16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuaibá (Cinequanon) Segunda-feira (05/10) - Abertura Por Cid Nader Noite de segunda e eu no reformado Cine-teatro à espera da abertura do 16º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá. Dia que foi intenso – como seria de se esperar quando acontece um deslocamento de São Paulo para Matogrosso, logicamente. Mas, mais intenso do que somente a longa viagem do sudeste para o coração do centro-oeste, foi a novidade de última hora: por motivos facilmente compreensíveis, numa sincera conversa com Luiz Borges, fomos deslocados neste ano – imprensa, convidados, jurados, vans e afins – para a bela, esotérica e exotérica Chapada dos Guimarães, onde se situam o centro geodésico da América do Sul, além de resquícios hippies, cheiro de macela nos caminhos outras “cositas” de difícil explicação ou compreensão (ao menos para quem tenta manter os pés no chão e a cabeça sobre os ombros...). Fácil compreender tal intensidade citada no início do texto quanto se calcula o tempo de ida e volta entre aqui e Cuiabá – ontem, um tanto neuroticamente, já tentava fazer as contas acumuladas das três horas de viagem/dia que empreenderemos desta vez. Tão fácil, também, quanto compreender as razões para tal deslocamento físico – por enquanto somente o deslocamento físico está contando: não posso garantir nada daqui uns dois dias. Mas creio que seja só o início, já que daqui para diante a idéia é a de dedicação aos escritos diários, o que deverá sepultar parcialmente os desagrados físicos: mas que é um tanto engraçado (estranho) andar em turma numa van, como se fossemos escolares indo e voltando da escola – com uma festinha no meio, ou a possibilidade de um almoço à beira de uma cachoeira -, ah, isso é. Já começando a embarcar na possibilidade lúdica de tudo isso, não dá para não citar meu primeiro passeio em busca do centrinho “urbano” da Chapada em busca de uma lan-house: uma caminhadinha tranquila desde a pousada até uma rua com pequenos comércios para turistas “mais cabeça solta” que desemboca numa imensa e antiga praça – como são imensas as praças das capitais do centro-oeste (lembro de outra em Goiânia): provavelmente por conta de não haver problemas com espaço por aqui (terras abundam). Praça com dois hippies largados, meia dúzia de locais com caras de descendência indígena, alguns cafés/sorveterias e duas lans para eu poder escolher à vontade (por acaso, dia seguinte, estou escrevendo da elegida). Na volta, sob odor da macela já citada acima, pensava nessa loucura branca (que busca, à sua moda, o inexplicável quando conhece a região – cheia de atributos e referencias geográficas específicas para divagações – em data não específica de um passado não tão remoto) em contrapartida à originalidade étnica dos indígenas originais da região (índios que também são bem chegados ao exercício de “maluquices extra-conscientes”). Pensava no início da integração, a partir do momento em que veio imbuida de uma aproximação/apropriação de caráter não invasor, não explorador de riquezas palpáveis, vendíveis. Só pensava. Sem descansar – já que optei pela investigação de um local para escrever antes que minhas neuroses me dominassem -, noite, centro histórico de Cuiabá: início do festival, conhecimento do belamente reformado cine-teatro (disseram lá no palco que é da era Vargas – duas belas garotas, vestidas pra matar, que fazem um programa de moda ou algo que o valha na Bandeirantes local; haviam me dito, ainda no saguão, que tem capacidade para cerca de 500 pessoas – contei grosseiramente e pra mais de 400, com certeza), que agora substitui o cinema de shopping que havia assomado após os tempos iniciais, na Universidade Federal de Mato Grosso, um certo frisson de abertura no ar, mas nada de tão quantitativamente assustador. Foram quase diretamente ao assunto e acertaram quando optaram pelo belo e engraçado Les Voyages dans La Lune (FOTO 1), de Georges Méliès (1902) - lindo nas invenções de então, que misturavam colagem e pinturas para representação cenográfica; esperto e engraçado na representação visual dos gênios/sábios que imaginaram a viagem ao nosso satélite natural; impressionante quando apresenta o “homem”, o humano, destruindo tudo que apareça à frente desde que não seja de sua espécie ou categoria genética; culto pela referência a idealizações mitológicas, bastante óbvias nas figuras que entornam o dominante selenita... -, num festival que tem como motes (ainda estou esperando para ver no que dá) a astrologia e a astronomia: valendo destacar a apresentação simultânea do músico Danilo Ribeiro, que com sua guitarra conseguiu emprestar uma banda sonora justa ao filme, que não procurou obscurecê-lo, nem parecer mais virtuoso. Abaixo, breves comentários dos filmes em competição exibidos. MCMM (Mostra Competitiva de Médias-metragens) Povo Marcado, de Werinton Kermes, Luciana Lopez (SP) – 30 min. Documentário