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16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuaibá (Cinequanon)


Sexta-feira (09/10)

Por Cid Nader


Depois das lamúrias por conta do final dos eventos se quando se aproximam, vem a coisa física mesmo por isso que lamentações são coisas que não se prestam à rigidez, ao jornalismo, ao dia-a-dia e sim, muito mais à arte, já que causam perda de tempo e de especificidades. Portanto, finalmente, último dia do Festival de Cuiabá. Nestes momentos gosto de ir mais diretamente ao assunto críticas, deixando de lado as divagações que costumo executar (alguns atentados,confesso) enquanto os eventos acontecem.

Só pra não ser tão seco: hoje está muito quente por aqui, como ontem – coisas típicas dos feriados prolongados. É engraçado como as pessoas sempre e sempre se lamentam quando o feriado se aproxima e na televisão se anuncia que “justamente no fim de semana do feriado o tempo vai mudar, chover, nevar...”. Engraçado, porque sempre se ouve o que a garota do tempo diz e raramente se olha para os poucos segundos de imagem de satélite que eles disponibilizam (parece que pagam por tempo de imagens, e colocam só 2 ou 3 segundos que se repetem, repetem..). Engraçado, porque quase sempre acaba esquentando e as chuvas anunciadas são seqüestradas, pelos sons dos tambores que foram batidos solicitando sol (num país que nunca tem sol como o nosso), para algum lugar desconhecido. Engraçado, porque na volta do feriado nunca se comenta das lamúrias e xingamentos que antecipavam a certeza do tempo fechado e do frio. E, mais engraçado, quando num próximo feriado, ante o anúncio da “catástrofe”, novas lamentações referindo ao “último feriado no qual choveu e tudo foi uma droga...”. Divago sempre. Melhor ir direto ao assunto.


MCV (Mostra Competitiva de Vídeos)

Parafuso Solto, de Eduardo Ferreira (MT) – 02 min.

Animação em stop-motion com “moral da história” no final. Acho que não entendi o recado.


MCCM (Mostra Competitiva de Curtas-Metragens)

Blackout, de Daniel Rezende (RJ) – 10 min.

Estou resgatando uma crítica minha que vinha em concordância com a do César Zamberlan (editor do site, também). Disponibilizo as duas abaixo

. Daniel Rezende é mais conhecido pelo seu trabalho como montador, foi indicado ao Oscar pelo seu trabalho em “Cidade de Deus”. Sua estréia na direção nesse curta, badalado por ter no elenco Wagner Moura, no entanto, é desastrosa e para lá de pretensiosa. O filme tem - e não poderia ser diferente vindo da O2 - uma produção cuidadosa, tem dois bons atores: Moura e Augusto Madeira, mas há um equivoco na concepção do projeto que aposta num roteiro metido a engraçadinho explorando tema e modelos já bastante desgastados, sobretudo, por alguns programas humorísticos tão metidos a besta como esse filme, lembro, por exemplo, da série “Os Aspones”. Pode até agradar um certo tipo de publico, mas está longe de ser bom cinema. Cesar Zamberlan

2ª Crítica

Fiquei tão indignado com essa brincadeirinha sem graça - com cara de falsa séria, metida a denunciar com falsa forma de politicamente incorreto (são as piores. Se está com vontade, de mostrar que sabe - ou que imagina -, faça cinema!), que resolvi escrever esse textinho só para fazer par à crítica do Cesar Zamberlan. E nem concordo com ele com, a história da boa atuação dos atores escolhidos - me incomodam quando compactuam com um modelo de atuação que repetem "engraçadamente". É ruim, pretensioso, falso até a medula e, pra piorar, erra gravemente no que seria a "grande sacada" (uma câmera subjetiva por trás de um relógio), quando tem que inverter o ângulo para mostra o ser por trás do relógio, na tentativa de explicar o que ocorre no momento. Tá bom, vá! Cid Nader

Engano, de Cavi Borges (RJ) – 11 min.

