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12ª Mostra de Cinema de Tiradentes – 5ª noite

Por Cid Nader

Hoje sem diário. Dia atarefado, sala de imprensa cheia. Mas vi a primeira sessão na praça, o que me agrada pensando na possibilidade do público,mas me desagrada, sinceramente, quando o filme é de apelo mais intimista – foi uma sessão de curtas. Falando em curtas, vi ontem uma das melhores sessões de curtas da minha vida (a de número 3, criticada aí embaixo): havia diálogo evidente entre eles – filmes de textura e solidão – o que faz pensá-la de modo mais admirado ainda (pois juntar curtas bons é até “fácil”, mas tantos com a ver entre si...). E ver o filme do Felipe Bragança (também da Marina Meliande) esgota uma expectativa nutrida, com resultado dentro do esperado, mas com mais uma constatação do quão ruim está a projeção digital por aqui (ao menos nos dois filmes vistos até agora). Era sem diário, né? Acabou. Mas antes dos filmes uma nota sobre os editais para 2009, como resultado de reunião o corrida ontem aqui em Tiradentes.

Nesta terça-feira, em debate intitulado "Balanço e Perspectivas do Audiovisual no Brasil para 2009", parte integrante do Seminário do Cinema Brasileiro da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o Secretário do Audiovisual, Silvio Da-Rin, anunciou os novos editais de fomento ao cinema para 2009. Ao todo, serão lançados cinco editais este ano. O chamado BO (baixo orçamento) contemplará 5 projetos de longa-metragem com orçamentos de até R$ 1 milhão cada, além da possibilidade de captarem mais R$ 300 mil através de leis de incentivo para complementação do orçamento. Já o edital de desenvolvimento de roteiros aportará recursos de R$ 50 mil para 10 selecionados, enquanto o edital de curtas de ficção e documentário financiará a realização de 20 curtas-metragens com R$ 80 mil cada. As novidades deste ano são os editais de documentário de longa-metragem, que premiará 5 documentários, e o edital de filme tese, para apoio à produção de trabalhos finais de cursos universitários de cinema. "Sabemos que cinco projetos de baixo orçamento é muito pouco, gostaríamos de ampliar esse número para dez, mas é difícil viabilizar esse orçamento. Esses editais, sozinhos, consomem 25% do orçamento do Ministério da Cultura. Mas temos buscado alternativas e parcerias para ampliar os editais, como o acordo fechado com a TV Brasil, que viabilizou o novo edital para documentários de longa-metragem", afirmou o secretário Silvio Da-Rin. Outra novidade dos editais deste ano é uma mudança no critério de regionalização dos premiados no edital de BO. Para além do critério de que não poderão ser selecionados mais de dois projetos por região do país, este ano haverá também um limite de apenas um projeto por Unidade da Federação. Isso será implementado para corrigir uma distorção que permitiu que, na última edição desse edital, apenas dois estados fossem contemplados. As inscrições para os editais estarão abertas até o dia 16 de março e os regulamentos serão disponibilizados no site do Ministério da Cultura dentro dos próximos dias. Da-Rin aproveitou a oportunidade para fazer um longo balanço desse pouco mais de um ano em que está à frente da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, destacando suas ações em seis principais linhas de atuação (Legislação, Relações Internacionais, Reflexão e Pesquisa, Formação, Preservação e Assessoria Parlamentar), nas três áreas nas quais a Secretaria atua: cinema, TV e plataformas digitais. No debate que se seguiu, foram discutidas questões como o possível impacto da crise econômica mundial na produção cinematográfica brasileira, as mudanças que serão implementadas na Lei Rouanet e a polêmica causada pela mudança de alíquota de impostos das produtoras de cinema optantes pelo Simples.

Aos filmes.