que fala de uma tentativa de re-socialização de detentas no presídio de Votorantim (SP), através de um programa de rádio criado por pessoas interessadas no tratamento mais humano a seres que já têm sua vida bastante complicada por terem de viver atrás das grades – fato que por si só já deve ser algo tremendamente desgastante, aliado à já reconhecida qualidade de nossas prisões e do descaso de autoridades em solucionar problemas evidentes no braço executor do nosso sistema jurídico. Os diretores gastam um primeiro trecho do trabalho para dar vez às reclamações e conclamações por maior dignidade, proferidas por prisioneiras e algumas pessoas ligadas a elas, do lado de fora. Tal procedimento ameaça o trabalho: acaba sobressaindo a impressão de que veremos um filme de viés puramente piegas e sentimental. Quando as lentes passam a observar com mais atenção o verdadeiro motivo do trabalho – que é o da divulgação do regenerativo programa de Rádio – o documentário ganha potência e passa a fluir com mais vigor e menos “patinação”. Mesmo sob riscos assumidos de tocar extremos que poderiam sepultá-lo sob terra de apelos gratuitos e aproveitadores – quando se fixa demais em olhos lacrimosos (inclusive com evidente intenção de fazer destes momentos situações a ficarem impregnadas nas nossas retinas), ou quando tenta aproveitar a mais do que o necessário os sinceros momentos de comoção do ator Paulo Betti ante a situação chocante de mulheres presas, ou ainda, próximo do desfecho quando insiste em focar as mãos algemadas de uma das garotas que fazia o programa de rádio naquela situação -, o filme sabe como se abastecer das músicas executadas, criando, juntamente com espertas opções de tomadas e edição corretamente planejada, os verdadeiros momentos de fluidez narrativa que ficarão, estes sim, marcados. Mesmo correndo riscos desnecessários, Povo Marcado acaba superando-os ao se tornar, ao final, um bom exemplo de como se alcançar uma boa fluidez narrativa, via manipulação das técnicas apropriadas. E por ser forte como recado humanista. MCCM (Mostra Competitiva de Curtas-Metragens) Wenceslau e a Árvore Gramofone, de Adalberto Müller (RJ) – 15 min. Com clima obtido de evidente esforço que imiscui minúcia imagética e a adequação (à linguagem, ao formato diminuto) poética do texto de Manoel de Barros, o diretor Adalberto Müller conseguiu um exemplo de curta-metragem raro, por sua beleza obtida através de variadas origens. Vale lembrar que, aparentemente, o poeta de Mato Grosso (nascido lá, mas criado no sul, que acabou virando outro estado) tem um bom trâmite entre suas letras e os trabalhos filmados no formato de curta-metragem – lembro da beleza obtida por Joel Pizzini com seu “Caramujo Flor” (já no distante 1988) -, por oferecer através de seus poemas campo fértil aos experimentalismos, ou às idealizações de caráter não linear, muito mais apropriadas ao tamanho. Adalberto vai muito ao rigor na captação das imagens (fotografia sempre bem vinda Kátia Coelho), e mais ainda no momento da edição do filme. Ao costurar situações atemporais não se preocupa em desvendá-las de modo a acomodar o público, mas não deixa de fazer perceber o trabalho um campo de forte apego sentimental. Por vezes parece que o filme ultrapassará a tênue linha entre a beleza plástica e a correção imagética bem imaginada e captada – sinto isso em “Lavoura Arcaica”, por exemplo -, ingressando no sedutor do mundo do exercício de estilo, do exibicionismo. Trisca tal risco. Mas consegue ser “rígido em seu rigor”, mantendo os pés firmes até o final, e fazendo notar, também, que formalismo não linear não deve ser sinônimo obrigatório de obras herméticas e de difícil compreensão: rigor e formalismo são pré-requisitos básicos e essenciais à boa manipulação da arte. Dossiê Rê Bordosa, de César Cabral (SP) - 15 min Das melhores animações que brasileiras, certamente – e uma papa-prêmios inquestionável. Cesar Cabral demorou cerca de dois anos para executá-la e o que obteve foi bastante pertinente. Um belo e exemplar trabalho em stop-motion, com bonecos recriando personagens de quadrinhos e da "vida real" de modo, sem dúvida, genial. A forma da movimentação é corretíssima e o embaralhamento com as tiras oficiais do assunto abordado criam dinâmica na narrativa visual. Além do mais – continuando no quesito técnico – a recriação dos personagens reais e suas falas são totalmente fiéis ao captado originalmente o que constitui raridade no gênero – o exemplo ao final da exibição com o próprio cartunista Angeli é um grande exemplar do que ele e sua equipe conseguiam. A recriação dos personagens em bonecos e com falas também é justa e acertada – inclusive na escolha das vozes – e faz parecer que sempre os vimos assim (inclusive com cores). Há o fato "documental" sobre a morte da personagem, que é criado com esperteza de modo bastante similar à recriação desse tipo de situação, na imprensa