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Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Cinequanon)


*Terça-Feira (27/09)

Por Cid Nader

O primeiro capítulo para a constatação in loco sobre o que poderia resultar das novidades criadas para o festival nesse ano surgiu de maneira drástica, e só não totalmente impactante porque já havia sido alertado desde ontem de que isso deveria ocorrer. O diretor Adirley Queirós, de Ceilândia (a Brasília das pessoas mais carentes e sempre necessitadas de alguém que brigue por ela ou a mostre em sua realidade: que é viva e dinâmica - apesar de próxima de linhas mais demarcadas de pobreza - não somente suplicante), retirou seu primeiro longa-metragem, A Cidade É uma Só, da mostra paralela “Primeiros Filmes”. Ele, um realizador atípico, que tem a carreira marcada pela trazida à tona daquela realidade periférica com visão e compreensão rara, feita com qualidade pela utilização da linguagem do cinema na melhor maneira de confecção – algo bem difícil de ser alcançado por autores que buscam o “viés social” para alinhar seus trabalhos –, e que já havia concretizado os indispensáveis (e assinatura pessoal), “Dias de Greve” (curta de 2009), e “Fora de Campo” (média, também de 2009).

Pois bem, por uma atitude vinda de alguém que circula muito mais proximamente todos esses momentos e processos que geraram tantas mudanças, questões mais diretas certamente serão buscadas, e mais verdades cruas talvez sejam expostas nas mesas. Sem saber se o ato se deu no instante do evento já em andamento por conta de limites alcançados, ou como sacada para deixar mais nacionalmente visível suas desavenças com a organização, o certo é que tomou uma atitude que pode ser vista como corajosa, ou como desproporcional – mas com certeza de impacto. Abaixo, a carta sem nenhuma revisão colocada por ele, com razões (ou tintas mais externas dessas razões) que os levaram à desistência:

"Prezados, Em consideração as pessoas que gostam de cinema e que, eventualmente, teriam o interesse em assistir ao trabalho que realizamos, venho informar que estamos retirando o filme “A CIDADE É UMA SÓ?” do Festival de Cinema de Brasília. Os motivos já estão expostos durante todo esse ano e seria redundância dizer o que todo mundo sabe, comenta, porém silencia.
Fazemos filmes não só para serem feitos. Fazemos filmes buscando outra perspectiva estética e política (não partidária, e sim política). Fazemos filmes para que eles sejam, no mínimo, um pequeno reflexo da nossa condição cultural, social e econômica. Fazemos filmes do local onde estamos, do nosso local de fala. Ir contra esses princípios mínimos seria uma incoerência. Exibir o filme neste Festival, neste momento que se configura, seria legitimar posturas arrogantes, autoritárias e, acima de tudo, reacionárias.
Aquilo que o festival está chamando de avanços, julgo reacionários: Deslegitimar a classe cinematográfica local; Desconsiderar o nosso processo histórico por salas de cinema em CEILÂNDIA (falo aqui pela CEICINE); Fechar as portas do Festival a um outro tipo de cinema que cada dia é mais vigoroso no Brasil e no mundo; Transformar o festival em um pastiche, em um moribundo com cara de qualquer coisa. Isso são avanços?
Creio que não.
Não podemos mais nos silenciar frente ao desrespeito que estamos sendo tratados pela coordenação deste Festival.

Adirley Queirós Diretor do Filme "A CIDADE É UMA SÓ?" CEICINE(COLETIVO DE CINEMA EM CEILÂNDIA)"


As situações relativas às mudanças prometem ser um forte mote dentro do evento. Ontem conversei com amigos que, uns, aprovam em grande parte as mudanças, outros reprovam tudo, inclusive xingando autoridades responsáveis à sua passagem (fato que vi e ouvi pessoalmente), mais uns questionam (e aí tenho posição firmada, concordando plenamente – até porque sou contra o acirramento que premiações em dinheiro causam em festivais) o aumento absurdo na premiação do melhor lona (R$250.000, 00), mas com diminuição para outras categorias premiáveis. Do público mesmo – afora a vaia para a Ministra Ana de Hollanda na abertura – só deu para perceber, por enquanto, que lotou como de praxe o Cine Brasília na abertura dois filmes em competição.


MOSTRA COMPETITIVA

Curta-Metragem

Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo, de Rodrigo John. RS, 2011. Animação, 08 min. (FOTO 2)

Diretamente da saga, “animações não muito animadas”, ou de uma outra, “desenho não é coisa para criança”, Céu, Inferno, e Outras Partes do Corpo ao menos , é bastante competente na sua opção de falar da morte e das saudades pra lá de doídas que restam nos que “ficam”. Feito em desenho sobre fundos de pintura imóveis, os etilos de modelos criados são visualmente bastante bons, conseguindo figuras que transitam, em 2D, com muita facilidade de atração e identificação com o mundo adulto a que refere a história – e olhe que os personagens são cachorros, com “alma” de humanos.


