16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuaibá (Cinequanon) Sexta-feira (09/10) Por Cid Nader Quando menos se percebe os festivais se aproximam do fim. Esta sexta-feira começou a ganhar aquela cara de evento que se aproxima do desfecho: chega mais gente de fora; muitas das pessoas com quem já acostumamos vai embora (a famosa troca da guarda); a sala de cinema fica mais cheia, e o entorno dela fica mais agitado; passa-se a pensar e discutir o bota-fora oficial (a grande festa – não a do encerramento, a da confraternização); organizadores e colaboradores começam a baixar a guarda e revelar sinais evidentes de cansaço... E por aí afora. No caso do hotel, melhorias crescentes foram ficando perceptíveis: no atendimento, nas acomodações, na limpeza. Mas parece haver um “lapso laboral” incrustado lá no DNA deles que evita que as coisas só melhorem: ainda é necessário que se cobrem coisas que deveriam fluir naturalmente em local preparado para receber gente, afinal. Tenho percebido gente estressada por ter de cobrar coisinhas básicas – mas, comparado aos dois primeiros dias, quase um paraíso. Meio por conta desses lapsos viciosos cá estou, hoje, novamente no centro da Chapada para escrever do dia de ontem. Aliás, esqueci de contar da quase caravana de hippies com a qual cruzei numa das minhas vindas a prazer para cá: descia de volta ao hotel e uns 15 ou 20 vinham subindo, com aquela “malemolência” típica deles, cabelos, roupas, bebês, alguns falando espanhol (argentinos, bolivianos loiros?), e cumprimentos amigáveis. Só para reforçar a aura (uma delas na realidade) que cerca o local: em quantidade maior – nos tempos atuais - só lembro de Visconde de Mauá. Hoje, sábado, já num feriadão – as pessoas são malucas por feriadões de um dia a mais, a ponto de perderem horas em congestionamentos e a paciência em filas nos locais turísticos: não entendo -, já aqui na Chapada’s City percebi muito mais movimento, muito mais carros, aquela vestimenta típica do turista (sungas para os homens, bermudas para as mulheres) em desfile abundante e os restaurantes todos abertos, com placas nas portas e jeitão de festa na praia. E pelas placas dos carros – sou curioso pra cada coisa estranha – deu para notar que o forte do turismo é originário de Cuiabá, Várzea Grande e Campo Verde (as que cercam a região). O que configura ser aqui meio que uma praia deles: Santos ou Guarujá para os paulistanos – a distância de cerca de setenta quilômetros também lembra e assemelha (os de longe mesmo, parece que vem para cá ou de férias ou nos grandes feriados mesmo – Natal, fim de ano, Carnaval e Páscoa). Por falar nesta discreta distância de cerca de setenta quilômetros, andei contabilizando a rodagem que temos feito entre ir e vir todo dia e completaremos cerca de 1000 km ao final do evento (sobre rodas, bem entendido). Está até dando para acostumar: só não está dando mesmo é para dormir muito. Mas dormir muito faz mal... Vou falar dos filmes de ontem, mas noto que alguns deles não puderam ser passados (três curtas que deverão merecer suas chances hoje) por problemas técnicos ocorridos na hora. Percebi o pessoal da organização muito mais chateado com isso do que deveriam ficar: são coisas que acontecem em qualquer lugar, além de ter sido uma bênção por conta da diminuição do tempo de sessão que, ontem, estava previsto como especialmente longo (talvez alguém temeroso pelo cansaço de tantas horas ante a tela tenha batido um bumbo). Ao que passou. Ah, que bacana: acabei de abrir o site do evento e vi um gentil link deles para o Cinequanon. Muita honra, obrigado. MCV (Mostra Competitiva de Vídeos) Hoje Tem Ragu, de Raul Labancca (RJ) – 15 min. Este vídeo do simpático, comunicativo e expansivo Raul Labancca até tem suas virtudes: mas tem em defeitos a mesma quantidade de espaço. Com captação de imagem e toda a parafernália para tal bem elaborada e executada – iluminação específica para o tema que se desenvolve em uma cabana simples em tempos de (ou) próximos da escravidão; boa reconstituição de época; e um detalhamento declamatório da famosa e veterana atriz Lea Garcia bastante bem executado para retratar a situação emotiva dos negros do interior, isolados dentro de seu mundo particular de resistência e orgulho forte -, o curta aposta forte em tal procedimento como uma boa capa de reconhecimento. O diretor atinge tal intento. Mas já aí surge um contra-ponto: um clima de assepsia estranho entorna a situação, e as opções nos ângulos e modo de filmar não conseguem fazer com que tal evento não venha a se estabeleça como marca forte que rouba as atenções. Já aí – dentro do mesmo patamar técnico de avaliação – o filme demonstra sua equivalência entre problemas e virtudes. Nos quesitos dramaticidade, andamento narrativo e encadeamento, há evidentes prós e contras. Como citei, o belo posicionamento da personagem vivida por Lea cria o desejado clima de saudades e indignação – seus olhares e o tom escolhido estão bem adequados ao proposto. O surgimento do outro personagem empresta um sequenciamento bom às lamúrias e ao que se configurará após um evento específico, mas um clima de pouca credibilidade (um "terceiro personagem") cria certo apelo forçado ao sentimentalismo, quebra o elo narrativo e joga o trabalho num patamar que impermeabiliza os de lá, ao invés de ajuntá-los mais ainda ao espectador – como deve ter sido a intenção. A “catarse” desejada se vê impregnada por algumas facilidades na escolha de como agir próximo do final, e todo o andamento acaba prejudicado. Mesmo a intenção final dos takes nos objetos e relicários de apelo à memória acaba não obtendo a redenção e o impacto de sinceridade, parecendo mais um ato de ostentação do belo trabalho cenográfico empreendido (o que não seria necessário, por estar tudo lá já, à vista, o tempo todo) do que sinais e vestígios de vida humana. MCLM Mostra Competitiva de Longas-Metragens) Hotxuá, de Letícia Sabatela, Gringo Cardia (RJ) – 70 min.