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Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Cinequanon)


*Sábado (01/10)

Por Cid Nader

A noite do Festival fez quase que notar definitivamente quanto tais eventos carregam consigo o papel de ligadores entre os públicos onde ocorrem, e o mundo idealizado – mesmo que seja aquele absolutamente comum, onde as novelas e seus (suas) galãs imperam como o santo Graal a ser tocado com as mãos, um dia. Para além da cada vez mais evidente necessidade de se perceber que eles têm de falar prioritariamente com os seus (aliás, nota-se por alguns discursos em palco, que realizadores e apresentadores daqui pensam assim, fato que ganha reforço sempre ante cada reação entusiasmada da plateia quando uma produção local é apresentada – sem entrar no mérito da qualidade), quando alguém da trupe global surge para apresentar um filme onde tenha trabalhado, as reações inflamam, o ar adensa, os suspiros passam a ser ouvidos, o cheiro de perfume domina o ar...

Ontem, noite de apresentação do longa “Meu País”, onde vários globais atuam, a expectativa de que algum aparecesse motivou as mulheres a aparecerem mais bonitas ainda na sala do Cinema Brasília. Quando sobe a pequena comitiva do filme ao palco e se nota a presença de Rodrigo Santoro entre eles (o galã de aparência cool, fina, jeito de bom moço, e boa pessoa), mesmo na penumbra da sala, dava para notar os sorrisos tomando os rostos feminos, olhinhos brilhando, câmeras de celulares operando (sem falar no agito provocado pelas equipes de TV e pelos fotógrafos de jornal). Mas estamos em Brasília, afinal de contas, e não houve aquele agito extremamente frenético que ocorre em locais menores. Estamos em Brasília, e mesmo assim, é incrível como o poder da imagem do galã ainda funcione como nos tempos em que o cinema percebeu o poder da imagem do mito funcionado sobre o povo. Por estarmos em Brasília, ficou mais fácil ainda como entre idas e vindas de necessidades e importância maior (evidentes) o festival tem de ser pensado para os de cá.

Ontem, uma noite muito fraca estabeleceu a certeza de que a maioria dos curtas são de nível questionável (eu já não gostava do longa desde que o vi em Paulínia), e uma garota carioca, a animadora Rosaria (uma das melhores e de mais personalidade do país), ganhou a benção e chance de salvá-la com seu “Menina da Chuva”. Isso, depois de uma apresentação onde Murilo Grossi (sempre ao lado da diva – por falar em atitudes de fãs – Rosane Mulholand) embutiu um pequeno discurso cobrando a utilização do Cine Brasília para servir de local onde se passem filmes nacionais pelo ano todo (disse que somente uma sala da cidade o faz), emendando que havia recebido a certeza, de autoridades, de que daqui nove meses, após uma reforma ampla que se concluirá, esse será o destino da sala. Que seja!


MOSTRA COMPETITIVA

Curta-Metragem

SambaTown, de Cadu Macedo. SP, 2011. Animação, 06 min. (FOTO 3)

Enquanto Samabatown caminha com malemolência, com a exibição ostensiva de seus personagens negros alongados e bem traçados,suas cores suaves, e insinuações de reações destacadas dos corpos para servir de outro elemento compositor do quadro – sorrisos que se fazem por traço exterior, “entretítulos” como sinais de aviso, por exemplo -, a animação de Cadu Macedo se dá bem: mesmo sendo óbvia concretização que está nesses instantes mais para se mostrar como trabalho e estilo, acima de um “contar histórias”. De traços contínuos com tendências retilíneas – muito mal comparado poderia se pensar em J. Carlos (com muito mais sentido de movimento e humor embutido dentro do que aprisionam), mas mais justo entendê-los no sentido de um modismo que até parece ter servido de referência/predileção, pela curadoria aqui de Brasília -, cores simples sem interferências para destacar a negritude dos personagens masculinos, que ganham “vida” e movimento dentro do vestido da mulata que provocará a reviravolta na pacatez, e no ritmo, o trabalho não assusta e parece que se dará bem.

Só que os ciúmes mudam o rumo, fazendo com o que centro de trânsito mude de caráter (deslocando o ponto físico dos cenários, e alterando a estrutura até então malemolente), tanto quanto insinuando que a intenção maior de atração pensada pelo diretor estava nesse desviar de ritmo em busca de uma catarse comum, em busca de um desfecho que talvez o filme não necessitasse, retirando-o de uma confortável posição onde podia ser observado como modelo de execução, para colocá-lo com condições de dramaticidade a imperar seu ser: dramaticidade de opacidade.


