16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuaibá (Cinequanon) Quarta-feira (07/10) Por Cid Nader Terceira noite do 16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Segundo dia completo de Chapada dos Guimarães. Como não poderia deixar de ser – até poderia, mas gosto de dar uma situada para os que não estão por aqui do entorno e clima (variadas maneiras de clima) do ambiente -, vou falar um pouco do novo processo que envolve a acomodação num local tão distante da sede, como é a Chapada do centro histórico da cidade de Cuiabá, quanto belo. A cada momento de caminhadas por aqui, olhadas pro horizonte, sons de pássaros ou ventania anunciando tempestade - que afinal, infelizmente, não veio -, melhorias sensíveis no hotel (esforço nítido e óbvio das equipes), sinto o quão é insano ter saudades das acomodações na cidade poluída e de trânsito já caótico. Certo que a história de quase três horas de estrada dia ainda incomoda; certo que a impessoalidade dos hotéis (coisa que tanto prezo) ainda faz falta; mas, tão certo quanto estas coisas é perceber que há pessoas que moram por aqui do modo mais natural possível (algo impensável para quem vê a vastidão deste local de longe). Ontem conheci ruas com casas antigas no caminho entre o hotel e a cidadezinha da Chapada – com direito a escola municipal no meio – e senti uma certa inveja de gente que vive de modo comum urbano (sem a necessidade de ser bicho-grilo ou afim para tal) num local que chama à paz e à interiorização. Percebi aquela “pegada” meio caipira, lúdica, próximo de natureza exuberante. Na hora do almoço a coisa ficou mais impressionante ainda por conta do visual em cima de um mirante (altíssimo, vazado) do restaurante para onde fomos convidados, e de onde se podia ver um mundão de espaço abaixo da gente, com paredões incríveis e aquela mata meio baixa típica daqui (confesso que, mata por mata, acho a atlântica insuperável). “Entendidos” comentavam de lá ter existido o mar há milhões de anos, fato “perceptível” pelas marcas nos paredões, que também denunciavam a idade\geológica do local. Resumindo: mil pontos a favor. Voltando ao mundo real, ao festival e a Cuiabá no início de noite não tão acachapantemente quente quanto na noite anterior, entrei – um pouco sem vontade – para ver o debate sobre filmes do dia anterior. Estavam na mesa, além do mediador de plantão, (Lorenzo), Christian Saghaard (diretor de O Fim da Picada) e Eduardo Ferreira (do média Aroe Jarí). Christian é uma pessoa que conheço há muitos anos (sem tanto contato constante, mas há muito tempo) e merecia uma passada em seu debate. Debate que fluiu com coisas bem interessantes, principalmente por conta de elucidações de Eduardo Ferreira sobre aspectos importantes de seu trabalho e de coisas que precisam ser explicadas (por isso não gosto de apresentações como as feitas por ele no dia do filme – com explicitação de uma rebeldia que empresta assinatura desnecessária ao trabalho -, sepultando possibilidades de informações extra-tela: alguns filmes, principalmente documentários, requerem tal procedimento). Por mais que ele tenha defendido a genialidade e capacidade de grande músico contemporâneo do autor da trilha, Roberto Victorio (que trabalhou por anos a fio na elaboração da música do filme – trabalhou setores específicos desta “ópera” com adequações eruditas à complexidade menos abrangente das “composições” indígenas, setores com mais de quinze violinos, setores só de percussão...), não consigo entender o resultado como algo harmônico, pouco invasivo ou dominador das ações (mesmo sendo um admirador e incentivador das obras que inovam no modo de “termos” de compreender suas intrvenções, o trabalho de Victorio excedeu – aliás, fato perceptível quando Eduardo explicitou ter sido o autor da trilha o total “chefe” da banda sonora do filme). Mas o mais bacana nas falas do diretor foi quando ele se referiu a dados que o filme não pode mostrar (apesar de ele ter se valido da facilidade – por vezes contestável: não gosto muito, prefiro inovações e soluções outras – do recurso de textos escritos para contar os passos do trabalho): falou dos tempos da cerimônia; da “desencarnação” dos cadáveres regados constantemente em sua cova rasa; do momento da putrefação e do mal cheiro, que indicariam aos Bororos o momento em que os espíritos ruins estão largando o corpo... Valeu, e valeu pela nítida percepção de admiração de algumas pessoas pelo trabalho de Saghaard. Aos filmes do dia. MCV (Mostra Competitiva de Vídeos) Spetaculum, de Juliano Luccas (SP) – 18 min. Julianno