no caso, aqui, ao invés desse narrado cumprir simplesmente papel (até inútil) de informação em paralelo ao que as lentes já contam, há na escolha de trechos soltos a intenção de que se faça complemento, meio anárquico, e muito a ver com a proposta de oferecimento visual.

Casam bem as duas opções de narrativa, e não somente andam juntas como se fossem vagabundos tentando amparar um ao outro no caso de pernas bambeando em algum instante da jornada. Há um sentido de noção de necessidades: mesmo quando se nota que é filme de apuro estético, de organização na montagem, de cuidado com os detalhes visuais, principalmente. E atenção ao hino das misses, coisa do final dos 195º, início dos 1960, como um complemento interessante da pessoa e do tempo retratado. (FOTO 15)


Matador, de Wladymir Lima (13m)

Como em Palíndromo (2001), curta de Philippe Barcinski, um dos truques repetidos por algumas vezes por Wlladimir Lima em, Matador, consiste na sacadinha de breves retrocessos (no caso do filme de 2001 todo ele foi construído assim) da filmagem,m criando a sensação de que se nada para trás (ou algo similar), para entregar ao público breves instantes onde a história de um matador e sua vítima se tentam fazer fingidamente mais compreensíveis. Truque, porque esse ato mecânico imprimido, na realidade serve mesmo como ostentação, como exemplo de esperteza nas coisas da feituras de cinema, sem realmente importar para a elucidação das situações ou de trechos dela, que seja.

O maior problema nesse trabalho está em que não se contenta por ter uma só sacadinha dentro dele, mas sim por se valer de diversos instantes em que ostentações desnecessárias corrompem uma história que até poderia ser boa, que até é bem filmada... Mas, há as insistências em exercício que não significam realmente ousadia em benefício da fluidez dentro do formato: e tome PB que parece um tanto artificial a mais (o que se comprova num dado momento de cor inserido); e tome mulher tomando banho de modo sensualmente camuflado; e mais ainda situações de tensão que se valem mais da sensação de perigo pelo espectador do que pelas geradas por lentes ou atuações... Se houvesse um filme ali que passasse a impressão de que as tentativas somente não deram muito certo, ok. Mas, não foi o caso. (FOTO 16)


A Lapinha de Dudé, de Walcler Mendes Junior (30m)

Até lindo poder ver nos dias atuais um filme que se valha fortemente de pesquisa para depois ser pensado filmado e editado. Bem raro isso. E é assim que nasce e vive em tela A Lapinha de Dudé, que traz para a tela Maria José Ferreira, dona Dudé, uma mantedora de tradições típicas de Alagoas, principalmente as referentes ao período natalino. E se é bonito demais ver e constatar que ainda em algum lugar do país alguns mantém tradições que são de ancestralidade bem mais sincera do que as professadas por globalização, se é mais bonito ainda notar a senhora com carinha feliz podendo contar (de modo assombros, com memória inacreditável) relatando para as lentes passo-a-passo os momentos que levam ao presépio (à lapinha), principalmente na entoação de músicas cantos tipicamente locais, é excessivo perceber que poderia ter havido alguns cortes para que a atenção ficasse por todo o tempo por encantamento.

Se são singelos os instante em que o som intrometido na edição sonorizam sua voz, ou se é sensível a primeira ou segunda vez em que letras das músicas percorrem uma tela trançada na lateral, mais uma vez o excesso, o não saber cessar cansa. Poderia ser belíssimo demais para ser justo à importância da pesquisa, mas perde um tanto do interesse com o passar do tempo, justamente por questões de opções técnicas adotadas. (FOTO 17)


Terceira Noite

Maré Viva, de Alice Jardim e Lis Paim (20m)

A diretora Alice Jardim, profícua e constantemente notada entre as produções vistas aqui na “Mostra Sururu” – desde a função de diretora, ao envolvimento em outras por outros filmes de amigos -, consegue quebrar uma certa marca de reconhecimento estabelecida nos trabalhos anteriores, dando guinada rara no modo de contar a nova história, e adotando procedimentos que a retiraram da “segurança” das câmeras fixas para a ousadia do movimento máximo das lentes, que se movem, mergulham, caminham e observam sombras, constatando uma Maceió que é da natureza mas também reclama por mais beleza e calma.

