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MOSTRA CINE BH 2008


Domingo (02/11)

Por Cid Nader

Domingo pede cachimbo? Sinônimo de paz e sossego que surgiu juntamente com a institucionalização do cristianismo, tomou conta primeiro do ocidente, com a imposição e o domínio exercido pelo estilo guerreiro/violento/catequizador da Igreja acabou sendo adotado por boa parte do oriente, finalmente acabando, também, por ser praticado ostensivamente aqui em BH... Ruas tranqüilas dentro de suas dimensões alargadas, cheiro de comida caseira saindo pelas janelas - algo meio raro de sentir a não ser em bairros estritamente residências em São Paulo -, mais especificamente lembrando o de pernis de porcos assados no Natal. Aliás, já havia notado no primeiro dia de andanças a caminho da sala de imprensa, que os açougues da cidade têm sempre pedaços de carne de porco dividindo espaço com os nacos de carne bovina - em muito maior quantidade do que em São Paulo, por exemplo. Fato óbvio quando se pensa no pilar gastronômico do estado mineiro, basicamente "proteinizado" pela carne e banha do simpático suíno, por frango nas mais variadas idéias e pelo leite e seus derivados. Era caminho com cara de domingo, ruas com ar de domingo e cheiro de comida de Natal no ar.

O dia foi mais modorrento mesmo - não reclamo , gosto - mas a noite ficou mais agitada justamente após a última sessão no momento da busca de um lugar para comer. Precavido, já havia notado que haveria uma única opção até o início da madrugada e um pessoal do Filmes Polvo resolveu que me acompanharia, daria carona, e tudo em troca de um bom papo cinefílico. Mas aí surgem dois dramas típicos de festivais para botar um pouco de adrenalina na domingueira. Primeiro, quando começam a juntar um monte de realizadores mais jovens em torno, com a roda de conversa aumentando, a cerveja afetando, e nenhum foco fixo possível de continuidade discursiva possível - tento evitar maior contato com diretores nesses eventos, porque após uma boa conversa pode surgir a necessidade da crítica negativa, e daí a um mal estar no dia seguinte, um passo (não os evito totalmente, tenho bons amigos entre essa molecada, mas sei que a idéia de ampliação da roda nunca gerará frutos tão adocicados). Segundo, porque o amontoado que crescera bastante foi chegando ao restaurante já com o horário estourado, e nenhum senso de percepção quanto a horário de trabalho e condução de volta para casa dos funcionários em mente; daí a atitudes meio arrogantes, daí a gritaria e discussões de todos os "teores cultos" espocando entre as pessoas das mesas... Nada demais, mas um tanto fora do padrão tranqüilo que vinha constituindo a passagem desse universal dia cristão de descanso.

Nas conversas perto do cinema e na sala de imprensa o que dominou o ambiente foi o júbilo ocorrido no sábado por conta da sessão de "Loki" e da presença do próprio Arnaldo Baptista. Quem não compareceu se lamentava e eu não amenizei em nenhum momento o tom sobre o evento. Sofreram e sofrerão. Às sessões de um domingo domingueiro.


Média

"Corpo de Bollywood, o Povo Quer Cinema", de Raquel Valadares - doc - 30min - 2008

Raquel Valadares ficou curiosa por saber a quantidade de filmes que são realizados em Bombaim, e o quanto de gente comparece aos cinemas locais para prestigiar basicamente os filmes locais - a saber, o país é o único no mundo onde o cinema das majors americanas não ocupam a maioria das salas, e onde a produção nacional é prioridade absoluta (logicamente que fora dos Estados Unidos, consumidores de suas próprias realizações). Ela foi para lá e fez um verdadeiro filme de cinema para contar em documentário um pouco dessa fixação local, dessa produção local, e do que ocorre com as possibilidades novas de mídia caseira, dentro de um país com uma nova classe média emergindo fortemente.

