Fonte: [+] [-]





15ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Cinequanon)


*Quarta-Feira + Moção de Repúdio, em São Paulo

Por Cid Nader

Ontem,antes do início da sessão do longa Corpo Presente, o ator Marat Descartes pediu alguns minutinhos de atenção (coisa que em outros eventos causaria reclamação, mas que faz notar a diferença do público daqui) para ler a mesma Moção de Repúdio a atos dos governos de São Paulo que havia sido elaborada pelos artistas, e lida já no dia anterior, por Juliana Rojas, na cerimônia de premiação (Prêmio Governador do Estado – SP) de seu filme Trabalhar Cansa: o que parece ter causado um certo desconforto naquele momento – ainda bem. A plateia de Tiradentes ouviu em silêncio, para ao término, aplaudir em pé e visivelmente emocionada.

Portanto, antes dos textos sobre os filmes vistos, publicaremos o que foi lido:

“Moção de repúdio à política do coturno em Pinheirinho

De um lado, pelo menos 1.600 famílias que lutam pelo direito de morar no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), ocupação que tem oito anos de existência. Do outro, mais de 2.000 policiais militares e civis cumprindo ordens da Justiça Estadual e da Prefeitura de São José dos Campos, em favor da massa falida da empresa Selecta, pertencente ao mega-especulador Naji Nahas. Ainda que não houvesse outras circunstâncias agravantes no caso, já seria possível constatar que as instâncias dos poderes executivo e judiciário fizeram a opção, em Pinheirinho, pela lei que protege a especulação imobiliária, em detrimento do direito das pessoas à moradia. Vence mais uma vez a política do coturno em prol do capital.
De um lado, bombas, armas, gases, helicópteros, tropa de choque. Do outro, dois revólveres apreendidos. Não há notícia de que tenham sido usados. Uma praça de guerra é instalada – numa batalha em que um exército ataca civis. Não há plano de realocação das famílias. As que não conseguiram ou não quiseram fugir, ou receberam dinheiro para passagens para outras cidades, ou estão sendo mantidas cercadas, com comida racionada, como num campo de concentração. A imprensa não pode entrar no local, não pode fazer entrevistas, e os hospitais da região não podem informar sobre mortos e feridos. O que se quer esconder? O Governo do Estado lavou as mãos diante do caso, assim como o Superior Tribunal de Justiça. O Governo Federal tardou em agir. A chamada “função social da propriedade”, prevista na Constituição Brasileira, revelou-se assim como peça de ficção, justamente onde a ficção não deveria ser permitida.
Mais uma vez, o Estado assume o papel de “testa de ferro” para as estripulias financeiras da “selecta” casta de milionários e bilionários. A política do coturno em prol do capital vem ganhando espaço. Assim está acontecendo na higienização do bairro da Luz, em São Paulo, preparando-o para a especulação imobiliária; assim vem acontecendo na repressão ao movimento estudantil na USP, minando a resistência à privatização do ensino; assim acontece no campo brasileiro há tanto tempo, em defesa do agronegócio. Os exemplos se multiplicam. E não nos parece fato isolado que, hoje, a quase totalidade dos subprefeitos da cidade de São Paulo sejam coronéis da reserva da PM. Nós, trabalhadores artistas, expressamos nosso repúdio veemente a esse tipo de política. Mais 1.600 famílias estão nas ruas: a lei foi cumprida. Para quem?”



FILME • MOSTRA PANORAMA • SESSÃO DE CURTAS

Da Origem, de Fábio Baldo. Brasil (SP), 2011. Ficção – Cor – 35mm – 19min. (FOTO 2)

Para criar uma metáfora/alegoria dos tempos modernos, onde a competição entre os homens (para sobrevivência, ou por poder, simplesmente) faz com que se perca o dom da “racionalidade”, Fábio Baldo foi aos primórdios e criou toda uma cenografia que remete aos tempos do homem nos tempos em que ainda descobria o fogo, e com isso, a capacidade de assar seu alimento (a inveja teria surgido da possibilidade na modificação do paladar e da textura dos animais caçados...). O que fica como marca até impressionante é que ele acaba invadindo um modelo bem pouco comum de se ver no universo dos curtas: com reconstituição de época tão remota (não é tão comum vemos filmes de “época” no formato) servindo de abrigo a todo o trajeto percorrido pela película. Fica-se com a impressão, bem possível também, de assistir ao trabalho como obra de entretenimento à cinemão.

