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Riso, Sexo e Carnaval: a Comédia Popular Brasileira – “Como É Boa a Nossa Empregada”




















Riso, Sexo e Carnaval: a Comédia Popular Brasileira


Como É Boa a Nossa Empregada            (publicado: 05/2013)

Por Anna Beatriz Lisbôa

Dentre os gêneros clássicos, a comédia se destaca pela capacidade de transmitir com dinamismo as mudanças em uma sociedade. Diferentemente dos gêneros dramáticos, que precisam envolver o espectador por meio de uma dramaturgia minimamente elaborada, a comédia é capaz de ser muito eficaz com crueza de linguagem e poucos recursos. Há uma cumplicidade única entre o autor cômico e seu público. Frequentemente o primeiro consegue o riso expondo seus maiores defeitos e obsessões (o exemplo extremo está na comédia stand-up), enquanto o público gargalha na mesma intensidade com que se identifica com o autor.

A comédia espelha características marcantes da sociedade e o faz com a leveza necessária para cativar o público, tanto no cinema, quanto na televisão. Desta maneira, o humor torna-se elemento chave para entender determinada cultura. Assim, o que podemos dizer do Brasil das pornochanchadas? Nesse estilo de comédia, que fez sucesso nas bilheterias nacionais no início dos anos 1970, o humor sexual, herdado das comédias eróticas italianas, não chegava a ser explícito, explorava a nudez parcial das atrizes e insinuações de sexo. É importante lembrar que, na década de 1970, com o peso da censura, pós AI-5, não sobrou espaço para discursos políticos no cinema. Os movimentos artísticos que produziram com intensidade nos anos 1960, como o Cinema Novo e a Tropicália, acabaram desarticulados.

Criticado pelos cinema-novistas e vistos com desprezo e desconfiança pelo estado militar, as pornochanchadas tinham imenso apelo popular. Alguns, no entanto, iam além das piadas de duplo sentido. É o caso de Como É Boa a Nossa Empregada (1973), que, dividido em três episódios, configura uma interessante comédia de costumes. Com sua estética do improviso, o filme expõe o machismo arraigado nas relações sociais, a hipocrisia, e o falso moralismo da classe média emergente.

Os dois primeiros episódios, “Lula e a Copeira”, dirigido por Ismar Porto, e “O Terror das Empregadas”, com direção de Victor di Mello, focam-se nas primeiras experiências sexuais dos protagonistas. No primeiro, Lula (Pedro Paulo Rangel) é um jovem meio nerd que parece apenas interessado em coisas do espaço sideral. Enquanto sua família acredita que ele não passa de um inocente rapaz avoado, ele faz de tudo para afugentar as copeiras que não lhe agradam, até conseguir que a beldade Clara venha trabalhar em sua casa.

No segundo, Stepan Nercessian, magrelo e cabeludo, interpreta Bebeto, moleque de 16 anos que ataca todas as empregadas que vê. Preocupada com a obsessão do filho, a mãe o leva para o psicólogo, Dr. Leonel (José Lewgoy), um charlatão que está mais interessado na mãe do que no paciente. Ele explica que, por falta de educação sexual no Brasil, os rapazes costumam ter sua iniciação com empregadas, prostitutas ou mulheres mais velhas. Diagnostica o adolescente com complexo de inferioridade e lhe receita uma prostituta para resolver o problema. A mãe, que oscila entre fogosa e moralista, acaba na cama do médico.

O terceiro episódio, também dirigido por Victor di Mello, traz Jorge Dória como Naná, um conservador empresário que reprova o vestido decotado da mulher e implica com o namorado cabeludo da filha, mas persegue a empregada que conheceu na casa de amigos. Ele finalmente consegue um encontro com a moça, mas, para não ser flagrado pela mulher, pede que o bonitão Carlo Mossy distraia a jovem em seu carro.

Os dois episódios dirigidos por Victor di Mello têm o roteiro mais cuidadoso, que ironizam o comportamento dos personagens, enquanto o de Ismar Porto foca-se em piadas visuais e nas trapalhadas proporcionadas pelas tentativas frustradas dos homens da casa em dar em cima da copeira. Nos três filmetes é possível ver os efeitos da revolução sexual vivida na década de 1960 - há biquínis e vestidinhos curtos à vontade -, bem como o conflito de geração entre os filhos, que protagonizaram esse movimento, e os pais, que representam a alienação e o conservadorismo hipócrita. De alguma maneira, os jovens sempre passam a perna nos coroas - com uma engenhoca, Lula é o único a conseguir chegar ao quarto da empregada, pela janela; Bebeto, embora pareça ter mais hormônios do que cérebro, é quem derruba as teorias do psicólogo; por sua vez, o espertalhão Naná acaba ludibriado pelo garotão vivido por Carlo Mossy.

“O Melhor da Festa” tem a produção um pouco mais sofisticada do que os demais episódios. Há a atenção maior com a direção de atores - Jorge Dória conduz com perfeição as contradições entre o discurso e o comportamento de Naná e Neuza Amaral vai além do estereótipo de dona de casa fogosa, quando transparece de maneira sutil a melancolia da mulher oprimida pelo marido. O diretor se preocupa em estabelecer o universo pretensioso de Naná com a ótima sequência da festa, em que o empresário conhece a empregada. Em um plano-sequência, passeamos pelo ambiente cintilante da festa - filmada na suíte presidencial do Hotel Nacional Rio -, conhecemos a moça que vai mexer com Naná (a deslumbrante Aizita Nascimento), e vemos o efeito que ela causa enquanto roda o salão com uma bandeja de salgadinhos. O filme ainda dá espaço para o casal de filhos de Naná que, de maneira aberta, espelham o comportamento secreto dos pais.



BREVE FICHA TÉCNICA

Direção: Ismar Porto, Victor di Mello
Direção de fotografia: Affonso Vianna, Roberto Pacce, José Rosa
Montagem: Ismar Porto, Raimundo Higino
Produção: Francisco Pinto Jr., Dilma Loes, Fernando Legros
Roteiristas: Ismar Porto, Alexandre Pires, Reinaldo de Morais, Zevs Ghivelder, Fernando Amaral

Companhia(s) produtora(s): Atlântida Empresa Cinematográfica do Brasil S.A.; Di Mello Produções Cinematográficas Ltda.; Vydia Produções Cinematográficas S.A.; Kiko Filmes Ltda.

Elenco: Pedro Paulo Rangel, Wilma Chagas, Cléia Simões, Márcia Couto, Edson Silva, Stepan Nercessian, José Lewgoy, Maria Pompeu, Meire Vieira, Carlo Mossy, Jorge Dória, Aizita Nascimento, Neuza Amaral, Beth Barcellos, Paulo Carvalho.

Ano: 1973
Duração: 88 minutos.





Anna Beatriz Lisbôa é formada em Jornalismo e Audiovisual pela Universidade de Brasília. Como repórter de cultura, já cobriu festivais como Cine PE – Festival do Audiovisual, Paulínia Festival de Cinema, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental e Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Editora do site kinopolis.com.br e colabora da Revista Moviola.