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21º Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo (Cinequanon)


Críticas mais recentes: "As Verdades Temporárias", "Avós", "Borboletas Indômitas", "Izamara", "Betova - O Ano da Cachorra".


I - BRASILEIROS (A a M)


7 Voltas, de Rogério Nunes. Brasil (SP), 2010. Doc – Cor/P&B – Vídeo - 19 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 05. (FOTO 1)

Boa a saída de Rogério Nunes para criar um documentário. Ainda numa cidade que parece não nutrir afeição por sua história – ou por suas tradições, ou por seu folclore, ou sua gastronomia... Para contar sobre o rio Tamanduateí (atualmente, um canal cimentado por boa parte de seu curso, de águas fedidas e escuras) e seu entorno o diretor foi a textos arranjados de crônicas que se passaram tendo o local como centro geográfico do narrado.

Como tapa com luva de pelica, além de o caminhar do trabalho nos levar de um local plácido lá “nos antigamente” para a atual realidade da região – entornada por ruas e viadutos sem nenhum tipo de ligação com a natureza original de lá -, tal caminho se faz traçado pela narração de trechos bastante bons (há pedaços de “Viagem Pelo Rio Tamanduatei”, de Auguste Saint Hillary; “1° de Maio”, de ninguém menos que Mário de Andrade; ou ainda “Parque Shangai”, do professor Herodoto Barbeiro) que relatam momentos de nossa história, afinal, por séculos diversos.

Não bastasse tal percepção, a fatia visual do filme é composta por animações de artes e pinturas num momento, por desenhos em outros, por fotos e filmes documentadores em mais outros, compondo a transformação da região também pelo aspecto visual com boas homenagens às formas de retratá-la em cada um dos momentos das palavras escritas. Reverencial, mas dinâmico; bem humorado (por alguns dos trechos escolhidos, e nada “filosofador” ou ditador de história oficial – atingindo objetivo de elucidar). Por Cid Nader.


A Distração de Ivan, de Gustavo Melo e Cavi Borges. Brasil (RJ), 2009. Ficção - Cor - 35mm - 15 min. Programas Especiais > Semana da Crítica. (FOTO 2)

Retratar seu mundo, seu local – mesmo que não seja na realidade, mas que se faça imaginado como tal por conta do teor intimista do trabalho – é uma das coisas mais difíceis do cinema. A fábrica de realização de curtas que são Cavi Borges e sua “empresa” - no caso, aqui, com a co-direção de Gustavo Melo – conseguiu um exemplo bastante singelo dessa possibilidade tão perseguida. Filmado no subúrbio carioca, é bastante correto no modo como filma as situações acontecendo na rua, o interior (o quintal) da casa, as pessoas. Utiliza bem a luz natural – com a exceção de um momento onde a imagem fica enevoada por falta dela (da luz), mas se revelando como equívoco, não opção, quando, num plano seguinte, tudo volta ao normal – e não arrisca desnecessariamente com invenções formalistas. É filme de rua, de rincão e de resultado bem correto, mesmo vindo de um local que fabrica filmes aos montes. Por Cid Nader.


A Estória da Figueira, de Julia Zakia. Brasil (SP), 2006. Fic – Cor – 35mm – 16 min. Programas Especiais > Linguagem [e] Técnica 1.

Mais um típico trabalho que se diz preparado para atingir um certo público, através de adaptação livre de uma cantiga, mas que no fundo, no fundo, deixa no ar uma intenção de primor estético que acaba por dominar todas as outras possibilidades – se é que elas existiram. Que é bem realizado e bem acabado não resta dúvida. Resta sim a certeza de que beleza e plástica somente não fazem cinema. Para isso temos os museus. Por Cid Nader.


Água Viva, de Raul Maciel. Brasil, 2009. Fic – Cor – 35 mm - 14 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 04.

Este é o oitavo filme realizado sob os auspícios do “Projeto Sal Grosso” (uma iniciativa universitária que reúne estudantes e escolas de todo Brasil, para que, ao final, se escolha um dos trabalhos que será filmado sob suas “bênçãos”, repartindo as funções vitais do trabalho escolhido pelas diversas entidades – e que tem rendido obras de bom poder e qualidade). Água Viva é uma ida ao íntimo feminino que desabrocha numa garota, repentinamente, pela entrada de um estranho no cotidiano de um lar fechado e “resolvido” em si mesmo – onde pai e filha se “bastam”.

Esse se bastar, como se sabe pelo avançar comum da vida, tende a ter seu rompimento (ou mudança de rumos), normalmente, quando os hormônios passam a imperar de forma mais aguda. O filme trata tal questão de modo mais complexo, menos “normal”, mais intenso, mais pecaminoso (no sentido de pecado não acusado, mas brotado das questões que gerem a vida de algumas sociedades e instalados no inconsciente), mais apropriado a virar um bom motivo de transformação em peça artística: e o cinema é campo fértil para tal. Tecnicamente de uma correção sem restrições – de justíssima aplicação dos princípios básicos, o que imprimiu na tela a ideia de um produto “classudo” -, o clima obtido ganha muito mais ainda em qualidade pela intensidade e dedicação que a jovem atriz imprimiu à sua personagem. Bem bom. Por Cid Nader


As Verdades Temporárias, de Eduardo Kishimoto. Brasil (SP), 2010. Fic – Cor – 35 mm – 15 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 02.