O curta se desvia de um início onde o tesão e o amor são os motes de construção da trama, para virar um verdadeiro bolero de saudades e pesadelos, conduzindo um dos personagens diretamente para o que sugere qualquer ação que opte pela fossa como o melhor modelo para dramatizar os picos dos sentimentos. Um dito de Machado de Assis, especificado no final, acaba por diluir um tanto do que pareceria exagero dos últimos momentos, criando quase que uma decoração ilustrada ao “significado ao pé da letra”. Além da boa qualidade do desenho, do grande instante em vermelho que gera uma belíssimo momento de nado dentro desse vermelho em forma líquida mais calara e abundante, vale ressaltar que sem a trilha sonora optada não restaria 20% de boas lembranças – se bem que é provável (na realidade, sem brincadeiras é isso mesmo) que o dito do Machado, e essa música, tenham sido os motivos que geraram todo o resto.


Bom Tempo, de Alexandre Dubiela. MG, 2011. Animação, 02 min. (FOTO 3)

Animação feita em com traços finos e elegantes, quase sempre em PB, com algumas poucas e específicas inserções de “motivos” coloridos que, mesclados, acabam por criar uma marca no trabalho, afastando-o de ser notado como um trabalho específico de curta-metragem, para ganhar característica de algo traçado para lembrar elementos visuais típicos dos de TV – principalmente o que se executava nos EUA - lá nos seus primórdios, justamente quando nasceu a grande mania ianque pela previsão do tempo.

É um filme bastante curto, quase uma paródia ao modo de vinheta, justo ao que sua pretensão insinua como objetivo a ser alcançado pelo diretor, mas que fica – justamente pelo pouco do que essa ambição almeja – como algo que passa, não marcando de outras maneiras (por outros mecanismos de fixação na memória) que filmes podem fazer: além da evidente marca do desenho limpo, e da sutil personagem que desfecha o destino do personagem.


Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas. BA, 2011. Ficção, 25 min. (FOTO 4)

Ser Tão Cinzento, por mais incrível que possa parecer sofre uma pequena – mas quase fatal - engasgada justamente nas linhas de conexão que procura manter e potencializar para se fazer obra reverencial e justa ao modelo da que lhe inferiu o sopro e vida: que foi o filme “Manhã Cinzenta”, de Olney São Paulo (um diretor fora da corrente mais conhecida e produtiva dos tempos da ditadura), feito há cerca de 40 anos, que tratava do assunto da opressão política da época, mas que ganhou certa notoriedade por ter sido relatado como a “o companheiro” que acompanhou os seqüestradores de um avião na primeira ação do gênero no país (com finalidade política).

As imagens do filme resgatadas e inseridas nesse novo trabalho (sendo que há participação de dois filhos na concretização geral - inclusive no trabalho musical fruto também desse parentesco), automaticamente remetem o espectador a sentir-se em terreno onde a emoção respeitosa terá de ser um dos modos de constatação do que foi concluído: outra maneira de tentar fazer a emoção comparecer como elemento essencial para quem assiste o filme está situada ma utilização de depoimentos de pessoas que participaram de alguma forma na construção do trabalho homenageado. Tudo com jeito de que poderia render algo inquestionável (até por conta de uma edição bastante interessante), mas que sofre seu acidente quando se nota que a reverência acaba por insistir demais na paridade de captações e tempos de diluição do assunto (mesmo num filme que busca atalhos que lembram outras atitudes plásticas visuais), acabando por padecer de mais individualidade, de mais identidade própria, o que diminui o ritmo que a retina tem de exercer para manter a atenção desperta e aberta.

Bem longe de ser ruim ou fraco – muito mais próximo de cotações mais para elogiosas -: mas equivocado, quando se o pensa no todo que se aglomera e formata a compreensão e depreensão.


A Fábrica, de Aly Muritiba. PR, 2011. Ficção, 15 min. (FOTO 5)

Quando notei, muita gente em torno de mim aplaudia de maneira visivelmente ao curta A Fábrica, como que tentando “desautorizar” a pouca empatia que ele conseguiu gerar em mim desde seus mais tenros instantes. Para começar, sento que há problemas na condução do filme dentro dos exigíveis e essenciais parâmetros técnicos/estéticos, com problemas na qualidade da iluminação obtida, alguns enquadramentos defeituosos, condução da câmera com momentos de bastante indecisão vigorando, e cortes não muito bem solucionados pela edição: o que resultou em fotografia lavada e um talvez um tanto desleixada.

