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Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Cinequanon)


*Quinta-Feira (29/09)

Por Cid Nader

Há sempre ao menos um dia em que fica impossível fazer o diário. O de hoje será um deles. Vamos às críticas, somente alertando que a sessão da noite novamente lotou, enquanto a do final da tarde (Mostra Panorama Brasil) esteve à míngua: azar de quem não viu o belíssimo “Mãe e Filha”.

MOSTRA PANORAMA BRASIL

Mãe e Filha, de Petrus Cariry. CE, 2011. Ficção, 80 min. (FOTO 2)

É notável na cena forte que tornou o cinema cearense um dos mais interessantes no momento (já há alguns bons anos, a bem da verdade), que iniciou como com uma gama de curtas-metragistas assombrando pela inventividade e rigor no modo de confeccionar seus filmes, e que logo passou a produzir trabalhos no formato longo, bastante distantes do padrão comum de boa parte da produção nacional, tanto quanto reveladores de uma capacidade rara de compreensão e transformação da arte partindo de um grupo de realizadores, muito similar (na origem, na busca pelas referências, no conhecimento de obras e métodos imprescindíveis...) ao que ocorreu uns outros bons anos anteriormente em plagas pernambucanas. O cinema recifense se manteve produtivo e de qualidade inquestionável para além do boom; o do Ceará também não negou fogo, e continuou num crescendo em qualidade e quantidade da mesma maneira: e quase antagonicamente em alguns aspectos.

Essas duas cinematografias são mantidas basicamente em suas capitais: cada uma bastante urbana; cada uma bastante urbana à sua maneira. Os filmes recifenses têm um caráter bastante urbano sim, bastante contestador, e bastante carregado de relação a outras urbes, quanto é a cidade em sua formação ideal. Já os de Fortaleza carregam tal pegada urbana urgente, também, mas mantém sempre em algumas entranhas um apego às raízes espalhadas cearenses, que são tão nítidas quanto perceber o caráter mais lúdico de um pé no futuro e outro no passado, bastante comum à juventude de lá, ao modo daquela capital (que parece não conseguir, ou querer, tirar do caminho as linhas que a ligam às tradições de seu sertão).

Pulando etapas que seriam interessantes para entender a atual produção do estado, é interessante perceber que Petrus Cariry consegue ser mais urbanamente diferente ainda (mesmo em relação aos próximos), pois tem construido uma carreira de evidente apego às modelações construtivas de quem é formado e trabalha com coisas de caráter plástico típico dos lugares modernos (a manipulação das ferramentas e as intenções iniciais - na maneira - de captação de suas imagens são típicas de quem tem formação ligada a escolas que oferecem as atuais e dinâmicas técnicas como o caminho a ser utilizado), mas para resgatar (alternadamente, em um filme aqui, outro ali – pensando-se em seus curtas e seu longa inicial, “O Grão”) algo da gênese sertaneja como o que é de real importância na sua compreensão dos seus e do entorno que o abriga, e como o caminho que deixará uma marca um tanto diversa do que vem sendo o mais usual por lá: provavelmente fruto de sua origem sanguínea.

Mãe e Filha reforça a imagem de um Petrus que se situa de forma mais marcante entre dois polos, e leva o diretor com câmera, equipe e tudo para o interior de sua terra, para discutir os desejos e medos (aí do interior, do âmago, das mãe e filha que protagonizam a história) que a volta pode causar, ou que o sair intromete como medo a não ser jamais superado. Ao contar sobre a volta da filha para cumprir a promessa de trazer o primeiro filho seu nascido (para mostrar, neto à avó – algo tão ancestral quanto o sertão também é), o que o diretor indica é que tratará dos dois opostos que se completam como compreensão sua sobre a terra que habita (e que forma, e que motiva, que é ele, de todos os modos), para um tanto além de “O Grão” (uma obra prima que parecia o olhar de, e para, dentro da alma do estado cearense), para um tanto aquém do curta “A Montanha Mágica” (que era a sua visão para o seu interior particular: na infância, na capital). No filme, ele opõe o que constitui de modo forte a composição dos deslocamentos humanos gerais nos últimos dois séculos: quando faz dessa volta da filha algo que levará a mãe à tentativa de “aprisionamento”, para que a distância de quem mais gosta (já que próxima nesse instante) não continue presente como uma tortura que acabou por cercear seus movimentos e vontades; quando impõe no comportamento ansioso da filha o desespero que ficar (de se reestabelecer no campo) lhe poderá ferir de morte.

