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Cinco textos (abril e maio de 2012)              (publicado: 03/2013)

Por Cid Nader

OS VIVOS E OS MORTOS
25 de abril de 2012

Sob as imagens de uma Irlanda coberta por neves, em 1904, John Huston concluiu sua carreira - para ele, a morte viria logo após -, sobre uma cadeira de rodas. Tais imagens faziam parte de um dos filmes mais emocionantes que já vi: Os Vivos e os Mortos (1987).

Conta de um tempo onde os humanos tinham valores que os permitiam como seres de um seu meio: bem antes da "empobrecedora" globalização. Se é possível aludir a esses isolamentos milenares como os proporcionadores de alguns dos terríveis momentos de segregação, também é possível pinçar deles alguns dos capítulos mais belos de nossa existência.

Huston "pinçou" a história de um dos contos do divino "Os Dublinenses" (obra de James Joyce, tão imprescindível quanto seu maravilhoso "Ulysses"). O filme: "pequeno", testamental, feito com “muito coração”: raro retrato filmado de um momento comum - e como são contundentemente espantosos esses momentos comuns das pessoas e de seus locais.

Dentre várias belas cenas, duas se destacam na minha memória de então: aquele em que a câmera sobe lentamente as escadas, para adentrar, na sequência, ao quarto da velha tia - dona da casa onde se janta um jantar de festas natalinas - e pesquisar detalhadamente os pequenos objetos e fotos que contam sua vida desde a juventude.

O outro lindo instante se dá ao final (há muitos outros pelo filme), quando a sobrinha e o marido voltam a seu pequeno hotel e a câmera vagueia pela noite de uma Irlanda ancestral, sob muita neve como disse acima, para percorrer recantos, e as cruzes do cemitério.

Durante o filme, Angelica Huston e Donal McCann, junto com os outros, falam de vida, de tenores, de arte, do mundo. Mas a grande força está no imaginário de uma Irlanda ilha isolada em si, e no discurso interior que remete à finitude, à morte. Preciso revê-lo.

Abaixo, o belo discurso que encerra com sons as imagens do passeio das lentes noturnas:

“Sim, os jornais estavam certos: a neve cobria toda a Irlanda. Caía sobre toda a Planície Central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o Oeste, jazia Michael Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes de pequeno portão, nos espinhos estéreis. Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do Universo – como se lhe descesse a hora final – sobre todos os vivos e os mortos”.

Aqui, o último trecho do filme


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OPHELIA
17 de abril de 2012

A figura de Ophelia impregnada no inconsciente coletivo a partir da obra máxima “Hamlet”, de Shakespeare, por todos os séculos em que sobreviveu e povoou as mentes, representou quase automaticamente perpetuação da imagem da mulher como a simbolização da loucura, que leva à morte. Das figuras femininas de nossa formação, isolada dos contextos históricos ou religiosos, com certeza foi ela quem mais produziu referências e alusões.

Disseminada com a potência de um símbolo mitológico, obviamente ganhou status de extrema importância a partir do surgimento da psicanálise: instalada com muitas de suas bases tentando destrinchar os signos criados pela mente humana, observadora e criadora de mitos. A partir do fortalecimento dos estudos feministas já no século XX – que se contrapuseram frontalmente à primariedade conclusiva dessa psicanálise, que aditava à loucura e à subsequente morte a ideia dela como representação da histeria -, passou-se a perceber que a bela, rica, nobre e casta Ophelia, foi alvo misógino, figura frágil do sistema machista-patriarcal, que impregnou, inclusive com o auxílio do romantismo plástico do século XIX, um quase “cultuamento” à figura da mulher morta e exposta.

São muito vastos os estudos e análises a partir de sua imagem, e muito marcante a imagem plástica (do romantismo absoluto) criada por John Everett Millais: como é pictórica, talvez mais marcante até do que a figura da literatura. Ano passado, coincidentemente, dois filmes conseguiram embutir em suas histórias o desenho representado no quadro famoso: e todos os dois para exibir suas duas “Ophelias” como figuras que não encontrariam saída para os seus dramas senão na opção da morte/suicídio.

E dois filmes extremamente distantes geograficamente – e, na minha modéstia opinião, como cinema de qualidade, também -: num, da terra original da figura shakespeareana, Melancolia, de Lars Von Trier (filme quase insuportável em sua primeira metade – onde se tenta encontrar muito pelo em ovos -, mas belíssimo na segunda), há a recriação do quadro com a personagem Justine (interpretada por Kirsten Dunst) compondo “ao vivo” a tela pintada; no outro, Mãe e Filha, filmaço de Petrus Cariry, aqui no distante e um bocado mais quente Ceará, ocorre a inserção da imagem original (com suaves movimentos e detalhado percorrer da câmera aos detalhes), quase como um OVNI genial inserido na trama.


