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Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Cinequanon)


*Sexta-Feira (30/09)

Por Cid Nader

O que mais tem chamado a atenção nos últimos dias aqui em Brasília – além da certeza de que os filmes que me prometiam muito não negaram fogo (“As Hiper Guerreiras”, “Mãe e Filha” e “O Homem que Não Dormia”), e do calor e secura aviltantes que tomaram conta da cidade já desde quarta-feira (caminhar ontem, às 16h, pelo Eixo Monumental, é ato a não ser repetido sob tais condições) – é a calmaria que se estabeleceu em torno das mudanças no festival. Muito ao contrário, os elogios dos realizadores quando sobem ao palco, dizendo da honra em estar no maior dos nossos festivais (com elogios à possibilidade aberta às projeções digitais – que têm sido bem boas, tanto quanto a projeção em película -, e principalmente ao espalhamento da programação para três cidades satélites) e em conversas informais, a anuição sobre algumas das mudanças estarem se revelando interessantes, esfriaram os possíveis reclamos, que prometiam ser o mote principal dos dias daqui.

As maiores reclamações têm sido direcionadas à demora para o início das sessões, que se estende à plateia geral, que vaia e xinga quando algum diretor sobe ao palco (normalmente com equipes enormes) e se estende a mais do que seria minimamente suportável. Ontem mesmo, Edgard Navarro, naquele seu modelo muito desligado mesmo, estendeu sua estada lá em cima por 15 minutos, o que foi gerando uma situação bastante engraçada para alguns, e irritante para os de menos bom humor.

Já próximos do final, e com tempo mais exíguo – novamente – parto para as críticas.


MOSTRA COMPETITIVA

Curta-Metragem

Media Training, de Eloar Guazzelli, Rodrigo Silveira. SP, 2011. Animação, 12 min. (FOTO 3)

Existem filmes – e aí sempre vejo bastante questões a serem aventadas – que funcionariam por chaves de compreensão, ou depreensão, que deveriam surgir na cabeça de quem somente o assistiu por intuição ou depreensão caçada nas “entrelinhas”. Quando um diretor sobe ao palco de um festival e solenemente conta as minúcias de algumas linhas de construção, evitando que o filme seja um desejável pacote de surpresas, fico com a impressão de que há um temer vigendo em sua cabeça que o incita a tomar tal atitude - e isso, particularmente, me desagrada, pois se pulou a etapa da obra tendo de falar por si só, diretamente com quem não a conhece, passando automaticamente ao estágio de “compreensão” total que resta após os debates que normalmente (e aí está a justeza) ocorrem somete após a exibição.

Talvez temendo que a incompreensão de um mote tão atípico impressiona-se negativamente, um dos diretores, Eloar Guazelli, subiu ao palco de Brasília e, num discurso bastante impactante, contou as razões que originaram lá atrás uma das chaves da animação de Media Training. Infelizmente, pois se o trabalho tem sua história essencial estranhamente narrada em inglês e acontecendo em dois campos de conflito bastante distantes de nossa realidade (e parece que fica óbvio, no decorrer, que está se vendo ali uma alegoria sobre a questão da tortura), o modo de condução, por um 2D basicamente em PB (salpicado aqui e ali por cores,e mantendo por instantes a condução com suaves matizes de cores pastel) é suficiente e bastante interessante para sustentá-lo num patamar de qualidade seguro. Dinâmico e incessante, o curta se constrói por métodos técnicos bem executados, carregando ainda por cima um cinismo observador sobre a dominação dos que estão no poder até raro de tão incisivo, por bons instantes.


Cafeka, de Natália Cristine. RS, 2011. Animação, 03 min. (FOTO 4)

Animações simples ao primeiro olhar, que se completam por si só conseguindo cumprir a função de diálogo com o espectador, são o ideal a ser alcançado, e normalmente são origem de trabalho muito mais duro e pesado do que o visto em tela sugeriu. Aqui, na mistura do 2D (que está no desenho das figuras em enorme quantidade de quadros para que ganhem a sensação semelhante à dos “flip book”) e do 3D (que se dá, não por manipulação de bonecos de massinha, mas por deslocamento interessante de copinhos descartáveis de café – ou águas, ou... –, em cujos corpos são desenhados os seres que povoarão a história, para cumprir a função normalmente destinada a bloquinhos de papel), o que a diretora Natália Cristine obteve revelou-se tão direto, quanto competente.

Num esforço que não deve ter demandado pouco tempo com a ponta da caneta ou pincel, a principal “lição” que o curta passa é de que se não se pularem etapas (desenhos necessitam de número exato de estágios, quadros, para que fotografados um a um surtam o feito ideal quando projetados – tão primário isso, mas tantas vezes esquecido na ânsia da conclusão de alguns trabalhos), o que se vê é algo muito bem concluido, de boa execução nos traços, com humor raro, e bastante interessante pelo contraste entre a exigência que demandou a criação das figuras, e a simplicidade dos copinhos “somente” sendo arrastados pelo ambiente.