Os símbolos da ancestralidade, ou estagnação, ou ainda necessidade e percepção de quão importantes são para a composição e compreensão que movem também o diretor, são capturados pelas “lentes estetas” de Petrus (que é um esteta no melhor sentido do termo, anteriormente, por vezes amparado por Ivo Lopes Araújo, e mais recentemente com manuseio das lentes feito de próprio punho – com evidente diferenças na maneira de compor quadros, mas tão idênticos em excelência de resultado): que inicia na visão da estrada belamente emoldurada por céu cinzento que antecipa a chuva; que observa o ambiente exterior e detalhes da casa velha e decadente (com seus traços dignos preservados pela memória de quem está chegando – e complexamente repassado para o espectador, que a princípio não deveria ter tal memória incrustada em si); que vasculha mesas e paredes em busca de quadros, velas, santos, detalhes; que “ouve” as engrenagens do moinho de vento... Se há beleza nessas lembranças, se há a intuição de que o reencontro será somente de saudades e rememorações, há o filme se opondo e revelando que nada é tão simples e belo, já que os medos das duas preenchem as intenções emanadas pelos seus reais desejos: ficar, para uma; fugir, para outra. As imagens em slow-motion (que aqui escapa do maneirismo para servir como individualização dos momentos do meio do todo do trabalho, além de potencializar cenas de “embates bestiais” bastante simbólicas na tentativa de contrapor os desejos lá das intrínsecas complexidades cerebrais/emocionais) transferem o embate travado na casa, para o geral que é motivador de tais atos.

A história da criança levada pela filha é por si só todo um emaranhado, “amplo e reduzido”, que revela como cada uma quer tratar o tempo, naqueles instantes em que estão juntas novamente – como na compreensão e formação do diretor, o embate “cidade X campo” é o sintoma e a causa. Petrus criou uma história que é bastante a alma dos seus (e do mundo), nesse ter de ir e vir, do não querer e do implorar (sempre a mãe estagnada querendo estagnar seu único bem que é a filha; sempre a filha, que já cumpriu o dever, que quer voltar para a capital, e que sugere à mãe ir junto), e para tal, criou por duas imagens específicas observação erudita que simboliza esse diferencial seu (e dos cineastas de Fortaleza – mas mais seu mesmo) de compreender. Na erudição de observação dos símbolos locais, traz de volta para a tela os quatro cangaceiros (como a imagem mais mitológica/iconográfica de lá) que conduziram a necessidade de preservação do antigo no curta que o lançou ao reconhecimento (“Dos Restos e das Solidões”, de 2006, filmado na cidade fantasma de Cococi, novamente servindo de cenário, agora), como os elementos guardadores desse mundo tão antigo, e que agora terão de fazer a filha perceber a “necessidade” de lá ficar. Na erudição buscada no mundo, a recriação extremamente bela da pintura Ofélia ((FOTO 8), do inglês John Everett Millais (da escola romântica, pré-rafaelita com todas suas implicações de visual criado pelos excessos – propositalmente, diga-se), buscada na história da namorada (Hamlet) que se mata num lago em desespero, e que poderia ser o único destino da filha que sente a ameaça de ser “aprisionada” em seu passado.

O filme tem momentos menos solenes que o “Grão”, já que trata da solenidade do interior, mas carrega a fugacidade da capital como o porto a se retornar. E isso funciona tão bem quanto: com imagens belas pela captação, com imagens lindas criadas na edição, com música que alterna em intensidade. Consegue ser mais aberto, corre mais riscos, abraça-os, e não se equivoca. O diretor, fruto e antítese do cinema de seu estado, criou mais uma obra rara, e que exigiria muito mais elucubrações.


MOSTRA COMPETITIVA

Curta-Metragem

Quindins, de David Mussel, Giuliana Danza. PR, 2011. Animação, 10 min. (FOTO 3)

Essa animação, Quindins, feita com mistura de 3D (no stop-motion) e 2D (desenho em PB feito com ponta de lápis, e poucas inserções de amarelo representando os doces do título), tem sua maior marca no fato de ter sido criado a partir do conto homônimo de Luís Fernando Veríssimo. Sim, porque por mais que se saiba a dificuldade e o tempo demandado para feitura de trabalhos na técnica das massinhas, também se sabe que o país já tem tradição e cancha no setor, com filmes de qualidade rara e muitos realizadores se especializando nessa que talvez seja a mais bela das “escolas” nos trabalhos animados. O que acontece é que os bonecos em si resultaram de pouca qualidade artesanal, com evidente desgaste pela manipulação, e óbvia supressão de quadros – o que acomete alguns movimentos.

