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Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados - "Muito lembrado e pouco visto: ‘Matraga’, de Roberto Santos.”






















Autores e obras importantes, mas nem sempre lembrados


Muito lembrado e pouco visto: “Matraga”, de Roberto Santos                                                                                   (publicado: 04/2013)

Por Humberto Pereira da Silva

Um filme é um filme; um livro, um livro. Comparar filme e livro, de que este se serve para adaptação, é o mesmo que se faria com o desempenho de jogador de futebol e de beisebol. Cada qual atua e é avaliado com critérios próprios de cada jogo; cada qual em sua forma de expressão artística. Muitos que veem filme baseado em obra literária, contudo, ignoram essa máxima e, num impulso condicionado, vão à comparação. Nesta, como experimento de estímulo e resposta, invariavelmente o clichê: o livro é melhor que o filme...

A Hora e Vez de Augusto Matraga, um dos nove contos de “Sagarana”, de Guimarães Rosa, foi adaptado ao cinema por Roberto Santos. Desnecessária a observação de que a prosa de Guimarães é dificílima de ser vertida em imagens. Mas Roberto Santos enfrentou o desafio e em 1965, vinte anos depois da publicação do livro, levou para as telas um dos contos do grande escritor mineiro. Inevitável, pois, as comparações.

Apesar dos riscos a adaptação surpreende e, para grande parte da crítica, trata-se de trabalho de valor estético incontestável como produção fílmica. Em consequência, A Hora e Vez... está envolta em aura que silencia o clichê. Ou seja, o filme de Roberto Santos tem vida própria: do ponto de vista da ressonância cultural, é praticamente autônomo em relação ao livro.

Na verdade, trata-se de obra que se destaca de seu próprio criador. Este começou a carreira ao lado de Nelson Pereira dos Santos, com quem trabalhou em Rio 40 Graus (1955). Em seguida, nos estúdios da Maristela, fez seu primeiro longa, O Grande Momento (1958). Influenciado pela estética neorrealista, é importante marco do cinema paulistano no final da década de 1950, e referência para o que logo em seguida será o Cinema Novo. Após esse experimento urbano (longas sequências de O Grande Momento foram rodadas na Mooca e no Brás), ele parte para a adaptação de Guimarães e realiza uma das obras primas da história do cinema nacional.

No caminho que o leva a adaptar o já então famoso conto de “Sagarana”, um aspecto a ser observado: a mudança de ambiente. Roberto Santos sai do meio urbano e vai para o rural. Com isso, além do desafio de filmar Guimarães, o de pisar em terreno que desconhecia. Bem sucedido, A Hora e Vez... o projeta e lhe garante lugar entre os grandes realizadores na filmografia nacional. Mas essa primeira guinada na carreira de Roberto Santos também prenuncia a inconstância de seus projetos em seguida: desenxabidos, frustram expectativas quanto ao que ele podia fazer, mas não o fez. Como resposta à repressão política nos anos de ditadura, ele realiza trabalhos despretensiosos, sem ousadias, sem riscos desnecessários num contexto histórico de grande polarização.

De fato, O Homem Nu (1967) ou Nasce uma Mulher (1983), ainda que se possam ver virtudes nessas comédias de costumes, são experiências que não lembram de longe o autor de A Hora e Vez.... O caráter autoral, fortemente impregnado na adaptação de Guimarães, se diluiu completamente em sua produção posterior. Seu último filme, Quincas Borba (1987), adaptação de Machado de Assis que foi mal recebida no Festival de Gramado, confirma o canto do cisne: após as ousadias de início de carreira, ele se contentou em tocar o expediente.

Uma carreira com altos e baixos não é incomum (muitos admiradores de Glauber Rocha fazem fortes objeções a A Idade da Terra, por exemplo). Circunstâncias específicas de dificuldades do cinema brasileiro, aliadas a conjunturas políticas desfavoráveis, não podem ser subestimadas. Questões de sobrevivência determinam escolhas, impulsionam decisões que só a compreensão do momento dá a dimensão do que se perde com elas. Mas Roberto Santos, professor de cinema na ECA, com um filme da relevância de A Hora e Vez... na bagagem, parecia ter fôlego para caminho diverso do que trilhou: não era questão de vida realizar o que fica à margem da história e que, na soma, é a maior porção do que deixou.

De modo que, no conjunto, em consequência das escolhas feitas, lhe falta estilo característico. Ou seja, elementos que deem ao seu cinema sentido de reconhecimento a partir de um único plano ou da construção de personagens: em A Hora e Vez..., Jofre Soares, na pele do jagunço Joãozinho Bem-Bem, e Mauricio do Vale, como padre, seriam talvez compreendidos se o conjunto da obra de Roberto Santos oferecesse resposta a essas opções (para quem viu O Dragão da Maldade, de Glauber, a forte sensação de inversão de papeis...). Mas isso não acontece, e é triste notar que, ao morrer em consequência de ataque cardíaco em pleno aeroporto de Cumbica, depois das críticas desfavoráveis a Quincas Borba em Gramado, tenhamos o desfecho trágico e melancólico de uma carreira que, no plano autoral, acabou abortada. Sendo, por conseguinte, difícil de ser devidamente analisada.

Guardada a inconstância de seus projetos, não há dúvida de que ele teve sensibilidade aguçada para perceber o momento e realizar A Hora e Vez.... A hora e vez deste filme é a mesma de Deus e o Diabo, de Glauber Rocha, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Os Fuzis, de Ruy Guerra, São Paulo S.A., de Luis Sérgio Person, O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni, todos exibidos pela primeira vez entre 1964 e 1965. Essa lembrança arbitrária – poderia incluir também A Falecida, de Leon Hirszman, O Menino do Engenho, de Walter Lima Jr. – para destacar que esses dois anos foram maravilhosos, quando se pensa o cinema nacional em qualquer época.