Eduardo Kishimoto não facilita a vida de ninguém nesse seu curta. Não explica em nenhum momento (linear ou didaticamente) qual as razões que motivam a confusão emaranhada de uma trama que poderia, nas primeiras impressões causadas pelos primeiros instantes do filme, parecer referência a um cinema da década de 70 ou 80, originado do estilo de nossos filmes eróticos de então (pela fotografia, pelo modo de movimentação da câmera, até pelo vestuário, cenografia e cor obtida). Conforme a história avança – mesmo com as informações ainda sendo sonegadas (no sentido de entregá-las mastigadas) -, as nossas impressões começam a se organizar e percebe-se que se trata de um trabalho que fala de coisas pessoais, do passado, da ancestralidade familiar.

Me atrevendo a exercer psicologia barata e compreensão sociológica de botequim, As Verdades Temporárias, acaba representando, em tela, muito do modo extremo oriental rememorar e “homenagear” coisas de família, dos criadores, dos que cuidaram nos momentos iniciais de aprendizado, lá na infância. Bastante sensível. Por Cid Nader

Avisa que Amanhã Já Nem Existe, de Ivan Morales Jr. Brasil (SP)/Alemanha, 2010. Fic – Cor – Vídeo - 12 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 05.

Para falar do apocalipse (será?), Ivan Morales (de “Antônio Pode”) construiu um trabalho de pouca ligação a narrações comuns: orais ou visuais. Fez um filme no qual evidencia desarranjos visuais, já que quase todo observado (cenas, locais e pessoas em estado de catalepsia – será?) por câmera subjetiva. Filmar por lentes que tentem cumprir o papel de olhar do protagonista requer complicadas razões para justificar tal atitude: tanto quanto é ato de confecção difícil, pois está muito próximo de se apresentar por patamares de artificialidade. O resultado, mais do que apocalíptico soou a “farsesco”, a estilístico e pouco confiável como bom exercício. Mesmo não deixando de ser atraente pela estranheza gerada – é justo dizer que não dá para desligar do filme -, tal estranhamento alcançado padeceu de alguma razão mais justa para sua existência (mesmo dentro de não razões buscadas propositalmente). Por Cid Nader.


Avós, de Michael Wahrmann. Brasil (SP), 2009. Fic – Cor – Vídeo - 11 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 09.

Quando se pensa em São Paulo (na cidade, mais especificamente) vem à lembrança ou para confirmar o mito a ideia de um lugar formado pro miríades de etnias e raças, e num local onde elas, por algum mistério inexplicável, acabaram por confluir quase que harmonicamente – a ponto de criar uma “outra civilização”. Mesmo assim, principalmente para quem é descendente de estrangeiros e vive lá, sempre há algum tiquinho que seja daquele ancestral componente familiar (étnico, culinário, sutil, tosco...) interferindo de alguma maneira em momentos não especificamente escolhidos.

O filme de Michael Wahrmann é um desses trabalhos que vem lá das recordações de infância e traz componentes que fazem perceber nitidamente a gama de “informações” familiares que bombardearam sua formação cultural. Apropriadamente estudando na FAAP para falar de seus avós judeus (e aí me permito fazer uma brincadeirinha paulistana por contada localização da faculdade), ele aproveitou essas informações que acumulou para realizar seu curta (aliás, quase todos os trabalhos universitários que tenho visto ultimamente são muito resultado de reminiscências particulares – até compreensivelmente), que ostenta bastante setores específicos do aprendizado acadêmico (no modo de variações na montagem, principalmente), com um pouco de falta de jogo de cintura para fazer com que os segmentos do filme se completassem mais, e se percebessem de onde originados, menos. Mas é bom. Por Cid Nader.


Bailão, de Marcelo Caetano. Brasil (SP), 2009. Doc - Cor - 35 mm - 17 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 03. (FOTO 3)

Bailão é daqueles curtas de deixar o espectador boquiaberto e sensibilizado. Muito bem estruturado pela opção de domínio geográfico por onde andarão e expressarão seus pensamentos os personagens – quase todos de meia idade pra cima, e todos aproveitando a oportunidade para poder manifestar suas histórias desde quando se entenderam como homossexuais -, o documentário de Marcelo Caetano acaba servindo como um grande exemplo de posicionamento de câmeras, de desvendamento de locais, de aproveitamento das sutilezas espaciais (as mínimas que sejam) de locais por onde costumamos passar e que se revelam quase irreconhecíveis (ao mesmo tempo que belos e de forte significado emocional para seus personagens). Tal capacidade de filmar e transformar as imagens em momentos imagéticos complexos na edição, são de um poder a ser admirado.

Quanto ao sentido de sensibilização que o filme causa, não há como escapar da torrente calma de emissões (quase sempre “pensadas”, não oralizadas diretamente às lentes e seus microfones) de suas pessoas, contando singelamente (não querendo empatia por dó, não) os momentos da descoberta de seus desejos, e os momentos onde podem se sentir mais livres para amar, se relacionar, dançar. O filme pega pela composição adequada do mostrado e do dito, fazendo ver uma São Paulo mais bonita; fazendo ver as pessoas que se escondiam e não querem mais. Por Cid Nader.


Betova – O Ano da Cachorra, de Alan Langdon. Brasil (SC), 2010. Exp – Cor – Vídeo - 15 min. Programas Especiais > Mostra Juvenil.