É nato um tanto estranha tal atitude tão elaborada diretamente no espaço físico utilizado, sem que tal elaboração não tenha sido originada dos atos técnicos. Agrada sim, pois é bem competente (e também porque é muito bem filmado), e passa o seu recado no curto espaço que o curta-metragem concede para tal. Então, por que se ficar com dúvidas? Fábio, talvez tenha encontrado no modo mais normal do cinema uma outra opção de trânsito. Então, resta simplesmente aproveitá-lo.


Dois, de Thiago Ricarte. Brasil (SP), 2012. Ficção – Cor – 35mm – 16min. (FOTO 3)

O “garoto” Thiago Ricarte parece ter optado pela singeleza como um dos caminhos que farão com sua obra ganhe reconhecimento: singeleza que não se baseia em esvaziamento do campo de visão com economia de cuidados m favor de criar espaço mais livre para e emoção repassada; singeleza que não é obtida de histórias padrão cartilha (e nem que sejam tão ousadas, mas respeitadas dentro dos padrões de um cinema que ser completo por todos so aspectos). Com o Chapa, exerceu seu domínio pela execução de um documentário, e aqui, com Dois, utiliza sua boa noção ingressando numa história ficcional.

E é tão singelo quanto bem feito o filme: que abraça com lentes bem manuseadas a enormidade de um parque em São Paulo, fazendo com que esse parque venha a “abraçar”, por sua vez, típicos adolescentes dos tempos modernos, sem caricaturizá-los para que viessem a servir de mote de atração tão comum quanto acomodado quanto é comum pela ânsia de algumas das artes modernas. O filme segue um ritmo natural de percurso, e aproveita o procedimento dos moleques (plácido e feliz – mesmo que o mundo e o entorno não lhes esteja sorrindo e exija outras atitudes imprevistas no “seu roteiro” particular), criando linearidade entre fluxo narrativo e narrativa de tema. As atuações contribuem para isso, já que não há excessos e eles conseguem com competência serem justos ao que curta exigia para que o casamento entre a confecção e os elementos que a animariam fosse perfeito. Bom ver esse tempo da vida do ser humano – a adolescência – retratado com a dignidade que é devida a ele.


Nem a Ti Nem a Mim, de Tomás Von der Osten. Brasil (PR), 2011. Ficção – Cor – Digital – 14min. (FOTO 4)

Tomás Von der Osten realizou ano passado um documentário que alcançou tremendo sucesso – feito todo sobre a pintura de um rosto e que falava de reconhecimento familiar. Aparentemente mão é diretor que busque caminhos mais fluidos à compreensão quando se constata esse seu outro curta: Nem a Ti Nem a Mim. Cifrado, montado em torno de reações muito interiores e particulares às duas protagonistas que se encontram em frente ao mar. Ao abdicar da compreensão fácil, da explicação, mas mesmo assim fazendo do texto um bom quinhão do trabalho (por palavras dispostas escritas na tela, ou por pensamentos tomando o lugar dos diálogos), e ao utilizar imagens que se fundem por processos não comuns de emendas e sem que a ordem cronológica fosse realmente a opção de orientação, reforça sua tendência anterior e faz entender que trabalha (trabalhará) dentro de outras “ondas” que são muito aceitas no mundo dos curtas. Isso é bom, mas, nesse caso, algo de ficar muito no ar dificulta guardar seus momentos na retina.


Os Mortos-Vivos, de Anita Rocha da Silveira. Brasil (RJ), 2012. Ficção – Cor – 35mm – 19min. (FOTO 5)

Dos tempos modernos: poderia ser um resumo bem explicador do que é o curta Os Mortos-Vivos. Trata sobre a necessidade entre a “urgência” de mensagens que “deverão” ser entregues, mesmo que o endereçado esteja trafegando em outras ondas da modernidade – num determinado instante. Anita Rocha da Silveira havia feito recentemente Handebol, que também trata do mundo jovem, mas que se faz mais linear e “oferecido” à compreensão. Aqui, direcionou seus esforços para a elaboração da edição tentando ser o que mais contaria dessa complexidade que mistura e funde essa “modernidade” ao jeito jovem de ser. Consegue bons momentos de imagens compostas (compostas artesanalmente para serem capturadas pelas lentes), enquanto não parece tão feliz nas opções arranjadas por métodos não artesanais.


