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Paulínia Festival de Cinema – 2010 (Cinequanon)


V – Domingo (18/07)

Por Cid Nader

Como havia dito, não pretendo cobrir as coletivas daqui de modo sistemático e metódico porque ando numa fase de pensar mais nos filmes e no que dizer sobre eles. De qualquer maneira, como são muitos os debates e quando termino meus textos pelo menos o do longa principal da noite anterior ainda está sendo realizado, tenho ido para conferir algo, observar a lotação da sala, tentar ao menos saber de alguns detalhes que possam surgir já próximo do fim do encontro. Ontem, na conversa com a enorme equipe do 5 x Favela, Agora Por Nós Mesmos, a sala estava mais lotada ainda do que no dia anterior e percebi que um clima de encantamento e comoção se apoderava dos jornalistas espalhados pelas arquibancadas.

Quando os atores começaram a contar algo de suas vidas e os processos pelos quais passaram para chegar ao filme, muitos dos que estavam no ambiente começaram a externar, ostensiva e quase compulsivamente, reações emocionadas extremadas: muitos dos que lá estavam caíram no choro, na realidade. Olho para uma das atrizes do filme e vejo que está com a maquiagem toda borrada (esfregava os olhos, retomando traços de criança, que substituíram seu jeito de mulherão decidido), enquanto uma outra contava das dificuldades de vida dos que moram nos morros, e de como a possibilidade de participar do movimento “Nós do Morro” a resgatou para a vida. Muitos dos depoimentos eram carregados, compreensivelmente, de dados e agradecimentos que remetiam à história - que pela lógica seria de improvável mudança de trilhos que oferecem a marginalidade como destino para um viver melhor - de transformação oferecida pela possibilidade do trabalho no cinema. Vi um camera-man chorando, alguns jornalistas, também (inclusive um bem amigo, entrevistador de uma TV da região, que normalmente leva fama de gozador), e gente graúda da mesa de debates.

Não há dúvida de que as histórias de vida contadas e as reações são de contexto tremendamente humanista: constituindo até fato apropriado para o cinema. Como não resta dúvida – por isso e pela busca dos jornalistas nas coletivas – de que os interesses demonstrados aqui estão muito mais atrelados aos tais bastidores do cinema (que citei de outra forma no texto de ontem) do que na pesquisa e interesse sobre a linguagem cinematográfica, por exemplo.

Pelo jeito, a concisão que havia prometido para ontem vai ser executada hoje mesmo. Portanto, aos comentários sobre os filmes vistos.


Mostra Paralela

É Proibido Fumar, de Anna Muyllaert. Ficção, 2009 – 86 min.

Indo além do comum, Anna Muyllaert – que seria do de se pensar na diretora re-retratando São Paulo como uma fiel e atenta conhecedora dos meandros e entranhas menos à vista do que o é revelado ao resto do pais via novelas e noticiários, ou seja o de evidenciadora dos aspectos físicos e geográficos da cidade – reforça nesse seu novo trabalho uma atenção muito mais específica às pessoas da cidade, o que seria também comum, só que extrapolando o “simples” acompanhamento dos corpos e mentes, para tentar estabelecer uma visão sobre outros aspectos da “civilização paulistana” somente reconhecível por quem é daqui: ou por quem se deixou adotar verdadeiramente.

Já nos créditos iniciais uma ligação paulistana se percebe conectada fortemente, a ponto de se embarcar na idéia de observação originada lá em “Durval Discos” (2003), mesmo que em se pensando nas semelhanças apenas pelos primeiros aspectos reconhecíveis – e desejados, pelos menos atentos -, que são os da carga física da cidade e dos sotaques e trejeitos dos que seus cidadãos. Não sei até que ponto É Proibido Fumar pode ser considerado um bom filme, ou até que momento se poderia atrelá-lo ao primeiro longa-metragem da diretora, mas consigo perceber claramente até em quais instâncias ele observa uma São Paulo que poucos conhecem – e isso, por si só, poderia representar mérito suficiente para que o trabalho seja bem recebido -, e até em que instante isso se faz por um viés “leve sarcástico', “leve auto-ironizador”.