Alan Langdon é um realizador de Santa catarina que, diria, tem uma certa compulsão por filmar – é o nosso verdadeiro “homem com uma câmera”. E desmente o mito recente que leva à crença de que nesses atuais tempos de possibilidades mil de captação - facilitadas pela infinidade de ferramentas digitais à mão no mercado - se filma muito, mas com pé na urgência e corpo fora da qualidade pelo obtido: Alan é um dos nossos mais inspirados “câmeras”. Por conta dessa compulsão em filmar, um tanto por outra conta na qualidade que consegue com boa parte do material que obtém com suas lentes, e mais um pouco pela evidente inquietude que o leva a filmar e realizar material como diretor inato que obviamente é, ele não para de deixar jorrarem ideias, disponibilizando-as em trabalhos feitos para serem consumidos em telas de cinema, mas também aproveitando-se bem das possibilidades de comunicação ampliada e imediata que a internet proporciona.

Mais especificamente, esse caso de Betova – O Ano da Cachorra, originou-se de uma sacada que teve ao transformar em uma espécie de diário tudo que obteve (tudo mesmo, coisa der dia a dia) filmando momentos de uma pequena cachorrinha de quem passou a ter como companhia desde quase o início de sua vida (dela, evidentemente). Na internet a sacada rende momentos bem interessantes, para serem consumidos com calma, aleatoriamente, ao gosto do freguês. No filme, a alma do diretor encontra a possibilidade de se impor à do captador ou homem de mídias, fazendo com que seu olhar, seus momentos de disponibilização das imagens pela montagem, seu ritmo, façam a vez. Temos um filme: de realizador.

Filme que flui por um ano corrido – as datas passam a cada dia num canto da tela -, que inicia com um belo momento de lazer em sua casa, com amigos e mãe (mãe que dá uma declaração bastante interessante sobre finalidades, para ela – o que acaba refletindo uma verdade para a maioria do lixo que se produz por aí - do excesso de material que ele filme e guarda diariamente), quando alterna a verdade imaginada pelo nosso olhar sobre o que ocorre, e a verdade notada quando se percebe num momento não específico que o que se está vendo é fruto de “filme que rebobina”, de retroceder das imagens: esse início bem filmado e manipulado, num fato possível pela placidez na captação, já faz perceber, para quem não conhece a obra dele, suas qualidades como câmera e como quem manda mesmo no pedaço, o diretor.

A partir daí, ao revelar diariamente pequenos segundos da vida de Betova, sem deixarseu cotidiano de fora – o que imprime mais verdade e realidade ao trabalho, pela inclusão natural e orgânica dela em sua vida -, o curta ganha dinâmica ditada pela atração, pela sensibilidade dos instantes, pela incrível experiência que ocorre na chance de se poder notar uma vida em transformação, ligeiramente, na tela, de dentro de um mundo de verdade: com festas, ratinhos, outros cachorros, outras pessoas. Há boa parte desse início musicado por música clássica leve (o que fortalece esses momentos em que se constroem laços e fortalecimento da afetividade), com guinada nos ruídos e músicas enquanto o filme avança e a vida se revela mais ampla de outros companheiros.

Não sei o quanto o diretor Alan tem consciência plena na consistência e justeza desse seu trabalho como obra completa, no sentido cinematográfico (há dramaticidade; há evolução; há ritmos obtidos na edição, para cada setor), e como obra que provoca a curiosidade em relação à empreitada internética – provavelmente total, já que é homem do ramo por várias maneiras. Sei que seus trabalhos, mesmo admirados, deveriam receber atenção mais detalhada de observadores de várias origens (entre eles a crítica), indo além de pensá-lo como fruto de qualidade “esperta” e divertida, para compreendê-lo como originado de muita capacidade (algo de inato, sim, como citei antes, mas muito de “tentativa, busca e execução”) inovadora. “Betova” é para todos os públicos. Por Cid Nader.


Borboletas Indômitas, de Daniel Chaia. Brasil (SP), 2010. Fic – Cor – 35 mm – 17 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 02.

Sob pretexto de homenagear uma boa parcela das pessoas envolvidas com cinema aqui na cidade São Paulo, Daniel Chaia imaginou uma história que envolvia política, corrupção em alta escala, vingança redentora, e belíssimas mulheres para fazer o trâmite entre o mote narrativo e os tais homenageados. Filmado com segurança, o curta não pretende ir além de fechar-se bem, tecnicamente, deixando de lado brincadeirinhas ou experimentações, para se construir sem nenhum tipo de deslize – fato obtido pela certeza de que se bastaria dentro das intenções comportadas imaginadas pelo diretor.

Já que a as opções de condução estavam seguras de si, o mote era “apenas” uma razão necessária, e a estética não buscava alcançar o infinito, “sobraram” para a beleza das três atrizes desfilando sensualmente seus corpos ante lente, e para os olhares estarrecidamente seduzidos dos homenageados ante suas (as delas) passagens, as sensações que devem gerar encantamento ou outro modelo catalizador de mais impacto e marca que qualquer modelo de obra deveria exigir para fazer real sua razão de ir ao público, saindo da proteção criadora dos artistas que as produzem. Para os homens funciona; para os paulistanos envolvidos ou mais conhecedores de nossos bastidores cinematográficos, também. Mas será que funciona também para outros públicos? Será que passa sem dar a impressão de parecer “somente” uma boa brincadeira entre amigos? Se sim ou não, e sem questionar a possibilidade de se trabalhar com essas intenções como o que incentiva e motiva à realização, só deixo no ar as questões porque não consegui supor as respostas. Por Cid Nader