CURTA

Série 3

O Dia em Que Não Matei Bertrand

, de Luís Carlos Oliveira Jr, Ives Rosenfeld (2008). Fic – 16 min

Filme corretíssimo. Correto nas opções básicas: ator, história, edição... Enumerar as correções seria meio que chover no molhado quando é trabalho realizado por quem tem no cinema seu modo de vida, seu modo de paixão. Um dos diretores, Luiz Carlos Oliveira, o Jr, é crítico e editor da revista Contracampo e, na teoria, entende demais do riscado. Junto com Ives Rosenfeld, provou na prática que sabe que fazer de sua teoria realidade. Já começa pela história escolhida que é bem boa (um texto de Sérgio Sant'Anna): narrada na primeira pessoa, quase sem diálogos, com base no reduto do narrador, que tem uma tendência natural (isso em se pensando já nas formas literárias que adotam tal vertente) a "imantar" o leitor colocando-o enredado e quase sufocado. Continua na correta transposição da peça literária para o formato, e aí concretiza-se, de modo mais evidente, o conhecimento do ofício: os enquadramentos são absolutamente bem elaborados (não há escape, não há arestas: tudo tremendamente bem desenhado e concretizado), a iluminação que evidencia uma narração "intimista oprimida", o ritmo obtido na mesa de edição (é assim, no quesito técnica e estética não há nenhum tipo de deslize: como seria de se imaginar). Acertada também a opção pelo ator, que desempenha bem demais seu personagem. Quando há a saída do próprio mundo - inclusive quando surge a única fala "falada" -, quando o filme ganha mais "luzes", gente, amplia o espaço, a real personalidade do personagem ganha sua verdadeira dimensão (que não tem a ver com o "arrotado" por todo o início). No espaço contido o trabalho revela um interior humano: no espaço ampliado (quando a realidade chama às falas), revela o que se consegue executar. Mérito de um bom texto, transformado corretamente em outra linguagem.

Osório, de Tina Hardy, Heloisa Passos (2008). Exp - 12min

Bonito e raro olhar "antropológico" lançado aos transeuntes que passam durante uma noite por essa praça de Curitiba. Tina Hardy e Heloísa Passos iniciam com uma garota moradora de um edifico da região, como uma apresentação lúdica e não real, enquanto de prepara para uma festa (?). Depois voltam suas lentes para baixo, filmando de cima - do visual que se obteria de um apartamento -: e filma momentos, gentes, situações. O clima e a velocidade obtidos na edição dos amontoados filmados resultou bastante correto. Não houve interferência decisiva ou manipuladora, e o ritmo - imagina-se - comum dos acontecimentos foi respeitado na hora de sua transposição para um trabalho cinematográfico. Bonito modo de se contar histórias próprias, íntimas, "roubadas". E boa capacidade de filmar o improviso.

Nº 27, de Marcelo Lordello. (2008). Fic – 20 min

Filmado em Recife, a história que fala do drama eterno da insegurança adolescente poderia ter sido feita em qualquer local do mundo; ou não? Fica muito evidente ser um trabalho forjado em Recife – tanto por situações de localização física indisfarçável (sotaques principalmente), como pro trejeitos de filmar bastante usuais da "escola" de lá (muitos ângulos inusitados e câmera quase sempre fixa para focalizá-los, por exemplo). Mas essas ligações à capital pernambucana, acabam perfazendo uma faceta do filme, de matiz mais de escola e de proximidade. Quanto a ser obra universal, creio que no todo, no seu "grande" é coisa que poderia acontecer em qualquer canto. O diretor Marcelo Lordello vai tremendamente bem em busca de características universais da adolescência: como disse acima a insegurança é que ganha a maior parte do espaço do filme, mas seu desfecho justifica-se e desemboca num outro quesito bastante pertinente à idade que é aquela "maldade" que já nasce na infância, persistindo por mais um tempo, com a "vantagem" de ser mais contundente quando executada. Além disso, o filem é repleto de qualidades estéticas e mostra-se belo exemplo de cinema pelas opções de ângulos buscados que citei acima, pela iluminação justa, ou pelo uso interessante de uma câmera lenta muito próxima das pessoas no momento em que o personagem principal tem de enfrentar o sue calvário (seus colegas).

Passos no Silêncio, de Guto Parente (2008). Fic – 17 min

Há um poema de Goethe e uma professora de alemão no Brasil. A combinação de tamanha aparente situação – aparente porque se oferece algo de difícil mixagem, combinação, solubilidade – se faz suficiente para que, lá do Ceará, Guto Parente construa um filme de muito introspecção ao âmago que evoca soluções a situações complexas (e no caso ela tem que traduzir um poema do autor alemão), e quando o intento é conseguido, ou quando não (e aparentemente a angústia poderá se estabelecer, de qualquer forma, se bem que originada em gêneses distintas), o que resta é a angústia: angústia que moverá a atriz por um emaranhado de locais (interiores ou não). O Jeito de "construir" e revelar tais locais, fez com que Parente exercitassem bastante com texturas, e modos de captação. Um pouco de exagero a mais (poderia, talvez, diminuir um trechinho dessas tentativas), mas de todo modo um filme bastante bonito, interior e "ostensivamente" belo ao olhar.