Filme realizado através de dois planos-sequência – nada mais natural, a princípio, já que está se tornando um bom modismo, esse. A diferença é que as histórias se desenrolam de maneira paralela e simultânea. A tela é dividida em duas e os dois protagonistas passam a interagir por telefone. Um tanto ousada, mas nada de novo realmente. Depende demais das boas atuações para se sustentar e a seu texto, mas acaba denunciando o golpe: carece um pouco deles – atuações e texto. Não é ruim, mas poderia ser melhor, principalmente, se um pouco melhor executado, cuidado: nos quesitos “imagem” (vi o filme diversas vezes e já não creio ser culpa de projetores os tons esmaecidos do trabalho), e som (da mesma forma, sempre com um problema de variação e alcance entre as “duas bandas”.

Para Pedir Perdão, de Iberê Carvalho (DF) – 20

Pensar em jovens realizando curtas-metragens é quase tão comum quanto saber de suas ansiedades e expectativas ante a vida. Iberê Carvalho nem é tão jovem quando se vê uma extensa lista de trabalhos já realizados. Mas é jovem demais na concepção deste trabalho, e na constatação do resultado. Seu filme fala de amor perdido, culpas, remetendo, em tom circular (modismo que parece persistir no cinema após um impacto de já quase vinte anos de vida), os personagens aos momentos embrionários da história. Tem atuações convincentes – boas, na realidade -, boa execução técnica com suas tomadas e edição precisa, e vigor narrativo.

Mas, como disse, é “jovem demais” no resultado da história, e, por conta de ter de chegar a tal resultado, imaturo no modo de construir os momentos que desembocarão lá. Mesmo apostando na estrutura circular como algo de potencial inovador (mesmo sabendo de sua antiguidade), o filme se explica demais para não deixar brechas: a coisa amarela na parede e sua explicação, o táxi como condutor de almas e anseios, a indecisão da comissário de bordo... Idéias jovens são sempre um alento, um desejo que conota renovação, mas confecções concretas para executá-las são algo imprescindível e inegociável.

Homens, de Lúcia Caus, Bertrand Lira (ES) - 22min. (FOTO 1)

Anda se repetindo um fenômeno no mundo dos curtas – principalmente entre os curtas -, que são os documentários que falam da homossexualidade masculina, mas principalmente da homossexualidade que extrapola o “simplesmente ser gay”, para atentar àqueles que se travestem de mulher. Normalmente trabalhos sensíveis, atentos, que dão espaço para manifestações sinceras, de raro espaço até bem pouco tempo. Seria o caso de se pensar até nestes trabalhos como os que possibilitam a manifestação cada menos medrosa e receosas deles.

Homens, de Lúcia Caus e Bertrand Lima, é um bom espécime deste tipo de trabalho. Sensível e bem longe de se apegar à pieguice como arma de sedução fácil, ouve diversos depoimentos, emprestando o ambiente de cada um (mesmo que com poucos escapes das lentes ou da edição em busca da ostentação do entorno físico) como elemento de compreensão e aproximação. Há choro, bom humor, desfaçatez. Trabalho bastante correto.

Booker Pittman, de Rodrigo Grota (PR)- 15 min (FOTO 2)

Rodrigo Grota optou por fazer uma carreira de rebuscamento visual. Por vezes cobro esse tipo de atitude em outros cineastas. Estou em dúvida. O problema (virtude?) dele é que seu encanto pelo produto plástico parece estar colocando suas evidentes possibilidades num canto único que o estaria "dimensionando" em patamares puramente "rico estéticos". Em "Satori Uso" (2007), esse seu plano visual ultrapassou qualquer barreira de razoabilidade e o que resultou foi um trabalho que me incomodou bastante pelo nada a dizer, a não ser exibicionismo. Nesse Booker Pittman, há um evidente passo dado à frente: se conta algo, se tenta dar ordem às imagens (à primeira vista é mais caótico que o anterior, mas quando digo "ordem às imagens", quero dizer razão para elas terem virado filme). Só que ele insiste em transitar com seus curtas pelo mundo dos documentos (e falsos documentos também) e aí, novamente, percebo que o que poderia ter resultado em algo esclarecedor, revelador, emaranha-se em cortes estranhos, em opções de seqüência complexas demais as - a tal mania dele, do "rico estético". Não dá para negar que o filme tem qualidades: quando se percebe até mudanças de cor, quando se imprimem "datas" e momentos na tela – o passar de momentos são com "origem de cor" diferente -, por exemplo. Mas ainda aguardo uma acomodação que o inserirá mais dentro do cinema.