Carreto, de Cláudio Marques, Marília Hughes. Brasil (BA), 2009. Ficção - Cor - 35mm. - 12 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 06. (FOTO 4)

Esse filme vindo da Bahia é um dos grandes exemplos de singeleza e alegria que surge de onde não se imagina poderá vir, a que vi no mundo dos curtas-metragens, ultimamente. Assisti-o numa sessão dominada por obras de jovens diretores, e o frescor emprestado a ele pela dupla que o confeccionou chegou a me causar surpresa. O fato de filmar um lugar miserável, com situações e pessoas que raramente encontrariam felicidade por seus problemas, levaria a crer que, sob a batuta de pessoas “ainda inexperientes”, algo mais choroso e intimista-reclamador poderia assomar a sala de projeção. Que nada. Preconceitos pra lá: e a constatação de que quando se tem domínio de onde se quer trafegar, quando se tem certezas em atitudes certas e contidas, trabalhos dignos brotarão.

A beleza no modo de observar o território (de onde, aos poucos, a beleza brota passando a dominar o ambiente), e, principalmente, a conclusão risonhamente escancarada do ato que será executado pelo pobre menino - que enxerga numa menina uma possível miséria maior do que a sua, surpreendendo-se por “não ser bem assim” -, são um achado tão raro em sua aparente simplicidade, que faz pensar seriamente em quanto o cinema pode ser bom, quando contido e bem concretizado. Por Cid Nader.


Cru, de Fábio Allon dos Santos. Brasil (PR), 2009. – Fic - PB – Vídeo – 3 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 01.

Cru foi feito em tomadas únicas. Ok. O curta tem planos bonitos em preto e branco e usa o sempre simpático Super 8. Ok. Mas, o que dizem essas imagens, além de documentar a dor de quem perde uma pessoa num afogamento? A dor pela dor, a lágrima pela lágrima e a imagem tão pretensamente cheia de emoção, se esvazia. Cinema não é só belas imagens. Por Cesar Zamberlan


Dias de Greve, de Adirley Queirós. Brasil (DF), 2009. Fic - Cor - 35 mm - 25 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 08. (FOTO 5)

Por outro lado existem no mundo também os que fazem cinema com a alma e a simplicidade mandando muito no método de construção. Adirley Queirós anda resgatando o modelo do cinema puro, simples, que vai direto aos assuntos e aposta fortemente na história que quer contar – e são histórias de luta sindical de pessoas simples, de injustiçados de sua região natal que é Ceilândia, em Brasília. Fala de um apequena greve metalúrgica e de como ela afeta decisivamente no cotidiano dos envolvidos – mostra que há desavenças, que falta comida nas geladeiras, que há incertezas e medos paralelos às ameaças patronais (mesmo que seja um patrão “pequeno”). Para completar, percebe-se (por mãos nos joelhos enquanto pedala sua bicicleta) que um dos empregados envolvidos é metalúrgico porque não pode exercer mais seu desejo de vida, que era o de ser jogador de futebol – futebol que faz parte de verdade da vida do diretor. Por Cid Nader


Das Faces e das Sombras, de Vebis Júnior. Brasil (SP), 2009. Fic – P&B – Vídeo – 20 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 02.

Vebis Júnior costuma circular pelas rodas de cinema fazendo parte de galeras distintas. Uma dessas – a que professa culto a referências cinematográficas e entroniza somente diretores como os que deveriam merecer respeito e consideração para sustentar uma boa discussão (em mesa de boteco, que seja) -, recebe o diretor sempre com carinho e respeito, e ele, em respeito, também, consegue transitar sem muitos sustos pelos meandros “cultos” da arte, fazendo de tal pareceria um caminhar fluido e tranquilo por setores que também domina.

Nesse seu mais recente trabalho, o que se percebe de modo mais ostensivo é que ele dirigiu um trabalho que busca – não na marra, não artificialmente, mas por acumulação de conhecimento pela parcerias camaradas (mesmo que de mesa de botecos) – ser compreendido justamente pela entronização de um cineasta (no caso, a homenagem é dedicada a John Cassavetes), e pelas referências (que se sustentam na opção de um P&B bastante atípico, e na passada d’olhos da câmera sobre títulos de filmes largados como que ao acaso). A trama? Ah a trama, num caso desses.... O que importa é que o resultado estético saiu a contento com as intenções mais principais que a história. Por Cid Nader


Direita É a Mão que Escreve, de Paula de Castro Santos . Brasil (RS), 2009. Fic – Cor – Vídeo – 15 min. Programas Brasileiros > Cinema em Curso > Cinema em Curso 03.

A diretora carioca Paula de Castro Santos fez esse seu primeiro trabalho com um olhar feminino raro de ser encontrado. O que poderia parecer até óbvio, nem sempre é uma realidade encontrável – porque, normalmente, repassar tal olhar para qualquer modelo de arte que seja, exige que haja uma conjugação complexa entre um discurso intimista (ao menos é o que se espera de garotas falando de si e das suas) e a técnica da arte a ser utilizada (que normalmente acaba se insinuando como "a" bandeira a ser mais ostentada).