Com o passar dos dias na Mostra notei a existência de filmes que bradam contra degradação, contra a verticalização, pela preservação da cidade – como se um novo ciclo de trabalhos semelhantes aos de Recife ou de Fortaleza estivesse ganhando força. E Maré Viva inventa mais ainda nessas reclamações, vindo do mar (“figura” tão onipresente e necessária por aqui) para ganhar, sem corpo real, mas com sons e movimentações angustiadas, vida num curta de tremenda imaginação, de apuro técnico que não abandona a estética como a companheira mais justa para tal. E se não é totalmente seguro nessas tentativas, revela-se ousado e inventivo, o suficiente para ganhar a atenção e a admiração: abandonar - mais do que “segurança” da câmera estabelecida e a possibilidade de editar imagens captadas com cálculo total de luz e ambiente - a possibilidade de fazer-se compreendido por história narrada por palavra e atos reconhecíveis de modo mais comum é risco que poucos tentam, mesmo no universo curtitas que clama por isso. Alice o fez: e isso é bom e generoso por parte dela, bem-vindo para quem observa. (FOTO 18)


Salão dos Artistas, direção coletiva (12m45s)

Pensar nesse Salão de Artistas como um trabalho feito por direção coletiva chega a ser um tanto inacreditável, pela linearidade conseguida nas composições que determinam sua situação e seus caminhos, pelas certeza empreendidas nos trajetos que ligam as “funções” de Seu Cecílio, um barbeiro que é também afinador autodidata de instrumentos musicais e que abriga (abrigou) artistas em seu salão desde há muito. O curta é muito correto nas imagens, que buscam detalhes, minúcias, ações e contemplações, para num outro instante serem construídas pela amplidão de espaços que, já aí, abrigarão quem discute sobre os temas propostos e executam músicas.

Quando se pensa em coletivos criando filmes (mais anda daqueles formados por gente iniciante na arte), a ideia de que os espaços e as situações sofrerão em sua observação a favor da necessidade de conclusões que consigam satisfazer todos os envolvidos é das coisas que mais assusta: e que normalmente que mais se confirmam. Mas como, aparentemente, um bichinho do bom trato das imagens é o que mais prolifera por aqui em Maceió, não foi desta vez que esse quinhão se viu imunizado dos seus “malefícios”: e temos qualidade extrema na iluminação para render imagens bastante limpas (não assépticas, já que cheias de vida); sensação total de domínio vasto do quadro; coerência no saber de que se tratava ali de trabalho em interiores, o que sempre possibilita o domínio do ambiente (a criação do que se quer captado pelas lentes), e por isso mesmo oferece o risco maior no caso do equívoco; além do cuidado extremado com a captação do som. Enfim, portanto, um curta comum sim, mas correto no que se propôs. (FOTO 19)


Mwvany, de Nivaldo Vasconcelos (18m40s) (9m43s)

