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Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Cinequanon)


*Abertura (26/09) e Considerações Iniciais.

Por Cid Nader

Num ano em que tudo relativo ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro teve mais feição de revolução, questionamentos, prós e contras aviltados, sempre pareceu que o mais correto e próximo para se evitar os equívocos estaria situado na calma e paciência, no aguardo do evento iniciando e mostrando sua real nova cara, na presença in loco e conversas cruzadas para tentar arrancar algo mais próximo da fonte que abriu as ebulições. Mudanças, sempre e sempre, serão motivos de discordância, mesmo quando eternamente cobradas por quem mais se assusta quando surgem concretizadas, mesmo por deixarem dúvidas evidentes quando não coadunando com os princípios que teriam movido os que a fizeram.

O festival de nossa capital federal traz já à simples citação de seu nome cargas bastante pesadas (no bom sentido), que o diferenciam, afastam, do que se imagina justo para festivais de outros lugares: mas vale lembrar que tal carga sempre impôs um distanciamento do padrão, que talvez não fosse justo para o povo da cidade, tão carente de fluidez e constância de bons filmes nacionais, quanto de suas próprias produções. “Justo para festivais de outros lugares” tem a ver com abrir um tempo (escasso normalmente, mas real) nos calendários de vários locais do país para que se crie um acostumar às nossas produções, o que, evidentemente, deveria incendiar os desejos dos locais pelo contato com a arte próxima não tão próxima; o que pressuporia pensar no aumento e na diversidade (temática, de estilo, por compreensão de vida) de novas obras.

Tal atitude, principalmente para os de fora, não caberia e nem deveria nortear o evento que tem entre tais “cargas bastante pesadas”: o fato de ter nascido da idealização do mitológico Paulo Emilio Salles Gomes, o que lhe pregou a aura de bastião para as brasilidades projetadas em tela; os atos que sucederam durante os seus momentos de existência, bastante iconográficos na memória de nosso bom cinema (as reuniões no lendário Hotel Nacional, com “realizadores marca” como Saganzerla, Bressane, José Mojica, Glauber... e as críticas de Jairo Ferreira, uma infinidade de ações que moveram o nosso cinema do patamar doméstico para o reconhecimento de diversificação de varias espécies); estar no centro das decisões durante todos os momentos históricos da política do país nos tempos já da capital transferida (visando e tateando de perto os atos do governo da ditadura militar e suas “engenhocas protecionistas/paternalistas”; ou o esfacelamento de nossa produção, no breve, e visceralmente mortal, momento Collor de Melo)...

Nos últimos tempos o que mais marcava nas discussões sobre o que ocorria aqui girava em torno da queda sensível, ano a ano, da qualidade das produções exibidas, o que era, numa primeira e superficial analisada, creditado principalmente à tal exclusividade que Brasília cobrava, exigindo que os longas exibidos fossem inéditos, num período do ano (novembro) em que os realizadores ansiavam desesperadamente por já terem encontrado alguma brecha para mostrarem seus trabalhos (os festivais são algumas dessas brechas): além disso, os debates e simpósios vinham perdendo espaço, e outra das possibilidades úteis (que era a de servir de momento incentivador às produções locais) parecia cada vez mais distante. No caso do ineditismo dos longas em competição, a imprensa e crítica cobravam mudanças, tanto quanto os que queriam ver suas obras exibidas na capital.