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GOSTO DE CEREJA
maio de 2012

É bem verdade que eu e muitos dos meus amigos, que tomamos o analisar ou se divertir com cinema como a maior das tarefas e prazer, temos certa mania em endeusar alguns diretores a mais do que talvez mereçam: vez por outra elegemos um como o gênio da vez, ou cismamos em bater os pezinhos para defender a diferença e autoralidade excepcional de mais alguns outros.

Bem, mas colocando esses pezinhos no chão, e o tino no lugar, mestres mesmo em atividade temos muito poucos. Nem vou levantar a bola para esses poucos que me imprimem com a capacidade de ensinar algo imprescindível com essa arte. Mas isolo um, desse pequeno e raro bolo, pois percebi que um filme seu específico (algo que se passa nos dez minutos finais) se faz anda mais influente em alguns planos futuros meus do que conscientemente percebia até então (algo um tanto ainda em quase segredo). O mestre: Abbas Kiarostami – quem há de contestar em sã consciência cinéfila. O filme de onde resulta tal influência: o todo ele maravilhoso (talvez seu melhor – até há pouco tempo achava que sim, mas o mestre não parou de avançar) Gosto de Cereja. Não por acaso, ganhador de uma Palma de Ouro em Cannes.

Filme mais maldito ainda no Irã do que o diretor já era, pois aborda a questão do suicido, que nos países onde o islamismo é levado a ferro, fogo e radicalismo, ganha mais impacto e condenação do que nos levados pelo cristianismo: que também descarta essa opção (que me parece justa, mas é caso de muita discussão) do ser humano. Há ali todo um Kiarostami em processo de aglomeração de influências externas, que se abria para o mundo: mas ainda retratando seu país do momento, ainda resgatando as ações de guerra com seu povo campesino e simples sendo tomado de roldão pelas maluquices institucionais, ainda querendo revelar o Irã como também fruto secular de pluralismo. Se lançava com observações catadas nas suas viagens, ainda num trabalho bastante iraniano (não singular: diverso). Porém, contribui definitivamente para a sensação de já percebê-lo pensando com outras influências a música negra americana (de tocada justa às dos funerais negros batistas) que acompanha os créditos finais.

Como contribui para senti-lo emotivamente iraniano (ou persa) ver durante toda a execução o contraste nas opiniões singelas e histórias de espanto ou incentivo diante da jornada de quem busca a morte e ainda teme a possibilidade de uma punição divina.


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MÃE E FILHO
12 de maio2012

A primeira vez que vi algo de Alexander Sokurov, quase avassalado imaginei que nada de mais importante iria surgir no cinema: ainda bem que esta arte, que faz parte importante de mim, é surpreendente e inconformada, e tantas coisas continuem a surgir para continuar me fazendo perder o chão.

O filme era a obra de arte irrepreensível, Mãe e Filho. Estávamos em 1997 ou 1998. Na história, um filho já adulto, abençoado pelos deuses por poder levar no colo quem o gerou para “olhar as coisas simples e boas”, em seu último dia de vida.

O andamento era de placidez que parecia aviltante até para alguns cinéfilos calejados, mas tal ritmo (que alongava o contato) cabia justamente no que se poderia almejar entre os desejos de quem estava partindo naquele momento e o que ficaria (sim, para partir em algum outro momento, também). Era algo que fazia visíveis dons que são etéreos, como a morte que leva o último suspiro, e o amor, que num dia, gerou o primeiro respiro.

Sokurov se apresentava de maneira “mágica”: e vinham notícias dele sendo discípulo de Tarkovski. A paisagem exterior não deixava dúvidas disso. As árvores de lugar gelado e parado, filmadas como representação de um modo de vida duro - e como que num milagre humano, dureza que aproxima demais os seres, por terem de se “aquecer” e proteger - poderiam ter sido obtidas de algum filme do mestre. Havia algo de paridade com a sacralização da natureza, como se ela fosse o Deus/destino/origem: algo que sempre se notou no trabalho de Andreij. Filme de emoção e amor humanos: que é muito maior do que os determinados por religiões.