Elogio da Graça, de Joel Pizzini. RJ, 2011. Documentário, 25 min. (FOTO 5)

Repetir o velho blá blá blá sobre como Joel Pizzini tem o domínio da técnica e das possibilidades dentro do cinema (agora nos longas, também) curtista, e que faz poesia dentro desse modelo, a partir das imagens, de modo raro, talvez já seja desnecessário, ante a certeza de seu reconhecimento, e ante outra certeza, que é a de que dificilmente se equivocará ou entregará um trabalho de padrão com pouco rigor. Ultimamente, criando trabalhos a partir das imagens dos outros, tem se mostrado quase um camaleão formalista ao conseguir criar obras que falam desses seus alvos, criando fluidez simbiótica entre o que é do “homenageado” (os de arquivo) e o que ele mesmo produziu: o que permite percebermos na tela trabalhos que não criam solavancos ou empecilhos entre os trânsitos dos momentos.

Em Elogio da Graça, de modo um tantinho diverso, concretiza um filme sobre a obra do documentarista cineasta e naturalista sueco Arne Sucksdorff , que viveu no Brasil, principalmente surgida a partir do momento em que se apaixonou pelo Pantanal do Mato Grosso, e por Maria da Graça, uma cuiabana que se tornou sua mulher e que virou o alvo de Pizzini quando buscava concretizar um documentário sobre o naturalista. O filme já é muito belo de cara, porque Joel consegue novamente concluir esse trânsito entre o de antes e o de hoje com uma capacidade na edição muito particular aos seus trabalhos: algo muito raro de ser obtido com tanta qualidade e ludicidade mescladas. Continua belo por conta da história de Clara, que vai desde ser singular (pelo modelo de paixão que envolveu os dois), à elucidação de sua origem e de sua criação/formação, que foge aos padrões imaginados pelas nossas elites de então.

Além de tudo, as imagens obtidas por Arne são quase como pérolas de tão lindas, de tão originais, quase que refazendo aquele Brasil imaginado como o paraíso em épocas do descobrimento: o comportamento dos bichos do Pantanal, a beleza das suas águas, a exclusividade de uma luz natural muito cheia de sombras e nuances. E a sutileza de Joel agindo para não “estragar” tanto material bom à mão, impondo mais ganhos ainda pelas posições e momentos escolhidos, para que tudo se transformasse no seu trabalho. Mais um acerto desse diretor raro no modo de trabalhar, de verve prolixa e culta.


Três Vezes por Semana, de Cris Reque. RS, 2011. Ficção, 15 min. (FOTO 6)

É bastante complexo encontrar virtudes ou mesmo equívocos fortes que incitem a vontade de entrar em mais detalhes sobre esse trabalho dirigido por Cris Reque. Talvez a única virtude mesmo do curta esteja na sorte de ter contado com a fotografia de Bruno Polidoro (um fotógrafo interessante, que promete ser um dos grandes da nova safra – e que tem trabalhado bastante nas últimas produções gaúchas exibidas pelos festivais). Que de resto conta uma história de solidão (correta na composição cenográfica), mas que não acrescenta nada de mais ao modelo, e se equivoca ao insinuar opção sexual (numa cena muito fugaz e talvez desnecessária – por vezes, deixar o espectador chegar às conclusões funcione mais do que dirigi-lo com medos de ser mais incisivo) - como uma das possibilidades do isolamento. As atuações parecem amadoras, e o ritmo não impõe similaridade ao que o remeteria a ser entendido inequivocamente como trabalho de cinema.


Longa-Metragem

O Homem que Não Dormia, de Edgard Navarro. BA, 2011. Ficção, 95 min. (FOTO 7)

Como é doce e lindo esse quinhão de nosso cinema que não tem receio de errar, de exagerar, e que tenta, faz, corre os riscos, e revela o que deveria ser o cinema num país terceiro-mundista que é o ideal para se errar, exagerar, correr riscos e fazer. Se é de arte ou definição das índoles que estamos falando, se é dos modos que deveríamos sempre usufruir para nos revelarmos, para nos reproduzirmos (e, especificamente aqui, na telona do cinema), poderia citar vários casos que já brotaram aqui nesse Brasil, vários gênios, em diversos tempos (sendo que hoje em dia, parece que nossas necessidades de sermos bem comportados e antenados com todas as possibilidades estéticas sérias e definidoras do bom manejar das ferramentas esteja exterminando esse viés genial, para que sejamos povoados – catequizados não, já que não tem hinos ou sermões suficientes para concluir nessa tentativa - por realizadores que têm muito medo, e acabam entregando de volta um quase nada a ser realmente considerado), mas cito mesmo agora, nesse exato instante de êxtase cinematográfico, a figura totalmente única do baiano (esse sim!) Edgard Navarro.