A realização do filme ocorre, então, nesses dois anos áureos. E assim se insere num seleto rol de obras que impulsionaram debates, que ativaram discussões sobre cultura e a política no Brasil, que ganharam páginas nas publicações internacionais e projetaram o cinema nacional para além mar. Bem recebido pela crítica internacional foi o representante oficial do cinema brasileiro no Festival de Cannes em 1966.

Mas vale aqui uma ressalva: das obras realizadas naqueles anos miraculosos, a de Roberto Santos fica à sombra; é como se soubéssemos seu valor enquanto obra de arte, mas também soubéssemos que este é aquilatado pelo impacto de Vidas Secas, para lembrar a adaptação que Nelson Pereira dos Santos fez de Graciliano Ramos. No fundo, A Hora e Vez... é muito mais lembrado – vale dizer, não propriamente discutido e estudado – do que visto. Com o tempo seu valor não foi posto em dúvida, mas tampouco tem sido visto e efetivamente apreciado e discutido.

Para isso, convergem alguns fatores. Ao contrário de outros cineastas representativos dos anos de 1960, a curadoria não tem a mesma atenção para Roberto Santos; por conseguinte, o público teve pouquíssimas oportunidades de vê-lo. Registra-se aqui a retrospectiva promovida pela Cinemateca Brasileira em 2002, homenagem aos quinze anos de sua morte (cinco anos antes, a Estação Liberdade publicara a biografia “A hora e vez de um cineasta”, de Inimá Simões). Mas, não se pode perder de vista, em dez anos praticamente a única oportunidade que o público paulistano teve para ver em tela grande, numa sessão única, um filme de tamanha importância.

Outro fator refere-se à indisponibilidade de cópia em DVD. Na verdade, há uma versão mal cuidada, com problemas na banda sonora e de nitidez de imagens, que circula entre camelôs e também encontrável em sebo virtual. Nessa versão, a voz de Geraldo Vandré, que dá contraponto à narrativa, está praticamente inaudível. Ou seja, ver (ouvir) ao filme se torna uma aventura homérica.

Contribui para isso os entraves criados pela família de Roberto Santos, responsável por seu espólio. Preocupada com questão de direitos autorais e ciosa quanto à qualidade das imagens (algumas películas se encontram em estado de deterioração), a família do cineasta, em parceria com a CaradeCão filmes, anuncia a captação de recursos para o projeto de digitalização e restauração de sua obra. Ao final, a ideia de lançar caixa de DVDs com seus onze longas.

Aguardemos a caixa e, finalmente, uma versão digna da relevância cultural de A Hora e Vez de Augusto Matraga. Um último fator para a fortuna desfavorável dessa obra tem a ver com a postura de Roberto Santos: embora não tenha entrado em conflito com o núcleo do Cinema Novo, ao contrário de Walter Hugo Khouri – outro nome importante do chamado cinema paulista –, ele manteve uma posição discreta, não se colocando no centro de debates que envolviam praticamente todos os lançamentos cinemanovistas. Não à toa, A Hora e Vez... não despertou atenção de Jean-Claude Bernardet, em seu referencial “Brasil em tempo de cinema”, que, lançado em 1966, reserva generosas páginas à filmografia brasileira daqueles anos áureos.

A discrição de Roberto Santos talvez se explique quando se observa o tipo de cinema que fez em seguida: praticamente sem traços que o situe no âmbito da proposta cinemanovista, se aproxima do descomprometido Domingos Oliveira. Claro, o caminho que Roberto Santos tomou não reduz o valor estético do filme. Mas para a sorte de uma obra de arte, como nos ensinam teóricos como Wassily Kandinsky (conforme o clássico “O espiritual na arte”), confluem o estético, o temperamento do artista e o diálogo com a época. Num momento de grande efervescência, de embates e forte polarização, a discrição e guinada de Roberto Santos implica tanto em indiferença com respeito à sua obra mais cultuada, quanto em perda de referência para situá-lo no contexto da época (para Domingos Oliveira este problema não se coloca).

Passadas quase cinco décadas de sua realização, com uma possível restauração, cabe vê-lo, ou revê-lo, com a devida atenção e cuidado. Se para esse filme pesa a fortuna das obras de Glauber, Nelson Pereira ou Ruy Guerra, se pesa a inconsistência da visão de cinema de seu criador (como se este não tivesse a devida noção da expectativa criada), resta às gerações futuras estabelecerem novos parâmetros para a crítica: enxergar numa obra o que os humores do tempo e claudicâncias artísticas dificultaram ver.

Admitindo que o valor estético de A Hora e Vez... não seja posto em questão, sua importância cultural, contudo, ressente-se do confronto com obras como Vidas Secas. Por isso, ao se pensar em seu valor cultural, deve-se ter em mira, assim como no filme de Nelson Pereira, a tensão do indivíduo em luta contra a realidade que o esmaga: assim como Nelson Pereira, novamente, o inequívoco propósito de dialogar com questões de época, tanto quanto realizar anseios do movimento cinematográfico mais importante do país. Ou seja, aqui, sim, vale a comparação, pois filme se compara a filme.






Humberto Pereira da Silva é professor de crítica de arte e ética na FAAP, crítico de cinema na Revista de Cinema, colunista do site Digestivo Cultural e autor de "Ir ao cinema: um olhar sobre filmes" (Musa Editora).