Para tal, ao pensar na história de uma garotinha que estuda balé numa parte bastante bucólica do Rio de Janeiro, sem abandonar jamais essas possibilidades técnicas, soube valorizar o entorno escolhido como cenário, captá-lo por lentes cuidadosas, recriar (ou inventar) atmosferas com cuidado de luz e boa escolha de angulações, fazendo desse cuidado um elemento sustentador (jamais opressor) da atuação de sua atriz, e valorizando sua "forte" presença na tela. Além do mais - já que as imagens estavam bastante bem domadas e ajustadas paar funcionar em favor do filme -, colocou carinho nas situações e nos diálogos quase pueris que renderam delas. A mão só pesa um tanto a mais pela maneira meio "iraniana" de esticar algumas situações de incompreensão de adultos que poderiam ajudá-la - mas sem comprometer a sinceridade do olhar feminino se enxergando e se retratando. Por Cid Nader.


Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro. Brasil (RJ), 2009. Fic - Cor - HD -16 min.Programas Brasileiros > Mostra Brasil 03. (FOTO 6)

Allan Ribeiro é dos cineastas dentro do mundo dos curtas mais constantes em competência com uma sucessão de filmes constante e quase inorgânica. Inorgânica no melhor dos sentidos, pois o jovem diretor carioca não repete estilos em seus filmes – repete cuidado e rigidez absoluta, sim -, fazendo com que vê-los resulte ineditismo a cada jornada. Essa nova empreitada, de teor absolutamente documental – sendo que ele chegou a realizar filmes documentos (lembro, de cabeça, daquele dos bares), ou com fortes elementos documentais (ao revelar signos de trabalho, cotidiano, geografia, no grande “O Brilho dos Meus Olhos”) – inverte um jogo comum no cinema para falar de cinema.

Inverte, quando aborda, com seu filme, justamente uma companhia de teatro e danças, “Cia Rubens Barbot de Teatro e Dança”, como um contraponto estrutural à sétima arte, e discutindo métodos e especificidades de uma, que não necessariamente (para mim, quase nunca) coadunam com as da outra. Mais especificamente, as lentes cuidadosas de Allan perseguem o gestual de Barbot quando este imagina momentos para um novo espetáculo, insinuando grandes momentos do cinema para fazer perceptível o que deseja. Allan aproveita as divagações gestuais típicas das pessoas do ambiente, para fazer por ações visíveis, por execuções técnicas, demonstrações dos desejos e dos gostos expressados pelo diretor da companhia. O resultado: um filme correto, que tem a “alma” que o diretor costuma imprimir em seus outros trabalhos transferida para o relacionamento e cumplicidade entre os dois personagens em cena, e ao momento “comum” que deriva do início da feitura de um pão, ao consumo, na hora do lazer. Por Cid Nader


Essa Não É a História de Gregor Samsa, de Thiago Luciano. Brasil (SP), 2010. Fic – Cor – Vídeo - 10 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 05.

Utilizar trechos ou referências a qualquer ponto que seja extraido de obra de Frans Kafka remete automaticamente a pensar na mente atormentada, no homem adoentado em sua consciência, em medos advindos das razões mais recônditas: remete a pensar na confusão humana. Thiago Luciano apostou nessas possibilidades e, coadunando com uma narrativa oral de pouca explicação, emendou estranhezas adquiridas via imagens: há no seu filme excesso de luzes batendo de frente com as lentes, granulações por disparidade entre captação e iluminação dos cenários, abundância de lentes grudadas nos objetos focalizados ou perseguidos, e alguma subjetividade com exercitada com a câmera.

O resultado pode ser entendido como razoável: se for o caso de se imaginar aceitáveis tentativas estéticas como modo de falar o que se pretende – mas só satisfatório, porque os mecanismos utilizados para tal alcance não são criativos ou novos como forma ou ousadia. Sendo que essa aposta na força dessas “desimagens” acabou propiciando um subterfúgio facilitador, para, talvez, uma ausência de algo mais consistente como mote condutor. Por Cid Nader.

Estação, de Márcia Faria. Brasil (SP), 2010. Ficção - Cor - Vídeo – 15 min. Programas Brasileiros > Panorama Paulista 03. (FOTO 7)

Estação é um bom filme. Não resta dúvida. A atenção a pequenos detalhes, a atuação delicada e precisa de Carol Abras, o modo caprichado como o mundo imenso que é a Rodoviária do Tietê, em São Paulo, é revelado, a luz, a edição, tudo isso leva a perceber que o curta foi confeccionado com tudo que a cartilha do bom cinema preconiza. Porém, há todo o “auê” em torno dele por conta de sua indicação para concorrer na competição oficial do Festival de Cannes: e é aí que a coisa pega.

Filmes bons e delicados como ele existem alguns por aí – talvez não muitos, ok -, mas parece que os franceses de Cannes resolveram achar uma veia nova no cinema brasileiro, e exercitam sua eterna mania de “defensores“ dos valores culturais do terceiro mundo como patronos e único compreendedores de nossas nuances, aproveitando-se disso. Os franceses – agora no geral – puxam para si o papel de quem nos entende, e fingem fazer isso como se fossem similares (quando na verdade estão sempre e sempre repetindo o papel paternalista, que, por vezes, surgia mais ostensiva e desmascaradamente sob a realidade de, “colonizador”). Agora, após anos e anos reforçando o nosso estereótipo de terra da fome e da força advinda do sofrimento nordestino, parece que resolveram mudar o enfoque, passando a nos "compreender" como um terceiro mundo que sucumbiu ao capitalismo e vive em metrópoles que podem ser iluminadas feericamente: além de viverem com o glamour coexistindo com a pobreza.