MCL (Mostra Competitiva de Longa-Metragem)

Ñande Guarani, de André Luiz da Cunha (DF) – 80 min. (FOTO 3)

Tenho um apreço danado pelos guaranis. Um tanto pela sua localização muito nítida no estado de São Paulo (proximidade, portanto) – o documentário define-os localizados em sua origem desde o sul do país até o Matogrosso do Sul, e norte da Argentina, Uruguai e Paraguai -: ainda hoje é fácil encontrá-los em alguns bairros periféricos da capital paulista região do Vale do Ribeira e cidades litorâneas do estado. Outro tanto, por sua cultura matiz “mais leve” que outras nações indígenas (sem a necessidade de lembrar o apreço que tenho por todas, que foram massacradas desde o início da saga invasora das explorações, desde o seu início): manifestações com atos a deuses menos punitivos, menos rancorosos; língua de avizinhamento agradável aos nossos ouvidos (fator óbvio, vista a sua potência na nação “civilizada” até quase o século XX); até artesanato de aspecto delicado, com referências constantes a animais vivos e situações do dia-a-dia... E, um tanto maior,pela “perseguição” que sofreram (e sofrem por outros aspectos nos dias de hoje) desde o início, por serem donos das terras onde o país Brasil (a colônia) se instalou desde que começou a se inventa r uma nação: viviam nas regiões que foram as primeiras a ser exploradas e dominadas pelos portugueses, sendo atacados, dominados, escravizados.

Continuando a falar nesse quinhão maior, os guaranis sempre foram um povo gentil, que ao invés do embate preferiu a retirada ou a aproximação curiosa. Como estavam no centro físico do início de tudo acabaram, quando não fugidos, tendo de participar ativamente das coisas e modificações dos brancos, sendo por tal razão, a nação local que mais manteve contato e a que mais influenciou, também. Por tal razão, novamente, são vistos hoje em dia – pela FUNAI- por exemplo, como um povo que não tem traços e tradições indígenas suficientes para serem considerados, “oficialmente”, como tal. Gentis,perseguidos, englobados e segregados por quem deveria defendê-los em tempos nos quais os índios estão conseguindo resgatar um pouco de seu quinhão. Razões suficientes por um apreço especial. .

André Luiz cunha fez um trabalho de pesquisa e depoimentos de entendidos, e dos próprios índios, bastante elucidativo de pontos vitais da questão da nação. “Falou” das questões atuais – o caso da FUNAI a brig pro terras (lar, na realidade) -, andou com sua câmera por diversas regiões onde se pode encontrá-los, criando um painel comparativo interessante. Ouviu antropólogos e estudiosos que, quando costurados os trechos de seus depoimentos percebe-s eo tanto de importância que tiveram. E explicou – talvez didaticamente demais para alguns, não para min, que senti a calma e as repetições necessárias num trabalho que não tinha na gênese muito do aspecto pitoresco que outras produções buscam – suas localizações desde seu início e o quanto fronteiras são coisas que não podem ser compreendidas por eles. Calmamente – e porque não calma num momento desses? – construiu um filme que fala tudo que não se costuma dizer de um povo tão grande quanto eles são; povo que foi a razão e a contrapartida européia na nação eu surgia. .












Leia as matérias deste festival:

I - Texto de Apresentação
II - Segunda-feira (05/10) - Abertura
III- Terça-Feira (06/10)
IV - Quarta-Feira (07/10)
V - Quinta-Feira (08/10)
VI - Sexta-Feira (09/10)
VII - Sábado (10/10)
VIII - Premiados