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Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Cinequanon)


*Domingo (02/10)

Por Cid Nader

Última noite de competição, com Brasília mais refrescada e úmida pala chuva que caiu suavemente desde o final da tarde. Com o festival também mais refrescado pela diminuição das cobranças – que não devem ser cessadas, já que há coisas a serem modificadas (como a projeção das produções daqui em horário mais acessível, por exemplo; ou a ameaça no número de produções exibidas para o ano que vem) -, já que aparentemente os seminários renderam bem, e ficou evidente que espalhar o evento por vários lugares é muito justo (estiveram sempre lotados). Sem muito tempo agora, tentarei falar um pouco mais num apanhado geral sobre o festival.


MOSTRA COMPETITIVA

Curta-Metragem

Ciclo, de Lucas Marques Sampaio. DF, 2011. Animação, 04 min. (FOTO 2)

Como se fosse um padrão retirado de tendência nacional no mundo dos traços – o que realmente não é uma realidade -, a maior parte das animações do Festival de Brasília foram de construção via traços (diretos ou sobre superfícies que tomariam a função de deslocamento), com uma repetição de 2D que até chegou a passar a impressão de originadas e um mesmo estúdio. Opção determinada evidentemente por gosto pessoal das pessoas envolvidas na escolha dos trabalhos, que reduziu a possibilidade de trânsito de gama maior de técnicas, e que raramente revelou trabalhos de importância real (com um exceção de um ou dois).

Ciclo parece obra da década de setenta (pela temática, que remete a pavores e medos que movem as definições dos personagens e cenários, constantemente, para serem transformadas em outra coisa; com evidente indecisão nos traços em si, o que poderia ser creditado ao fato de o diretor ter criado o curta ainda em fase de estudante de artes visuais), que carrega um ranço dispensável, principalmente por parecer caricatura de copiada em baixa definição.


Rái Sossaith, de Thomate. SP, 2010. Animação, 10 min. (FOTO 3)

Com desenho bastante alterado nas características (hiper-traços faciais, estouro nas cores, descaracterização proposital do entorno para reforçar que o filme falava de um mundo em que os mortais comuns não são convidados), o diretor Thomate pensou estar construindo uma obra que pudesse referir a Alan Sieber, ou Otto Guerra. Se essa era mesmo a intenção, conseguiu reverenciá-los justamente nas bases de seus trabalhos onde são mais questionáveis, já que Rái Sossaith tem pegada inconformista que parece anti-natural (o desejo de chocar não parece advindo de revolta realmente crível – no caso, contra as elites de Ribeirão Preto, em São Paulo), traços que na realidade reforçam na maticidade e na estranheza, mas que não entregam personagens realmente expressivos das “intenções denunciadoras” (inclusive com uma falha – opção? – bastante comum aos dois citados, que dispensa atenção à movimentação dos personagens satélite), e com um humor que de corrosivo mesmo tem muito pouco (já que a aposta nas intempéries proferidas parecem pensadas para atingir, ao invés de feitas para atingir – há uma diferença entre essas duas possibilidades que nem sutil é).


L, de Thaís Fujinaga. SP, 2011. Ficção, 21 min. (FOTO 4)

Thais Fujinaga vai direto ao ponto nesse seu curta-metragem (que tem tido receptividade espantosa e amealhado um bocado de prêmios). Traz para as telas a relação infantil, com algumas das nuances possíveis de serem exploradas sendo tratadas com carinho e correção. Conta a de uma garota magra e de pés grandes, e de um chinesinho, que tem como pontos de contato inicial os fatos de, morarem em São Paulo e frequentar a mesma escola de natação. O modo como o relacionamento (fora das águas da piscina) entre os dois se estabelece é gerado por situação improvável, mas a sequência no estreitamento dos contatos segue por rumo interessante – e bem longe da simples e imaginária confluência lúdica a que os deuses designariam os espíritos infantis: vale lembrar que para a garota os pés grandes são seu drama, e o cabelo “ruim” do moleque deve também ser seu carma.

A diretora consegue, com o decorrer do trabalho, ir se afastando de armadilhas que, parecia, seriam intransponíveis. Não permitindo que as “maldades” infantis sobrepusessem arrogante e imperiosamente os tais caminhos lúdicos imaginados como os mais naturais, colocando equilíbrio nos fatos consequentes dos atos mais fortes (digamos), ela foi ajeitando a trama de maneira a que transcorresse fluidamente na narrativa. Contou com a surpreendentemente boa atuação dos dois atores mirins, não permitiu que o irreparável como o ponto final (muito ao contrário), e manteve (aí sim, desde o início) muita qualidade em boas captações de imagens: bonitas, algumas; difíceis de serem obtidas, outras; bem elaboradas com atitudes estéticas (por procedimentos técnicos das lentes e da edição), mais outras.

Depois de vê-lo temos a impressão de que perecerá rapidamente na memória (sem que isso signifique fraqueza, mas como um fato comum no modelo): mas nada. O filme permanece “dialogando”, além de bem presente na retina.