Somos a bola da vez urbana moderna, e isso se nota na admiração que deve tê-los motivado a escolher esse singelo trabalho, como já havia acontecido com o menos bom “Qualquer Coisa Assim” (inclusive premiado por lá), de Esmir Filho. Comparem os dois filmes e percebam. Por Cid Nader.


Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Brasil (SP), 2010. Fic - Cor - 35mm - 16 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 07. (FOTO 8)

"Daniel Ribeiro parece estar tomando um rumo panfletário em defesa da causa homossexual. Foi assim no seu hiper-sucesso anterior, “Café com Leite”, e é assim, novamente, em eu Não Quero Voltar Sozinho”. O “problema” é que ele entende de cinema, e, por mais que seus filmes se “manifestem” como obras de características propagandísticas, o resultado vem sempre pela constatação de trabalhos bem concretizados e de forte apego ao bom modo de confecção.

Esse novo é mais leve no modo de tocar o assunto e, como já havia acontecido no outro, não se atém somente a ele como mote condutor. No anterior, as cenas de carinho entre jovens adultos causava uma certa comoção (misto entre incômodo e curiosidade manifestada claramente) na plateia. Neste, não há cenas impactantes como peça de propaganda – o único momento em que acontece “algo” é tão ligeiro como um piscar de olhos -, mas há reações do espectador. Neste, Daniel se arma de esquematismos fáceis que indicam aonde o filme irá chegar (as primeiras perguntas de Leonardo, um garoto cego, a Giovana sobre as características de Gabriel já vem “banhadas” de compreensões sobre o futuro da trama; o esquecimento de um moleton; um aniversário de uma tia..), o que poderia comprometê-lo. Na realidade, compromete um pouco, sim.

Porém, quando se constata o resultado, quando se amplia a visão e nota-se que há mais do que “somente” a panfletagem, percebe-se que o filme fala, também, de carinho e descobertas na adolescência. Descobre-se a razão da reação positivíssima da plateia (como ocorria sempre com “Café com Leite”) que o assistiu, e consegue-se notar que Daniel tem um dom raro (não fruto do acaso) para a comunicação com o público. Acho, ainda, o filme anterior superior, mas talvez mude de idéia, já que, no caso daquele, transformei meus conceitos cada vez que o revia." Por Cid Nader.


Fantasmas, André Novais Oliveira, Brasil (MG), 2010. Fic - Cor – Vídeo - 11 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 01.

Duas considerações devem ser feitas em relação a Fantasmas. A primeira é que com uma boa ideia se faz um bom e barato filme - candidatos a cineasta precisam entender que uma boa sacada pode ajudar depois a viabilizar produções que necessitam de maior aporte técnico e financeiro e parece necessário citar isso porque sempre existem aqueles que acham que é preciso gastar uma pequena fortuna, para os padrões do curta, para fazer um bom filme e aparecer no mundo cada vez mais competitivo e canibal dos festivais.

A segunda consideração, relacionada a essa boa ideia do filme, é como a imagem que nos é dada hoje por certos filmes, dada a possibilidade de barateamento da produção digital, tem outro tipo de caráter e status. Neste curta, a imagem que vemos: um plano fixo de uma rua de uma sacada de um prédio, só ganha alguma significação após minutos e minutos de filme quando o diálogo entre dois amigos revela a função desta. Simples, mas muito bem construído, muito bem pensado, o curta mais do que engenhosidade, mostra que não são necessárias muitas elucubrações verbais e nem piruetas de estilo para dizer aquilo que é do homem. Sensibilidade, inteligência e contato com a realidade, fazem toda a diferença nesse caso. Por Cesar Zamberlan


Fantasmas, de André Novais Oliveira. Brasil (MG), 2009. Exp - Cor - Vídeo - 11 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 01.

Fantasmas é triste e divertido ao mesmo tempo. Na realidade, é um exemplo de confecção cinematográfica, mostrando que métodos de composição podem ser dos mais simples (brincando com a ideia das câmeras caseiras, observando, postadas, mas realizando trechos que ficarão marcados de alguma maneira). Enquanto dois amigos conversam sobre superficialidades, de modo extremamente natural, as imagens captadas revelam uma esquina iluminada fortemente pelas luzes de um posto de gasolina. O filme instiga curiosidade enquanto não se descobre as razões da disparidade entre som e imagens – as razões. A partir de um dado momento, esclarecidas as razões, se torna um exercício que coopta o público, dividindo as sensações, entre percebê-lo como obra a ser rida (pelo texto que ganha derivação e objetividade) ou como um manifesto executado por alguém que nunca se conformará por uma perda. De todo modo, um exemplo das possibilidades infinitas dos curtas. Por Cid Nader


Feijão com Arroz, de Daniela Marinho. Brasil (SP), 2009. Fic – Cor – 35mm - 09 min. Programas Brasileiros > Cinema em Curso 2.

Tão simpático quanto revelador (para quem talvez tenha a chance de vê-lo fora do contexto de uma mostra de filmes universitários, obviamente) da distância entre a idade da realizadora e seus momentos de infância. Um trabalho delicado, que fala de momentos passados (recentes) em que uma situação – a descoberta de uma fita com sons inidentificáveis – remete à rememoração e à sensação de saudades da mãe. Poderia ser um trabalho de alguém que não cursou uma universidade para tal, mas o fato de ser, impôs qualidade no ritmo da narrativa, na escolha das ordens das sequências, e, principalmente, na maior virtude de um filme bem simples: as animações que fazem parte de alguns de sues setores – bastante singelas e delicadas. Por Cid Nader


Flash Happy Society, de Guto Parente. Brasil (CE), 2009. Exp - Cor - Vídeo - 8 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 04.

