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21º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Cinequanon)


V - Destaques: o Cinequanon recomenda.


Bailão, de Marcelo Caetano. Brasil (SP), 2009. Doc - Cor - 35 mm - 17 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 03. (FOTO 3)

Bailão é daqueles curtas de deixar o espectador boquiaberto e sensibilizado. Muito bem estruturado pela opção de domínio geográfico por onde andarão e expressarão seus pensamentos os personagens – quase todos de meia idade pra cima, e todos aproveitando a oportunidade para poder manifestar suas histórias desde quando se entenderam como homossexuais -, o documentário de Marcelo Caetano acaba servindo como um grande exemplo de posicionamento de câmeras, de desvendamento de locais, de aproveitamento das sutilezas espaciais (as mínimas que sejam) de locais por onde costumamos passar e que se revelam quase irreconhecíveis (ao mesmo tempo que belos e de forte significado emocional para seus personagens). Tal capacidade de filmar e transformar as imagens em momentos imagéticos complexos na edição são de um poder a ser admirado.

Quanto ao sentido de sensibilização que o filme causa, não há como escapar da torrente calma de emissões (quase sempre “pensadas”, não oralizadas diretamente às lentes e seus microfones) de suas pessoas, contando singelamente (não querendo empatia por dó, não) os momentos da descoberta de seus desejos, e os momentos onde podem se sentir mais livres para amar, se relacionar, dançar. O filme pega pela composição adequada do mostrado e do dito, fazendo ver uma São Paulo mais bonita; fazendo ver as pessoas que se escondiam e não querem mais. Por Cid Nader.


Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Brasil (SP), 2010. Fic - Cor - 35mm - 16 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 07.

"Daniel Ribeiro parece estar tomando um rumo panfletário em defesa da causa homossexual. Foi assim no seu hiper-sucesso anterior, “Café com Leite”, e é assim, novamente, em eu Não Quero Voltar Sozinho”. O “problema” é que ele entende de cinema, e, por mais que seus filmes se “manifestem” como obras de características propagandísticas, o resultado vem sempre pela constatação de trabalhos bem concretizados e de forte apego ao bom modo de confecção.

Esse novo é mais leve no modo de tocar o assunto e, como já havia acontecido no outro, não se atém somente a ele como mote condutor. No anterior, as cenas de carinho entre jovens adultos causava uma certa comoção (misto entre incômodo e curiosidade manifestada claramente) na plateia. Neste, não há cenas impactantes como peça de propaganda – o único momento em que acontece “algo” é tão ligeiro como um piscar de olhos -, mas há reações do espectador. Neste, Daniel se arma de esquematismos fáceis que indicam aonde o filme irá chegar (as primeiras perguntas de Leonardo, um garoto cego, a Giovana sobre as características de Gabriel já vem “banhadas” de compreensões sobre o futuro da trama; o esquecimento de um moleton; um aniversário de uma tia..), o que poderia comprometê-lo. Na realidade, compromete um pouco, sim.

Porém, quando se constata o resultado, quando se amplia a visão e nota-se que há mais do que “somente” a panfletagem, percebe-se que o filme fala, também, de carinho e descobertas na adolescência. Descobre-se a razão da reação positivíssima da plateia (como ocorria sempre com “Café com Leite”) que o assistiu, e consegue-se notar que Daniel tem um dom raro (não fruto do acaso) para a comunicação com o público. Acho, ainda, o filme anterior superior, mas talvez mude de idéia, já que, no caso daquele, transformei meus conceitos cada vez que o revia." Por Cid Nader.


Fantasmas, André Novais Oliveira, Brasil (MG), 2010. Fic - Cor – Vídeo - 11 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 01.

Duas considerações devem ser feitas em relação a Fantasmas. A primeira é que com uma boa ideia se faz um bom e barato filme - candidatos a cineasta precisam entender que uma boa sacada pode ajudar depois a viabilizar produções que necessitam de maior aporte técnico e financeiro e parece necessário citar isso porque sempre existem aqueles que acham que é preciso gastar uma pequena fortuna, para os padrões do curta, para fazer um bom filme e aparecer no mundo cada vez mais competitivo e canibal dos festivais.