Menina da Chuva, de Rosária. RJ, 2010. Animação, 06 min. (FOTO 4)

Rosária é uma das maiores animadoras do país, apesar de sua pouca idade, e mais surpreendentemente ainda por trabalhar num meio que é muito mais de homens do que de mulheres. Sob uma camada de singeleza e simplicidade a toda prova – tanto que tem uma gama de trabalhos infantis e menininhas constituindo sua carreira -, costuma concretizar filmes de alta qualidade no traço, e “morais da história bastante sui gêneris”. Aqui, em Menina da Chuva, a “provocação” já começa pela escolha dos modelos de cor digitalizados, que fogem do padrão “cuti-cuti”, fazendo com que observar todo o cenário pareça um exercício diferente de contemplação, um mergulho em novas possibilidades cromáticas (simples, sem muita interação de umas com as outras, de tonalidades estranhas – que se “explicarão” ao final). Além do mais, o comportamento de suas menininhas (não só a daqui: autoralismo?) nos impõe uma visão divertida sobre características fortes, independentes e ingênuas, partindo de onde se imaginaria isso, mas que no fundo são não tão bem assim. A formação do meio por onde a sua menina anda é bastante diversa – na variação dos locais, e na intensidade que cada uma das locações consegue impor -, o que cria um ambiente de abrigo que poderia ganhar características dramáticas e pesadas, já que é um ser sempre “isolado” dentro desses ambientes, mas que passam batidas por essa possibilidade porque não ela carrega tendência frágil para além do que seria comum. Um personagem “rosariano” (personalidade e atos reconhecíveis), circulando por ambientes típicos da diretora: isso ainda (tomara) vai criar marca.


Sobre o Menino do Rio, de José Joffily. RJ, 2011. Documentário, 13 min. (FOTO 5)

Bastante equivocado esse curta, feito com vagarosidade no detalhar do entorno, na conclusão dos créditos, no início em slow-motion (algo que sempre assusta muito quando utilizado como elemento estético, mas que até parecia estar cabendo aqui dentro de uma proposta que parecia pensada para criar impressões visuais, mas que sucumbe drasticamente já às primeiras palavras pronunciadas). Há um texto tão fraco, e um desencontro tão notável na carga de tristeza que ele tenta impor na marra como o mais belo dos libelos em favor do amor, que o filme acaba, aos poucos, criando carga - irretornável nas sensações que deixa –, ou de ingenuidade demais, ou de falta de noção ao que significam palavras em sentidos mais críveis.

Ter retirado a ideia do curta a partir de trechos da canção “Menino do Rio”, de Caetano Veloso (inclusive, como chamou a atenção para o fato um amigo, para o modelo do calção “corpo aberto” – aliás, um clima que se completa pelo modelo da câmera fotográfica da personagem feminina e pela aposta num PB que causa questões quanto à origem técnica), de modo algum legitima o excesso de “inocência” que pontua e macula tudo.


Imperfeito, de Gui Campos. DF, 2011. Ficção, 14 min. (FOTO 6)

Gui Campos sabe filmar: parece que sim. Também tentou quebra de mesmice narrativa ao intrometer no filme momentos tomados com outra bitola, o que é sempre bem-vindo, em qualquer situação que seja: desejável. Não se equivocou na edição, até montando um filme que se aproveita dos elementos satélites ao casal central para criar jogos de ida e vinda. Então por que Imperfeito é um curta de tão pouca monta para ser guardado na memória ou merecer discussões sobre possíveis méritos? Talvez porque seja comum demais nas interpretações – que provavelmente não incitaram a buscas mais rebuscadas por parte dos atores por conta de uma construção quase pífia das personalidades dos protagonistas -? Talvez, quem sabe, porque tenha uma história que mais lembra um folhetim, que se repete e repete por décadas sob auspícios de baixa literatura, que busca públicos ávidos por histórias de amor que levem ao “choro” fácil?