Ano passado, 2010, uma tentativa de mudança surgiu de forma ousada e até radical, com curadoria dividida - especificamente para que cada um dos curadores elegesse uma obra -, de cabeça boa, que resultou um festival de filmes raros, reais frutos do que se faz no Brasil nas regiões onde o cinema está em maior ascensão, e muito fruto de atos individuais (ou coletivos, mas sem o exagero das benesses totais do Estado). Sem saber se essas obras de diálogo mais complexo tiveram alguma responsabilidade pela revolução que se estabeleceu na primeira metade do ano, mas tendo a certeza de que o novo governo local resolveu tomar as rédeas de maneira mais encurtada, muito do que era tradição mudou. Mais locais de exibição foram disponibilizados, mais conversas (mesas, debates, seminários) agendadas, a quebra do ineditismo e a mudança na quase lendária data, com um adiantamento de quase dois meses. Portanto, por que tanta grita por conta da quebra do ineditismo? E por outro lado: já que foi quebrada essa exigência, por que tal adiantamento nas datas? Como cobrar a ausência de alguns longas que pareciam “desenhados” (por qualidade, por afinidade com o modelo do Festival até então) para pertencerem ao evento, esquecendo-se que cabeça de curadores é autônoma e quase sempre de pensamentos incompreensíveis? Enquanto, novamente por outro lado, alguns que poderiam parecer presente já embrulhado para o que se pressuporia como caminhos daqui também ficaram de fora: sendo que há alguns longas que prometem demais, estão na programação, e não coadunam com o que os pensamentos reclamantes estabeleceram como o “o modo de pensar oficial do evento”. Vale lembrar que houve muito falação questionando métodos da curadoria (sendo que seria ridículo considerá-la ruim sem a apreciação dos filmes escolhidos), por dados matemáticos gerados que relacionavam o número de curtas inscritos, a quantidade de curadores, e o suposto tempo demandado para as definições dos escolhidos (contas que não fechariam possibilidade de escolhas com razoável análise)...

Já aqui desde a manhã desta segunda-feira, ouço relatos dos daqui mesmo bastante divergentes: alguns achando que as tomadas drásticas de decisões vieram a favor de uma democratização e ampliação de possibilidade da circulação de muitos filmes pela cidade; outros, sugerindo, por exemplo, que os trabalhos, os filmes (feitos cada um com um modelo de material, modos de catação específicos), principalmente os curtas do DF, teriam corrido o risco (superado) de serem todos apresentados em DVD nessa ampliação em busca das periferias, o que faria pressupor falta de tato quanto à certeza de que cinema é arte, e deve ser vista como arte, como todas as suas possibilidades respeitadas.

Na realidade, voltando ao início, tudo está feito e agora sim é a hora de se constatar os resultados, sendo que somente ao fim desta 44ª jornada será possível realmente perceber se, e até quanto, as mudanças surtiram positividades; se, e até quanto as mudanças são críveis mesmo como um modelo mais democrático de gestão; se, e até quando essas novidades aprovadas de supetão resistirão ou foram atitude instantânea que pode sofrer revés e volta a muito do modelo antigo. Com calma e tempo.

Chegada à cidade junto com chuva e temperatura bem mais amena – para o bem de quem vinha para cá assustado com os relatos de secura e calor que já se estendiam por três meses; e principalmente para o bem da saúde dos daqui mesmo. Já á noite, Teatro Nacional Cláudio Santoro (aliás, aqui, os lugares são “nacionais”, não municipais), Sala Villa Lobos hiper-lotada (isso é o Festival de Brasília: para os seus), com gente sentada em cada de chão disponível, e apresentação até que veloz elucidando as atividades e as novidades. Houve a “velha”, boa e segura Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro regida pelo maestro Cláudio Cohen executando “Brasília Episódio Sinfônico”, de Fernando Morais (com boas variações no andamento e arrumação dos arranjos, que por vezes remetiam a sons nordestinos – algo justo para uma cidade construída em boa parte por eles -; e em outras, com toques de sonoridade e vigor bastante “urbano” - dois trechos bastante repletos de instrumentos atuando juntos que lembravam vagamente a dinamicidade empreendida nas obras do pra lá de urbano Gershwin), e também uma versão “erudita”, digamos, de “Eduardo e Mônica”, de Renato Russo, com arranjos de Renato Vasconcelos (que resultou, como seria de se esperar, fraca, diante da impossibilidade de preenchimento dos espaços num trabalho pop, de andamento bastante comum na origem, e de pouca utilização de variações tonais – fato que tentou ser “reparado” nessa versão orquestrada com o avolumar na presença dos instrumentos pelo decorrer do tempo de execução).