Indo para além da beleza estupenda brotada da relação mais próxima possível que se dá naturalmente entre mães e seus filhos, quando digo que “era obra de arte irrepreensível” é porque o filme realmente transitava por outras vertentes das artes visuais. A paisagem suave e lentamente impactante era inspirada em quadros do pintor romântico alemão, Caspar David Friedrich. Mais do que isso: antes de vir ao mundo do cinema comercial, o filme participou como obra de artes plásticas na X Documenta de Kassel. E o que eu via naquela “21ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo” se apresentava como um mundo novo e sem retorno. Estavam lá na tela grande quadros de paisagens difusas, de cores improváveis, que pela velocidade empreendia poderiam mesmo parecer, por vezes, enormes obras penduradas na parede.

Era a novidade que sempre buscávamos a cada Mostra: mas essa surgiu com o apelo de ser absoluta novidade formalista animada (no sentido de “ânima” colocada no objeto que é fruto de matérias inanimadas); da beleza visual que atingia certeiramente as sensações mais entranhadas, mais primais, ao mesmo tempo em que tocava as mais complexas. Era belo e surpreendente por qualquer viés que se o observasse. Mas batia fundo no peito; fazia chorar... É bom chorar pelo belo.


Aqui, trecho do filme


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UMA OUTRA CINELÂNDIA - DAS HISTÓRIAS DOS TRABALHADORES
25 de maio de 2012 (texto original do Cudblog, 2009)

Um tanto por conta do auê todo que se criou em torno da bem-vinda reentrega do cine Marabá ao povo - como cinema, ainda, reformado e revigorado por um projeto arquitetônico de Ruy Otakhe que não se "conformou" em fazer apenas obra reverencial -, resolvi resgatar uma história que ouvia na casa de uns bons velhinhos que moravam em frente à minha, em tempos de adolescência e início de juventude, e que se transformaram em fonte de informações valiosas e carinhosas para mim, regadas a café e abastecidas por bolo de fubá, batatas doces, pinhões ou “zepolles”. Meus bons velhinhos, caipiras de Piramboia (cidade que não é mais cidade, na região da Sorocabana, São Paulo, berço das tradições interioranas mais autênticas), descendentes de italianos, dentre os quais um acabou por se fazer minha referência intelectual (já até o citei por aqui), Domingos Cipullo: a saber, os outros, suas irmãs, dona Mena e dona Noêmia.

Pois bem. De tanto ver e ouvir elogios à bem-vinda reforma, e reparar na miríade de entrevistas de saudosos conhecedores do que seria nossa Cinelândia (na região central, em torno da Praça da República, Avenida Ipiranga, São João - um centro mais novo do que o centro velho, mas também antigo o suficiente para causar reações saudosas e chorosas de quem o frequentou próximo da metade do século passado), lembrei com espanto o quanto não se falou de uma outra Cinelândia nossa, talvez mais antiga do que essa central (no mínimo contemporânea).

Essa Cinelândia cantada e declamada nestes últimos dias teve seu auge entre os anos 40 e 50 (metade do século como citei acima), mas lembro das conversas com meus vizinhos que falavam daquela existente na região do Brás (ao longo da avenida Rangel Pestana), que já tinha pujança e presença maciça desde tempos um tanto anteriores ao citado. Os cinemas na região começaram a ser construídos já no início do século (ou transformados, já que houver muitos que eram teatros na origem, e outros prédios que funcionavam como combinação de várias artes a mais). Diziam meus vizinhos que aos domingos, principalmente, a região tornava-se ideal para passeios e paqueras, coadjuvada por lojas de roupas e departamentos que mantinham vitrines acesas (não sei ao certo se abriam, também), acabando por manter um “verdadeiro clima de cidade europeia”.

Após o "footing", no início da noite, os passeantes seguiam à segunda etapa do programa que consistia em “todos para dentro” das inúmeras salas de espetáculo. Após, para os que tinham um pouco mais de grana, sobrava a maravilhosa opção do jantar num dos inúmeros restaurantes italianos da região - alguns existindo até hoje, inclusive, como é o caso da Cantina Giggio (na rua do Gasômetro), ou da famosíssima pizzaria Castelões (numa travessinha entre a própria Gasômetro e a Rangel) – há não muito tempo ainda funcionava também a Balila (no Gasômetro, também), com seu frango capão (cheguei a conhecê-la sim) inigualável.

Pesquisei rapidamente nomes de alguns cinemas da época e relembrei de alguns citados pelos irmãos Cipullo, como o “Teatro Colombo”, ou o “Braz Politheama” (de 1921, portanto bem mais antigo que o Marabá), “Íris”, “Glória” ou ainda o enorme “Piratininga” (dos anos 40, o maior cinema do Brasil, como ainda lembram as letras quase apagadas em sua fachada abandonada - dizem que comportava cerca de 5000 pessoas, e que tinha tantas colunas para sustentar seu teto que era necessário um bom jogo de pescoço para quem quisesse ver o filme na íntegra). Já no final dos 30 e início dos 40 (portanto, no período do surgimento forte da “Cinelândia oficial”), apareceram o “Roxy”, o “Babilônia” e o “Universo” - este último, com a invejável modernidade de um teto retrátil, que permanecia aberto em noites quentes e estreladas.

