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Queda nas bilheterias: de quem é a culpa?











Leonardo Mecchi

Com uma matéria publicada recentemente no jornal “O Estado de São Paulo”, voltou à tona uma discussão que vem se entendendo ao longo de todo este ano: a queda da bilheteria nos cinemas brasileiros. Nesse último artigo, foram analisados os últimos dados publicados pelo boletim Filme B que indicam que, até o final de outubro, houve uma queda de 24% no público total de cinema no Brasil, quando comparado com o mesmo período do ano anterior. Há alguns meses, a “Folha” também publicou uma série de entrevista e reportagens, no mínimo tendenciosas, com a visão dos grandes distribuidores e exibidores sobre esse assunto. Tendenciosa, pois a queda não se concentra apenas nos filmes nacionais, como a discussão dava a entender; tampouco trata-se de um fenômeno unicamente nacional (ocorrendo quedas semelhantes nos EUA e Europa) e, finalmente, porque os motivos apresentados (filmes de baixa qualidade, pirataria e migração do público para o DVD) não são suficientes para justificar tal queda.

Impressiona a incapacidade de auto-crítica não apenas do mercado exibidor mas também das grandes majors quando analisam a queda nas bilheterias brasileiras, tornando a discussão míope e impossibilitando um diálogo mais franco e aberto em busca dos reais motivos por trás dessa queda observada.

Segundo depoimento do presidente da maior rede exibidora atuando em território nacional para a reportagem da “Folha”, um dos maiores vilões dessa história é a pirataria. Embora não se deva ignorar seu impacto – que, todavia, ainda não foi devidamente estudado e comprovado –, outras variáveis (e essas sob controle dos exibidores e distribuidores) têm sua grande parcela de responsabilidade sobre a queda na freqüência das salas de cinema.

Primeiro há a questão do parque exibidor. Apesar do crescimento apresentado nos últimos anos – e dos recentes investimentos do governo federal em sua ampliação, através da linha de financiamento específica do BNDES –, há ainda hoje uma enorme demanda por novas salas de cinema no Brasil, algo que poderia compensar com sobras a queda observada.

Há 30 anos, o Brasil possuía 3.276 salas de cinema (quando o público total nos cinemas chegou a ultrapassar os 275 milhões anuais, em contraposição à atual média de 90 a 100 milhões de espectadores/ano) e hoje esse número se resume a pouco menos de 2.000 salas, uma queda de quase 40%. Isso faz com que haja no país aproximadamente uma sala para cada 91 mil habitantes. Para efeito de comparação, essa relação nos Estados Unidos é de uma sala por dez mil habitantes e, no México, de uma sala para cada 35 mil.

Além de reduzido, o parque exibidor brasileiro é extremamente concentrado nas grandes cidades: 45% das salas existentes estão nas capitais. Dos quase seis mil municípios brasileiros, apenas 290 deles possuem salas de exibição, o que deixa uma enorme parcela da população sem acesso a salas de cinema. Esse fato é ainda mais preocupante para o cinema nacional quando observamos que, historicamente, os filmes brasileiros sempre tiveram uma maior aceitação nas cidades do interior, justamente as que tiveram suas salas fechadas.

Outro fator ainda mais grave é o preço do ingresso no Brasil, cuja média é em torno de R$ 7.00, podendo chegar a até R$ 20.00 em algumas salas e horários. Aliando-se a isso o baixo poder aquisitivo da população, temos uma situação preocupante: segundo estudo da Screen Digest, empresa de consultoria especializada na mídia audiovisual que comparou o salário médio de cada nação com o custo de um ingresso de cinema, o Brasil está numa situação desvantajosa – encontra-se em 40o lugar numa lista de 52 nações. Segundo o levantamento, o brasileiro precisa trabalhar 68,1 minutos para comprar um ingresso, ficando atrás dos vizinhos Chile (49 min), Venezuela (60,3 min) e Argentina (65 minutos). Apenas como referência, nos Estados Unidos um americano médio precisa trabalhar apenas 23 minutos para ganhar dinheiro suficiente para um ingresso de cinema.

Adicione-se a isso outros custos como transporte, estacionamento, bomboniere (cujos preços nos multiplexes são astronômicos) e temos o cinema no Brasil como uma opção extremamente cara, deixando de fora grande parte da população. Como resultado dessa elitização do custo de ir ao cinema, as classes C, D e E – que representam 80% da população brasileira – respondem por apenas 38% do público das salas de cinema.

Os dois fatores apresentados acima (baixa oferta de salas de cinema e alto custo dos ingressos) fazem com que a taxa de ingresso por habitante por ano no Brasil seja igual a 0.4, enquanto num país como os Estados Unidos, cada habitante vai ao cinema pelo menos cinco vezes ao ano.

As grandes distribuidoras tampouco estão isentas de culpa, afastando deliberadamente um grande público potencial, que não se contenta com uma programação homogeneizada.

Com 76% do market share de público concentrado nas produções estrangeiras lançadas pelas majors (resultado do enorme investimento em lançamentos de filmes comerciais – 82% das cópias lançadas no país são de filmes americanos), a oferta de filmes fica restrita a grandes blockbusters, em detrimento da diversidade da produção independente, o que leva uma considerável parcela da população a buscar alternativas de acesso a esses filmes, como a TV por assinatura, o DVD ou mostras e festivais de cinema, que já chegam a mais de 100, espalhados por todo o Brasil. E aqui não se trata de uma migração do público das salas de cinema, mas sim de uma alternativa à imposição de uma programação homogênea e à expulsão sumária (muitas vezes após apenas duas semanas em cartaz) dos títulos independentes que conseguiram ser programados em algumas poucas salas.

Os números e estatísticas estão aí, pra qualquer um analisá-los, mas será que interessa aos principais atores dessa história esmiuçar realmente essa questão? Enquanto as grandes exibidoras e distribuidoras insistirem em buscar soluções simplistas para a queda no público e não olharem para o próprio umbigo em busca de respostas, vamos continuar a observar o êxodo do público para outras alternativas de entretenimento e acesso à produção audiovisual nacional e mundial, que continua ativa e com grande demanda. Corremos com isso o risco de extinguir essa maravilhosa experiência coletiva que é assistir a um filme na sala escura do cinema.


Leonardo Mecchi é cinéfilo desde pequeno e percorreu um longo caminho antes de encontrar-se com seu objeto de desejo. Engenheiro por formação, trabalhou em multinacionais até jogar tudo para o alto e ir trabalhar com cinema. Atualmente desenvolve projetos cinematográficos pela Raiz Produções e produz festivais e mostras de filmes brasileiros em pequenas cidades esquecidas pelo circuito exibidor. É editor do site Enquadramento, onde também publica suas críticas de cinema e foi convidado, após a Mostra, para integrar a equipe do cinequanon.