Vai ao palco Vladimir Carvalho, com boa parte da equipe de seu documentário, boa parte dos músicos do Plebe Rude e do Capital Inicial, alguns parentes dos músicos citados em Rock Brasília – Era de Ouro e o início ideal para a população da cidade toma conta da telona. Abaixo, a crítica. E vamos, a partir de agora, festival adentro.


FILME DE ABERTURA

Rock Brasília - Era de Ouro, de Vladimir Carvalho. DF, 2011. Documentário, cor, 35mm, 111 min.

Há muito mais de Vladimir Carvalho nesse documentário sobre o “Rock de Brasília” do que sobre o rock mesmo de lá. Na realidade – e meio que cumprindo o modelo de montagem que fez dele uma das figuras mais notáveis de nossa cinematografia -, o que importou mesmo, de maneira evidente, foi mostrar os momentos e as figuras que fizeram desse instante da capital federal talvez o que despertou nos seus a necessidade de se comportarem como uma “nova civilização”, que surgia e que merecia algo que a incentivasse a partira em busca de criar sua identidade.

Parece que ficará evidente para os que buscarão o documentário para ouvi-lo, mais do que assisti-lo, que ele utilizou pouquíssimos momentos de música, de situações com exibições antológicas resgatadas de arquivos, ou sonorização da banda com música de forma mais intensa – talvez, inclusive, a única peça executada de maneira integral tenha sido colocada na edição no momento do fechamento do filme. Vladimir é um apaixonado pela sua cidade e pelo rock que brotou por ali, pouco após o grosso do movimento punk ter quase se extinguido no mundo onde nasceu – mas que serviu, pelos depoimentos (talvez não pela sonoridade obtida, de matiz, infelizmente, mais leve e ligeira), como fonte de inspiração, e mais, de aglutinação de jovens que viviam quase isolados em seus apartamentos de funcionários públicos -. Tal paixão o impeliu desde aqueles instantes a colher depoimentos, arquivar material, e deixar na memória (e penso que na sua memória de documentarista inato qualquer assunto algum dia imaginado como de importância virará trabalho concretizado) um assunto que, retomado, recauchutado com novas entrevistas, e adensado pelas imagens que obviamente virariam de arquivo pelo passar dos anos, faria parte de uma obra autoral que tenta enxergar e fechar o desenvolvimento de um local que nasceu tardiamente, e ainda está em progressão no sentido de questões de humanidade (ou civilização com características definidas).

Ele não é um pirotécnico, é homem de entrevistas, de olho no olho, de perguntar e se mostrar a si mesmo ouvindo, de emitir opiniões ou reações espontâneas que não cortará na edição. E o que fez é um painel que abastece razoavelmente o que se imaginaria como necessário para a compreensão do momento, via dados que costurassem uma lógica, que impusessem alguma organização orgânica. Mas como Vladimir é alguém que tem atenção mais a outras estruturas de interesse do que da factualização por dados, o interessante seria olhar esse trabalho pelo lado do obtido nas questões das interligações pessoais. Poderia até parecer enfraquecedor o quinhão dedicado aos familiares e à relação dos do momento com os de seu entorno, mas seria estranho se o diretor olvidasse seu maior interesse eterno, em favor de fazer um filme que preenchesse de lógica essa paixão óbvia pelos da cidade para com essa música (tanto quanto dele, ressalto). A costura dos depoimentos, maneira de inseri-los, a ordem optada, e perceber a relação de uma cidade num momento que era quase uma família em busca de autoconhecimento, acabaram por resultar em algo que é levado, como mote de intenção de primeira camada, pela história desse movimento musical, mas que valeria (e muito mais justamente) se ganhasse como título o singelo e direto nome de, “Brasília”. Mais uma vez, ele tratou de questões humanas, num mundo prático, não o idílico.












Leia as matérias deste festival:

*Abertura (26/09) e Considerações Iniciais
*Terça-Feira (27/09)
*Quarta-Feira (28/09)
*Quinta-Feira (29/09)
*Sexta-Feira (30/09)
*Sábado (01/10)
*Domingo (02/10)
*Noite de Premiação