Há tentativas de compensação com algumas manipulações da câmera: que cria, em instantes, alguns zooms lentos interessantes, e num outro um momento de desfoque do elemento em primeiro plano (a mulher), quando a lente busca o homem na cama. Mas é pouco, quase subterfúgios, num tipo de trabalho que deveria carregar a excelência (apostando quase todas as fichas nela) maior justamente nos “personagens” que conduzem sua história.


A Mala, de Fabiannie Bergh. PA, 2011. Animação, 02 min. (FOTO 4)

A Mala é bonitinho, feito em 2D com figuras recortadas em papelão e editadas com correção suficiente para fazer com que o andamento e os movimentos sejam fluidos e sem solavancos. Com escolha de cores suaves e imitando iluminações de modo bastante interessante (talvez a melhor coisa do curta, com cuidado até raro em trabalhos de “papelão”, que costumam criar luz quase sempre chapada, já que quase sempre ambientados em cenários que dispensam imaginação para tal), passa rápido, tanto quanto seu diminuto tempo sugeriria, mas da pior maneira por ser óbvio que não ficará retido por muito tempo na memória.


Premonição, de Pedro Abib. BA, 2011. Ficção, 15 min. (FOTO 5)

Curtas nitidamente muito “caros” tendem a decepcionar, por apostarem muito de seus recursos na ostentação, o que geralmente cria artificialidade narrativa (sem que isso fosse tentativa consciente, estética, de contestação), e não permite que se elabore histórias ou situações melhores. No caso desse trabalho vindo da Bahia Premonição, a ideia de se criar algumas situações ilusórias, que falseiam o que se pensa que ocorrerá no próximo passo, no movimento seguinte (apesar de ficar muito evidente a partir do segundo ato; e apesar do desfecho que fica muito evidente sucederá, e não é realmente de boa solução), seria até interessante se fosse mesmo o elemento principal para conduzir o trabalho.

Mas não é assim: quando se nota o excesso na elaboração cenográfica; as “sacadas” de algumas angulações tentadas (câmera em cima no banheiro, na esquina observando, quase no copo de pinga...), mas que não trazem nada de novo ou ao menos mais honesto do que parecerem excessivas; a iluminação que acentua (e não comparece como o elemento de tráfego, o que seria o mais justo) propositalmente os suores, os recantos sujos (que se intuiria serem assim num bar daquela estirpe) e impõe meio que na marra o direcionamento do olhar espectador... Acaba resultando algo que transpira poder aquisitivo investido muito mais do que seria o desejável. Provavelmente o modo de entender e desejar cinema dos realizadores e produtores, mas valendo lembrar que o cinema é tão mais bacana quando se arrisca...


De Lá Pra Cá, de Frederico Pinto. RS, 2011. Documentário, 15 min. (FOTO 6)

Esse curta gaúcho de Frederico Pinto foi o melhor trabalho da sessão – mas valendo dizer que esta, de quinta, pareceu a mais fraca. Um filme de espaços e calma no observar e no montar. Acompanha a rotina de um casal, que quase nunca se cruza, dentro do próprio lar, por trabalharem cada um em horários bastante distintos. O ponto catalisador desse trânsito constante e cruzado é a filha, que acaba por merecer todo o carinho que não podem compartilhar entre si.

Filme que aposta na secura das imagens, na secura no modo de obtê-las, na secura da edição, que lembra um bom montante de trabalhos atuais nesses quesitos, mas que carece de um tanto a mais de rigor já que tais apostas exigem muito cuidado – por serem trabalhos de mesa, de mão na massa na realização, acima até do contado em tela. Nada de tão complexo, mas que poderia criar mais marca se ousassem um tantinho a mais- se alternasse alguns momentos do ir e vir, ou... Bem, não nos cabe querer como nosso gosto – é sempre um equívoco crítico tal ato -, somente citar sobre os fatos concretizados. Mas é interessante e sensível, o que emprestou ganho pelas tentativas técnicas.


Longa-Metragem

Hoje, de Tata Amaral. SP, 2011. Ficção, 90 min. (FOTO 7)

Tata Amaral surge com seu quarto longa-metragem de cinema – até que poucos para seu tempo dentro da arte –, e com um olhar que proporcionou alguns atos interessantes de confecção, sobre assunto antigo, mas que é tratado de maneira quase episódica no país. Sempre lembrando que os chilenos e principalmente nossos hermanos argentinos invariavelmente voltam ao tema “ditadura militar” – quase que como uma atitude política com intenção de não deixar o assunto cair em limbos e esquecimentos -, parece sempre interessante, que quando da possibilidade de comparação nos modos de pensar o tema, perceber que a maneira de enfrentar o assunto é sempre calcada pela mesma diferença: os de língua espanhola invariavelmente retratam e recriam o assunto sob patamares de agregação, de entender que muitos sofreram, criando trabalhos onde o coletivo é o privilegiado como “figura” a ser resgatada; nós (de espírito luso e reverenciador ao ícone), também invariavelmente, costumamos retirar uma pessoa (ou casal, no máximo, como é o caso de Hoje) do todo, para tratar do sofrimento pessoal, individual, deixando o “restante” como figuração. São coisas de características diferentes de civilizações, tão próximas geograficamente.

