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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados - “Jim Jarmusch, ícone do cinema ‘indie’”
























Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


Jim Jarmusch, ícone do cinema indie                                                                                   (publicado: 07/2013)

Por Humberto Pereira da Silva

A onda de filmes “undergrounds” nos anos de 1960 deu visibilidade em sessões alternativas a cineastas como Jonas Mekas, Stan Brakhage e Maya Deren. Os filmes que realizaram não tinham qualquer apelo comercial e se inserem no contexto contracultural que atraiu parte da juventude americana do período. A proposta de cinema com poucos recursos e linguagem vanguardista fez parte de um amplo movimento que incluiu a música pop, com o rock, o “folk”, o “free jazz”, a literatura com os beatniks, as artes plásticas, a fotografia, e outras formas de expressão artística e intervenção cultural. O mundo artístico foi naquele momento um dos veículos canalizadores dos anseios de jovens insatisfeitos com o padrão convencional de vida burguesa.

O movimento que levou à realização de filmes “undergrounds” foi rápido, provocador e rico em experimentações. Por isso, teve impacto em jovens que desejavam fazer cinema na contramão das produções convencionais: e com alcance restrito ao espaço alternativo de exibição. Mas no começo dos anos de 1980, a efervescência contracultural havia passado; vivia-se, então, certo clima de ressaca e a indústria de cinema criava antídotos que minavam os poucos espaços para a sobrevivência de filmes com temática e linguagem ousadas. Não obstante, é justamente nesse momento que desponta a figura de Jim Jarmusch, cuja proposta se afinava temática e esteticamente com o que propunham Mekas, Brakhage e, simultaneamente, era receptiva a um segmento de público mais vasto do que o dos guetos alternativos.

Na década de 1980, os filmes de Jarmusch tornaram-se referência obrigatória para os aficionados pelo cinema “indie” – algo como o modelo por excelência do circuito “cult movie”. Ou seja, ele concebeu uma filmografia de baixo orçamento com linguagem descolada, acento em preocupações filosóficas – mais propriamente, certa interpretação pop do tédio existencial – e foco em personagens à deriva, que não se acomodam onde estão e se deslocam de um lugar para outro sem destino preciso.

Estas são as marcas mais evidentes na obra inicial de Jarmusch, que o levaram à posição de um dos mais cultuados cineastas de sua geração. Seu cinema foi recebido como objeto de culto: portanto, um fetiche cuja aura catalisou a geração dos anos de ressaca contracultural. O auge do culto a Jarmusch se deu no período em que realizou Estranhos no Paraíso (1984), Down by Law (1986), Trem Mistério (1989), Uma Noite Sobre a Terra (1991) e Dead Man (1995).

Estudante de cinema na Tisch School of the Arts em Nova York, ele não termina o curso, mas opta por aproveitar o financiamento da bolsa que dispunha e produz o soturno Permanent Vacation (1980), experimento em sintonia com o clima nova-iorquino da época – agitado pelas intervenções de artistas como Jean-Michel Basquiat – anunciando a concepção de cinema que desenvolverá em sua obra posterior. Assim, seu filme seguinte, Estranhos no Paraíso, rodado com poucos recursos e deslocado do sistema da indústria, se impõe como a mais representativa crônica do modo vida outsider na América. Bem recebido pela crítica, premiado em Cannes e Locarno, Estranhos no Paraíso é a transposição para a tela de romances como “On the Road”, de Jack Kerouac.

Como num romance beat, nessa película as cenas minimalistas se sucedem por inércia, pontuadas pela canção “I Put A Spell On You”, de Screamin´Jay Hawkins, que se repete à exaustão. Na narrativa, de estrutura tripartite, o protagonista é um jovem desempregado que sobrevive no submundo dos jogos de baralho e apostas de cavalo. Ele mora numa espelunca em Nova York e, subitamente, recebe uma prima vinda da Hungria. Com ela o apartamento será dividido por poucos dias, pois ela receberá uma proposta de emprego em Cleveland, onde se estabelecerá na casa da tia deles.

