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16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuaibá (Cinequanon)


Terça-feira (06/10)

Por Cid Nader

Segundo dia do Festival da capital mais quente do país – provavelmente. Já começo a notar algumas vantagens em estarmos hospedados na Chapada – afora as óbvias relacionadas à beleza, paz, visual, cheiro -: a temperatura aqui é sempre muito mais amena do que a da capital lá embaixo, na boca do inferno – com todo o respeito. É que, ontem, por exemplo, depois de um dia até bastante atribulado por aqui em cima – não dá para esquecer, por enquanto, do cansaço emprestado a nós após os deslocamentos de idas e volta para o evento, e mais alguns outros que vem obviamente sendo corrigidos (ao menos tentados) -, quando a Van que nos conduz chegou na baixada, um soco quente resolveu ir batendo em nossas caras ainda dentro do veículo (soquinhos carinhosos e enganadores, como os jebs no boxe); quando a Van abriu a porta um cofre pesado e quente parecia ter caído em combalidos corpos amortecidos pela pancada fervente. Parecia a boca do inferno mesmo.

Voltando ao quesito “vantagens da Chapada”: canto de pássaros variados na hora de acordar, ao invés de buzinas e sirenes de ambulâncias – um ponto previsível, mas sempre bastante bem vindo. Agora, o melhor de tudo, vantagem mais “vantagem” mesmo foram os dois por de sol que vimos nos finais de tarde, na estrada, descendo para a capital: paredões emanando luz (parecem próprias, como se tivessem acumulado energia durante o dia para se tornarem refletores fosforescentes), céu de nuvens rasgadas com cores diversas, e nacos de sol vermelho igual o pecado (não sei a razão, mas imagino o pecado na cor vermelha) se pondo por trás das montanhas (inacreditável, não fosse verdade (FOTO 2); hipnotizante, como dizem ser o clima geral do local – dizem os mil místicos daqui).

Chegados no chão, mais uma noite do festival mesmo – o de cinema, para quem não se lembra mais – a ser comentado. Antes, havia acontecido uma palestra sobre astronomia – valendo lembrar que o evento está homenageando os 400 anos das primeiras observações telescópicas do céu feitas por Galilleu Galille – proferida pelo professor Mário G. Maia, sob o tema, “O Lado Escuro do Universo”: não vimos, mas soube que lotou. Aconteceu o primeiro debate, também, mediado novamente pelo “moderador oficial de plantão” – um cara bacana, aliás – Lorenzo Falcão, tendo como convidada a atriz Denise Dumont (FOTO 1), que trouxe para cá o documentário realizado por Lírio Ferreira e produzido por ela, O Homem que Engarrafava Nuvens” (o qual tem como assunto a vida e obra de seu pai, Humberto Teixeira).

Gostei da projeção no segundo dia – som mais bem ajustado e bom respeito às janelas. E volto a citar a beleza da sala restaurada, que por enquanto vem dando sinais vitais fortes de comportamento. Abaixo, breves comentários da programação da terça.


MCMM (Mostra Competitiva de Médias-Metragens)

Aroe Jarí, de Eduardo Ferreira (MT) – 40 min.

O diretor Eduardo Ferreira subiu ao palco antes da apresentação de seu média-metragem documental. Baixou um Cláudio Assis nele e proferiu um amontoado de palavrões calculados contra a ausência de cuiabanos na sessão (aliás, concordo – não com os mesmos termos – quanto ao comparecimento do público num evento gratuito e único como é o festival). Tenho sérias restrições particulares – não de caráter moralista, mas artístico – a manifestações do estilo da dele: nunca imagino que filmes devam ser “abastecidos” de discursos preparatórios antes de sua exibição, e quando vejo tal procedimento ao estilo Cláudio Assis repetido, como fez Eduardo, fico com dois pés atrás no aguardo da bomba pretensiosa que virá em forma de filme.

Mas até que não. O documentário se faz interessante demais pelo próprio tema em si – fala dos rituais funerários dos Bororo. A construção do diretor, que alterna filmagens recentes, uma de meia data capitaneada por Darci Ribeiro e uma outra bem mais antiga – do início do século XX – é justa, precisa e, quando ameaça cansar pela lentidão optada como ritmo, desvenda os propósitos dos rituais e chapa de maneira impactante o espectador. A alternância de tempos revela – como alguns outros trabalhos recentes – o mal que a aculturação branca fez aos índios, que repetem rituais e danças de forma por vezes constrangida. Mesmo não sendo este o mote da idéia central, é válido notar tal questão.

O desvendamento, o desfecho e a “ajambração” das imagens utilizadas emprestam força ao trabalho, ao contrário da peça musical que corre em paralelo com a “trilha original ritualística”. Sei que o filme talvez até tenha na peça composta por Roberto Victório (trabalho dividido em atos como uma ópera, por exemplo) a esperança de se ver marcado como obra contestadora, mas a sensação que deixa é de onipresença demais sobre o que as imagens e cantos tradicionais revelam: interferência com jeito de assinatura calcada demais, sobre a leveza insinuada pelo todo.

MCV (Mostra Competitiva de Vídeos)

Darluz, de Leandro Godinho (SP) – 17 min

Darluz é um outro exemplo negativo de filme que não poderia ser símbolo de alguma faculdade de cinema. Todo feito com câmera digital – ok, aceito isso já, mesmo com dor no coração, mas aceito – é extremamente amador no modo de utilização do equipamento optado. As mudanças cromáticas, algumas inserções de quadros, de quebras na forma normal do filme – coisas que significam, ao menos, que o diretor mereceria créditos por não se conformar com o filmar duro e certo -, acabam denunciando um comodismo (ou falta de orientação, o que seria mais assustador) assustador, pois todas as tentativas ousadas são produtos já inseridos nas possibilidades que a câmera oferece. Não dá, né? E olhe que a história até que é boa – sem esquecer as atuações tipicamente de amigos de classe e da escola –, mas jogada no lixo. O texto acima é de minha primeira visita ao filme no “Festival Universitário Perro Loco”. Coincidentemente vi uma reclamação sobre minha bronca por parte do diretor Leandro Godinho num outro blog, onde ele já vinha discutindo com algumas pessoas que não haviam gostado do trabalho. Os termos revelavam uma pessoa que amparava nos prêmios como sinal de merecimento, mas com desfecho bem humorado.

Logicamente encontrei Leandro por aqui em Cuiabá e busquei ponderações dele a respeito do trabalho. O caráter de filme bastante vinculado ao modo de atuação teatral (algo me desagrada bastante quando age de forma independente dentro do mundo do cinema, principalmente pelo “tom acima” que os palcos exigem nas interpretações) foi reforçado por ele. Com “dados novos” na cabeça me propus rever o filme para possíveis novas avaliações. Bem, já houve a surpresa de ver uma projeção que respeitou mais as idéias de concepção – algo que não foi possível ser notado na primeira visita. Melhorou minha percepção neste segmento técnico: deu para perceber algumas inserções em 16mm (algo de forma alguma notado anteriormente) e perceber, também, que os exageros na manipulação das imagens obtidas pelo digital nem sempre beiram o caos, ou o comodismo, total. Há sim um excesso que prejudica o todo – coisa de virtuosismo com jeitão de quem é do teatro – mas me pareceu evidente, desta vez, que se Leandro “se controlar” um pouco pode concretizar trabalhos bem mais expressivos (deu para notar que ele tem domínio sobre a edição).

Sem me estender muito a mais: ele reclamou quando disse das atuações ao estilo amigos de escola. Algumas delas – a de “multidões” (jornalistas, por exemplo) – marcam mais na reina do que as boas (com certeza) das atrizes centrais. Mas é evidente demais o “estilo palco”, nelas. Vale avaliar se é boa a intenção do diretor em fazer de sue cinema algo propositalmente ligado ao teatro. Continuo recusando tal opção: mas lembro da recepção positiva que o filme obteve da platéia, em lugar (algumas cidades expressam isso de modo evidente) onde o teatro é símbolo de cultura maior, e onde se misturam intervenções do gênero em evento cinematográfico com o maior prazer e naturalidade.

MCCM (Mostra Competitiva de Curtas-Metragens)

O Menino-Aranha, de Mariana Lacerda (SP) – 17 min.

A diretora Mariana Lacerda optou por um jeito mais inédito para revelar o assunto documental de seu trabalho. E o fez de modo bem bom e instigante. Fala de um garoto – desses da vida, pobres, que vão virar bandidos quase obrigatoriamente por conta dos desvios como únicas opções ofertadas pela sociedade -, que subia com facilidade extrema pelas paredes dos prédios para praticar pequenos furtos. Lenda urbana?

