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Viva a Boca do Lixo - "O Rei da Boca"




















Viva a Boca do Lixo


O Rei da Boca                                                      (publicado: 05/2013)

Por Gabriel Carneiro

O termo ‘Boca do Lixo’ para designar um determinado quadrilátero da região da Luz em São Paulo surgiu na virada dos anos 1940 pros 1950, por conta do baixo meretrício e da bandidagem que dominava o local. Alvo da imprensa e das políticas de saneamento, casa do crime e da marginalidade paulistana, só muito depois foi ser casa do cinema também. O meretrício continuou (e continua até hoje), mas o auge da bandidagem, com seus criminosos de fama, como Hiroito Joanides, Quinzinho, Nelsinho da 45, entre outros, se deu nos anos 1950 e 1960, ainda que mantivessem esquemas até os anos 1970, 1980. Esses bandidos que dominaram as capas dos jornais populares tiveram contato com o pessoal de cinema, numa relação de respeito mútuo e convivência.

Talvez por isso esse O Rei da Boca seja o grande filme feito a respeito da bandidagem e da malandragem paulistana, realizado de maneira bastante crua, sem sociologismos baratos - tentando entender, a partir de suas condições sociais, a criminalidade do protagonista - e sem glamourização das atividades criminosas. Feito dentro do esquema Boca do Lixo Cinema – quem mais poderia fazer um filme a respeito disso? -, com incomuns duas horas de duração para os filmes do polo, O Rei da Boca é o policial de melhor estirpe do cinema brasileiro.

Inspirado especialmente em Quinzinho na composição do personagem Pedrão, interpretado por Roberto Bonfim, mas tendo como base a história de todos esses ‘reis da boca’, o longa narra a história de Pedro Cipriano da Silva, um lavrador ordinário de Goiás que se aventura pelo garimpo, até chegar a São Paulo, onde é iniciado no submundo do tráfico de drogas, até galgar ao posto de rei.

À sua frente, Clery Cunha, um dos mais ecléticos cineastas da Boca, egresso do rádio e da televisão, diretor desde filmes infantis (A Pequena Órfã/1973) e comédias eróticas (Pensionato de Mulheres/1974, Eu faço... Elas Sentem/1975), a filme rurais (Chumbo Quente/1978) e terror espírita (Joelma, 23º Andar/1980), que talvez tenha se destacado mesmo pelos policiais (além de O Rei da Boca, Os Desclassificados/1972 e O Outro Lado do Crime/1979), ainda que numericamente sejam pouco superiores. Seria um típico artesão clássico, não fossem suas invenciones com a câmera e o caráter documental que aplica no retrato do ambiente externo.

Em O Rei da Boca, Clery retrata a ascensão e a decadência de Pedrão. O filme abre com uma cena muito picotada que indica um sujeito sendo carregado pela polícia, jurando todos de morte, enquanto uma prostituta felliniana gargalha. Já vemos ali a síntese daquele submundo, de brigas internas e de exploração. A prostituta que ri do que descobriríamos ser o cafetão e traficante, o homem que aprende a ser inescrupuloso, seduzido pelo poder.

Regressamos. Pedro é um humilde lavrador nos rincões do Brasil. Seu grande sonho é conhecer a cidade grande. Surge uma oportunidade e o matuto seguindo seu sonho torna-se garimpeiro. Encontra uma pepita de ouro. Ali inicia sua corrupção: como trabalha para terceiros ela não lhe pertence, mas vislumbrando ali sua única oportunidade para realizar seu sonho, rouba a pepita. O capitalismo predatório está ali – como vemos em muitos outros filmes da Boca, sem a intenção explícita da crítica, mas como retrato sensorial do que está no entorno -, e dopados pela ganância matam, torturam, perseguem qualquer um que possa ser suspeito de esconder os achados. Clery, nesse episódio, toma sua maior liberdade poética no filme, ao acompanhar a tortura do anti-herói Pedro com câmera subjetiva.

Logo mais, Pedro chega a São Paulo, obviamente, na Boca do Lixo, local próximo ao das estações de trem. Mal chega, já se mete, muito sem querer, numa briga de bar. É quando tudo muda: do sonhador para vítima da sociedade. Encarcerado com bandidos, sem ter pra onde ir, faz amizade com Jerico. É Jerico quem o coloca em contato com o tráfico e com o meretrício. Acompanhamos a evolução de Pedro nesse mundo. Nisso, destaque para a produção bem cuidada, que se preocupa em retratar essa ascensão até no figurino – é notável o trabalho feito nessa área.

Clery antecipou e muito o que viria a ser o filme de favela moderno, com a ascensão de um rei do crime e as múltiplas disputas internas para manter o controle. Seu O Rei da Boca foge completamente do maniqueísmo, com seu bandido bastante humanizado. Clery entende Pedro, respeita-o enquanto ser humano. Mas também não o mostra como uma vítima da sociedade atual: seus descaminhos não são culpa apenas de uma sociedade que não lhe deu chances, etc e tal, muito frequente em filmes do gênero – aquela coisa dos extremos, ou o bandido simplesmente é mal, ou é culpa da sociedade. O grande acerto do diretor em retratar esse personagem é saber ficar no meio termo, é mostrar que os descaminhos de Pedro, ainda que fruto de uma inaptidão das forças no poder, são responsabilidade dele também. Ao se encontrar nesse submundo, a única coisa que quer é poder – e dinheiro é poder, por isso a opção de capitalizar em cima dos outros. Quer ser ‘rei’, porque lhe parece importante. Assim, do nada, surta, parte para a dominação geral, eliminando adversário, chantageando os mais amedrontados. Vira um monstro.


FICHA TÉCNICA:

Direção: Clery Cunha
Diretor de Fotografia: A. J. Moreira
Montador: Walter Wane
Assistente de Câmera: Luiz A. Oliveira, Antônio França Sampaio
Fotografia de Cena: José do Amaral
Unidade 2 de Fotografia: Pio Zamuner
Roteiro: Galileu Garcia
Argumento: Tião Valadares
Adaptação: Clery Cunha
Música: Beto Strada
Produção e Produção Executiva: Farah Abdalla
Co-produção: Itamar Silva, Maurício Santos
Direção de Produção: Genesio Carvalho
Continuidade: Isabel do Amaral, Regina Célia Beeke
Direção e Técnico de Som: Jorge Ventura
Efeitos Sonoros: Jorge Ventura
Figurinos: Maria do Livramento
Cenogtafia: Julio Medeiros
Consultoria de Cor: Deoclécio de Araújo

Elenco: Roberto Bonfim, Claudete Joubert, Zilda Mayo, Ruy Leal, Ronaldo Medeiros Proffetha, Tony Santos, Roney Wanderley, Bentinho, Itamar de Silla, Alice Faria, Nestor Lima, Daliléa Ayalla, Arlindo Souza, Thomas Douglas, Waldher Laurenthis, Enoque Batista, Fabio Pimentel, Marthus Mathias, Paulo Farah, Jesse James, Genésio Carvalho, Tania Gomide, Noeli Pinne, Wilza Carla, Mara Prado, Zaira Bueno

Ano: 1982

Farah Produções Cinematográficas Ltda



FOTOS 2, 3, 4, 5, 6, 7 - Arquivo da Cinemateca Brasileira





Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.