A presença dela o aborrece e a comunicação entre eles é evasiva. Ambos passam boa parte do tempo na frente da televisão e, nos poucos diálogos que travam, tergiversa sobre como ganha a vida enquanto ela revela-se inadaptada aos hábitos típicos da cultura americana. Assim, ela estranha os alimentos – demonstra pouca vontade para reconhecer um pedaço de carne empacotado – e recusa uma peça de roupa com a qual ele a presenteia, a fim de que ela se vestisse como as americanas. A pasmaceira entre ambos é quebrada pela presença de um amigo de jogatinas, que se afeiçoa a ela.

O tempo passa e ela vai embora. Enquanto isso ele e o amigo ganham uma bolada ao trapacearem num jogo de cartas e resolvem fugir para Cleveland num carro emprestado. Lá, com a prima e a tia, novamente uma sequência de situações monótonas. Eles passam horas e horas vendo televisão, jogando cartas, passeando debaixo de fortes nevascas e conversando sobre assuntos desconexos. Entediados na gélida Cleveland resolvem ir para a Flórida, onde esperam encontrar o sol e passear nas praias: ela, que também havia se enfastiado de Cleveland, decide segui-los.

Na Flórida, uma sequência de situações inusitadas coloca-o em um avião para a Hungria, enquanto ela permanece nos EUA. Com esse final, certa ironia sobre os caminhos cruzados dos primos de origem húngara na América; ironia que, evidentemente, esclarece o título do filme. Estranhos no paraíso, eles são observados por uma câmara que se move pouco. Enquadrada quase sempre em plano médio: a lente não se aproxima dos personagens. Por isso, as cenas se esgotam num único plano, que é fechado por meio de “fade out”. Todo o filme é feito de modo a que cada plano seja autônomo, indiferenciado, o sentido reside em si mesmo, mas sem clímax, sem sobressaltos.

Depois do cultuado Estranhos no Paraíso, Jarmusch realiza Down by Law. Nesse longa, entrelaça referências do gênero noir e da literatura de Tennessee Williams, que são incorporadas ao imaginário mítico do sul dos EUA, com sua vegetação retorcida, emersa de pântanos lodosos e perigosos. É nesse cenário que vagam três personagens à margem na América: um gigolô de quinta categoria, um DJ desempregado e um histriônico italiano. Os três vão parar na penitenciária porque estavam no lugar errado, na hora errada. Mas eles empreendem uma fuga improvável e passam a andar em círculos na paisagem sulina. No final, uma bifurcação os separa, para lugar algum.

Assim como em Estranhos no Paraíso, um olhar ácido para o modo de vida americano: mas do ponto de vista temático Down by Law é menos minimalista, monocórdio, ao incorporar pitadas de cinismo e sarcasmo à narrativa. O choque de culturas, por sua vez, é encarnado pelo italiano, cujo inglês precário leva-o frequentemente a recorrer a uma caderneta, para procurar o significado das palavras. O veio cínico e sarcástico de Down by Law é retomada em Trem Mistério, cuja ação novamente tem por cenário o sul, mais precisamente Memphis, no Tennessee, onde todos parecem viver da lembrança de Elvis Presley. O destaque fica para o casal nipônico que empreende uma viagem desde Yokohama para contemplar o lugar onde viveu o rei do rock.

Trem Mistério, contudo, deixa sinais de que Jarmusch repete a fórmula dos filmes anteriores sem os mesmos efeitos. Nesse longa, o sentimento de tédio, os diálogos truncados e as pitadas de cinismo são artificiais: a perscrutação simbólica do cotidiano outsider, que retratara com fino sarcasmo, torna-se caricatural, superficial. Na relação com sua obra anterior, Trem Mistério revela um cineasta tão previsível quanto convencional. Mas ele dá uma guinada e volta a surpreender em seus dois filmes seguintes: Uma Noite Sobre a Terra e Dead Man.