Quando digo que ela fez um filme de cinema é porque realmente nota-se muito cuidado com as imagens captadas, com o modo como foram captadas, com a movimentação da câmera - quase incessante e criando ritmo e fluxo -, e com um cuidado muito particular com o entorno, com o cenário, com a luz. Raramente há esse cuidado de teor estético na confecção de documentários, e quando o há a narrativa ainda continua bastante "contaminada" pela necessidade de informação. Apesar de todo esse cuidado, Raquel também cumpre no trabalho a função informativa e reveladora que era a proposta principal. Vai além do mundo da confecção cinematográfica de lá (apanha bons depoimentos de produtores e jornalistas) e busca o espectador (que revela suas predileções, que fala do porque preferir ir ao cinema ao invés de ficar confortavelmente em casa vendo os filmes na televisão), e sai de Bombaim para buscar em alguns recantos outros depoimentos de pessoas comuns que adoram e cultuam a arte e que nem têm tanta facilidade para comparecer às salas. No lado documental informativo também evidencia as novidades dos multiplex e a partir daí entrega para a gente segmentação social do país. Introduz no trabalho belas e bregas cenas de sucessos da produção local e mostra alguns dos artistas mais populares. Com uma bela e ajustada edição alterna tudo (cinema bem captado, depoimentos e imagens adicionais), informa e faz com que os 30 minutos passem despercebidos.


Curtas Série 4

"Noite de Serão", de Fernado Secco - fic - 15min 2008

Tudo se passa numa única noite, mostrando o desencantamento de algumas pessoas (homens, amigos) que já não são tão jovens e ainda não conseguiram algum tipo de estabilidade padrão sob o que é tido como prática a ser atingida pela sociedade. Fernando segue seus personagens e procura fixar bem suas identidades via lentes, mas não abdica - ao contrário, abusa de modo quase sempre feliz - dos planos amplos. A cada surgimento de um ser desorientado em cena, sucede uma tomada à distância, como se a apresentar as angústias (ou indefinições, somente) de cada um, ligando-as ao entorno que tem de ser construído e revelado aos poucos. Há uma boa e interessante utilização da luz noturna, e há tentativas de câmera em movimento (nas perseguições dos personagens, principalmente), que criam algumas cenas de resolução diferente dentro do padrão comum de execução - no início estranhei a velocidade desses momentos, mas conforme o filme avançava e as intenções estéticas ficavam mais evidentes, o estranhamento cedeu lugar à compreensão das razões. Bem realizado, inventivo e passando bem o clima emocional desejado, dentro de sua escassez evidente de recursos, que desemboca (ou é provocada) evidentemente na opção digital.

"Terra", de Sávio Leite - anim - 5min - 2008

Sávio Leite está se tornando um dos reis das animações fora dos padrões comportados - de história e de modelo adotado. Nesse "Terra" ele despeja na banda sonora um monte de considerações sobre comportamento e atitudes individuais, bastante pertinentes, tanto quanto de evidente cunho de observação pessoal do mundo. Tudo feito com ritmo contínuo, sem pausas entre uma observação e outra, e "coreografado" por belas seqüências de desenhos feitos lápis colorido sobre papel (desenhos bem bons, criativos, e ajuntados em edição bastante competente - como é o comum em obras dele). O que mais impressiona é a quantidade filmes que ele lança na praça, e sempre com qualidade acima da média.

"Vermelho Desbotado", Barbara Svhulte Lucin - arte - 14min - 2007

Esse trabalho egresso das hordas da Unisino (uma Universidade de Porto Alegre) foi totalmente criado para falar ao nosso sentido de apreciação artística, abdicando da comunicação com o intelecto que exige explicações mais confortáveis e fáceis. Mas acaba sendo comum demais dentro de uma proposta que se pretende mais interiorizada e interiorizante, com a alternância do escuro opressivo no ambiente fechado (com a pessoalidade da personagem evidentemente transitando dentro de um "mundo escuro"), e a luz quase chapada e o excesso de cores quando no ambiente externo (como que a indicar possibilidades). O problema é que não é ousadia inovadora, nem arte realmente provocadora ou questionadora.

