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FESTIVAL DO RIO

"Mais tarde, você vai entender...", de Amos Gitai

Por Cesar Zamberlan


Amos Gitai é um cineasta de uma carreira sólida, ainda que cheia de altos e baixos, e de uma cinematografia bastante permeada por temas políticos e históricos associados a Israel: caso da relação israel-palestina, holocausto e situação política dos judeus e de Israel hoje. Neste seu novo filme, "Mais tarde, você vai entender...", ele volta a tratar de um tema mais histórico que político, ainda que seja difícil ou temerário dissociar as duas coisas. A questão é a revisão do passado desencadeada pelo julgamento de Klaus Barbie, transmitido ao vivo pela TV européia e que vai afetar diretamente uma família judia que vive na França. A opção pelo silêncio da matriarca da família, Rivka, vivida com muita sobriedade e elegância por Jeanne Moureau, se opõe a atitude do filho Victor que passa a revirar o passado que lhe foi omitido com uma obsessão torturante.

A seqüência inicial deste filme, se não é tão marcante quanto à de “Free Zone”, trabalho recente de Gitai, reforça a habilidade do cineasta na construção de imagens fortes para iniciar seus trabalhos. Aqui, a câmera passeia com Moureau pelo seu apartamento tendo como off o som da TV que transmite o julgamento. Ela prepara o almoço para o filho e tenta não se deixar afetar pelo que ouve - e o trabalho de Moureau é sensacional nesse sentido, pois consegue com sutileza mostrar esse conflito que vai dar o tom a personagem. Saindo desse espaço, a câmera de Gitai, com os mesmos travellings atravessando o espaço como uma dessas sondas de laparoscopia vai até o escritório de Victor, um funcionário graduado de um ministério. A unir as duas seqüências, o mesmo off com o som do julgamento.

A partir daí fica fácil entender os caminhos que o filme percorrerá: teremos Victor tentando reconstruir o passado e Rivka não querendo tocar, ou pelo menos dividir com o filho, aquelas questões. Mas, o grande segredo não está nos caminhos do filme e, sim, na forma como o cineasta os percorre. E, nesse sentido, o filme de Gitai explora bastante a força das imagens, dos planos seqüência e a relação dos personagens com o tempo e espaço, sentidos de maneira bastante sensorial. Acerta também ao dar relevo aos personagens principais e secundários, a esposa e os filhos do casal, e ao usar as imagens para construir um sentido tão ou mais revelador que os que a trama traz.

Ao final, e sem querer revelar a história e estragar a relação do espectador com o filme, fica a questão de como tocar nesse passado que nos forma, até que ponto esse mergulho altera e afeta a vida das pessoas direta ou indiretamente envolvidas e no esfriamento da questão por parte do Estado que ao calcular uma boa indenização, como modo de tentar repara todas essas antigas feridas, acaba por mercantilizar uma questão humana demasiadamente humana.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados