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Cinema de Horror Brasileiro - "Trabalhar Cansa e as possibilidades do horror nacional"




















Cinema de Horror Brasileiro


Trabalhar Cansa e as possibilidades do horror nacional                                                                              (publicado: 03/2013)

Por Carlos Primati

Horror no Brasil não é só Zé do Caixão. Cada vez mais as pessoas interessadas em conhecer a fundo o cinema nacional estão se dando conta disso, mas é imprescindível, para quem quer discutir esse tema ainda novo e controverso, acertar as contas com essa verdade. Uma verdade libertadora, podemos dizer. O horror brasileiro vai além de Zé do Caixão; e muito além do além: ele transcende e ultrapassa o que se convencionou chamar de horror como “gênero”. Para começo de conversa, falar sobre “gênero” no cinema brasileiro envolveria uma reconstrução praticamente completa de determinados conceitos. O que talvez atrapalhe essa percepção em linhas gerais é que somente José Mojica Marins tenha abraçado completamente o horror com suas regras canônicas (e, mesmo assim, subvertendo-as à sua maneira particular): portanto, buscar um rival à altura do “mestre” em nossa filmografia é uma tarefa ingrata. Outros cineastas se dedicaram ao gênero, de Khouri e Christensen ao pessoal da Boca do Lixo (Doo, Garrett etc.), mas a impetuosidade e convicção de Mojica parece não ter herdeiros fora do circuito alternativo.

O horror com todas as regras desejadas por teóricos e historiadores – que pressupõem o cinema algo tão previsível e objetivo quanto uma lista de supermercado – definitivamente não existe em nosso cenário. Não nos dias de hoje. Muitos fatores poderiam ser considerados para se discutir a eventual inexistência de um “cinema de horror brasileiro” que se assumisse como tal, passando por fatores comerciais, política de editais públicos etc., mas não somente isso entraria no terreno da especulação vazia, como acima de tudo seria irrelevante para a discussão proposta. O que nos interessa é o filme pronto e lançado, não fatores externos, causos de bastidores ou lamentações de artistas incompreendidos. O que importa é que o horror está ali, vivo e pulsante. Só é preciso procurar com mais atenção.

Há alguns anos venho desenvolvendo uma pesquisa independente que, na falta de uma definição melhor, chamo informalmente de “possibilidades do horror brasileiro”. Esta coluna que está debutando com o presente texto tem como objetivo colocar em debate algumas dessas ideias, descobertas e propostas. A principal delas é a de que o “horror” no cinema brasileiro contemporâneo se insere em filmes que comercialmente não são vendidos como tal: muito pelo contrário, às vezes até tentam disfarçar esse caráter. Um exemplo bastante interessante desta vertente é Trabalhar Cansa, longa-metragem de estreia da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, lançado em setembro de 2011. É dele que falaremos neste primeiro artigo, como legítimo representante do atual cinema de horror brasileiro.

O filme acompanha a angústia de um casal que passa por graves dificuldades financeiras – ele, recém-desempregado, tenta encontrar um novo trabalho; ela, investe as poucas economias numa mercearia que quase não tem clientela. O “horror” se manifesta paulatinamente por meio de acontecimentos sinistros e inexplicáveis no mercadinho, começando por uma simples mancha de umidade na parede, que cresce conforme os problemas financeiros do casal se intensificam. O filme flerta mais abertamente com o sobrenatural na parte final, quando a natureza selvagem do homem e a bestialidade do mercado de trabalho ganham contornos literais.

A ideia não é nova: o horror como meio de dar vazão a pesadelos e demônios pessoais é uma das formas mais adultas e bem acabadas que o gênero tem a oferecer. Houvesse tido uma evolução temática e estética, o cinema de horror brasileiro talvez estivesse inserido no contexto em que está uma parte considerável dos filmes de horror estrangeiros: como metáforas e símbolos de conflito nas relações humanas. Até mesmo filmes mais comerciais, como Renascido do Inferno, Sexta-Feira 13 ou A Hora do Pesadelo, constroem metáforas monstruosas do medo do pecado, do castigo e de conflitos afetivos. O caminho trilhado por Trabalhar Cansa e por outros dramas de horror brasileiros recentes, de certa forma, segue os moldes dos pesadelos fílmicos de David Lynch, possivelmente o mais talentoso diretor desse estilo de se fazer horror psicológico com elementos de realismo fantástico. Uma espécie de padrinho informal e fonte de inspiração para cineastas da nova geração, como Esmir Filho e Kleber Mendonça Filho.

A cena do cinema brasileiro, inclusive nos dias de hoje, grosso modo, divide-se entre o comercial constrangedor e o autoral/experimental/hermético. Nessa encruzilhada, não é de se surpreender que Trabalhar Cansa fique num decepcionante meio-termo. Muitas vezes, ao longo do filme, deseja-se que a narrativa abrace com mais determinação seu caráter macabro e sobrenatural, em sequências que esbarram no que parece ser um receio de ir longe demais. Nisso o filme frustra: se ele evita o pesadelo absoluto com medo do exagero, tampouco satisfaz em sua sutileza – não consegue, por exemplo, evocar a angústia existencialista dos filmes de Walter Hugo Khouri.

A seu favor, Trabalhar Cansa acerta em cheio em sua proposta de dramatizar os medos do mercado de trabalho, o monstro do fracasso profissional, a escravidão e a humilhação, o peso das dívidas no abalo nas relações e a desumanização do indivíduo. Parece ser uma tendência dos nossos tempos: até mesmo a comédia de humor negro Reflexões de um Liquidificador, de André Klotzel, trata os problemas do trabalho e da aposentadoria como tragédias do dia-a-dia. É a classe operária indo ao inferno: se a comédia arrasa-quarteirão De Pernas pro Ar fez rir com sua versão globo-chanchada das ansiedades consumistas da classe-média recém-promovida, Trabalhar Cansa mostra seus piores medos e receios tornando-se realidade. Neste sentido, o filme cumpre um dos objetivos elementares do cinema de horror: dar forma e substância aos temores e anseios mais íntimos do ser humano no cenário em que ele vive, materializando monstros e tornando palpável aquilo que mais nos dá medo.


FICHA TÉCNICA (resumida):

Diretores: Marco Dutra, Juliana Rojas
Elenco: Helena Albergaria, Marat Descartes, Mariana Flores, Gilda Nomacce
Produção: Sara Silveira, Maria Ionescu
Fotografia: Matheus Rocha
Montagem: Caetano Gotardo
Roteiro: Marco Dutra, Juliana Rojas

Produtora: Sara Silveira
Produção: Dezenove Som e Imagem
Coprodução: Filmes do Caixote

Duração: 99 min.
Ano: 2011





Carlos Primati:

Colaborador regular de diversos periódicos com textos sobre cinema, televisão, música, videogames e quadrinhos
Jornais: O Estado de S. Paulo (Caderno 2. Zap!); Folha de S. Paulo (Folhateen); Jornal da Tarde
Revistas: Bizz; General; Herói; Mundo Estranho; Superinteressante; Flashback; Conecta; Players; Pipoca Moderna

Colaborador em enciclopédias e guias temáticos:
A História do Rock; O Livro do Horror; O Super Livro dos Filmes de Ficção Científica; Almanaque Top 10

Editor de projetos especiais:
Séries de TV (livro da coleção ‘Mundo Estranho Apresenta’); SET – Os Melhores Vídeos; Maldito (pesquisador do livro sobre José Mojica Marins, o Zé do Caixão); Voivode (livro sobre vampiros)

Editor de revistas especializadas em cinema:
Cine Monstro; Dark Side; West Side; DVD Total; Showtime

Produtor da Coleção Zé do Caixão em DVD (vencedor do 1º Prêmio DVD Brasil como “Melhor Coleção do Ano”)
Coordenador do selo Dark Side (especializado em filmes de horror, mistério e ficção científica)
Programador do canal Dark Side TV, dedicado aos filmes de horror, mistério e ficção científica