Longa-Metragem

Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper. RJ, 2011. Documentário, 76 min. (FOTO 6)

Quando a companheira câmera de Ana Rieper acompanha por um longo período uma bicicleta equipada com dois alto falantes e uma engenhoca, que é a responsável por executar a mídia de onde o som de uma das muitas músicas “bregas” que recheiam o doc sai (justamente a “Vou Rifar Meu Coração”), pode-se perceber que, isolando o ato como uma espécie de exemplo geral (de intenções e atitudes práticas), seu documentário observa os seus entrevistados e respectivos mundos com um olhar no mesmo patamar, horizontal, na mesma altura, sem que qualquer observação vinda de um olhar superior possa indicar alguma subjugação dos dados a compreensões paternalistas e mistificadoras. Na realidade, num trabalho onde muitas das cenas em movimento são captadas do rés do chão (o que resulta imagens notáveis das pobres localizações geográficas buscadas como portos dos seres que interessavam – percebe-se o quão coladas e similares são essas construções, normalmente baixas, e o quanto a captação, com travellings e acompanhamentos conduzidos por veículos, criou impressões raras de estabelecimento e aproximação com a ideia que se tem formada no imaginário amplo sobre tais localidades), pensar que o risco constante que o assunto poderia inferir era o maior desafio a ser superado (a armadilha fácil que, utilizada, poderia cooptar o público, enquanto se maltrata as individualidades abordadas), ver atitudes técnicas já agindo automaticamente para escantear os fantasmas revela muitas de suas qualidades.

Sim, porque por mais que se pudesse pensar em adotar ações discursivas para reforçar que a observação desse mundo das músicas mais do povão (das pessoas que são a maior cara do Brasil, afinal) não é criadouro ideal para fermentar ações de piadas e jocosidades, não seria justo para com a arte que tais posições não se dessem, também – ou, principalmente -, pela utilização das ferramentas e lógicas que a arte exige para que se construam trabalhos dentro dela. E a impressão que todo o tempo da projeção deixa é de que se soube aproveitar muito bem as características das pessoas fãs, e dos ídolos (músicos), com idiossincrasias preenchendo quantitativamente os momentos, sem que o medo de que tal observação tão próxima pudesse parecer a de quem vê de cima, e sem o medo de que deixar a plateia mergulhar divertidamente no resultado obtido pelas histórias contadas. Parece que a diretora foi precisa ao não querer ser politicamente correta para pensar em seu filme concluido (o que sempre acaba por engessar, deixando a impressão de que se está vendo um trabalho das entidades de defesas espalhadas mundo afora), tanto quanto ficou evidente que o riso provocado pelas impressões de mundos particulares resultaram de explanações reais, muito ao modo de nosso povo.

Um amigo logo após a exibição questionou sobre se o filme não seria preconceituoso, logo dando como exemplo uma dança entre um casal homossexual masculino, e o fato de não terem dado depoimentos à diretora. É tão estarrecedora tal visão quanto simplista, quanto ainda carregada ela mesma de preconceitos, porque a partir de que se faça obrigação sempre e sempre dar a voz às “minorias”, mais se faz nítido que não há uma verdadeira capturação desses setores para dentro da normalidade social. Tanto quanto o documentário observa e ouve histórias absolutamente voltadas a poderem ser entendidas como de caráter pitoresco, por exemplo, sem interferência ou condução, também não se vê obrigado a detalhar tudo e a todos, o que me fez intuí-lo como obra que pensa nesse todo que preenche os seus espaços como “coisas” naturais da vida. O medo e a necessidade de termos de nos explicar a cada passo dado enfraquece as opiniões e refletem uma necessidade exagerada de parecermos “cara limpa” em tempo integral: e nunca é bom confiar demais em quem precisa se mostrar sempre por atos e palavras escancarados.

Quanto ao filme e seus dados mais concretos: há histórias tão inacreditáveis que parecem coisa inventada (a do prefeito e suas mulheres, com os nomes de seus muitos filhos sempre iniciando com o mesmo prefixo, e que termina genialmente com sua mulher se segurando tensa enquanto ele relata sua vida dupla, para concretizar mesmo com ele sutilmente palitando os dentes, quando da vez dela emitir suas opiniões; os vaticínios embriagados de três mulheres – com opiniões rápidas e incisivas de uma delas que beiram a perfeição -; as histórias de amor; os depoimentos sempre contundentes e estranhos de Agnaldo Timóteo; a chance para Lyndomar Castilho, cantor famoso na década de setenta que matou sua mulher), e muitas, muitas músicas sendo executadas. Num trabalho que não é extremamente rigoroso formalisticamente, mas competente e até amplo no que tenta - e realmente fruto de extensa busca de personagens (trabalho que deve ter sido bastante demorado, já que espalhado por boas partes do país) -, o que fica mais fortemente marcado é que bota na tela aquelas pessoas “feias” que são normalmente excluidas da frente das lentes (algo que Edgard Navarro fez, por outros métodos de contar, e “O Homem que Não Dormia”, aqui mesmo em Brasília).


















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (26/09) e Considerações Iniciais
*Terça-Feira (27/09)
*Quarta-Feira (28/09)
*Quinta-Feira (29/09)
*Sexta-Feira (30/09)
*Sábado (01/10)
*Domingo (02/10)
*Noite de Premiação