Desde a primeira década do século XX já existiam cinemas em quantidade razoável nessa região de colonização basicamente italiana. Pensar na falta de aprofundamento que o “oba-oba” (inclusive jornalístico, que deveria ser mais sério em suas pesquisas) da reinauguração do Marabá instituiu, me faz intuir em classes mais abastadas ditando as regras e contando a história sob sua ótica, somente – como se excluíssem, por razões perceptíveis, os “pobres” trabalhadores, de região basicamente composta por imigrantes, da possibilidade de serem parte importante e atuante no “jogo cultural da cidade”. Com a conivência do imediatismo dos tempos atuais, esquece-se a possibilidade das belas histórias que ouvi, e outros milhares também ouviram (provavelmente com imperfeições e equívocos no relato dos dados e datas, e da realidade sobre ter sido lá nossa primeira Cinelândia, mas movidos por fatores compreensivelmente humanos de quem vivia em seu rincão), e abre-se uma porta duvidosa que revela, talvez, o quanto não eram daqui – na ideia dos “daqui mais antigos”, a elite paulistana – os que trabalhavam cotidianamente para se divertir um pouco nos finais de semana.

De qualquer modo, é tremendamente bom saber que o Marabá ressurgiu e que outros da região central ainda podem ter a mesma chance, como o Marrocos ou os Ipiranga. De qualquer modo é triste saber que a Cinelândia do Brás não tem a mínima chance de ressurgir, portanto, fazendo-me dar muito mais valor às “histórias” que ouvia desses meus queridos vizinhos. A propósito: Dona Noêmia ainda está viva e lépida nos seus jovens 91 anos de idade.

Uma lista dos cinemas da região, resgatadas do “Almanack Paulistano”:

- “Eden Theatre”, de 1908 (rua do Gasômetro)
- “Teatro Colombo”, de 1908 (largo da Concórdia)
- “Cinema Popular”, 1909 (avenida Rangel Pestana)
- “Piratininga”, (o primeiro) 1910 (avenida Rangel Pestana)
- “Amerikan Cinema”, 1911 (avenida Celso Garcia)
- “Brás Bijou”, 1911 (avenida Rangel Pestana)
- “Isis Theatre”, 1911 (rua do Gasômetro)
- “Pavilhão Oriente”, 1911 (endereço desconhecido)
- “Ideal”, 1912 (rua do Gasômetro)
- “Avenida”, 1913 (avenida Rangel Pestana)
- “Eros”, 1913 (rua Piratininga)
- “Salão de Cinema”, 1913 (avenida Rangel Pestana)
- “São José”, 1914 (rua São José)
- “Polytheama”, 1914 (avenida Celso Garcia)
- “Celso Garcia”, 1914 (na própria)
- “Mafalda”, final dos anos 10 (avenida Rangel Pestana)
- “Olímpia”, começo dos 20 (avenida Rangel Pestana)
- “Oberdã”, 1929 (rua Firmino Whitaker)
- “Babilônia”, meados dos 30 (avenida Rangel Pestana)
- “Roxy,” final dos 30 (avenida Celso Garcia)
- “Universo”, final dos 30 (avenida Celso Garcia)
- “Piratininga”, (o grande) anos 40 (avenida Rangel Pestana)


FOTO 1 Os Vivos e os Mortos
FOTO 2 Ophelia (pintura de Sir John Everett Millais, 1829 1896)
FOTO 3 Melancolia (filme de Lars Von Trier)
FOTO 4 Gosto de Cereja
FOTO 5 Mãe e Filho
FOTO 6 Cine Oberdan, de 1927 (Rua Xavantes, Brás, São Paulo)




Em tempos de muita dedicação ás redes sociais na Internet (atualmente de modo maios nítido ao Facebook), para onde respingos da produção de Cid Nader têm derivado e ganhado vida, talvez fosse desperdício não aproveitar alguns desses instantes de inspiração mais leve. Surge, portanto, agora, a coluna que abrigará no site trechos dessa produção: trechos poderão até contar com análises mais densas, mas mantendo sempre o nível de pessoalidade/informalidade tão mais comum ao espaço nascedouro. Mensal, e sempre com diversos assuntos referentes ao cinema.