Luccas fez um documentário (?) até raro. Ao invés de ir ao assunto, ao mote; ao invés de se municiar de depoimentos e imagens específicas – fato bastante comum -, construiu uma peça de forte teor ficcional, mas sem o apelo mais comum da construção de dramaticidade condutora, de história repleta de personagens que interpretam os fatos ou alguém. Ao falar da vida de um palhaço (?), simplesmente, invade seu ambiente comum (o do dia-a-dia) para mostrar comportamentos comuns, atos cotidianos, “interpretados” pelo próprio retratado (Lupa). Interpretados. Ele mesmo se caricaturizando. O filme vai além e revela seu monte de angústias quanto à vida: faz caretas, repete trejeitos, e “dialoga” ferozmente com um boneco. Luccas soube como conduzir os momentos de modo bastante instigante, complexo, não fugindo ao proposto e não procurando atalhos. Utiliza bons takes e atinge dois auges: imageticamente, quando representa finalmente a essência do personagem refletindo sombra debochada numa parede; e, na essência, quando faz com que quem é manipulado (o boneco) se manifeste de forma independente, dura, crítica, quase indicativa de não possibilidades. Contra a Hierarquia das Coisas Assépticas (FOTO 1), de Cris Ventura, Mariana Campos (MG) – 12 min. Filme com chancela evidente de Carlos Magno (o genial realizador mineiro, visto por muitos como provocador e arrivista). Magno é muito mais do que um falador vazio e autor de teatrinho para chamar a atenção. Certo que não evita tal possibilidade, mas também é certo que tem o que mostrar, com resultado no seu mundo que é o cinema (faz obras esplendidas que dialogam bem com sua fala externa – bem ao contrário de outros realizadores bem mais conhecidos e somente de fachada). Mas o filme não é dele. É de Cris Ventura e Mariana Campos que buscaram um trecho de diálogo com o público sobre... Assuntos. A idealização inicial das garotas era de caráter bem mais visual, “fácil” – são as imagens de “luz mais estourada”, com a fala dieta da garota às lentes (parece que houve uma hesitação quanto a deixar as imagens da atriz em benefício do texto). Mas a “associação” de Magno ao produto criou um paralelo narrativo que impõe verdadeiramente traços seus que não podem ser não notados: o sequenciameto dos quadros, todos numerados, a conversa culta, baixa, que busca a erudição; citar São Thomas de Aquino; introjeção musical determinante no fluxo narrativo a partir de um certo trecho... O que resultou foi um trabalho belo aos olhos e aos ouvidos – o sentidos ficam mais atentos do que o normal ao que ocorre na tela. Da face feminina do trabalho restam imagens – mesmo que tenham sido postas em dúvida – de beleza e fluidez (inclusive com um final imagético marcante). Da face masculina, ficam as impressões de um autoralismo reconhecível facilmente, sob qualquer aspecto. Nada de assepsia. MCCM (Mostra Competitiva de Curtas-Metragens) O Menino que Plantava Invernos, de Victor-Hugo Borges (SP) – 15 min. Há cada vez mais no mercado animações que falam somente aos adultos. Isso é muito compreensível. Mas, paralelamente, h´acada vez mais aniamções que falam aos adultos de modo “doentio”, sombrio. É o caso desse lúgubre trabalho de Victor-Hugo Borges. Especialmente bem idealizado e concretizado no seu modo 2D (com muito PB predominando e utilização de cores em momentos precisos e específicos da trama – um marca “física” em situações aludidas), com belo domínio de técnicas e evidente bom traço. Mas é filme que não fala de modo algum a almas mais livres, estômagos mais sensíveis. Fosse uma novidade, seria assombroso – pois é bastante competente. Mas sofre por ser parte de um modelo que se repete. Não sei até que ponto o diretor procurou independência e caminhos próprios, quanto não sei o alcance desse “modismo”. Modismos não são bons, e podem comprometer trabalhos tão bem realizados – de maneira óbvia – quanto esse. Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel (MG) – 21 min (FOTO 2) O forte desse trabalho é a atenção e o cuidado extremo que o diretor Marcos Pimentel teve com a captação das imagens de Arquitetura do Corpo. Ele foi bastante sensato e “esperto” ao filmar momentos de preparação de bailarinos para a seleção, por uma companhia, de um projeto social. O que fez do trabalho algo forte e respeitável é que o “contar uma história” se deu pelas imagens e pelos ângulos adotados: o que ele conseguiu foi demonstrar que se pode fazer um documentário abdicando da palavra falada, ou do fato narrado oralmente. Foram obtidos imagens de frações de corpos, de movimentos repetidos, de exaustão, de machucados – algo bastante simbólico e representativo da verdadeira vida dos bailarinos fora dos palcos -, e enquadrou tais momentos com imaginação e complexidade suficiente para que o trabalho ultrapassasse a barreira “simples” de uma trabalho documental. Na realidade, acabou por realizar algo que dispensaria qualquer apresentação formal – eu poderia ter omitido que se trata de trechos de preparação para uma seleção -, porque o que mais importou foi o fato da beleza das imagens editadas e manuseadas, para a obtenção de algo que transcendeu possibilidades mais contidas. Escapou de uma “prisão” advinda de obrigações formais, para ingressar com seu filme um outro patamar, um outro modelo, de explicitação. MCLM (Mostra Competitiva de Longas Metragens) Loki, de Paulo Henrique Fontenelli (RJ) – 120 min. (FOTO 3) Poderia falar que esse documentário de Paulo Henrique Fontenelle até tem alguns problemas estruturais, que não é perfeito ou inovador, que não é obra completa vista sob aspectos mais exigentes ou sob o pensamento analítico. Mas nem vou falar nada não. É impossível apreciar Loki - Arnaldo Baptista sob qualquer viés que não seja o da emoção extrema que ele proporciona a qualquer espectador que o assista. E se uma obra consegue esse impacto junto a todos os tipos de platéias imagináveis, se consegue ser unanimidade transitando entre os mais variados públicos, se se coloca como trabalho do qual não ouvi sequer um senão que seja, não seria eu, o maluco que a adora, a tentar pensá-la sob lupa rígida em busca de coisinhas insignificantes. Se a função primordial de documentários é elucidar aspectos, procurar fatos, revelar dados, utilizar imagens de arquivo, se nutrir de depoimentos verdadeiros, por exemplo, esse aqui cumpre sua função de maneira mais do que completa. Se uma outra possibilidade deles for a de tentar resgatar a imagem perdida, obscurecida, esquecida, de algum ídolo ou bandido, déspota ou conciliador, artista ou um outro alguém de projeção razoável, Fontenelle se mostrou craque e dono de um domínio absurdo nesse resgate. Se a possibilidade de alcançar o público interessado for cumprida e se esse público embarcar de cabeça na história, feito: temos um grande exemplo aqui. Contar as histórias do mito e gênio Arnaldo Baptista em texto aqui nessa crítica seria subestimar o tanto que foi conseguido e contado no documentário, que, ainda mais, vai às raias da emoção sem nenhum "truque" estético ou formalista: emoção alcançada somente pelo obtido, relatado, mostrado em imagens e depreendido pelas nossas sensibilidades. É óbvio o carinho que o diretor nutre por Arnaldo, mas o que surpreende demais é o carinho meio esquecido de um público que o guardava em algum lugar mais íntimo e que aflora desavergonhadamente durante os instantes em que a película vai ganhando os tempos na tela. O início e suas muitas imagens de arquivo - mostra-se sua infância, os momentos iniciais dos Mutantes, cenas do casamento com Rita Lee (sua paixão, sua loucura, seu tormento, sua perdição), os festivais e as primeiras ligações com o tropicalismo - cumprem uma função de reaproximação para quem já conhecia ou viveu na época, e de alerta e descobrimento para quem só havia ouvido falar do mito, de suas histórias; a infinidade de depoimentos (e o teor de sincera emotividade brotados deles), preenchem todos os espaços que buscavam por quês, explicações, esclarecimentos, e colocam qualquer um que assiste ao filme definitivamente dentro do que está sendo revelado; a junção e edição do trabalho, os tempos atuais tomando seu lugar no trabalho e perceber que a vida pode ser tão complexa quanto simples, acabam finalizando dignamente algo que se mostra sempre digno e respeitoso, em todos os frames. O mais incrível é que após mais ou menos 1,20h de projeção e emoção, surge uma "novidade" na tela - no meio do momento mais complexo de sua vida - e o filme ganha mais emoção ainda: e remete a história a níveis de humanidade dos mais incríveis e dos mais parecidos com fantasia. A presença de Lucinha na tela, seu surgimento, o modo como Arnaldo narra seu surgimento, faz crer que “existam anjos”, e que deles nós todos necessitamos. O filme passa a ser dominado por um anjo que socorreu outro que havia caído. Acho que as histórias estão lá e todas muito bem contadas. E acho que o filme não fala de seres humanos. Fala do que idealizamos. Fala de nossos sonhos por alguém que nos defenda, e por alguém que nos alegre. Não há outro tão emocionante no momento. |
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