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Viva a Boca do Lixo – “Fuscão Preto”






















Viva a Boca do Lixo


Fuscão Preto                                                      (publicado: 04/2013)


Por Gabriel Carneiro

Jeremias Moreira Filho dirigiu poucos longas-metragens durante sua ampla trajetória com o audiovisual. São apenas quatro, sendo três deles dentro da Boca do Lixo. Curta, porém marcante trajetória. Ao se especializar em filmes com temática caipira, Jeremias conquistou um nicho e fez muito sucesso: ao menos com seus dois primeiros longas, o muito bom O Menino da Porteira (1976) e sua obra-prima “ Mágoa do Boiadeiro (1977), ambos com o cantor Sérgio Reis como protagonista e inspirados em músicas caipiras muito conhecidas do repertório popular. Seu terceiro longa, “Fuscão Preto”, tardou. Adaptado de um hit da época, interpretado por Almir Rogério, também protagonista do filme, “Fuscão Preto” foi um *fracasso. Lançado quando a música já havia saído das paradas de sucesso, com forte competição no mercado por conta dos filmes de sexo explícito, o longa foi o testamento cinematográfico de Jeremias por muito tempo – até voltar com o remake de “O Menino da Porteira” em 2009, estrelado, dessa vez, pelo cantor Daniel.

Fuscão Preto, a música, não fala do universo caipira. Muito por conta disso, o longa seja o mais afastado da temática rural dentre os realizados por Jeremias, ainda que o diretor tenha feito um esforço bem sucedido inserindo-o nesse mundo. Uma garota, filha de um fazendeiro, está prestes a casar com o filho do prefeito, o grande latifundiário da região. A chegada de um domador de cavalos e de um fuscão preto que a começa a perseguir relativizam o futuro da moça, interpretada pela então futura apresentadora infantil Xuxa, em seu segundo filme lançado – Xuxa também renega a película assim como o faz com Amor Estranho Amor (1982), de Walter Hugo Khouri, mesmo estando mais vestida do que em seus programas voltados aos baixinhos nos anos 1980.

O afastamento mais amplo do universo caipira permite a Jeremias, um dos grandes contadores de história egressos da Boca, abraçar outros gêneros fortemente, em especial o filme de ação. O tal fuscão preto é uma máquina violenta, que persegue, atropela, invade casas e ameaça muito a filha do fazendeiro, ainda que o filme fuja de qualquer demonstração gráfica de violência.

Dentro da seara rural, o filme volta a tratar tema caro para Jeremias: o latifundiário oportunista que quer tirar vantagens dos outros. No longa, o prefeito influencia o filho a conquistar e a se casar com a filha do fazendeiro, de olho nas terras dele. Sua ideia é transformar as pastagens e a criação de cavalos numa monocultura de cana de açúcar, visando a explorar o combustível álcool. Comum à temática rural, o capitalismo predatório é o grande inimigo do povo da terra.

Fuscão Preto trabalha também, por outro viés, o confronto entre progresso/modernidade e tradição/paz, já presente em Mágoa do Boiadeiro. Nele, a modernidade ganha uma representação material palpável, uma máquina, um carro. Se Jeremias opõe a tradição e o progresso de maneira discursiva na premissa do álcool como o futuro – mesmo que isso custe devastar terras com a monocultura e usar pessoas em prol do benefício próprio -, é no fuscão preto do título que isso fica mais claro. O carro simboliza o futuro, a modernidade, em oposição ao cavalo, como meio de transporte. Se o vilão da história é o prefeito e seu filho, questão óbvia para o espectador desde o início, Jeremias sabiamente resolve relativizar o embate. Ele sair de cena enquanto par de Xuxa é só questão de tempo. Isso importa menos ao filme.

O conflito se dá, efetivamente, entre o domador de cavalos (Almir Rogério) e o fuscão preto. São as duas figuras do filme que, aos poucos, seduzem Xuxa. O primeiro, pelo seu fino trato com os animais e pela delicadeza; o segundo pelo fascínio enigmático que exerce sobre a moça, de maneira um tanto inconsciente. Nesse caso, não há um maniqueísmo óbvio, como poderia se esperar, não há a figura maligna. Jeremias não escolhe caminhos fáceis, nem entrega um único ponto de vista. Sabe como conduzir dramaturgicamente sua história e suas possibilidades, acenando para surpresas potenciais. Menos importa, ali, a resolução do que o embate.

Infelizmente, Fuscão Preto, *fracasso de público e com crítica inexistente, ficou no lodo, marcado como um dos filmes tranqueiras da Xuxa antes de ficar realmente famosa. A se descobrir.

Apêndice, CONTÉM SPOILERS: O grande trunfo do filme talvez esteja em como o cineasta opta por terminar seu filme. Em nenhum momento revela o motorista do fuscão preto, se é que há um, como não escolhe o fim óbvio, em que Xuxa e Almir Rogério terminam juntos. Cada um segue seu caminho: ele de volta ao passado, e ela para um futuro incerto. O risco colabora, assim, na construção da ambiguidade da transição campo/cidade, coisa que o filme rural raramente faz. Ponto pra ele.

*em entrevista, segundo Jeremias, o filme levou 800 mil espectadores, em dados extra-oficiais (em dados oficiais, ficou abaixo dos 500 mil), número muito abaixo do esperado na época


VEJA O FILME AQUI (postado no Youtube)


FICHA TÉCNICA:

Direção: Jeremias Moreira Filho
Diretor de Fotografia: Pedro Pablo Lazarini
Edição: Alberto Duran, Vanderley Klein e Tuta Elias Produtores: Enzo Barone, Ennio Barone e Mobile Cinematográfica
Desenho de produção: Suzane Bernard
Roteiro: Francisco de Assis
Música: Música: Pedro Luiz Nobile
Figurino: Suzane Bernard

Elenco: Almir Rogério, Xuxa Meneghel, Monique Lafond, Denis Derkian, Mario Benvenuti, Zé Coqueiro, Filoca, Dalmo Perez, Suely Aoca, Florinda Lopez, Jaci Ferreira, Márcia Cheroto, Janete Santos, Mogiano & Mogianinho, Juarez Fagundes, Marcos Pontes, Sérgio Águia Chileno, Nelson Pereira, Márcia Aoki.

Ano: 1982
Duração: 100 min.

Distribuição: U.C.B.






Sobre a Boca do Lixo

Geograficamente, a "Boca do Lixo" está situada no centro de São Paulo, vizinha à estação da Luz. Nos anos 1950, recebeu esse nome por ser pauta das crônicas policiais da cidade. A proximidade com as estações ferroviárias atraiu o cinema. Era muito mais barato manter sua distribuidora e/ou produtora em um local com fácil acesso a tais estações, para o transporte das cópias dos filmes.
A partir dos anos 1960, a "Boca" se tornaria o principal polo produtor cinematográfico do país, congregando produtores, técnicos, diretores, atores e intelectuais nas cercanias da Rua do Triumpho. Berço do chamado Cinema Marginal e responsável por uma grande variedade de filmes de gênero, quase sempre com apelo erótico, a "Boca do Lixo" frutificou em questão de público e bilheteria, mas naufragou quanto às avaliações críticas.
A "Boca" continuou produzindo filmes populares, de baixo orçamento e sem verbas estatais até o final dos anos 1980, quando já estava dominada pelo cinema de sexo explícito.