Nivaldo Vasconcelos, de outros trabalhos por aqui, surge no último dia com um “petardo” que empresta a certeza de que há ali em seu trabalho raridade total na percepção de que o cinema deve e pode ser um campo onde fronteiras determinadas mais por nomenclaturas (documentário, ficção, animação, experimentalismo - ???) merecem mesmo ser quebradas, ultrapassadas, já que na realidade o que é mesmo é uma arte exigente, complexa, confeccionada por diversos confeccionadores, com o objetivo principal de ver-se basicamente representada em tela. “Petardo” amoroso, melhor dizendo, caberia muito mais a esse belo e completo Mwvany, onde todas as práticas técnicas são tentadas e obtidas: quando há a criação de diversos quadros justamente pela opção da angulação pensada para as câmeras, e que resultam momentos de divisão ambiental dentro da casa, quando se notam setores de importância num mesmo take, criação de quadros que são de ar aberto, onde panos africanos (capulanas, na realidade, que enrolados no corpo se tornam vestes) emolduram e adornam a ambiência externa de Maceió, ou nas tomadas que isolam mãe e filha do todo, para restar em tela a sensação de complementação de uma com e para a outra; na imaginação dos cortes e emendadas, que aproveitam as imagens captadas, para dinamizá-las mais (e, consequentemente, ao ritmo), com África, com mar, com retratos de lá, detalhes visuais de cá (e volta-se a aproveitar os panos coloridos para composições que até servem de divisão); num desenho de som correto, que busca conversas, ou “ruídos da vida”, ajuntando um tantinho de elaborações nascidas de sons referentes a percussão, e mais algo de música.

“Petardo” amoroso, que é mais mesmo isso quando se nota uma relação de mãe e filha nutrida por necessidade urgente de deixar viva na memória (ou na anima) as sensações de um lugar que ficou já distante, e que fica potencializado no trabalho por observação plácida, que deixa transparecer através de uma vinda à tona de forma muito orgânica (sem quebras, bastante dentro do ritmo) a questão da ligação entre o afeto e essa memória: tudo isso ganhando mais viço ainda por não se saber se em algum momento (aparentemente, sim) há algo como atuação sendo engendrada por lá, e se sim, com a certeza de que ali estaria um modo de marca muito menos propensa ao acaso (que pode “sujar”, mesmo que fruto de verdade pura), muito mais de cinema, e mais justa.

P.S.: e é um filme de belos planos, de boa noção do quanto são necessários quando bem concretizados aos montes, bastando deixar como “exemplo” o do momento com a brincadeira de pular cordas. (FOTO 20)


O Vulto, de Wladymir Lima (20m)

Em Mostras ou Festivais onde produções locais são as privilegiadas, e onde se nota que muitas delas brotaram de primeiros trabalhos, ou de galera que ainda está iniciando mais a sério na arte, muito fácil perceber que a predileção está sempre mais voltada à confecção de documentários do que ficções (e volta-se ao tema da divisão de filmes por categorias...): docs, só como um exemplo, já livram os realizadores de terem de pensar na questão das atuações, que em locais incipientes (ou onde não é tão fácil encontrar atores de cinema) normalmente constitui drama razoável. Aqui na Sururu, de forma natural, muito menos trabalhos ficcionais foram constatados, e chegando já quase nos últimos filmes vistos, pareceria óbvio que um pudesse vir a surpreender.

Mas, como a Terra ainda continua girando, eis que surge em tela esse grande – mas grande mesmo - O Vulto, com noção total de como deve ser concretizado um trabalho do gênero. Mas, de modo mais surpreendente ainda, de um diretor, Wladymri Lima, que havia feito uma das outras poucas ficções do evento, Matador, repleto de equívocos, justamente na maneira de pensar em como dinamizar uma história. E, indo-se a esse O Vulto, se vai também ao mais correto e bem-vindo modo de construção de obra que necessita a tensão máxima por quase todo o tempo: quando grandes planos-sequências são obtidos num corredor estreito, onde podemos sentir a angústia e medos respirados por uma garota diante de uma tragédia que se anuncia (tragédia que tem vieses diversos de percepção, que pode estar nas condições violentas de um local, ou na sensação do misterioso, do que remete ao que é do além, tentando agir de algum forma), que ganham sensação de mais medo ainda na boa e esperta utilização do som que surge forte após se anunciar, em desfechos da perseguição pela câmera, com cortes abruptos; que utiliza simples “truques” de aparecer ou sumir por trás de porta ou janela, de fuga e esconder, de tensão anteposta à brincadeira entre irmãos, como que preparação para um confronto anunciado por baixo de uma balaclava de motoqueiro; com atuações incrivelmente boas, contidas e concretas, fato raro de ser obtido no universo curtista que prescinde dos profissionais de atuação (sendo que sou dos que até creem num bom filme resultando assim sem auxílio da boa atuação). Pode-se creditar tudo isso a mão muito firme e cabeça muito ciente do que se desejou obtido, de diretor zeloso e sabedor da arte.