O filme ganha interesse particular pelas maneiras imaginadas para que o tema pudesse ir sendo destrinchado em tela. A diretora utiliza o modo de captação e edição “comuns” para criar o bolo – filme que tem momentos de fotografia bastante corretos, chegando a alguns instantes de excelência pictórica rara (numa cena com a persiana de madeira criando o quadro e filtrando a iluminação enquanto o “casal” conversa; a bonita observação do horizonte na praça Dom José Gaspar – que parece mais ampla e sem as molduras naturais dos prédios e asfalto -, quando abrange as figuras protagonistas quase que como elementos únicos caminhando num mundo particular; ou quando “persegue” de perto, num sequência rápida, novamente o casal pelo corredor do apartamento em busca de um ambiente específico; por exemplo). Sendo que esse “comum” evidenciou um trabalho de criação ambiental bastante bem desenhado e dignamente esquadrinhado.

Mas a diferença técnica mesmo se dá por algumas inserções incomuns ao que é filmado e trabalhado para compor os quadros: a projeção de letras sobre quadros, caixas, paredes e bagunças, com diminuição da luz, cria força e marca de forma mais evidente o que está sendo narrado ou lido em alguns momentos e mesmo sendo algo que nem é novo (talvez concretizado com mecanismos mais “modernos” sim); ou a “alteração” de uma janela que dá para o exterior, criando nuances específicas e mais marcantes, também desviam a obra dos rumos comuns. Tata já criara sutilezas específicas em seu primeiro longa, “Um Céu de Estrelas” (1996), e parece que tem predileção pela quebra da rotina, sem os exageros que costumam complicar os andamentos – vale lembrar que esse primeiro filme veio de uma peça de teatro bastante recheada de efeitos de palco (algo que até poderia ser referenciado ao trabalho fílmico dela).

Atos de teatro são sempre situações que deveriam ser evitadas para quem pensa cinema como arte única (normalmente assusta muito pensar nos dois embrenhados como se fossem corpo único de diálogo, de procedimento), mas a diretora consegue escapar de armadilhas, tanto no recriar as situações citadas acima, como ao obviamente permitir que os diálogos e ações entre o “casal” (protagonizados de modo convincente por Denise Fraga, e pelo ator uruguaio Cesar Troncoso) remetessem ao que se faz em palco. Por vezes, quando os diálogos passam a tomar, mais espaço após o susto do “reencontro”, a carga de interpretação de ambos (auxiliada pelo posicionamento da câmera) envereda para a centralização total das atenções, com reações faciais um tanto mais matizadas do que é o normal em cinema, e aumento drástico dos gestos: isso lembra teatro, mas colocado e utilizado de maneira tão específica, em momentos tão únicos (longe de ser o padrão do filme todo), que acaba por parecer ter sido a ação mais acertada a ser tomada. Tal alternância de procedimentos partidos da direção do filme fazem-no uma peça boa de ser vista.

A história gira em tono de um decreto que deu ganho de causa a parentes de desaparecidos políticos, proporcionando um ressarcimento financeiro pela perda, que levam a personagem principal a comprar esse apartamento na região central de São Paulo. Sem entrar em mais detalhes da historia, o seu desenrolar é bom por vir num crescendo calmo, com adição de dados introduzida aos poucos, sem didatismo, por meios de compreensão que exigem a atenção. O desenrolar dessas compreensões e imersões nem sempre entrega boas soluções (principalmente “intermediárias, menos ligadas ao mote), mas as centrais (as que compõem o eixo forte) são suficientemente boas para impedir dispersão, até que se atinja o emocionante momento catártico (leve, mas marcante). Talvez seja um modo especificamente feminino de se recuperar tal momento (mesmo sabendo das possibilidades equivocadas de tal redução avaliativa): se foi, o foi de forma muito boa.























Leia as matérias deste festival:

*Abertura (26/09) e Considerações Iniciais
*Terça-Feira (27/09)
*Quarta-Feira (28/09)
*Quinta-Feira (29/09)
*Sexta-Feira (30/09)
*Sábado (01/10)
*Domingo (02/10)
*Noite de Premiação