“Documentário Experimental” é o mínimo de atribuição que deveria ser dada a esse trabalho de Guto Parente, já que é necessário “alcunhar” trabalhos por títulos. O diretor fez um apanhado crítico dessa modernidade que nos facilitou a todos e dispôs facilmente ao nosso alcance a possibilidade da imagem instantânea. Ele realizou um filme sobre as pessoas e suas câmeras digitais, se fotografando e fazendo de si mesmas o espetáculo a ser registrado – isso, numa sala de espetáculos, antes de seu início. Na realidade, o que se nota, é o mais incrível abandono da memória a partir do surgimento da captação fácil oferecida pela modernidade. O diretor Kleber Mendonça Filho havia feito registro semelhante (mas de forma extremamente mais instigante e complexo no obtido formalista) com seu “Luz Industrial Mágica”.

Mas Guto não fez feio não. Seu modo de edição das imagens captadas – que filmaram a sala de espetáculos para registrar como mote condutor os flashes que por ela espocavam – criou uma simbiose entre andamento das imagens e o som ambiente. A cada flash disparado, imagem e som cessavam, retornando em pouquíssimos segundos (como se fosse após o impacto que a forte luz causa em nossas retinas), para novo “cessamento”, e assim adiante. O resultado faz pensar. Visualmente é instigante. Na essência, faz refletir sobre o desuso da memória – da crença nela em registrar imagens e situações - cada vez mais evidente. Por Cid Nader.


Garoto Barba, de Christopher Faust Pereira. Brasil (PR), 2010. Fic - Cor - Vídeo - 13min. Programas Especiais > Mostra Infanto-Juvenil > Mostra Infantil 1. (FOTO 9)

Aparentemente o movimento cinematográfico no Paraná parece estar ganhando força. Ultimamente surgiram curtas e longas de lá, e isso é coisa sempre bem vinda - não dá para entender uma região com qualidade de vida acima da média nacional deixando de lado essa que é a arte de maior alcance, em várias escalas. Os trabalhos que tenho visto são de boa qualidade e esse Garoto Barba, mais especificamente, se revelou uma grande sacada. Principalmente por ter aproveitado a oportunidade de poder fazer desse pouco tempo destinado aos curtas um espaço onde a "situação piada", que leva a trama numa primeira observada, evita o cansaço por repetição ou falta de empenho no desenvolvimento.

Lógico que falar de um garoto que tem como problema o excessivo crescimento dos pelos no rosto já na mais tenra infância é de mote jocoso. Mesmo se querendo observar a transformação da relação entre os pais e filhos com o avançar dos anos como uma possibilidade para tratar o filme com observações mais intensas (digamos), seria falsear a atenção tal atitude. E o bacana é que o diretor, Cristopher Faust Pereira, evitou tal aprofundamento, mantendo-se no mote, abastecendo as situações engraçadas e, principalmente, sem permitir - com a constante mudança de enfoque no "fenômeno" - a possibilidade da mesmice espanando a coisa. Por Cid Nader.


Handebol , de Anita Rocha da Silveira. Brasil (RJ), 2010. Fic – Cor - 35mm – 19 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 02

Anita Rocha da Silveira parece ter seguido linhagem de Esmir Filho nesse seu curta. Primeiro, por retratar, e bem, o mundo da adolescência, com evidente conhecimento de sutilezas e caminhos mentais que percorrem os seres nessa faixa da vida (e com mais evidente atenção, ainda, ao fato por tratar do mundo feminino dessa faixa); segundo, por tentar a todo instante experimentações com texturas e seus resultados na tela, com o dinamismo das imagens em movimento sempre como um elemento de dificuldade em tais situações (há notadamente a atenção sobre o sangue e sua espessura sendo buscado pelas lentes para completar com bastante “importância” o fechamento das sequências – como o complemento pictórico das atuações e situações.

Quando digo que “parece seguir a linhagem de Esmir Filho”, me refiro à sua obra, sim, mas mais especificamente ao que obteve em seu melhor curta, “Saliva”. Anita ainda tateia em alguns instantes e não vai tão a fundo nas tentativas estéticas, mas a sensibilidade na observação do mundo retratado, e a provável noção de que não era chegado o momento de tantas ousadias, foram o suficiente para a concretização de um trabalho interessante: para se ver e sentir. Por Cid Nader.


Izamara, de Rune Tavares. Brasil (SP), 2010. Ani – P&B – Vídeo - 09 min. Programas Brasilerios > Mostra Brasil 09.

Animação feita através da técnica da rotoscopia – basicamente, pintar, ou colorir, ou redesenhar sobre imagens captadas por filmagem, o que se fazia antes sobre a projeção da película em hoje em dia, através de um programa de computador, esse último, provavelmente o processo utilizado nesse caso -, em P&B, o que já não é um fato tão comum, e que tem som sinistro sobre os acontecimentos que acontecerão em sua história. 

Se não é nada demais como novidade – e mesmo sabendo que muitos animadores consideram a utilização dessa técnica uma coisa menor, depreciativa -, de má execução dela é que não se pode acusar Izamara. Mas fica “somente” nisso o que poderia atrair no filme, já que sua história não é boa, pois força em direção de fazer entender o trabalho como algo realizado para adultos, e o todo acaba cansando: não conseguindo fixar e nem a fixação das atenções.Por Cid Nader


Lembro-me de Quando Ainda Comíamos Pão de Mel no Café da Manhã, Mas Hoje Acordei de Ressaca, de João Toledo. Brasil (MG), 2009. Exp - Cor - Vídeo - 3 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 08.