"A Espera", de Fernanda Teixeira - fic - 15min - 2007

Trabalho de bastante cuidado - rigor - com sua concepção e execução estética. A diretora Fenanda já demonstrava interesse nesse "setor" da arte cinematográfica por conta de sua imersão no "mundo" do vídeo-clipe ("Praia", 2006 e As Coisas", 2007) - quero dizer com isso que trabalhar também nessa outra linguagem, que é a do vídeo-clipe, pré-determina cuidados estéticos que nem sempre a confecção do "cinema", em si, exige. Criou uma história que fala de complexidades humanas e de relacionamentos: do humano com seu entorno - há o evidenciamento, via fotografia, da relação com o físico imóvel (o ambiente, que não está no filme como mera composição cenográfica, exercendo forte função nessa relação entre protagonista e suas memórias) e com o ser não humano, um cachorro. Ela fez um trabalho de climas. Não revela jamais as razões do que se passa e passará, mas acentua a curiosidade e as conclusões com o acerto na edição - justa e necessária pelas possibilidades geradas com a opção na captação e na estética adotada. Um tabuleiro de xadrez com jogadas feitas uma a cada dia parece ser o "objeto" que possibilitará a deflagração do evento após "uma" partida solitária concluída. A motivação que vem mais no momento da alimentação do cachorro do que na própria (o personagem come por vício, necessidade, sem o brilho da vida nos olhos), também servirá como parâmetro e como divisor dos momentos em que os fatos sucederão. Pensarmos no acerto ou não da escolha temática - principalmente pelo desfecho - pode ser um porém na avaliação final; mas creio que a obra supere, como arte, possíveis prevenções.

"Dez Elefantes". de Eva Randolph - fic - 15min - 2007

A diretora Eva Randolph criou com esse seu curta um pequeno objeto de sinceridade e uma pequena jóia. O filme é permeado pelos climas infantis, mas não é facilitado pelo usual que dita somente a ludicidade como o caminho usual no dia-a-dia das crianças. Modifica essa mística de beleza e pureza inquestionável por pequenos momentos incrustados no meio das brincadeiras diárias, onde incidentes ameaçam, onde situações se insinuam. Esse lado belo do filme serve para colocá-lo como uma obra de cinema (afinal) que vê o mundo delas (as crianças) com olhos carinhosos, sim, mas observadores e atentos. O outro lado belo do filme se concretiza quando não há uma invasão definitiva dos "incidentes", preservando a normalidade no modo de observar e compreender, e fechando todos os momentos com uma fotografia (aí sim) de sonhos, que se apropria com muita certeza das texturas e das paisagens. É belo, profundo e compreensivo.


Longa - Onda Musical Pré-Estréia Nacional

"Jards Macalé, Um Morcego na Porta Principal", de Marco Abujamra - doc - 71min - 2008

Bem, se é já é um tanto difícil falar da figura de Jards Macalé para quem não o conhece um pouco que seja - explicar sua importância, a razão de seu sucesso (com suas músicas "estranhas) junto a um público mais específico, mais intelectualizado, mais politizado e formador de opiniões -, muito mais difícil tentar passar algo dele com o som que se apresentou ontem na sessão do filem aqui em Belo Horizonte. Com evidente pouco cuidado na captação, e com boa colaboração do sistema de som da sala do Cine Sta. Teresa - que anda meio reverberante demais - ficou quase impossível de se entender os diálogos do trabalho. Por conta de um pouco mais de cuidado com o som dos depoentes o filme cumpriu ao menos a meta de fazer perceber a importância dele junto a pessoas "importantes". Mas a qualidade do som complicou demais se perceber as letras das músicas por exemplo, e um monte de falas dele de tremenda importância para a apresentação de suas idéias.

Da formatação e edição inventiva e de boa qualidade, destaca-se as imagens de arquivo - que o pegam desde os tempos de criança, passando pelo seu relacionamento com os tropicalistas, e revelando alguns trechos maravilhosos de "O Amuleto de Ogum" (Nelson Pereira dos Santos), Muita pena mesmo não poder me estender demais na avaliação do trabalho. Fiquei até o final por dever e por que não abandono barcos. Mas necessitarei vê-lo (ouvi-lo) mais uma vez para avaliá-lo com plenitude das idéias








Leia as matérias deste festival:

I - Sexta-feira (31/10)
II - Sábado (01/11)
III - Domingo (02/11)
IV - Segunda-feira (03/11)
V - Terça-feira (04/11) Encerramento