Navarro: quem teve chance e sorte de conhecê-lo com o curta “O Rei do Cagaço”, ou principalmente pelo média “Superoutro”, sabe como é possível alguém catequizar com imagens de cinema e discurso totalmente fora da acomodação besta e dispensável – uma droga ser ovelhinha dos mesmos rame-rame insossos e ocos, e droga pior ser um desses pastores que ditam tais rame-rames e que fazem obras muito pra lá de insossas e ocas -, e com pregação quase alucinada de tanta fartura de ideias explanadas, muitas vezes totalmente desconexas (mas recheadas de significados) -, num país que é mesclado demais para ser comportado comum. O que ele faz é o cinema que se sustenta pelas imagens que marcam, pelo ineditismo dos personagens, pela potência dos textos vociferados, pela fluidez estonteante da narrativa (que jamais deixa espaços mortos para contemplações sobre idiotices), por uma compreensão real do que é a verdade geradora dos seus, e do seu modo de ser (tem uma noção espetacular do que é, e de como é o baiano de verdade) – o que poderia ser “reduzido” a pensá-lo como anárquico ao extremo. Seria o ideal a ser tentado ao menos por cinco por cento de nossos realizadores: já estaria de muito boa monta isso.

Agora: o que é isso que vimos na tela chamado O Homem que Não Dormia? Quando se assiste a um espetáculo desse nível... Melhor: quando eu assisto a um espetáculo desse nível, fico sinceramente propenso a não querer mais ver cinemas com narrativas comuns, ou lineares, com gente branquinha de carinha bonita desfilando ante as lentes, músicas bem executadas e comportadas - com seus acordes combinando como se fossem peças de um vestuário “ton sur ton” -, com verdades enobrecedoras, mesmo sabendo que há muito bom cinema feito dentro desses padrões. Mas é que há uma pegada tão rara no filme, de grita anárquica (e cito novamente a expressão “anarquismo” pensando mais do que na simplificação que a transitou para ser utilizada como definição de bagunça: pensando nela mesmo no seu sentido original lá do século XIX), com personagens tão mal ajambrados, com histórias tão fora do padrão comum, que fica difícil deixar escapar uma oportunidade que somente daqui a muito tempo terei: se voltar a ter, nesse país tão distante dos tempos do udigrudi, da marginalidade, até de Gláuber.

Não seria justo enquadrar o filme dentro do espaço de uma crítica formal, já que é obra irregular nas composições de quadros: onde o presente é atacado repentinamente pelo passado, sem que isso signifique a intenção de criar um filme circular, elipsítico; quando o PB interfere na utilização das cores, nem sempre com razão concreta de ser; na explicação da razão de um dos personagens ser assim, ou assado, sendo cortada, para que uma outra história termine o que havia sido iniciado no contar, lá alguns minutos antes.... Irregularidade proposital (já que é tão mais fácil montar um filme por padrões lógicos), que busca dialogar pela impressão forte de alguns de seus momentos por imagens impactantes, enquanto privilegia a oratória, quando se poderia pensar num truque de lentes solucionando outro instante; que intromete um personagem desbocado como o tal do Pereba pra falar um monte de besteiras do nada, sem que ninguém o tivesse chamado; ou quando um maluco assoma às casas das portas ou bares para ficar gingando o corpo e tendo atitudes supostamente agressivas (que sempre terminam em retirada pela tangente)...

E não que haja “largação” de mão do Navarro nessa aparente descontinuidade, desconexão, porque, antes de mais nada, O Homem que Não Dormia é filmado com a rara capacidade que poucos gênios têm (desde a assustadora cena inicial, no mato, com o tal PB intrometido - que na realidade tem a ver com o onírico – criando impacto quase inesquecível; ou pelos trechos por onde caminha o insone desmemoriado; na cena dos túmulos; no instante do desenterro, com raios e fogo na cruz; ou na singeleza pacata obtida das ruas da cidadezinha onde se passa tudo). E é interessante reparar que ele não tem medo em utilizar gruas para muitos momentos, o que normalmente significa uma muleta horripilante, mas que em suas mãos vira objeto potencializador de momentos. Como não há “largação” no tema, também, que tem como mote um sonho assustando seus personagens (diversos demais: o padre indeciso ante a religião, a mulher do coronel com seus desejos, o “Pra Frente Brasil”, a prostituta), e que envereda por discussões firmes sobre o cristianismo (sem ataques bobocas ou reações de cartilha), sobre redenção, que se estende à falência do coronelismo, que retrata os interiores ricos de um país (como seu cinema) tão de frente para o mar.

O diretor agride seu público, mas não porque queira, e sim porque muitos se chocam com sua naturalidade ante o que se pressuporia como bom, se camuflado: ao mostrar a nudez e atos libidinosos com naturalidade muito particular, e ao colocar nas bocas de seus personagens falas (cuspidas e xingadas) de um mundo de verdade. A sutil homenagem a George Romero, a sacada final do padre e dos balões: um filme de quem pode anarquisar, porque tem como anarquisar, e porque entende da arte como poucos, a ponto de dispensá-la, se fosse para ser comum.





















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (26/09) e Considerações Iniciais
*Terça-Feira (27/09)
*Quarta-Feira (28/09)
*Quinta-Feira (29/09)
*Sexta-Feira (30/09)
*Sábado (01/10)
*Domingo (02/10)
*Noite de Premiação