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Riso, Sexo e Carnaval: a Comédia Popular Brasileira – “Rico Ri à Toa”




















Riso, Sexo e Carnaval: a Comédia Popular Brasileira


Rico Ri à Toa                                                         (publicado: 04/2013)

Por Anna Beatriz Lisbôa

A história do cinema brasileiro é marcada por sucessões de ciclos interrompidos, como as comédias musicais da Cinédia, o Cangaço, o Cinema Novo, a Boca do Lixo, além dos ciclos regionais do norte, nordeste e sudeste, no início do século 20. Dentre os ciclos do nosso cinema, a chanchada carioca - e, posteriormente, a pornochanchada - destaca-se por seu alcance popular. Misturando referências radiofônicas, do teatro de revista, do circo e de musicais norte-americanos, as chanchadas reinaram no nosso panorama entre os anos 1940 e 1950, servindo de plataforma para astros e estrelas que tiveram impacto na cultura popular, como Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade, Zezé Macedo, Dercy Gonçalves, entre outros.

A Atlântida foi prolífica nesse período, tendo seus filmes lançados nos cinemas de Luís Severiano Ribeiro, maior exibidor do país na década de 1940, e que, atraído pelo êxito econômico dos filmes, veio a tornar-se acionista majoritário do estúdio. Sem enfrentar concorrência expressiva da televisão no gosto do povo, as produções de baixo custo da Atlântida pagavam-se muitas vezes apenas com as bilheterias de Rio de Janeiro e São Paulo. Eles traziam personagens familiares, geralmente em tramas descomplicadas de troca de identidades, com pausas para números musicais que apresentavam canções populares. O humor pastelão, a paródia, perseguições esdrúxulas e romances ingênuos são elementos comuns às comédias produzidas pelo estúdio, que tinha na dupla Ocarito e Grande Otelo sua mina de ouro.

Ao final dos anos 50, o Brasil passava por transformações sociais com a intensificação dos movimentos migratórios e a crescente urbanização, o que acabavam por ampliar as perifrias das grandes cidades. A comédia procurou refletir essa realidade buscando alternativas à desgastada história de mocinhos e bandidos, fórmula explorada à exaustão pela Atlântida. Nesse período, houve diversificação nos tipos populares das comédias, inspirados no cotidiano desse Brasil meio urbano, meio caipira, que se encontrava nos subúrbios. O filme Rico Ri à Toa (1957), do estreante Roberto Farias (que viria a dirigir as aventuras musicais de Roberto Carlos no final dos anos 1960), é um exemplo representativo de como a comédia processou essas transformações.

Produzido pelo estúdio carioca Brasil Vita Filmes, o longa reunia os humoristas Zé Trindade e Violeta Ferraz. Ambos personificavam os tipos pelos quais ficaram conhecidos junto ao público: respectivamente, o coroa espertalhão e a “patroa” despótica. Trindade vive Zé da Fubica, um taxista malandro que conta vantagem para os amigos, mas que em casa fica debaixo do tacão da mulher Isabel (Violeta Ferraz). Sua vida sossegada na favela se transforma depois da chegada de um advogado que traz a herança milionária de um irmão desconhecido em Portugal. A bolada repentina vira a cabeça de Isabel, que carrega a família para um casarão em Ipanema, proíbe samba dentro de casa e força Zé a se desfazer de seu carro velho. Acontece que tudo não passa de golpe de uma quadrilha de assaltantes de bancos, que usam Zé para despistar a polícia.

O filme abre com a risada debochada de Zé Trindade, que se recusa a fazer uma corrida até o Irajá em sua hora de almoço, para a indignação do passageiro. Os colegas taxistas separam a briga e Trindade segue para o seu almoço gracejando: “Lá em casa quem manda é o papai.” Porém, toda sua ousadia esvanece na presença massiva da esposa. O humor pelo contraste físico, fórmula do sucesso de duplas cômicas, como o gordo Oliver Hardy e o magro Stan Laurel, se aplica também quando vemos Violeta e Trindade em cena. O baiano baixinho - que incorporou o jeito de malandro carioca aos seus gestos e modo de falar - parecia ainda mais diminuto ao lado da atriz. Ferraz não era muito mais alta do que Trindade, mas a voz enérgica, e o jeito exageradamente truculento contrastava com a sonsice de Zé Trindade.