A segunda consideração, relacionada a essa boa ideia do filme, é como a imagem que nos é dada hoje por certos filmes, dada a possibilidade de barateamento da produção digital, tem outro tipo de caráter e status. Neste curta, a imagem que vemos: um plano fixo de uma rua de uma sacada de um prédio, só ganha alguma significação após minutos e minutos de filme quando o diálogo entre dois amigos revela a função desta. Simples, mas muito bem construído, muito bem pensado, o curta mais do que engenhosidade, mostra que não são necessárias muitas elucubrações verbais e nem piruetas de estilo para dizer aquilo que é do homem. Sensibilidade, inteligência e contato com a realidade, fazem toda a diferença nesse caso. Por Cesar Zamberlan

Fantasmas, de André Novais Oliveira. Brasil (MG), 2009. Exp - Cor - Vídeo - 11 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 01.

Fantasmas é triste e divertido ao mesmo tempo. Na realidade, é um exemplo de confecção cinematográfica, mostrando que métodos de composição podem ser dos mais simples (brincando com a ideia das câmeras caseiras, observando, postadas, mas realizando trechos que ficarão marcados de alguma maneira). Enquanto dois amigos conversam sobre superficialidades, de modo extremamente natural, as imagens captadas revelam uma esquina iluminada fortemente pelas luzes de um posto de gasolina. O filme instiga curiosidade enquanto não se descobre as razões da disparidade entre som e imagens – as razões. A partir de um dado momento, esclarecidas as razões, se torna um exercício que coopta o público, dividindo as sensações, entre percebê-lo como obra a ser rida (pelo texto que ganha derivação e objetividade) ou como um manifesto executado por alguém que nunca se conformará por uma perda. De todo modo, um exemplo das possibilidades infinitas dos curtas. Por Cid Nader


História de Cão (Chienne d'Histoire), de Serge Avédikian. França, 2010. Doc – Cor – 35mm – 15 min. Mostra Internacional > Internacional 02.

O premiado História de Cão é o típico exemplo (e resultado) de como imaginação e boas soluções podem ser tentadas e utilizadas no mundo dos curtas-metragens. Para contar uma inacreditável (pareceria inacreditável nos dias atuais de tanta afeição aos pets) história de extermínio de cachorros na Constantinopla de 1910, o diretor Serge Avpedikian se utilizou do recurso da animação (uma coincidência ou modismo que tem jogado na praça vários filmes documentos abdicando das fórmulas e das caras de pessoas ou coisas filmadas “ao vivo”): mas foi mais inventivo e obteve uma pasmante beleza de onde deveria advir somente horror.

Não foi às animações tradicionais para tal: utilizou por quase todo o tempo cartões postais de então para conduzir a situação e contar o fato, dando-lhes animação e inserindo alguns elementos (desenhos e colagens) para facilitar a fluidez.

À época haviam mais de 60 mil cachorros abandonados nas ruas da cidade e um ministro qualquer da higiene pública resolveu que a solução seria “exportar” metade deles para uma ilha deserta. O resultado pra lá de desumano gerou turismo de pessoas passando de barco ao largo do locak e pinturas feitas sobre a situação. O filme retrata totalmente a situação com esses documentos (e os postais) de forma sóbria e, com citei acima, até bela. A disposição tranquila das informações importa bastante ao final, pois conseguiu fazer com que “técnica escolhida” e os fatos relatados dialogassem harmonicamente e explicativamente. Por Cid Nader


Magnífica Desolação, de Fernando Coimbra. Brasil (SP), 2010. Doc – Cor – 35mm – 19 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 02.

Nem sei o quanto pode parecer pretensioso falar isso, mas creio que para mim seja importante - já que fui um dos pouquíssimos que colocaram algumas restrições ao mais mais famoso trabalho de Fernando Coimbra, o hiper-premiado curta metragem "Trópico das Cabras"(2007) -: Magnífica Desolação é um baita salto à frente do diretor. O que me incomodava no filme anterior citado era o fato de estar atrelado a um modismo corrente no cinema nacional que evidenciava uma sociedade brasileira doentia ao extremo, e que se abastecia de signos estéticos repetidos (provavelmente numa espécie de escola pernambucana de então) ao extremo, de pouco valor artístico, muito menos falando com sinceridade a uma pretensa camada de interesse "sociológico" buscada.