FILME • CURTAS NA PRAÇA • SESSÃO DE CURTAS

Sambatown, de Cadu Macedo. Brasil (BA), 2011. Animação – Cor – 35mm – 05min. (FOTO 6)

Enquanto Samabatown caminha com malemolência, com a exibição ostensiva de seus personagens negros alongados e bem traçados,suas cores suaves, e insinuações de reações destacadas dos corpos para servir de outro elemento compositor do quadro – sorrisos que se fazem por traço exterior, “entre títulos” como sinais de aviso, por exemplo -, a animação de Cadu Macedo se dá bem: mesmo sendo óbvia concretização que está nesses instantes mais para se mostrar como trabalho e estilo, acima de um “contar histórias”. De traços contínuos com tendências retilíneas – muito mal comparado poderia se pensar em J. Carlos (com muito mais sentido de movimento e humor embutido dentro do que aprisionam), mas mais justo entendê-los no sentido de um modismo que até parece ter servido de referência/predileção, pela curadoria aqui de Brasília -, cores simples sem interferências para destacar a negritude dos personagens masculinos, que ganham “vida” e movimento dentro do vestido da mulata que provocará a reviravolta na pacatez, e no ritmo, o trabalho não assusta e parece que se dará bem.


Só que os ciúmes mudam o rumo, fazendo com o que centro de trânsito mude de caráter (deslocando o ponto físico dos cenários, e alterando a estrutura até então malemolente), tanto quanto insinuando que a intenção maior de atração pensada pelo diretor estava nesse desviar de ritmo em busca de uma catarse comum, em busca de um desfecho que talvez o filme não necessitasse, retirando-o de uma confortável posição onde podia ser observado como modelo de execução, para colocá-lo com condições de dramaticidade a imperar seu ser: dramaticidade de opacidade.


Trocam-se Bolinhos por Histórias de Vida, de Denise Marchi. Brasil (RS), 2011. Ficção – Cor – Digital – 15min. (FOTO 7)

Pode uma história singela e correta, com ideias até interessantes, que busca capricho cênico e elabora uma trama a partir de um mote inédito ser considerada como um equívoco total? Trocam-se Bolinhos Por Histórias de Amor pode ser visto como um exemplo clássico do quanto a má confecção de um filme (sob os tais aspectos técnicos e estéticos pelos quais tanto prezo) estraga completamente algo que poderia até render algo de bom.

A diretora Denise Marchi parece que trabalhará logo de cara com a dispensável contraluz agindo como um fator pelo qual prezará como opção – o que já representaria um grande equívoco por si só. Mas é pior, e o que se percebe logo é que não há uma correta pontuação da iluminação, que a luz atravessará por quase o tempo todo os caminhos do trabalho, e que imagens em movimento não podem sobreviver a tal atentado. Há o erro, a desatenção – ou a percepção de que isso não importa tanto, o que seria horrível – e, não há um filme, só a boa intenção da história.


L, de Thaís Fujinaga. Brasil (SP), 2011. Ficção – Cor – 35mm – 21min. (FOTO 8)

Thais Fujinaga vai direto ao ponto nesse seu curta-metragem (que tem tido receptividade espantosa e amealhado um bocado de prêmios). Traz para as telas a relação infantil, com algumas das nuances possíveis de serem exploradas sendo tratadas com carinho e correção. Conta a de uma garota magra e de pés grandes, e de um chinesinho, que tem como pontos de contato inicial os fatos de, morarem em São Paulo e frequentar a mesma escola de natação. O modo como o relacionamento (fora das águas da piscina) entre os dois se estabelece é gerado por situação improvável, mas a sequência no estreitamento dos contatos segue por rumo interessante – e bem longe da simples e imaginária confluência lúdica a que os deuses designariam os espíritos infantis: vale lembrar que para a garota os pés grandes são seu drama, e o cabelo “ruim” do moleque deve também ser seu carma.

A diretora consegue, com o decorrer do trabalho, ir se afastando de armadilhas que, parecia, seriam intransponíveis. Não permitindo que as “maldades” infantis sobrepusessem arrogante e imperiosamente os tais caminhos lúdicos imaginados como os mais naturais, colocando equilíbrio nos fatos consequentes dos atos mais fortes (digamos), ela foi ajeitando a trama de maneira a que transcorresse fluidamente na narrativa. Contou com a surpreendentemente boa atuação dos dois atores mirins, não permitiu que o irreparável como o ponto final (muito ao contrário), e manteve (aí sim, desde o início) muita qualidade em boas captações de imagens: bonitas, algumas; difíceis de serem obtidas, outras; bem elaboradas com atitudes estéticas (por procedimentos técnicos das lentes e da edição), mais outras.

Depois de vê-lo temos a impressão de que perecerá rapidamente na memória (sem que isso signifique fraqueza, mas como um fato comum no modelo): mas nada. O filme permanece “dialogando”, além de bem presente na retina.