João Toledo é crítico de cinema e faz uma imersão, aqui, no modo de confecção cinematográfica, através da utilização de métodos de captação. Fixa sua câmera, enfoca elementos singularmente, separadamente, para ajuntá-los após – trabalho de mais fácil identificação, e exigente na concretização, da arte, que é o da força de edição -, em filme. Conta uma história de separação, que se faz perceptível e compreensível por uma cena específica, sem palavras, com atos filmados. Exercício. Por Cid Nader.


Magnífica Desolação, de Fernando Coimbra. Brasil (SP), 2010. Doc – Cor – 35mm – 19 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 02. (FOTO 10)

Nem sei o quanto pode parecer pretensioso falar isso, mas creio que para mim seja importante - já que fui um dos pouquíssimos que colocaram algumas restrições ao mais mais famoso trabalho de Fernando Coimbra, o hiper-premiado curta metragem "Trópico das Cabras"(2007) -: Magnífica Desolação é um baita salto à frente do diretor. O que me incomodava no filme anterior citado era o fato de estar atrelado a um modismo corrente no cinema nacional que evidenciava uma sociedade brasileira doentia ao extremo, e que se abastecia de signos estéticos repetidos (provavelmente numa espécie de escola pernambucana de então) ao extremo, de pouco valor artístico, muito menos falando com sinceridade a uma pretensa camada de interesse "sociológico" buscada.

O que alenta agora, é perceber que Fernando tem mesmo o dom para realizações bem concretizadas técnica e esteticamente, que tem mesmo o domínio das dimensões da tela e de como preenchê-la com imagens de bela confecção diferenciada, sem que isso pareça peça solta para o alumbramento gratuito do espectador (quando filma, de dentro de um trem, a chegada a uma estação de carga ferroviária no meio da noite, sem parâmetros visuais ou indicações mais precisas de vida por perto, obtém clima raro de teor quase onírico, enquamto o que se discute nas palavras que sonorizam ao momento é de teor altamente real, da vida dos trabalhadores; creio um bom exemplo). Ele documenta momentos soltos da vida de maquinistas pelo Brasil, fazendo da visão (poderia dizer que literalmente) deles olho condutor de boa parte do trabalho, e deixando alguns poucos instantes para a explanação mais concreta de suas figuras e de um pouco de seu cotidiano. Ao ater-se (e às suas lentes) ao entorno dos seus (maquinistas) visuais e a pedaços de suas máquinas, obteve um resultado que significa verdadeiramente o potencial que o formato propicia a realizadores que não tenham medo de ousar, de manifestarem-se como artistas, de contarem fatos (no caso de documentários, como é esse) por vários mecanismos. O clima obtido aqui até assemelha-se (numa primeira e superficial olhada, por alguns aspectos de isolamento) a momentos de "Trópico", com a diferença que, agora, signos e modismos foram deixados de lado, e que se falou o que se deveria, para ser escutado por quem buscou. Por Cid Nader.


Mãos de Outubro, de Vitor Souza Lima. Brasil (PA), 2009. Doc – PB – 35mm – 20 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 01.

O grande achado de Mãos de Outubro, documentário que retrata a procissão do Círio de Nazaré em Belém do Pará e não usar imagens que tradicionalmente dão conta de manifestações religiosas deste porte, ou seja, imagens muito abertas na qual a dimensão humana se perde em meio à multidão. A velha história do garoto que na floresta não conseguia ver um árvore, mas uma imensidão verde. Pois, bem, Vitor Souza Lima trabalha em planos fechados, mostra a mãos dos romeiros na suas mais diferentes funções e ocupações, seja confeccionando o manto, seja preparando os fogos, seja na guarda da imagem, seja segurando o cordão. A parte sonora do filme também segue esse caráter mais intimista e traz, além dos depoimentos dos religiosos, o som do evento na sua dimensão mais humana e no seu contato com o sagrado. Não se busca o espetacular, as massas, longe disso, o que se procura é o contato individual, o saber e a experiência religiosa singular e única. Todo o filme, organicamente, trabalha sob essa perspectiva e, por isso, dá um sentido ainda mais forte a essa catarse religiosa. Belo trabalho.Por Cesar Zamberlan


Matryoshka, de Salomão Santana. Brasil (CE)/Portugal, 2009. Fic - Vídeo - P&B - 9 min. Programas Brasileiros > Mostra Brasil 10.

Salomão Santana fala de “se sentir estrangeiro”. Para tal. Inicia seu trabalho com fotogramas de um local nevado, gelado (Rússia), bastante distante da origem da protagonista (o Ceará). O filme retrata o isolamento de quem parte de algum local, mal se adapta (as dificuldades são inequívocas pelo texto dela, pelas imagens obtidas), volta e não se reinstala. Um filme belo e melancólico. Simples e direto. Por Cid Nader.



























Leia as matérias deste festival:

I - BRASILEIROS (A a M) - 30 críticas

II - BRASILEIROS (N a Z) - 22 críticas

III - Internacional - 26 críticas

IV - Latino-Americanos - 4 críticas

V - Destaques: o Cinequanon recomenda.

VI - Dark Side - 5 críticas

VII - Sapporo Short Festival - 4 críticas