O que importa, por um lado, é que acaba por se discutir essa abjeção que é a dos vales sociais. A diretora, aos poucos, faz perceber o quanto deveríamos estar mais atentos aos casos. Por outro – e aí a grande sacada do trabalho –, reside na opção dos alvos das lentes a admiração: se a idéia é falar de seres que “são invisíveis” aos nossos olhos, porque não contar sua história mostrando (visualmente, via imagens) os locais físicos usados para os “crimes” – que, afinal de contas, são os únicos bens palpáveis que nos interessam, acima de tudo. E ela foi aos prédios, mostrando-os, desnudando-os e observando-os com rigor dos mais admiráveis. O resultado é um filme quase único, que demonstra a possibilidade da grande execução cinematográfica desejada, trabalhando com assuntos importantes e fazendo-os reconhecidos, sem exibicionismo ou “discursos engajados”. Emocionante o único momento de “imagens humanas” ao final.

Os Filmes que não Fiz, de Gilberto Scarpa (MG) – 16 min.

Gilberto Scarpa prefere falar diretamente a um público que não questione, que se divirta com idéias engraçadinhas e sacadinhas espertas. Tipo de trabalho que não me agrada, que não busca idéias boas ou ousadas, mas que se resolve dentro dessas possibilidades. Obviamente é tremendamente bem acabado; se não me agrada, e isso pouco importa, atinge diretamente boa parcela do público. O que acontece é que é daquele filmes com os quais cruzo em vários festivais, e, de tanto vê-lo, começo a ganhar um pouco de mais afeição – voltando a citar o quanto o público se diverte com as idéias. Volto a citar: idéias que não são bem desenvolvidas (construir filminhos não feitos para "narrar", via imagens, filminhos não feitos, sinceramente, para mim, ultrapassa a simples brincadeira para cair numa acomodação de solução). E, em se pensando na "função" do cinema como arte para atingir e tocar o espectador...

MCLM (Mostra Competitiva de Longas-Metragens)

O Fim da Picada, de Christian Saghaard (SP) – 80 min. (FOTO 3)

O diretor de curtas, Christian Saghaard, entra no mundo dos longas explorando um filão de "estranheza" que é bastante executado dentro da cinematografia recente paulista. Tem um tanto de choque baseado no cinema "sujo" e assustador de Zé do Caixão - inclusive com uma participação especial dele (uma pontinha) -, com cenas de corpo sendo estuprado, sangue, mutilações, a evocação de um Satã feminino bastante "sexuado" e extremamente desagradável. Saindo das referências ao mestre de nosso cinema de terror, e continuando em outro estilo paulista de fazer cinema, há a denúncia social ao estilo de Sergio Bianchi, há mais homenagens explícitas a diretores e trabalhadores de cinema da capital paulista - pontas de Paulo Gregori (um professor e realizador de curtas local que faz cinema de extremo e choque), Carlos Reichenbach (outro diretor que está longe de transitar com sua obra entre os considerados diretores conformados), o fotógrafo Aluísio Raulino (talvez o maior do Brasil, mas nada "normal") e por aí afora.

De dentro dessa proposta extremada resultou um filme irregular. Irregular pra baixo quando repete trechos musicais entre cortes específicos – como se para marcar cada segmento do filme como emoldurado por uma única música. Irregular pra cima quando opta em levar o personagem principal através do tempo, do interior para a cidade de São Paulo, vendendo sua alma ao diabo ("antigamente o diabo corria atrás do homem, hoje, o homem corre atrás do diabo), e evidencia a cidade através de gravuras e fotos antigas – um momento bastante bonito, aliás, raramente visto por aqui, porque raramente se pensa no Brasil quase urbano, de perto da virada do século, coisa bastante comum ao cinema americano, por exemplo. Irregular para baixo na aposta da cena final extremamente e assumidamente trash – desejo inequívoco da "sujeira" e do baixa resolução estética como opção, mas que me perece um tanto infantil.

Mas é pra cima, pela opção "brasileira" do Saci como o representante ressuscitado da pobreza, massacrado anteriormente pela violência do "Bandeirante", como o representante mitológico da "elite" paulistana – símbolos que não estão jogados lá por acaso. Pra cima também, e novamente, pela representação dessa "nova riqueza" destroçada, com sua cabeça decepada mas preocupada com o corpinho e com o "amassadinho no carro" – e aí o trash total está presente mas funcional, com razão, como um "upgrade". Contadas as favas, bastante válido como trabalho de experimentação e reverência. Os porém ficam por conta da estréia nos longas.












Leia as matérias deste festival:

I - Texto de Apresentação
II - Segunda-feira (05/10) - Abertura
III- Terça-Feira (06/10)
IV - Quarta-Feira (07/10)
V - Quinta-Feira (08/10)
VI - Sexta-Feira (09/10)
VII - Sábado (10/10)
VIII - Premiados