Quando todas as preparações da protagonista são findadas e se percebe para que servirão, a impressão que se tem é que o filme não contornará sua complicada trajetória mecânica, e cairá num precipício que terá lá no fundo um aviso que alerta para a “punição” a alguém (a personagem) justo que tentou ajudar que não mereceria. Mas não. O desfecho se dá por outra via: a da emoção que brota do que se imagina como a mais próxima das relações humanas. E isso foi o que pegou em cheio o público: o que faz notar que o diretor Aly Muritiba soube a quem dirigiria todo sua “engendramento”. Não o suficiente para salvá-lo ante minha não cooptação, e muito ao contrário: piorando os defeitos que marcaram seu visual com uma manipulação sentimental que me pareceu de pouca monta dramática.


Longa-Metragem

As Hiper Mulheres, de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro. RJ/PE, 2011. Ficção, 80 min. (FOTO 6)

Talvez seja justo atrelar a realização de As Hiper Mulheres ao projeto bastante interessante denominado como “Vídeo nas Aldeias” (que tem automático direcionamento da lembrança remetendo ao nome de Vincent Carelli – que surge citado nos créditos finais - ou ao do quase mitológico Jorge Bodanzky) já que parte de seus realizadores é parte constante e atuante dessa bela empreitada, e se vê muitos índios com celulares de câmeras na mão por diversos instantes das imagens passando na tela (o que deve ter criado várias possibilidades de observação por outros prismas dos momentos mais “catárticos”, digamos, do filme).

Talvez seja injusto criar tal ligação como a de marca a ser destacada, já que é muito fácil se constatar que o obtido remete o trabalho a parecer fruto de quase “erudição” cinematográfica, com elementos de composição raros a trabalhos do gênero: impecável noção dos espaços da aldeia servindo para criar as partes de forma muito específica, com suas disposições físicas servindo de amparo ao fechamento nas opções de algumas angulações buscadas pelas lentes (as “casas” e o terreiro alternam as possibilidades cromáticas, que acabam virando parte constante da dinâmica bastante acelerada das imagens – é muito belo observar as construções internamente, para depois percebê-las, avizinhadas. em torno do enorme terreiro central); “carinhoso” escape das lentes quando buscam o rio próximo (tanto no local onde se banham os kuikuros, quanto na parte muito mais ampla e quase oceânica, onde embrenham suas canoas em busca do sustento pescado), que gera instantes imagéticos raros, como um em que a cena termina com mães e filhos se banhando, ou outro, onde várias delas, em atitudes plácidas, são observadas calmamente, ou ainda um muito mais fugaz, de teor que remete à lembrança de uma pintura, quando se vê a embarcação sendo remada em meio à neblina (neblina que é utilizada por diversas vezes para criar climas que só servem quando bem tratados por quem os percebe como potenciais auxiliadores das imagens – o que é evidente, aqui); e algumas situações em que a câmera remete a lembrar instâncias de filmes clássicos do faroeste, com alguns procedimentos técnicos que lembram zooms em busca de rostos, com as rapidíssimas paradas (coisa de 1 ou 2 segundos) que ocorrem quando as mulheres são perseguidas, e entram ou saem das cabanas (ocas, tabas?), o que cria ilusão interessante por manter–se o foco na velocidade que é a mesma do ato, mas com a possibilidade de um leve suspiro proporcionada pelo que observa tudo, na evidente necessidade de “reconhecimento” na mudança de ambiente.

O que mais impressiona mesmo, pelos “justo” ou “injusto” aventados, é que o trabalho, o filme, é realmente coisa de índios. Para além do assunto que é sobre eles mesmos (se bem que com temática feminina rara, realmente muito mais libertária do que os séculos de civilização branca jamais ameaçaram chegar perto), ao se saber que as imagens foram captadas por Takumã Kuikuro (um “veterano” manipulador de câmeras do Xingu), seu irmão Jair (o diretor de fotografia) e um primo, sentimentos de afeição e admiração a mais grudam ante o todo obtido. Há captações geniais, e há um ritmo quase incessante que tem muito a ver com o modo de ser daquele pessoal – são também brincalhões, e muito agitados em alguns momentos específicos. Tal comportamento, faz pensar nessa civilização como algo de um outro patamar: pensar nos massacres sofridos por dezenas e dezenas de etnias, pensar no deslocamento (sob a complicada questão de que seria a única forma de sobrevivência) para o Xingu, pensar na evidente ligação e capturação de símbolos brancos para fazer parte de seu mesclado dia-a-dia, far-nos-ia pensá-los revoltados, lentos por depressão (sim, a questão é bem mais complexa, quanto complexas foram as mudanças e os estágios – que geraram, e isso até dependendo de tribos, muitas situações drásticas). Entretanto, o que se percebe no filme é que a necessidade de continuar liberou a mesclagem das influências (o desfilar de bicicletas e celulares ante as lentes não negando isso), e o ritmo deles, de alegria e tradições muito mais “liberais”, reflete-se na dinâmica de um jamais cessar da câmera e dos movimentos.