marrom, por Rogério Sganzerla em o "Bandido da Luz Vermelha". Portanto, afora as virtudes estéticas o filme se beneficia das boas sacadas nos modos de fluidez adotados. O que mais encanta atualmente é perceber o quanto o trabalho continua ganhando reconhecimento. E esta é uma questão de não tão fácil compreensão, já que, no mundo dos curtas-metragens e das animações nem sempre o bom filme de verdade é merecedor dos aplausos e prêmios. Cesar obteve feito até um tanto raro, conseguindo dialogar com as mais variadas instâncias sem nenhum tipo de problema. MCLM (Mostra Competitiva de Longas-Metragens) O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira (RJ) – 106 min. (FOTO 2) Lembro de ter citado no último trabalho de Lírio Ferreira algo como um certo regresso em sua carreira, quando comparava os últimos trabalhos ao seu belo e marcante – no momento,vento renovador – “Baile Perfumado” (1997). Lembro de não ter gostado muito das opções escolhidas para confeccionar o documentário “Cartola – Música Para os Olhos” (2006), uma pessoa de amplas possibilidades a serem exploradas (documentação depoimentos e, sobretudo, a sua fluência musical de apego a variadas maneiras de entender a beleza), mas que obteve um filme pouco inspirado para sua grandeza (minha opinião, de modo bem diverso à maior parte da crítica). Pois bem. Ao optar por falar da figura de Humberto Teixeira – músico, poeta, compositor de sucessos que ganharam muita potência e reconhecimento na figura iconográfica de Luiz Gonzaga -, o diretor fez um apanhado bastante amplo e dedicado (nas referências buscadas, nas explicações obtidas, nos discursos proferidos, nos depoimentos): coisa que me pareceu faltar no trabalho anterior. O modo como Lírio vai desvendando a figura não tão facilmente reconhecível de Teixeira é quase didática, sem fazer com que isso possa parecer acomodação. Ele trabalha com registros históricos, alternando-os com depoimentos “técnicos” e outros de profundo viés sentimental. Faz uma miscelânea calculada para tal, criando um crescendo de importância histórica do personagem dentro de nossa música (situando-o num momento histórico de nossa cultura tal, que acabaria por criar raízes profundas, inquebráveis e férteis para o futuro), e evidenciando as suas origens e seus anseios sentimentais. Vai-se criando admiração pela figura genial de Humberto Teixeira, recitada por milhares de bocas famosas; vai-se alternando sucessos por interpretações das mais variadas, sempre reverentes; recuperam-se arquivos com o rei do Baião (Luiz Gonzaga) e vai-se para fora do país para notar sua importância (inclusive com detalhamento de imitações e surrupio de músicas por parte de outros). Todo esse momento emblemático, de “apresentação e reconhecimento”, constitui um bom quinhão do trabalho, sem deixar de lado intervenções onde sua filha mais famosa, Denise Dummont, fala dele e de sua relação com ele. Mas documentários ganham muita força quando rompem com um modelo de discurso através de um depoimento surpreendente, ou de um achado bombástico. Quando as câmeras acompanham Denise a Nova Iorque e captam um desabafo de sua mãe sobre o comportamento de Humberto, e sobre situações relativas à separação de ambos, além de um balde água fria momentâneo ser despejado no espectador, um ouro braço se abre, e o clima de auto-análise, de compreensão verdadeira entre filha e pai, passa a ser escancarado. Por conta disso, o filme estica um pouco a mais da conta exata, e um acerta sensação de final ideal não encontrado passa a tomar a vez. È um incômodo que talvez pudesse ter sido superado com um pouco mais de “sisudez” no momento da edição: algumas cenas de artistas cantando e falando do Teixeira ganham ar de repetição. A opção de Lírio foi a de deixar tantas informações quanto as que deixou, como modo, talvez, de não concluir seu filme com a imagem do documentado maculada demais pelas complicações/implicações caseiras/sentimentais. Se essa foi a razão para tal indefinição na hora de fechar, creio ter sido desnecessária: é evidente que num trabalho de tanto apego e desvendamentos, a figura humana foi discutida e esmiuçada, de maneira a não parecer razoável condenações por parte do público a alguém que errou (se errou) nas questões mais humanas possíveis (que são as dos laços). De todo modo, um pouco esticado a mais, ou não, Lírio fez um belo trabalho, emocionante, competente ao extremo no quesito técnica (há momentos em que a câmera atua belamente: quando busca Chico Buarque no porão, ou quando acompanha David Byrne em sua bicicleta, por exemplo); há a utilização bastante digna de imagens de arquivos e a boa emenda delas com a “realidade”; há boas soluções de continuidade e dinâmica. Um Lírio voltando à boa forma, nessa sua nova vida dentro do mundo dos documentários? P.S.: não posso esquecer que a fotografia é de Walter Carvalho. |
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