Nessas duas fitas, bem sucedidas nas bilheterias, Jarmusch se distancia do cinema “indie”. De fato, são produções com recursos, devidamente encaixadas no sistema da indústria, com concessões para o segmento do público afeito aos clichês do cinema comercial. Essa guinada, no entanto, não o impede de fazer inovações. Ele passa a trabalhar no meio fio e concretiza filmes que, sensíveis aos humores do sistema, carregam inquietações existenciais, tanto quanto ousam no plano estilístico.

A estrutura de Uma Noite Sobre a Terra – que também está presente em Sobre Cafés e Cigarros (2003), suma de curtas anteriores – é articulada em torno de personagens confinados num espaço fechado: eles falam de assuntos prosaicos, desilusões e experiências pessoais em confronto com a realidade, pouco porosa às diferenças. São cinco narrativas que ocorrem simultaneamente em cinco cidades: Los Ângeles, Nova York, Paris, Roma e Helsinque. As conversas acontecem em um táxi, entre passageiros e o motorista. No tempo do trajeto, o tom da conversa oscila da despretensiosa curiosidade ao patético, sempre com matiz melancólico, niilista, contrabalançado por momentos de humor.

Em Los Angeles, uma caçadora de talentos para o cinema descobre que a taxista que a conduz é perfeita para um papel: mas ela se recusa a trocar de profissão. Em Nova York, um taxista alemão está perdido e é auxiliado por um jovem negro que o leva para o Broklyn. Em Paris, uma garota cega e excêntrica fala sobre sua vida e condição para um taxista disperso. Em Roma, um padre ouve o taxista, que não para de falar sobre sua vida sexual, enquanto passa mal e sofre um ataque cardíaco. Por fim, em Helsinque, diante de um grupo de rapazes embriagados por que um deles perdeu o emprego, o taxista faz relato pessoal de experiência de sofrimento que os deixa calados.

Jarmusch volta a inovar com a realização de Dead Man, um faroeste atípico, ou talvez um antifaroeste, ou um pós-faroeste. Na época do oeste bravio, um contador desajeitado e frágil vai para lá com uma proposta de emprego. Mas quando ele chega seu posto havia sido preenchido, pois a proposta previa que sua chegada um mês antes. Sem trabalho e sem dinheiro para voltar sua situação piora quando ele se vê envolvido no assassinato do filho daquele que seria seu patrão. Com a cabeça posta a prêmio foge e, na fuga, encontra um enigmático índio chamado Nobody. Ele é acolhido e protegido pelo índio, que, devido à igualdade de nomes, acredita que o contador é a reencarnação do poeta William Blake.

O tema de Dead Man é a viagem interior, o processo iniciático que transforma o desajeitado e frágil contador numa outra pessoa. Assim, não se trata de morte natural, mas espiritual, pela incorporação de um novo ser. Essa mesma fórmula será repetida em Ghost Dog (1999), mas como ocorreu com Trem Mistério, novamente Jarmusch deixa sinais de artificialismo. Ao que tudo indica, Dead Man sinaliza como ponto de inflexão em sua carreira. A partir de então, seu cinema ficou desinteressante, não conseguindo dialogar com os anseios, inquietações, da geração que surgia.

De fato, nos últimos anos Jarmusch tem absorvido – e mal – os clichês do cinema comercial. Envelheceu, e sua figura é uma caricatura daquilo que foi e representou. Sua produção recente – tenho em mente Flores Partidas (2005) – é empoeirada. Mas, independentemente da decadência criativa, Jarmusch permanece um ícone pelo que fez lá no início, ao ousar, correr riscos e impor sua concepção autoral de cinema. Filmes como Estranhos no Paraíso, Down by Law, Uma Noite Sobre a Terra e Dead Man – assim como sua postura diante do “mainstream” na década de 1980 – devem servir de referência e inspiração para cineastas atuais que desejam inovar e dialogar com os novos tempos.


FOTO 2: Estranhos no Paraíso
FOTO 3: Down bi Law
FOTO 4: Uma Noite Sobre a Terra
FOTO 5: Dead Man
FOTO 6: Mistery Train
FOTO 7: Sobre Cafés e Cigarros
FOTO 8: Ghost Dog
FOTO 9: Flores Partidas






Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).