A diretora conta a história de uma mulher já na faixa dos quarenta anos (Baby) – personagem mais comum, impossível -, representada digna e firmemente por uma inspirada e segura Glória Pires, que mora num apartamento deixado pela mãe, um tanto frustrada por viver de aulas particulares de violão, sendo quem evidentemente, o grosso de sua renda vem ainda da herança, outro tanto frustrada por ver as duas irmãs bem estabelecidas (uma no casamento e outra no trabalho), e mais um tantinho por não admitir abertamente que deseja um bom relacionamento amoroso. Aparece um novo vizinho, Max (Paulo Miklos), também ligado à música, com suas frustrações, seus dramas particulares, bastante diverso dela em seu comportamento e gostos, mas... estamos falando de cinema e já se sabe que os dois acabarão por se relacionar. Nesse aspecto, o do drama, o da trama que exige racionalidade e fácil percepção, o filme caminha por vezes bem, por vezes capenga, irregular, com alguns méritos, mas, principalmente, indeciso e acomodado demais – principalmente quando se pensa como referência em “Durval Discos”, que também sofre de um certo comodismo, mas que ganha ar e respiro, inusitados e fortes, após um corte e uma “segunda parte”, no mínimo, ousada.

Mas, como alertado no início: talvez o grande mérito desse trabalho de Anna mereça ser observá-lo por outro viés. Compreendê-lo como obra de uma diretora que entende e conhece muito bem seu quintal, a ponto de satirizá-lo carinhosamente, em algumas vezes, a ponto de fazê-lo reconhecível fora dos padrões comuns de reconhecimento. Em outras. A cena do jantar oferecido por Baby a Max, no apartamento dela, é um “digno” e inequívoco retrato de comportamentos e manias, modismos, paulistanos, raramente perceptíveis para quem não é daqui. As esquinas mostradas, os pedaços de chão com alguns verdes escapando, as cenas com os tipos humanos no elevador – aliás, numa delas, com uma homenagem familiar completa e ironicamente cool -, os diálogos e rixas familiares, revelam muito mais do que qualquer outro trabalho carregado de simbolismos ostensivos e de cartilha. Um filme que tem seus méritos em outras linhas. E – se quiser falar coisa boa da trama e dos personagens em si – que se finaliza com um belo momento de carinho e confiança: raro e singelo.


Curta Regional

Meu Avô e Eu, de Caue Nunes. Ficção, 2010 – 13 min. (FOTO 1)

Caue Nunes saiu vencedor aqui em Paulínia, ano passado, com o curta regional “Quem Será Katlhlyn”. Não é garoto novo no ramo – já tem alguns curtas -, mas parece ter derrapado um pouco nesse seu novo trabalho: ou por opção estética que busca o despojamento a toda prova, ou por desleixo na hora da edição. Falando assim, de supetão, posso estar passando a impressão de que o filme é o terror a ser conferido. Não é bem isso.

É até fluido, transcorre de forma ligeira, e leve. Só que não é “exigente”. Por conta de seu bom texto – a virtude mais perceptível do trabalho – lastreá-lo, Meu Avô e Eu acaba transitando por vias muito retas, diretas, sem aquelas sinuosidades que provocam emoção e exigem algum raciocínio dos que por ela passam: no caso, o espectador. E mesmo com essa opção belo caminho mais fácil (o filme realmente tem ar matuto, leve, de comédia descompromissada, misturada a reminiscências familiares saudáveis, além de evocar no protagonista reflexões sobre as razões de sua vida – se bem que tudo sob complexidade visual bem diminuída, evitada), Caue parece ter encontrado dificuldades nos momentos da pavimentação, das ligações.