Se Oscarito conservava uma certa inocência em seu humor físico, com fortes raízes no picadeiro, Zé Trindade, vindo do rádio, era mais pesado fisicamente, e mais malicioso. Era através da voz, inconfundivelmente zombeteira, que arrancava risadas da plateia com seus comentários sarcásticos. Embora não tivesse a leveza circense Oscarito, Trindade tinha no rosto expressividade única. Seus traços caricaturais, ora se arranjavam em um sorriso rasgado, sempre acompanhado da gargalhada despregada, ora se franziam em cara de coitado conveniente. Violeta Ferraz, por sua vez, dominava as cenas, com seu excesso de peso ressaltado pelo figurino esdrúxulo, de acessórios desproporcionais e chapéus bizarros. Pródiga em caras e bocas, Ferraz tinha a capacidade de distorcer seu rosto em caretas inacreditáveis.

O roteiro, assinado por Roberto e Riva Farias, satiriza a vida de rico imaginada pela classe pobre, bem como seu desejo de ascensão social, utilizando uma linguagem irresistivelmente popular. Ao chegar em sua nova mansão em Ipanema, Isabel é informada pelo advogado vigarista de que terá um quarto separado do de seu marido. O advogado justifica: “As senhoras ricas não dormem no mesmo quarto com o marido. É mais poético.” Resignada, Isabel responde: “Que poesia besta!” Embora inevitavelmente haja uma cena na boate, a atmosfera não é tão luxuosa quanto pretendiam os musicais da Cinédia e da Atlântida, com seus cassinos e navios. Os cenários de maneira geral são mais modestos, bem como os figurinos. A intenção não é a extravagância escapista, mas a caricatura baseada no cotidiano.

A simplicidade despreocupada da favela e a vida na alta sociedade, formal e cheia de regras estúpidas, estão sempre em contraste no filme. A sequência mais emblemática acontece quando, em uma festa para a high society, a performance melodramática de Isabel da canção Casinha Pequenina é abafada aos poucos pela música da escola de samba que marcha em direção à casa de Zé. Logo os homens de smoking caem na folia, para a indignação das mulheres. “Isso é um absurdo, dona Isabel! Olha que papel ridículo estão fazendo nossos maridos!”, protesta uma madame.

Silvinha Chiozzo, então com 19 anos, - irmã da atriz e cantora Adelaide Chiozzo - interpreta Dorinha, filha do casal. A mocinha recatada ganha graça e charme durante os números musicais do filme, que incluem “É Samba”, “Nota Legal”, e o baião “Zé da Onça”, em que faz dueto com Zé Gonzaga. Dolores Duran faz uma participação especial cantando o samba “Tião” na favela cenográfica montada na boate.


LINK PARA O FILME (postado no “Youtube”)


BREVE FICHA TÉCNICA

Diretor: Roberto Farias
Fotografia: Juan Carlos Landini
Montagem: Mauro Alice
Roteiro e argumento: Roberto Farias, Riva Farias
Música: Lírio Panicali

Elenco: Zé Trindade, Violeta Ferra, Armando Camargo, Silvinha Chiozzo, Zezé Macedo

Produtor: Murilo Seabra
Produtora: Brasil Vita Filmes

Ano: 1957
Duração: 98 minutos





Anna Beatriz Lisbôa é formada em Jornalismo e Audiovisual pela Universidade de Brasília. Como repórter de cultura, já cobriu festivais como Cine PE – Festival do Audiovisual, Paulínia Festival de Cinema, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental e Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Editora do site kinopolis.com.br e colabora da Revista Moviola.