Surpreendente, diria mais ainda que um dos melhores que vi ultimamente, e com noção muito rara de ritmo. Afora que é mais um trabalho a falar da outra Maceió: da que não é dos turistas e das belas praias: uma outra preocupação local que foi assomando á percepção durante o avanço do evento. (FOTO 21)


Ontem à Noite, de Henrique Oliveira (20m)

Sendo bem básico com essa outra ficção, dirigida por Henrique Oliveira, Ontem à Noite. Se a ideia principal era a de revelar sobre um homem que está bem longe de ser o melhor exemplo, que seria um calhorda covarde e traidor – que é para onde parte das questões do filme conduzem -, até daria para acreditar na sua boa vontade, na intenção que saiu equivocada porque equivocar faz parte do jogo... Se dá pata acreditar numa fotografia que começa espetacular, com total consciência do espaço e boas soluções sob luzes artificiais tênues, não dá para acreditar no que ocorre com ela já indo para o final, na rua, na violência, quando evidentemente foi perdido o tempo das situações filmadas, o foco, e planos foram para o espaço, e mesmo assim não se tentou uma outra vez para fazer jus ao primeiro trecho.

E já com a desconfiança ligada no alerta máximo, recordar que a situação pilar, na realidade, estava mesmo direcionada às resoluções mais clichês possíveis (garotos burgueses violentos, bombadinhos, agindo com sua violência e cretinice comuns), para fazer de um fato sério espetáculo estranho, que pouco acrescenta como cinema mesmo, e nem cumpre função crível como denúncia. Não comprei mesmo. (FOTO 22)


Sol Encarnado, de Pedro da Rocha (17m)

E fechando a conta crítica, mais uma ficção, só que desta vez bastante comum, bastante voltada a ser parecida com produções que remetem a passados nem tão distantes, tentando uma reprodução que evidencie o forte sentido do deslocamento, da busca por locais onde o viver seja menos sofrido, o que leva a diversos tipos de estranhezas, mas com buscas construtivas de maquinação fácil e enganadora. O deslocamento humano em busca de possibilidades melhores de vida é canto triste fartamente buscado como opção pelas artes, especialmente as narrativas: num passado pela literatura, numa contemporaneidade já nem tão nova assim pelo cinema Clássicos e mais clássicos surgiram e criaram marca, mas, numa proporção de alguma elevação a algum “n” qualquer, fiascos e obras que jamais serão relembradas.

O deslocamento do campo para as urbes tem sido a opção mais da arte cinema e, mais especificamente, quando a questão está num curta-metragem tratando disso, ou algum longa de orçamento bem contido, a ideia vigente garantia visual remete a esse passado mais recente citado acima, por questão basicamente de que na reconstituição sempre tentada, elementos de cenas, roupas e até habitações dispensam menos buscas e menos gastos. E aí nos é entregue um curta que tenta primar demais pela organização ambiental, o que, no caso, resultou em falsidades visuais, com bar muito arrumadinho, roupas maltratadas de forma estranha, pouco cuidado com captações e iluminação, por exemplo, na crença de que o entorno supriria as funções estéticas. A partir da suposição de que uma produção pense nesses subterfúgios como os elementos que segurarão e garantirão a qualidade, fica fácil entender porque o “resto” todo não conseguiu de modo algum atingir algo a mais, algo que buscasse ser um tanto a mais do que bonitinho. (FOTO 23)