Compreenda-se ligações e pavimentações como os momentos resolvidos na montagem. Não sei se por falta de opções com o obtido pelas filmagens, ou se por falha no manuseio da “ferramenta” – uma das essências pilares da construção cinematográfica -, o fato é que há comprometimento nas passagens e truncamento: num filme que deveria ser fácil, já que pareceu ser essa a opção principal do diretor.


Documentário

As Cartas Psicografadas por Chico Xavier, de Cristiana Grumbach. Documentário, 2009 – 105 min.

Em momento de modismos espíritas no cinema tupiniquim, surge esse documentário, iniciado no ano de 2007, e que parece não ter se beneficiado pelo tempo longevo do qual dispôs antes devir a público. A diretora Cristiana Grumbach foi atrás de pais e mães que perderam filhos e que, não se conformando – aliás, talvez a situação mais antinatural a ser encarada essa da perda de um rebento – com tal destino, buscaram no espiritismo de Chico Xavier a solução apaziguadora mais facilmente e ligeira que se poderia tentar.

Para tal, entrevistou uma quantidade razoável de pessoas que sofreram tais perdas, nos seus lares, pedindo que relatassem o momento em que foram “abençoados” com o atendimento de Chico. O que fica nítido no trabalho é que tal situação foi sempre a que possibilitou a oportunidade e o desejo de continuar a vida para esses pais extremante amargurados. Tal desnudamento de seus sofrimentos ante as lentes da diretora careceu de rigor no tratamento, naufragando na displicência e no comodismo da montagem. O que resultou foi um filme longo, repetitivo, que poderia ter se resumido a uma leitura de carta e uma explanação de pais – já que continham o mesmo contexto e o mesmo modo de enfoque. Pareceu um longa curta-metragem, de onde se percebeu somente que os textos de Chico são provenientes sempre do mesmo estio literário, que se repetem em forma e modos literatos; de onde restou uma repetição exaustiva dos enquadramentos nos entrevistados e da encenação dos objetos físicos dos lares após o término das descrições.

Pareceu um longo curta-metragem, pela repetição do mesmo, e do mesmo, além do tom “falsamente” monocórdio – mas sempre presente numa diretora que “fingia” não querer aparecer no trabalho – das intervenções de Cristina. Além de ter desperdiçado uma ótima oportunidade de tentar entender o sofrimento humano que se percebe devastador nas feições dos pais que se diziam aliviados, mas que exalavam sofrimento contido, armazenado.


Curta Nacional

Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Ficção, 2010 – 15 min. (FOTO 2)

Daniel Ribeiro parece estar tomando um rumo panfletário em defesa da causa homossexual. Foi assim no seu hiper-sucesso anterior, “Café com Leite”, e é assim, novamente, em eu Não Quero Voltar Sozinho”. O “problema” é que ele entende de cinema, e, por mais que seus filmes se “manifestem” como obras de características propagandísticas, o resultado vem sempre pela constatação de trabalhos bem concretizados e de forte apego ao bom modo de confecção.

Esse novo é mais leve no modo de tocar o assunto e, como já havia acontecido no outro, não se atém somente a ele como mote condutor. No anterior, as cenas de carinho entre jovens adultos causava uma certa comoção (misto entre incômodo e curiosidade manifestada claramente) na plateia. Neste, não há cenas impactantes como peça de propaganda – o único momento em que acontece “algo” é tão ligeiro como um piscar de olhos -, mas há reações do espectador. Neste, Daniel se arma de esquematismos fáceis que indicam aonde o filme irá chegar (as primeiras perguntas de Leonardo, um garoto cego, a Giovana sobre as características de Gabriel já vem “banhadas” de compreensões sobre o futuro da trama; o esquecimento de um moleton; um aniversário de uma tia..), o que poderia comprometê-lo. Na realidade, compromete um pouco, sim.