O que alenta agora, é perceber que Fernando tem mesmo o dom para realizações bem concretizadas técnica e esteticamente, que tem mesmo o domínio das dimensões da tela e de como preenchê-la com imagens de bela confecção diferenciada, sem que isso pareça peça solta para o alumbramento gratuito do espectador (quando filma, de dentro de um trem, a chegada a uma estação de carga ferroviária no meio da noite, sem parâmetros visuais ou indicações mais precisas de vida por perto, obtém clima raro de teor quase onírico, enquamto o que se discute nas palavras que sonorizam ao momento é de teor altamente real, da vida dos trabalhadores; creio um bom exemplo). Ele documenta momentos soltos da vida de maquinistas pelo Brasil, fazendo da visão (poderia dizer que literalmente) deles olho condutor de boa parte do trabalho, e deixando alguns poucos instantes para a explanação mais concreta de suas figuras e de um pouco de seu cotidiano. Ao ater-se (e às suas lentes) ao entorno dos seus (maquinistas) visuais e a pedaços de suas máquinas, obteve um resultado que significa verdadeiramente o potencial que o formato propicia a realizadores que não tenham medo de ousar, de manifestarem-se como artistas, de contarem fatos (no caso de documentários, como é esse) por vários mecanismos. O clima obtido aqui até assemelha-se (numa primeira e superficial olhada, por alguns aspectos de isolamento) a momentos de "Trópico", com a diferença que, agora, signos e modismos foram deixados de lado, e que se falou o que se deveria, para ser escutado por quem buscou. Por Cid Nader.


Oleg, de Jaan Toomik. Estônia, 2009. Fic - Cor - 35mm - 20 min. Mostra Internacional > Internacional 09.


Filmes vindo da Estônia- ou daquelas geladas cercanias russas - costumam conduzir o espectador "estrangeiro" por paisagens desoladas, clima frio (luz acinzentada e pouca vibração no vestuário dos personagens), e pouca explicação vinda da forma oral de compreensão, pois, normalmente, evitam diálogos extensos ou omitem muito do que poderia ser "externado" por pensamentos sonorizados. Jaan Toomik conta aqui uma história muito típica daquela região, pois embarca seu personagem numa viagem de retorno aos tempos de militarização (todo aquele enorme e distante entorno geográfico foi bastante afetado,além de ter sua civilização moldada, por eventos de dominação estrangeira que sempre se fizeram por forte imposição militar - no caso desse, muito mais recente, ainda sob resquícios da dominação do império soviético), para uma espécie jornada de libertação interior.

O filme, captado por luzes frias no início, numa estrada, se serve de uma elipse regressiva simples e conduz, espectadores e personagem principal (que se saberá ser quem é já lá próximo do desfecho), há 25 anos de distância dos dias de hoje, para um quartel, sob iluminação fria, também, mas um pouco mais idealizada em busca de nitidez, para permitir que se conte uma história. A entrada de um jovem soldado em, cena - meio machucado e contando para um "seu amigo" sobre ser evitado, sobre ser excluído e não bem visto por outros, e sobre o que lhe levará a atitudes futuras, tais situações (que podem parecer de pouca monta para quem assiste ao filme, mas que, notar-se-á, é de forte teor humano - daquelas que mexem no âmago de alguém, como poucos de fora podem notar) - coloca sob dúvidas a percepção do espectador, em relação ao que já não parecia nunca mesmo muito compreensível.

A elipse, o clima frio exacerbado, as dúvidas geradas por um não situar definitivamente os personagens de forma didática, conduzem toda a trama a um patamar de ansiedade: gerada nos espectadores que aguardam algo mais palpável. Esse clima de dúvidas e pouca luz (metafórica e literalmente), começa a ganhar potência inacreditável quando um fato se concretiza lá nos momentos passados, fincando finalmente suas bases emocionalmente e impactantemente tristes quando a elipse nos retorna, e à história, para uma situação que se resolverá visualmente, conduzindo almas e incertezas ao mais profundo choque de tristeza. Creio ter sido um dos curtas mais tristes que vi na vida. Por Cid Nader


Passeio de Bicicleta (A Bike Ride), de Bernard Attal. EUA, 2010. Fic – Cor – 35mm – 13 min. Mostra Internacional > Internacional 02. (FOTO 6)

O início desse belíssimo curta-metragem ianque (uma obrinha-prima, se poderia dizer) com um trecho do poema do irlandês Yates, “To Child Dancing in the Wind”, já apontava para probabilidades mil, se observado algum respeito à sensibilidade que a lembrança literária emprestava. Bernard Attal se debruçou sobre a singularidade que é entender as conexões infantis com o mundo. Mais: no poema, que fala de uma criança dançando ao vento, o que se lamenta é a atitude de termos de ser adultos, com saudades do idílico de não ter de enfrentar as forças da natureza com atitudes racionalmente “responsáveis”.