Super Barroco, de Renata Pinheiro (2008). Fic – 16 min

Mais um belíssimo trabalho que é feito muito e muito utilizando uma mistura de texturas e possibilidades visuais – mas não se contenta com a variação ao olhar e, também se nutre de "texturas variadas sonoras". Fala da decadência que vem com a idade e com a solidão – que parece o caminho mais natural para aquele que sobrevive após um longo casamento - e de um possível empobrecimento real (monetário). Inicialmente filmado na rua (na areia), adentra o mundo do personagem (uma casa que s perceberá mais vazia do que seus sonhos e lembranças sugerem), e lá, um início de experimentações pictóricas que vinha do exterior se estabelece fortemente, criando variações e ditando o ritmo do que narra a história a ser contada. Projeções na parede (principalmente), que se fundem com a pessoa que passa pra lá e pra cá, sobreposição de imagens (que cria um fantasma do que foi o passado), músicas, canções "projetadas" também, perfaze,m todo o trajeto das experimentações do olhar. E uma bela tomada que se aproveita de uma janela aberta para a praia, demonstra a capacidade de criar momentos Renata Pinheiro, ao mesmo tempo que possibilita percebermos que um jogo de fuga da realidade está sendo tristemente exercido naquele ambiente.


Série 4

Os sapatos de Aristeu, de Luiz René Guerra (2008). Fic – 17 min

Falar de um enterro de travesti já indica que o caminho que será tentado por Luiz René não é o comum, o usual. Espera-se, quando as primeiras imagens revelam o que acontecerá, que pela origem da situação o filme vá embrenhar-se por caminhos mais tortuosos (sim, o tortuoso da incompreensão será o mote, realmente) e "sujos". Mas o que ocorre é que uma sensibilidade extrema é demonstrada, e os caminhos que poderiam revelar um filme "diferente", se faz a razão para apresentar um filme diferente sim, mas pelo olhar da tristeza, da saudade, da humanidade contrastando seus valores sem um embate mais impactante. Com tomadas secas e leves, a construção vai revelando um trabalho de rara beleza e intimista. E a sensibilidade demonstrada por René se faz suficiente para que os antagonismos da situação (uma mãe que quer enterrar o filho, mas nunca aceitou sua opção; seus amigos que reivindicam a possibilidade de acarinhá-lo – já que foram quem compreendeu, acolheu, acarinhou -; a irmã que clama e cobra-o pelo abandono que lhes impôs, - a ela e à mãe -, mas não sabe o quanto ele tinha de culpa mesmo por isso) quase que convirjam, para o bem da arte – mas sem que as "razões" cedam umas ás outras, sem maniqueísmo. Belo pela raridade como é tratado.

Phedra, de Cláudia Priscila (2008). Doc – 13 min

Curta-documentário que aproveita bem o seu tempo e consegue contar o básico para que se compreenda toda uma história de vida e opção. No caso, Phedra, um travesti que abandonou Cuba em 1958, na tentativa de poder conviver e externar sua sexualidade. A virtude do filme é que ele é todo construído através dos depoimentos dela, e as imagens que ela mesma guarda da época e de si. Virtude, porque o que resulta põe de lado a "necessidade" do excesso de informações para que se construam documentários, apostando na observação e informação unilateral, e "impede", inviabiliza, cânones. Simples e direto, também.

Hóspedes, de Cristiane Oliveira (2008). Fic – 16 min

Realização bastante simples – idéia do texto, modo de filmar, edição. Se isso é comprometedor? A meu ver, simplicidade também é uma opção muito bem vinda dentro de um formato que permite – até instiga – a experimentação como regra. A diretora Cristiane Oliveira foi adepta disso na construção, buscou uma história também descomplicada, mas inseriu nela um elemento, um ser humano, que daria mais razão ao simples fato de contar uma história comum. Mesmo assim, com a opção evidente do simplismo, com meu apreço a isso, senti que faltou um tanto para ser bem melhor (talvez problemas com as atuações? Não sei ao certo.)– mas são riscos que se corre quando se opta por um extremo ou por outro.

Cidade Vazia, de Cássio Pereira dos Santos (2008). Fic – 13 min

Rodado no interior de Minas, consegue se valer disso para contar um rito típico de adolescentes de idades tão próximas quanto diferentes (na adolescência um ano vale muito). Se acompanham, se protegem, ou se estranham, mas estão sempre juntos – típico deles e muito bem observado por Cássio Pereira dos Santos. Histórias semelhantes são contadas no cinema, mas o ritmo de interior imposto ao filme o remete um pouco a coisa que poderia ser da década de sessenta, setenta. Não ousa demais – se bem que há uma bela sequência com bicicleta, com cortes que montam passagem interessante diante dos olhos do espectador – e também não derrapa.