Porém, quando se constata o resultado, quando se amplia a visão e nota-se que há mais do que “somente” a panfletagem, percebe-se que o filme fala, também, de carinho e descobertas na adolescência. Descobre-se a razão da reação positivíssima da plateia (como ocorria sempre com “Café com Leite”) que o assistiu, e consegue-se notar que Daniel tem um dom raro (não fruto do acaso) para a comunicação com o público. Acho, ainda, o filme anterior superior, mas talvez mude de idéia, já que, no caso daquele, transformei meus conceitos cada vez que o revia.


Ficção

Desenrola, de Rosane Svartman. Ficção, 2010 – 88 min.

Vou confessar uma coisa: quando saí da sessão de Desenrola ouvi um monte de comentários positivos sobre ele. Passei a pensar nele, naquele momento, com mais carinho do que o sentimento que nutria a seu respeito sobre o que via no momento da projeção – minutos antes. Sentimento que constatava um filme primário, aspectos juvenis (sim, o filme fala de jovens adolescentes, sei) originados na cabeça e na concretização de uma adulta, afinal de contas, a diretora Rosane Svartman, recheado de momentos constrangedores e impostações da pior espécie televisiva.

Sentimentos que imaginavam estar vendo um trabalho que utilizava o que poderia haver de pior numa cartilha de ditames sobre coisas que os adolescentes gostam e questionam, e que massacrava o bom senso com sequencias que pareciam saidas de filmes que tratam os assuntos juvenis com aura de rebeldia, mas sempre com um sermão na ponta da língua – enquanto belas garotas (aliás, algumas bem belas mesmo) interagiam, discutiam, namoravam, brigavam, rejeitavam ou aceitavam meninos de forma aparentemente livre (bem ao estilo estereótipo/carioca de ser), momentos de “use a camisinha”, ou “não bebam demais”, alternavam na tela. Um modelo politicamente correto se insinuava, sob ações artificiais de rebeldia. Além de alguns outros instantes canhestros, com música cantada no ônibus, pai preocupado e fraco, madrasta cúmplice e incentivadora com bocas e trejeitos ruins, aparições de estrelas globais em papéis fugazes e secundários... Meus sentimentos indicavam “o horror”.

Porém, como confessei que passei a repensar no filme com mais carinho por tentar entender os elogios, passei a “lembrar de alguns bons momentos, afinal”, e me vieram à mente sacadas estéticas legais (um desenhinho se instalando num banheiro, sobre as paredes e objetos, “narrando” o que um dos moleques lia num diário surrupiado; ou brincadeirinhas com raio laser; ou ainda quando há uma declaração de amor, com os mesmo lasers voltando à ação e uma projeção sobre a parede lateral de um prédio...). Me veio à mente o bom desempenho de alguns dos jovens protagonistas (principalmente os de Boka e seu companheiro inseparável, Amaral, e mesmo o da belíssima Priscila), ou a dinâmica jovem que “deveria estar falando mesmo”, fortemente, aos moleques daquela faixa de idade. Meus sentimentos, movidos pelo inconfessável,indicavam: tem méritos sim.

Bem, vou confessar outra coisa: dormi no hotel, acordei, o filme acalmou na minha mente e, já aqui na sala de imprensa, resolvi ouvir palpites de mais um amigo que detestou o filme, achando-o constrangedor. Conclusão incisiva: estou em dúvidas... Conclusão a sério: mesmo com alguns bons momentos, o todo de Desenrola indica-o muito mais para ruim do que razoável. Seu aspecto de coisa carioca demais, jovialidade "global" extremada, e discurso falsamente rebelde, prevalecem sobre tudo. Não é dessa vez que, para mim, humildemente, a diretora Rosane Svartman se redime.












Leia as matérias deste festival:

I - PROGRAMAÇÃO
II – Abertura + O Beijo da Mulher Aranha
III - Sexta-Feira (16/07)
IV – Sábado (17/07)
V - Domingo (18/07)
VI - Segunda-Feira (19/07)
VII – Terça-Feira (19/07)
VIII - Quarta-Feira (20/07)
IX - Premiação