Fonte: [+] [-]

Viva a Boca do Lixo - "Liliam, a Suja"
























Viva a Boca do Lixo


Liliam, a Suja                                                  (publicado: 08/2013)

Por Gabriel Carneiro

Serial killers sempre foram muito populares, na vida e nos filmes. Vide a exploração de certas figuras pela mídia (no Brasil, nomes como Chico Picadinho, Maníaco do Parque, entre outros, fizeram a festa nas manchetes de jornais popularescos). Não à toa, o cinema se beneficiou desses contos de horror da vida real – em que o sobrenatural só dá o ar da graça para apimentar as coisas -, no mundo inteiro e também no Brasil, ainda que poucos filmes tupiniquins do gênero sejam conhecidos. A Boca, como todo bom celeiro de produção “exploitation”, foi, possivelmente, quem mais produziu o subgênero. Filmes como O Estripador de Mulheres (1977), de Juan Bajon, Solo de Violino (primeiro episódio de A Noite das Taras 2, 1982), de Ody Fraga, O Matador Sexual (1979), de Tony Vieira, e mesmo O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, exploraram bem a condição.

Subgênero, em geral, dominado por protagonistas homens, os filmes de serial-killers trazem a lógica dos casos reais: similaridades entre as pessoas assinadas (físico, profissão etc), e similaridades no processo de assassinato. É dentro desse espectro que Rajá de Aragão e Antonio Meliande, também diretor do filme, criam a história de uma mulher que, atordoada pela maneira como é explorada pelo sexo masculino, resolve vingar-se dele. Após ir para a cama com um velho rico e solitário, mata-o de maneiras cruéis e sanguinárias, assinando em sangue “Liliam, a suja” e deixando uma rosa.

É notável como Meliande constrói a personalidade de Liliam, interpretada por Lia Furlin, na condução do enredo: linda, de corpo escultural, trabalha como secretária, tendo como uma das funções satisfazer sexualmente o patrão, um tanto a contra gosto, tendo de ouvir ainda das colegas várias agressões verbais. Tida como objeto, Liliam se espelha na mãe, uma velha prostrada na cadeira de rodas, em decorrência da maneira como o marido a tratava. O jogo cênico entre a mãe, que só quer o bem da filha, insistindo para que se divirta, e Liliam, que se sujeita a práticas machistas, acelera a neurose da protagonista. Ela perde a sanidade. Cansada do chefe, vinga-se dele em outros velhos ricos. Ela os seduz, leva-os para a cama, dá-lhes prazer e, enfim, regozija-se, acabando-lhes com a vida. O gozo na morte é exacerbado pela interpretação de Furlin, que arreganha os olhos, perdida entre a loucura e o prazer.

Há de se destacar duas coisas nesse filme de 1981. A primeira delas é a crítica ao machismo e à ideia de que o homem deve ser servido pelas mulheres. A segunda é o não se furtar ao moralismo da repressão sexual por parte da protagonista. Em ambos os casos, parece muito simbólico que Liliam faça sexo antes de matar sua vítima – para além das necessidades mercadológicas da época. Liliam sabe diferenciar a exploração sexual do ato sexual em si, ou seja, não é travada ou reprimida porque tiram proveito dela. Ela sabe que sexo é prazer e não teme se aproveitar disso também. Outra coisa: é no momento em que o homem se vê superior (afinal, conseguiu comer a gostosa), que ela, em um ato extremamente sádico, tira-lhes a vida.

Um dos principais nomes da fotografia no Brasil, assinando mais de 100 filmes, de gente como Fauzi Mansur e Walter Hugo Khouri, Antonio Meliande começou a dirigir em 1977, com Escola Penal de Meninas Violentadas. Dirigiu, ao todo, quase 30 filmes, quase metade explícitos. A experiência em fotografia – tanto no enquadramento, quanto na luz – é evidente em Liliam, a Suja. Meliande brinca com cores e jogo de luz, ora banhando de vermelho sua protagonista entre a fúria e o deleite, ora apostando nos reflexos do neon. Artifícios puramente atmosféricos, assim como o uso dos closes, nas vítimas e em Liliam, em cenas gore.

Poderia, facilmente, ser um dos grandes filmes da Boca (quiçá do cinema brasileiro), se não explorassem tanto as figuras de três bandidos de quinta, que compõem uma trama paralela e só parecem justificar o desenrolar da trama, um tanto estapafúrdia e largada ao acaso. Não tira os méritos do longa, porém, que tem uma força impressionante.


FICHA TÉCNICA:

Direção: Antonio Meliande
Continuidade: Izabel do Amaral
Diretor de Fotografia: Antonio Meliande
Câmera: Antonio Meliande
Montagem e Edição: Eder Mazzini
Assistente de Câmera: Odair Guarani
Fotografia de Cena: José do Amaral
Roteiro: Antonio Meliande, Aragão de Rajá Argumento: Aragão de Rajá
Música: Domingos Souza
Produção : A.P. Galante
Produção Executiva: Roberto P. Galante
Assistência de Produção: Michel Cohen
Direção de Produção: Iragildo Mariano
Letreiros: Diogo de Castro
Consultoria de Cor: José Carlos Dimitri

Maquiagem: Jô

Elenco: Lia Furlin, Felipe Levy, Luiz Carlos Braga, Roque Rodrigues, Leonor Lambertini, Felipe Donovan, Jonia Freund, Jussara Morais, José Carlos Lampa, Abel Constâncio, Stela Maitan, Adalberto Ferreira, Argentina Lambertini, David Hungaro, Luiz Newes, Osmar Alves, José do Amaral, Wandi Zakias, Péricles Campos, José Lopes, Rubens Moreno, Lino Sérgio, Beth Cardoso, Célia de Lima.

Ano: 1981

Companhia Produtora: Galante Produções e Serviços Cinematográficos Ltda
Companhia(s) distribuidora(s): Distribuição Ouro Nacional; Art Films S.A.






Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.