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“É TUDO VERDADE 2009”


“Cartas ao Presidente” - (Letters to the President), de Petr Lom – 74 min – República Tcheca, Canadá

Por Cid Nader

O diretor Petr Lom (nascido em 1968 em Praga), parece ser um realizador daquels “tipo solitário” - o que seria até um ponto favorável, quando se pensa em confecção documental como algo próximo a “ato necessário”, feito do modo que for desde que leve informações pertinentes. Pois bem, vejo agora que esse seu trabalho (evidente produto de captação e edição própria), Cartas ao Presidente, foi recebido com desconfianças no Festival de Berlim. O pessoal do “exílio iraniano” teria pedido a cabeça do presidente do festival alemão, Dieter Kosslick, por julgar o filme meio “chapa-branca” com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad – “teria sido humanizado demais”.

Visto por esse prisma, dá até para entender a reação dos exilados: o documentário caminha facilmente por um Irã que imaginamos um tanto mais complexo no quesito, “liberdade para a locomoção de estrangeiros com uma câmera na mão”. Não há grandes interpelações oficiais ao diretor na sua empreitada em busca de informações, que transcorrem entre variadas camadas da sociedade de lá: desde a maioria extremamente humilde, obediente e religiosa, a alguns setores da população um tanto mais abastados ou “informados”, até variados setores dos bastidores do governo. O modo de confecção do trabalho é típico da proposta do diretor: câmera digital na mão, pouca preocupação com entornos que poderiam emprestar qualidade estética (se bem que, trechos da natureza, e a limpeza absurda e impensável de setores das cidades – principalmente os locais religiosos -, já se fizeram suficientes para emoldurar um pouco as falas dos depoentes), foco nos rostos dos entrevistados, alguma observação mais atenta e consequentes pequenos achados de imagens, quando no meio de multidões mais numerosas; vez por outra a voz de um tradutor questionando algo além do que quase sempre jorrava com naturalidade típica de um povo humilde, e algumas encrencas por parte de policiais ou religiosos (dá para perceber a força deles no país, o quanto estão acima da lei política – a ponto de, num momento, dizerem que o presidente é a segunda pessoa em importância no país).

Bem, indo à impressão mais ampla do que se sente diante desse trabalho quando visto e não quando “lido a respeito”: dá para perceber que Ahmadinejad é um populista dos mais parecidos aos que percebemos em vários modelos ocidentais – fácil citar o nosso Lula e Hugpo Chávez como dois modelos e exemplos de semelhança ao que executa o presidente de lá quando junto ao público, e no modo de aceitação e veneração deles pelos mais simples (a diferença, que me pareceu bastante interessante, é que o do Irã vai mais aos braços do povo – se entrega mais ao diálogo, interage de modo muito mais próximo, talvez como reação de não temor possível, em país bastante regrado pelos castigos e bondades divinas). Se o documentário entrega algo sincero, é o que brota das palavras do povão: que entrega aos milhares suas cartas – ato incentivado, como se fosse uma pasta obrigatória criada durante as promessas em momentos de (re)eleição -, para que o presidente as leia (logicamente ele não as lê, mas tem gente que faz isso, e nada é camuflado – ao menos na frente das lentes de Lom); que reclama da inflação em alta estupenda para padrões anteriores; que conclama regalias por seus mártires da guerra contra o Iraque; e que, principalmente, se une ao presidente e aos seus, sempre gritando contra os EUA e o Estado de Israel, e também fazendo coro em favor do “programa de energia nuclear”.

Se é chapa branca mesmo – e desconfiaria-se disso pela facilidade de transitar e entrevistar -, não se viu negado em editar as opiniões contrárias. Creio que o problema do trabalho esteja mais na maneira branda como Petr Lom explicita o que captou: é tudo muito “fluido” e de pouco impacto por individualidades opinativas (parece que ele optou por homogenização, uma pasteurização, pra que tudo passasse por algum tipo de crivo local – se existisse mesmo -: tem até algumas poucas opiniões mais distintas advindas de camadas da sociedade mais abastada), ou por cenas que poderiam revelar algo ao olhar. Se o pessoal do exílio conseguisse impedir o filme em Berlim, teria agido de modo mais “castrador” e anti democrata do que agiu o governo iraniano “permitindo” que o filme fosse realizado. Por que permitiram – se foi o caso, repito? Por que Lom teve essa regalia – se teve? Só que resultou algo que não agride, não afaga, e não justifica o modelo de trabalho individual através do qual Cartas ao Presidente se fez.








Leia as matérias deste festival:

I - Primeiras Informações
II - Programação - Cinesesc
III - Programação CCBB/SP
IV - Programação Cinemark
V - Cartas ao Presidente (Abertura SP)
VI - Domingos (Abertura RJ)
VII - Z32
VIII -VJs de Mianmar – Notícias de Um País Fechado
IX - Tias Duronas
X - Garapa
XI - Garapa
XII - Cidadão Boilesen
XIII - O Equilibrista
XIV - Cildo
XV - Sobreviventes
XVI - Rita Cadilac, a Lady do Povo
XVII - Confessionário (curtas Brasil)
XVIII - O Equilibrista
XIX - Moscou
XX - Corumbiara
XXI - A Chave de Casa
XXII - Am I Black Enough for You?
XXIII - A Casa dos Mortos (curtas Brasil)
XXIV - Samba de Quadra (curtas Brasil)
XXV - Arquitetura do Corpo (curtas Brasil)
XXVI - Nello's (curtas Brasil)
XXVII - Arrancando a Alma (curtas internacional)
XXVIII - Bem Longe de Casa (curtas internacional)
XXIX - A Chirola (curtas internacional)
XXX - Escravos – Um Documentário de Animação(c.i)
XXXI - o Segredo (curtas internacional)
XXXII - Zietek (curtas internacional)
XXXIII - Premiados
XXXIV - Chapa (curtas Brasil)
XXXV - Leituras Cariocas (curtas Brasil)
XXXVI - No Tempo de Miltinho (curtas Brasil)