FILME • MOSTRA FOCO • SESSÃO DE CURTAS

Mais Denso que Sangue, de Ian Abé. Brasil (PB), 2011. Ficção – Cor – Digital – 15min. (FOTO 9)

Como que para reforçar a certeza de que se produz muito na Paraíba hoje em dia; como que para se re-perceber que além de se estar produzindo muito por lá, quase sempre há a intenção de explanação de características bastantes jovens na maneira de manipulação; como que para se notar os trabalhos de lá, também, algo que lembra dessa interação dos jovens de lá com o que acontece no mundo (com referências de cineastas e cinemas quase sempre obtidos pelo auxílio da aproximação criada pela Internet).

É muito disso, é tudo isso que Mais Denso que Sangue é. Filme descompromissado com veracidades, que busca por chacota questionar o “bonzinho instituído” (ver Jesus revoltado, em busca de vingança, perseguindo alguém, sobre moto veloz, não é todo dia, convenhamos), que capricha nas tomadas e na execução de planos, que exagera no sangue artificial, e que faz de violência estilizada algo bem voltado às referências (pode-se pensar em Johnnie To, fácil fácil). Para se ver sem preconceitos, e sabendo que é fruto de onde brotam, esperança e novidades.


Máscara Negra, de Rene Brasil. Brasil (SP), 2011. Ficção – Cor – 35mm – 15min. (FOTO 10)

O curta Máscara Negra com certeza remete a poder pensá-lo por duas possibilidades de compreensão. Na primeira, na que remete à apreciação do público, percebe-se um trabalho preciso, com ritmo e tempos ajustados o suficiente para que o espectador possa aproveitar, aditados pela essência que pode ser compreendida como a do brincar sem culpas sobre temas que hoje em dia geram pitos e acuações sobre preconceitos e simplificações de análises. Rene Brasil conta a história de uma noite de carnaval, que em tempos antigos se tornaram célebres por romperem barreiras, fazendo com que tudo o que cheirava a pecado ou incorreção pudesse ser esquecido momentaneamente. Em se pensando assim, o diretor pode curtir o evidente sucesso que seu filme faz junto ao público, pois estaria explorando temática com a perspicácia de quanto renderia bem como mote num curta, com o mesmo grau de “inocência” que fazia do país terra mais distante de conflitos mais complexos – e indo um tanto além das marchinhas na decorrência da situação. Não há exageros pirotécnicos, as filmagens e edição são corretas, mas algumas atuações ficam abaixo do desejável.

Na segunda maneira de se encarar o trabalho, pode-se questionar a opção – que seria simplista – de Rene, ao tratar uma relação, que de um lado se instala evidentemente por uma espécie de paixão súbita, enquanto o outro lado quase entra em parafuso pelo ato que praticou, teoricamente ensandecido pela folia de uma noite, como se fosse “somente” um caso bom para funcionar em cima de expectativas de público que queira rir sem questionar. Nem creio que seja o caso de cobrar ação politicamente correta em todos os casos da vida (muito ao contrário, creio piamente que agir sempre se pensando em não ofender é estranho e equivocado), mas é que o filme insinua levar a caminhos que fazem um lado da questão a ter de se submeter ao outro enquanto esse outro se envergonha do primeiro: o que cria uma sensação de submissão injusta – ou o desfecho propõe o contrário?. Ficam, portanto, duas possibilidades importantes e válidas de se encarar o curta.


Quando Morremos a Noite, de Eduardo Morotó. Brasil (RJ), 2011. Ficção – Cor – 35mm – 20min. (FOTO 11)

Sem saber até agora o quanto a luz complicada de Quando Morremos à Noite é escura de maneira proposital, ou por desleixo na captação das imagens, ou ainda por conta da projeção – por todo o tempo um filme extremamente escuro (uma boa parte das situações se passa em locais de pouca iluminação mesmo, mas há momentos em que não conseguia aceitar a continuidade do estado de breu) -, o que mais chama a atenção nessa trama baseada, de modo bastante fiel e justo, em Bukowski, é que ela continua impregnada após a sessão, crescendo em relembranças a cada pensada voltada a ela. Um filme sujo, com pessoas (um homem cinquentão, e uma menina de seus vinte e poucos anos) meio ferradas pela vida, apegadas à bebida como uma tábua de equilíbrio que se sabe o quão instável é, e que acabam reconhecendo-se almas parelhas nessa semi-marginalização auto-imposta.