Tragamos Leonardo Sette para a questão (lembrando que o antropólogo Carlos Fausto também é diretor, e sempre envolvido nos projetos relativos à manipulação das câmeras e feitura de vídeos no Alto Xingu): se cinema é arte da imagem, isso refere a pensá-lo como obra derivada da captação e da edição do obtido. Se Takumã e sua turma captaram, o que se constata como fator extremamente forte para a excelência do trabalho situa-se na questão da manipulação das imagens obtidas. Muito do rimo do filme (que tem a ver mesmo com o modo de ser dos Kuikuros) está preservado e potencializado pela evidente percepção de Sette do que tinha à mão para ser trabalhado. A fluidez das coisas, o embaralhamento dos momentos, os cortes nas extensões do filmado para serem ajuntados em sequências de longos planos, ou contenção por diminuição da luz e fusão a outros instantes, são responsáveis pelo que prende a atenção na tela. Há um evidente início mais lento, como se fosse uma história contada que necessita das apresentações detalhadas para depois enveredar pelos fatos definidores, e há a aceleração crescente em busca da catarse, que ocorre sim, mas que não o encerra, já que o desfecho se dá em torno de uma imagem calma, novamente, como se fosse um crepúsculo de uma fábula.

Seria talvez delírio – mas não totalmente descabido –, remeter a dinâmica dos atos (preservadas na montagem) ao que sucede no imprescindível curta do próprio Leonardo Sette, “Confessionário” (2009). Filme no qual posiciona uma câmera de forma equacionada e estática (fato que não ocorre jamais em As Hiper Mulheres), para observar e ouvir o padre italiano Silvano Sabatini narrando os momentos de sua chegada à área indígena Raposa Serra do Sol (RR), e o que sucede de ruim aos índios que sempre confiaram ingenuamente nos brancos e seus atos estudados. No curta, o sincero e emocionante sentimento de culpa pelas inconseqüências da raça branca dita um rimo evidentemente lento, pautado pelo depoimento, e que faz notar o peso de nossas relações e ações. Neste longa daqui, ao contrário, como se fosse um aposto que ligado cria um só órgão com suas particularidades interiores, os índios não têm do que sentir-se culpados (são sobreviventes, que se adaptaram, sim, pegaram elementos nossos, mas tentam, por força de carga genética, manter algo de suas tradições), e o seu ritmo “inocente/sincero” determina um padrão veloz, sem o peso da culpa para dificultar a caminhada. São dois trabalhos que evidenciam, também pela forma, civilizações distintas, mas impossivelmente desligadas.

Toda a história que gerou o trabalho é pra lá de interessante: longe de pensá-lo como documentário padrão, classificado equivocadamente por alguns assim, (há encenações no preparo e na apresentação de um ritual, e há verdadeiras interpretações – falas e atos - feitas pensando-se na câmera captando-as), demandou um trabalho de cerca de dez anos em torno da preparação para reapresentação de um ritual feminino (Jamurikumalu),, que evidencia uma compreensão da relação entre homens e mulheres bastante distante de nossa evidente civilização machista. Tal história se oferece pelos atos sucedendo (e isso é genial), sem nenhuma pretensão didática para atrapalhar a compreensão ditada pelo ritmo dos preparativos. Sem parecer justo contar o que sucederá, vale chamar a atenção ao poder dessas hiper mulheres, à compreensão e admiração dos homens da tribo, e para algumas atitudes que as fariam vistas por aqui como “devassas”, e que são deliciosamente reveladoras: aliás, várias delas são realmente incríveis, nas suas conversas e na persistência em aprender as músicas (a história do gravador é muito boa) Trabalho raro e importante.

P.S.: num trabalho repleto de belas e emblemáticas imagens, o momento em que elas saem poderosamente para o terreiro iniciando o ritual é extremamente bonito, forte, colorido, e atípico, pela enormidade de índios tentando filmar tais momentos com suas camerazinhas ou celulares.





















Leia as matérias deste festival:

*Abertura (26/09) e Considerações Iniciais
*Terça-Feira (27/09)
*Quarta-Feira (28/09)
*Quinta-Feira (29/09)
*Sexta-Feira (30/09)
*Sábado (01/10)
*Domingo (02/10)
*Noite de Premiação