(FOTO 2) Este documentário da atriz Letícia Sabatela (também de Gringo Cárdia, mas com evidente percepção de Gringo agiu mais dentro do filme – ao menos me pareceu assim) tem andado bastante pelo país. E recebido bastante elogios de parte da crítica e reconhecimento do público. Há sempre a evidente curiosidade em se poder constatar um novo diretor surgindo – principalmente quando já vem do mundo da fama. E a atriz não se fez de rogada indo diretamente a um documentário – algo que de forma evidente deve estar mais longe de seu cotidiano ficcional – para iniciar uma nova carreira. Mais ainda: foi ao documentário que fala de parte de nossa nação indígena, o que poderia constituir um desafio complexo já que grandes obras têm sido feitas utilizando o tema, e algumas de forte caráter antropológico. Ela e ele se deram bem na investia. Não tão bem quanto tenho ouvido por aí, mas bem. Primeiro, porque ao optar pelo assunto – correndo o risco de ter de bater de frente com obras bastante complexas -, que é o da tribo do Tocantins conhecida pelos índios que riem e se divertem muito acima da média, eles (os diretores) parecem ter se abastecido de dados muito próximo do seu comportamento, de suas profissões. Um índio evidentemente encena com prazer para as lentes já no início – “grávido”, estranho ao que costumamos compreender e pensar das atitudes de nossos nativos -, sob risos de crianças e adultos de sua tribo (aliás, de traços bastante belos) -, e ficamos sabendo de um “sacerdote do riso”. Ele é o encarregado de fazer a sua sociedade sorrir, agindo como um palhaço (um clown) quase que o tempo todo, para fazer com que suas vidas fluam com harmonia. A opção por buscar tal assunto faz com que o filme ganhe uma certa diferenciação em relação aos outros, que normalmente falam de rituais que buscam o divino ou a memória triste de ancestrais. A esperteza pela opção, permite que a câmera flua dentro de um mundo particular da direção, o que acaba por criara momentos de leveza e beleza típicas de entende o que acontece na cabeça do sacerdote. Enquanto notamos o modelo de humor exercido – que é do toque, o da manifestação física na maior parte do tempo -, vamos nos questionando sobre a origem de tal tradição. Algumas falas – algumas legendadas e outras faladas num português compreensível – tentam fazer o lado “racional branco” do documentário – nos situam ante a situação que remete a atos ancestrais, ao envolvimento com as plantas... Mas a grande força está no aspecto visual e no deslocamento das situações ante as lentes – algo puramente circense, teatral, inexplicável. O que não permite compreender o trabalho como perfeito é justamente um medo de quem inicia ou está mais acostumado com os atos comuns aos documentários: as legendas de falas, com um pouco mais de ousadia, poderiam, se evitadas, situar o trabalho mais dentro de sua real intenção que é a de explicitar a interação e as atitudes decorrentes da atuação que busca o riso (é compreensível a busca da explicação oral, mas ousadias criam diferenciais). Mas é um senão – quando não, uma opinião e um desejo particular meu -, que não compromete um início interessante. E vale lembrar a ousadia – que se torna num belo momento do trabalho – do trabalho que intromete Gringo vestido de palhaço e adentrando o “palco” local, para fazer perceber o quanto de semelhança há nessa tradição deles ao que já milenar, também ao s brancos, com um resultado lúdico bastante bonito. É uma marca que fica na retina, tanto quanto a beleza dos traços e sorrisos dos Hotxuá. Efeito Sanfona, de André de Lucca (RJ/MT) – 90 min. Normalmente não comentaria nada de um filme que é apresentado – mesmo que em tela grande e para um público ansiosa – sem estar finalizado. É o caso desse longa, realizado por um diretor mato-grossense – o que faz perceber a razão de ter sido exibido nas condições em que foi (risco absolutamente dele). Mas vou dar somente um ou dois pitacos Há piadas boas – dá para rir em alguns momentos – em meio a um amontoado de falas dispensáveis. É mal atuado: talvez, pior, tenha sido mal editado, fazendo parecer que as atrizes (principalmente elas) estavam perdidas num limbo: solicitadas, declamam alguma coisa, param, e continuam sendo filmadas (fica uma sensação de falas mal executadas por corpos largados no meio do nada). E é pretensioso demais no modo de filmar: ângulos inusitados são constantemente buscados, tentativas de captação próxima, também; um plano-sequencia ousado, de uns seis, sete, minutos, é executado (em torno de uma mesa, seguindo a um corredor e voltando); mas tudo muito mal filmado. Há a sensação de uma câmera muito mal manuseada, e quando se tenta invenções com uma câmera indecisa, a coisa tende a ficar mais feia. Mas são observações em cima de um filme inacabado. Eu não considero. P.S.: tardiamente percebi que a câmera, justamente ela, foi feita pro Dib Lutfi... E quals seria a explicação para resultado tão pífio sobre as ousadias (agora sim com razão compreensível) tentadas. É um belo reforço para fazer valer a minha idéia de nunca tentar analisar obras não finalizadas. |
Leia as matérias deste festival: I - Texto de Apresentação II - Segunda-feira (05/10) - Abertura III- Terça-Feira (06/10) IV - Quarta-Feira (07/10) V - Quinta-Feira (08/10) VI - Sexta-Feira (09/10) VII - Sábado (10/10) VIII - Premiados |