De um filme que toma tal modelo de comportamento como o meio de revelação de seus personagens espera-se sempre concisão na dramaticidade, secura na narrativa e no andamento, placidez ao invés de euforia, e conjugação quase simbiótica entre os que lhe emprestarão alma. Relações doentias (sob o ponto de vista social comum) concedem pouco para que obras de arte as reproduzam, e saber andar com esse pouco combustível, com esse pouco incentivo, exige, do artista que for, sabedoria. Eduardo Morotó soube muito bem captar essas verdades para fazer seu curta, que a princípio parecia muito semelhante a congêneres, mas que o tempo passando está se encarregando de mostrar que é um tanto a mais. E filmes que continuam vivos e em deslocação nos sentidos, merecem sempre que esses sentidos procurem saber o por quê?

FILME • MOSTRA AURORA • LONGA PRÉ-ESTREIA MUNDIAL

Corpo Presente, de Marcelo Toledo, Paulo Gregori. Brasil (SP), 2011. Ficção – Cor – Digital – 75min. (FOTO 14)

Homenagem à “Boca do Lixo”. Simploriamente poder-se-ia reduzir todo o elaborado de Corpo Presente a uma grade homenagem feita ao mais profícuo e identificador dos modelos de cinema nascidos na cidade de São Paulo. Estão lá as citações diretas a atores do momento: participam do filme Darlene Glória, David Cardoso, Selma Egrey, Neide Ribeiro; estão lá trabalhando com mais afinco, na frente das lentes também o diretor e roteirista Alfedo Sternheim, e por trás delas o maior fotógrafo daquele instante, Aloysio Raulino (aliás, como que de maneira redundante criando uma fotografia espetacular para o filme); mais figuras paulistanas absolutamente ligadas ao momento e ao que se faz hoje, mas que trabalham hoje em dia sempre tendo em mente aquele momento (desde gente do roteiro, a outros que participam afetivamente de fugazes instantes).

Quando se nota que, mesmo mantendo a “Boca” como uma possível unificadora de anseios que levaram muitas das pessoas envolvidas com o filme a gostarem dessa arte, o trabalho remete a reconhecimentos diversos da cidade de São Paulo, e das relações dessas pessoas para com ela, como uma outra boa fonte de se poder entendê-lo ou simplesmente captá-lo: trafega por lugares iconográficos da cidade (principalmente pela galeria da rua 24 de maio); por regiões de periferia marcante pela aridez (como o caso da zona norte em direção do centro, ou o enorme cemitério da Vila Alpina); a lateral do cemitério da Consolação em direção à curva mirabolante que Alberto (agente funerário interpretado magistralmente por Marat Descartes) faz no sentido da rua Augusta (Boca e rua Augusta...); a boate iluminada e fake (novamente na rua Augusta); o típico salão de cabeleireiro; ou o céu cinzento e ameaçador (e os trovões), sempre jorrando numa cidade que se marca por isso, pelos mais diversos motivos.

Pensar nele como uma conclusão de um trabalho quase laboratorial de Paulo Gregori e Marcelo Toledo executado por anos na confecção de curtas-metragens que um dia desembocariam num longa (que parecia peça de Frankstein, já que era história corrente, aguardada por se insinuar via conversas como algo resultante de compilações), também significa classificá-lo com acerto: nas intermediárias do trabalho concluído, nota-se trechos desses curtas fazendo parte da história, montados de forma tão generosa e carinhosa que não se faz possível reconhecê-las por impacto ou diferença na narrativa (nem por disparidades de iluminação ou granulação), a não ser por quem já as conhecia de outras histórias. A homenagem (torta que seja) à cidade e ao seu maior movimento de cinema (como não lembrar de Jairo Ferreira), na realidade, retrata gostos e opções de vida muito particulares dos diretores, acima de tudo. Trabalho que também homenageia uma amplidão particular deles por cinemas de outras partes – que se notem os cartazes de filmes, ou a sala decadente, ou que se fique com a marca genial da dança final, muito cópia da obra de Fassbinder.

Ao optarem por montá-lo quase que como aglomeração de esquetes (já que os personagens não são singulares em suas “duplas vidas”), criaram a sensação rara de que se passeia por setores de referências, que são estanques, pelas origens e pelos momentos em que nasceram, e impediram que se fixasse a mais a atenção no que se reverenciava, e ao que se referenciava. A fluidez e facilidade de acompanhamento tem boa parte dessa sorte por essa razão. Não se fala de vidas fáceis aqui, mas se sabe como falar para que o peso dos dramas não ficasse como marca maior do que a execução de cinema que eles concretizaram.






























Leia as matérias deste festival:

*Abertura/Billi Pig
*Sábado só com críticas
*Domingo
*Segunda-Feira
*Terça-Feira: novamente críticas.
*Quarta-Feira + Moção de Repúdio, em São Paulo
*Quinta-Feira
*Sexta-Feira
*Premiação
*Filmes aos quais devíamos críticas