Transportando tema e adaptando para uma discussão tão atual quanto de sempre, o filme embarca num singelo passeio de bicicleta pai e filha, pelas ruas de Nova Iorque, enquanto se faz necessário alongar conversas e compreensões (de ambas as partes, e com cada uma cumprindo seu papel de importância etária nessa “necessidade” de explicações) brotadas das inseguranças da separação de um casamento. Como a citação do poema indica, o passeio se fará para enfocar nas perspectivas e sensibilidade da menina quanto ao assunto.

Como a citação do poema aponta, a conversa toma teor de carinho e compreensão, de tentativas de fazer perceber à criança que seu mundo ainda é o que merece se abastecer de “imagens imaginadas”, de observação fugas do entorno, de imaginação sobre o que ocorre ou sobre as pessoas com quem se cruza, deixando as certezas e dúvidas atrozes para o chato futuro adulto.

A beleza do filme, que incia com essa sensibilidade de um pai que tenta dialogar num patamar singelo necessário (há um momento em que ela pergunta ao pai “se ele acredita no paraíso”, cuja resposta demonstra o grau de relação que está sendo tentado naquele instante, por exemplo) , se concretiza com a qualidade do que foi captado pelas lentes (e pela maneira como foram feitas as imagens). Há a imagem quadrada (igual à das janas de filmes antigos) que ganha força e beleza pela qualidade limpa e colorida das imagens, e que ganha vida com a inserção de pequenos trechos em Super-8; há as opções de posicionamento das câmeras que filmam o passeio (numa que persegue o percurso serenamente posicionada próxima, e com variadas tomadas executadas a partir de diversos ângulos imaginados, surgidos da própria bicicleta); há a observação dos outros (o filme não se fecha em si, e no diálogo entre eles) executada pelas lentes com o olhar da garota). Belo e pacatamente bem resolvido no seu curto período.

P.S.: trecho do poema: “Dance there upon the shore; what need have you to care for wind or water’s roar? Being young.... Por Cid Nader


Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho. Brasil (PE), 2009. Fic - Cor - 35mm - 23 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 04.

Vou começar superlativamente um comentário sobe filme de Kleber Mendonça Filho: ele conseguiu se superar mais ainda, e parece estar querendo alcançar o posto de maior curta-metragista em atividade: no mundo, não somente em nossas terras tupiniquins. Diretor de clássicos no formato havia realizado com seu último trabalho no tamanho diminuto, “Noite de Sexta, Manhã de Sábado”, para mim, o maior curta de amor da história do cinema. Quando se pensa que o moço poderia se acomodar, ou não conseguir alçar voos maiores por conta de ser impossível, vem agora com esse Recife Frio, do qual havia ouvido maravilhas, e pelo qual ansiava.

Bem, o que vemos exibido na tela é simplesmente é uma condensação expandida dos que pensa Kleber de cinema. É filme de edição, de enorme capacidade captação, de “humor fingido” e, principalmente de denúncia feita com tapas de luvas de pelica. Quando o filme inicia com um meteorito caindo sobre sua Recife e, na sequência, vemos uma câmera com estilo noticioso filmando cientistas tentando analisar algo do objeto celeste e discutindo sua “desimportância” quanto a futuras implicações, estabelece-se a questão: o que virá por aí. Pois bem, o diretor, bem ao seu estilo, inicia seu filme apontando dicas, mas nunca entrega o que está almejando tão rapidamente. Tal sentido de organização, já por si só, indicaria que um realizador de conhecimento está por trás de tudo: quando se trás procedimentos “camuflados” como os que ele executa para a curta minutagem do formato, passa-se a admirar muito mais quem consegue solucioná-los, pois tais mecanismos de procedimento, imagina-se, só terão boa resolução com espaço e tempo para sua concretização.

A partir daí, e aproveitando o mote lançado da “câmera telenoticiosa”, o diretor passa a executar um filme de dinamismo avassalador. Coloca um narrador argentino falando para seu país de um fenômeno ocorrido na capital pernambucana, que teria resfriado sua temperatura a algo digno de países do centro europeu. Recife esfria no filme, pinguins se mudam para lá, as praias são abandonadas, as roupas mudam, os artesanatos mudam, as pousadas esvaziam, as religiões evocam explicações e piedade... Passa-se a participar de um exercício de humor corrosivo e impressionante por sua imaginação e por sua confecção técnica. Contando a história surreal, a ideia do formato de noticiário é explorada ao máximo, com Kleber explorando fortemente manias e vícios televisivos, aproveitando a sacada para embutir trechos hilariantes dos mais impensáveis em diretor de feição tão contida – isso para quem não o conhece. Há sarcasmo no humor, e sarcasmo faz rir: a cena de um Papai Noel feliz e contando suas agruras anteriores é antológica (estranho esse termo, mas vá lá).