Dez Elefantes, de Eva Randolph (2008). Fic - 15min

A diretora Eva Randolph criou com esse seu curta um pequeno objeto de sinceridade e uma pequena jóia. O filme é permeado pelos climas infantis, mas não é facilitado pelo usual que dita somente a ludicidade como o caminho usual no dia-a-dia das crianças. Modifica essa mística de beleza e pureza inquestionável por pequenos momentos incrustados no meio das brincadeiras diárias, onde incidentes ameaçam, onde situações se insinuam. Esse lado belo do filme serve para colocá-lo como uma obra de cinema (afinal) que vê o mundo delas (as crianças) com olhos carinhosos, sim, mas observadores e atentos. O outro lado belo do filme se concretiza quando não há uma invasão definitiva dos "incidentes", preservando a normalidade no modo de observar e compreender, e fechando todos os momentos com uma fotografia (aí sim) de sonhos, que se apropria com muita certeza das texturas e das paisagens. É belo, profundo e compreensivo.


AURORA – PRÉ-ESTRÉIA

A FUGA, A RAIVA, A DANÇA, A BUNDA, A BOCA, A CALMA, A VIDA DA MULHER GORILA
, de Marina Meliande, Felipe Bragança (2009). (FOTO)

Primeiro longa de Marina Meliande e Felipe Bragança, e a aposta bastante difícil de se concretizar por tratar do assunto rememorações, lembranças, foi concretizada com uma singeleza (que não é singeleza cor-de-rosa, mas singeleza que vem de comportamento, atitudes, aprendizados e até histórico cultural acumulado) rara, atípica. Um road-movie nada banal, que apresenta duas garotas que viajam e sobrevivem com a apresentação do velho (quase ancestral) show da mulher gorila – sem dúvida um mote pouco comum.

Os diretores se embrenharam na estrada por oito dias com uma kombi como peça do cenário e com a proposta de realizar um longa-metragem. Nada fácil quando se pensa nesse tempo diminuto para filmagens, mas admirável por se tratar de um desafio e mais admirável pelo resultado obtido. Quando digo acima que é filme de rememorações e lembranças, é porque o clima que se obtém denuncia sem nenhuma dúvida que há muito da alma dos diretores envolvida na história. As músicas são compostas com a colaboração de Bragança. Há momentos que são típicos dos estabelecidos em musicais, mas quando se cantam as canções, se as percebe com variações evidentemente buscadas em seus timbres, o que afasta da idéia de música complementando ornamentalmente, e o que cria (os timbres viram brigas e afagos) o tal lado de memórias e lembranças que impregna a película do início ao fim.

O filme tem ar de - e até evidencia isso com marchinhas - de carnaval antigo desejado rememorado, de viagens da infância que tem de ser retomadas (a paisagem entre Campos e a cidade do Rio de Janeiro é absoluta e significativa para isso, tanto quanto se falar em mulher gorila - aliás, o que mais me faz pensá-lo como saudosista no bom sentido, pela evidente associação de circos e parques, como algo nos nossos DNA). Cuidadoso ao extremo, percebe-se que houve pressa nas filmagens,mas nota-se também que todo o obtido - melhor, o editado - constrói cenas e constrói cinema,na essência maior. Soube agora das dificuldades de grana para luz e assistência, maiores do que imaginava antes e muito menores do que o que vi sugere. A idéia de pessoas num road-movie remete à solidão, ou ao desejo dela, a busca dela. O fato das protagonistas viverem nessas condições de viajantes e raras vezes aceitarem a intromissão de mais alguém – a não ser que pouco tempo – faz perceber que seus seres desejam o belo, mas consideram o mundo muito duro (como sugere uma das canções do filme) para se conformarem viver dentro da normalidade, do estabelecido.

Outra coisa que fica evidente é que há – e isso, sei bem ser do Felipe – um apreço por uma brasilidade (os estilos das músicas revelam isso de forma bastante contundente) muito típica de locais e pessoas do país (das urbes, mas que se encantam pela “vida solta”, pela natureza) que é comportamento herdado das décadas de sessenta e setenta. As estrelas filmadas com lampadinhas coloridas constituindo cortes (interferindo) no seu cenário também, são significativas das intenções do trabalho, lúdicas, remetentes a outros momentos e a outros desejos de locais que necessitem do deslocamento.

Só que há o pecado maior da projeção em digital aqui de Tiradentes que lavou o filme e impossibilitou ver tudo mesmo - faço um texto, aqui, pelo que intui do que vi. E creio necessário corte na minha avaliação, com a esperança de uma outra oportunidade. Mas reforço ser um trabalho belo, calmo, emocionante (lembro agora da cena final, com um rosto na tela molhado por lágrimas).








Leia as matérias deste festival:

I - Algo sobre a mostra e Tiradentes
II - Abertura
III - Segunda Noite
IV- Terceira Noite
V- Quarta Noite
VI - Quinta Noite
VII - Sexta Noite
VIII - Sétima Noite
XIX - Oitava Noite
X - Última Noite.