Definições muitas poderiam alcunhar de maneira simplificadora o trabalho: acomodado (já que busca um caminho padrão para que haja a interação entre o casal, partindo de um ponto quase absurdo – dizer que está de passagem pelo aeroporto para um simples chá, precedido por uma abordagem que é aceita de forma tão espontânea quanto inacreditável nos dias atuais, soa muito artificial demais –, e embicando para um reencontro sem meios tons); fraco (pois não há estrutura técnica há mais do que a intromissão da outra bitola, ou do ser “bem filmado”, que até acabam por parecer amparos ante a indecisão provocada pelas possibilidades iminentes de escorregão); burguesinho (aí não cabendo observações de ordem na construção, mas tocando pessoalmente por uma utilização de mundo muito comum ao país novelesco – impera nesse momento meu desgosto pessoal ante o fato); sentimentalóide (...). Um curta comum, sem anseios (e, ah,como é necessário se tentar algo a mais do que o esse comum), embrulhado com embalagem empetecada.


Longa-Metragem

Meu País, de André Ristum. SP, 2011. Ficção, 90 min. (FOTO 7)

Haveria como dizer que Meu País é incompetente no sentido de qualidade de produção, nos modos de imagens capturadas, na certeza de algumas de suas atuações? Seria justo dizer que André Ristum não seguiu os mínimos preceitos da boa edição (muito ao contrário), que teria pulado etapas e realizado sequenciamento a interferir na compreensão da história, ou cometido equívocos na captação do som? O filme não se mostra como peça que trafega fácil na tela, que tem evidente ligação com o modo de linguagem do cinema (jamais poderia ser acusado de ter tendências telenovelescas, por exemplo), funcionando bem (visualmente) de forma evidentemente melhor na tela grande?

Se as respostas foram sim, seria evidente imaginá-lo como algo que resultou um bom trabalho. Certo? Por mais que incrível que pareça, dado o pregresso sugerido pelas questões elaboradas, a resposta mais sincera que caberia seria um “não”. Se invertermos as questões, ou inventarmos outras mais referentes ao que realmente deveria interessar para que um filme seja considerado de boa monta, justo ao mínimo que se desejaria de filmes de boa qualidade, a coisa pode fazer com que se compreenda melhor as razões de Meu País não ser um bom trabalho.

Há certezas embutidas desde o início da projeção por comportamentos ou sugestões que se insinuam a quem esteja mais atento ou ressabiado. Dá para desconfiar que o personagem de Marcos (atuação bem boa e contida de Rodrigo Santoro) terá de transformar seu padrão de vida na Itália, sacrificando-o em benefício de uma casa que abandonou desde a juventude e de uma família com quem mantém relações, no mínimo, distantes, tendo de ficar no Brasil (ao menos em momentos em que pareceria impossível sua permanência)? Cauã Reymond (o irmão mais novo, Thiago) terá de cumprir o périplo que leva da leviandade, dos maus comportamentos, da despreocupação com os outros e do excesso no bem viver, para revelar-se uma figura boa, de alma um tanto juvenil, mas que tem tudo para dar a volta por cima? A irmã com problemas mentais (numa atuação caricatural de Débora Fallabela, sempre desarrumada, mesmo vivendo num local que cobra os tubos), rejeitada e isolada por opção do pai, conseguirá, resgatada, trazida para o meio dos seus de direito, ganhando a possibilidade de amor, cada vez mais deixar os atrasos influírem tanto no seu comportamento? O agiota será mesmo tão mau como preconiza a cartilha dos “agiotas no cinema”?

Se as respostas forem não, o que levaria a entender que o diretor pensou em dubiedades e incertezas como melhor caminho para justificar bons comportamentos técnicos, e que resultaria daí um bom filme (no sentido mais amplo pretendido – isso em se pensando num trabalho que é óbvio discípulo daqueles que priorizam o roteiro a outros elementos talvez de mais importância), aí sim teríamos certezas concretizadas. Mas não há o “sim” sincero para decretar abertamente que a opção do trabalho não era boa, pois acontece um corte, e a projeção termina. Em algumas situações, tal instante de corte poderia ser resultado de uma grande sacada para impedir pensar em manipulação total do espectador. Mas aqui, ou foi truque simplificador ou opção ante um futuro que faria-o obviamente percebido carente das qualidades que demonstrou talvez jamais teria (desde o início de sua exibição).





















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (26/09) e Considerações Iniciais
*Terça-Feira (27/09)
*Quarta-Feira (28/09)
*Quinta-Feira (29/09)
*Sexta-Feira (30/09)
*Sábado (01/10)
*Domingo (02/10)
*Noite de Premiação