Só que num certo trecho, aquele Kleber Mendonça politizado e apaixonado pela sua cidade assume o posto, com filme passa a contar sua verdadeira razão: o diretor nunca se conformou com a verticalização, com o aburguesamento, com shoppings substituindo o lazer natural da região. Sutilmente – a empregada sendo “beneficiada” com a suíte do rico apartamento, por exemplo -, ele oferece suas ideias, seus preceitos justos, mas, percebe-se, o está fazendo estritamente dentro da linguagem do cinema. O humor não é abandonado, volta-se a rir, continua-se a se impressionar com o excesso de imaginação das imagens criadas, mas, já aí, o recado está dado e impregnado. É tudo inimaginável saído da cabeça de um simples mortal: quanto mais inimaginável ainda realizado e transformado em cinema por um mortal cineasta. Mas é Kleber. Por Cid Nader


Tempestade, de Cesar Cabral. Brasil (SP), 2010. Ani - Cor - 35mm - 10 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 03.

Falar de Cesar Cabral nos dias atuais é certeza – ao menos até hoje – de que se falará de trabalho de animação com qualidade superior. Esse seu novo – com um stop-motion excepcional, onde mistura a clássica massinha dos personagens à madeira da composição do interior do barco, além de um plástico (parecia plástico) para criar o movimento do mar revolto (coisa que me remeteu instantaneamente à relembrança de cenas de “E La Nave Vá”, de Federico Fellini) – trabalho parece já ter nascido clássico desde o momento em que foi imaginado pelo diretor.

Para citar aqueles seres solitários, que são os melhores para instalarem clássicos nas nossas memórias, Cesar foi a um clássico da música, “Eleanor Ribby” – que fala de pessoas solitárias, da solidão do afastamento, da busca, do isolamento do túmulo, da não volta – e contou a saga de um marinheiro, que deseja lutar contra as intempéries, contra a obviedade "que grita que ele nunca conseguirá" (são diversas as razões para tal negativa do destino). O filme é trabalho dos mais elaborados no quesito manipulação dos materiais: fato esperado em diretor e equipe que são pacientes o necessário na certeza da importância da calma para a confecção de trabalhos que mereçam a atenção. Surpreendente – só não mais ainda, porque já se sabe da capacidade e da imaginação dele para criar movimentos e “falsidades” que fazem de seus filmes obras recheadas de zooms e travellings, criando obras de consistência dramático-narrativa rara – pelo alcance das manipulações obtidas com as lentes (pequenos e lentos “zooms”; “tomadas” por ângulos inusitados; variação na iluminação; ventos que movem pontas de papel ou os levam pelas janelas...), o que faz com que esse trabalho consiga um pulo a mais na busca da movimentação perfeita (o que poderia parecer inacreditável)do que já havia ocorrido com o grande “Dossiê Rê Bordosa”.

Não há como não se emocionar com o trabalho, onde a angústia e a solidão do velho marinheiro são potencializadas pela fotografia da amada enchendo a tela vez por outra, ou pela sonorização criada por música clássica (lembro de ter lido o nome de Phillip Glass, mas creio ter lido o nome de um outro autor, mais antigo): valendo ressaltar um trabalho e cuidado primoroso na confecção sonora de tal qualidade, que faz essa animação uma das mais bem “equipadas”, nesse sentido, dentro de nossa cinematografia. Há ainda a busca da similaridade – da homenagem, da referência – à obra plástica de Willian Turner, por alcançar, principalmente, além dos traços e algo da luz, tipos de textura executadas por esse.

Quando o filme termina, a retina imediatamente reage ao que adquiriu pelas mais variadas execuções realizadas e tentadas: e a alma sai com a angústia que o filme emprestou da música dos Beatles, do significado da solidão, da certeza de que há que tentar, mesmo quando se sabe que não se irá alcançar. Quando Tempestade termina, percebe-se que se pode falar à nossa alma pungentemente, mesmo com bonequinhos, com massinhas, com madeira – creio que isso seja uma e das possibilidades da essência da arte e dos caminhos que pode buscar para alcançar objetivos. Por Cid Nader

























Leia as matérias deste festival:

I - BRASILEIROS (A a M) - 30 críticas

II - BRASILEIROS (N a Z) - 22 críticas

III - Internacional - 26 críticas

IV - Latino-Americanos - 4 críticas

V - Destaques: o Cinequanon recomenda.

VI - Dark Side - 5 críticas

VII - Sapporo Short Festival - 4 críticas