FESTIVAL DO RIO "O Silêncio de Lorna", de Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne Por Cid Nader Os irmãos Dardenne afastaram um pouco suas lentes de seus personagens - somente um pouco, não em tempo integral, mas acalmaram a tentativa de respirar e sentir em tempo integral junto com os seres de seus filmes. Se isso tem algum significado especial, na realidade não imagino, a não ser por elocubrações e viagens muito particulares - talvez estejam percebendo que a sua preocupação com as pessoas e seus gravíssimos problemas decorrentes da globalização tenham, definitivamente, "estourado" num aspecto mundial muito maior do que somente na Bélgica (talvez, tenham percebido que o mundo sofre com os baques já previsíveis que ocorreriam quando a nova política econômica mundial passou a gerir e interferir nos governos, o que tirou as benesses que alguns países entregavam aos trabalhadores, por conta de uma maior aposta no lucro rápido, e não no lucro do trabalho formal que privilegiava os trabalhadores organizados (fato que diminuiu sensivelmente os empregos, mantendo-os em lugares que deixavam a exploração ser executada pelas "multi", e obrigando, juntamente com o outro grande estouro das últimas décadas que foi o desabamento do império socialista, à acorrida aos países que ainda passavam a imagem de bem estabelecidos e com direitos à saúde e educação para os que neles habitasse?) e com isso decidido que dava para abrir um pouco mais o campo visual? -; mas o fato óbvio é que para os que sentiam clasutrofobia em seus trabalhos anteriores, talvez agora o caminho para a empatia esteja mais facilitado. O mundo do cinema sempre e sempre teve seus grandes ídolos entre os diretores meio que convivendo no seu tempo e por identificação temáticas e estéticas em seus trabalhos. Nos tempos atuais, novamente a regra se repete e os mesmos diretores vêm repetindo os melhores filmes quase sem erros ou derrapadas, e um dos motes repetido sentre eles versa justamente sobre os estragos que o dinheiro (a falta dele, a obsessão por ele, a necessidade dele e tudo o que ele pode gerar). Os Dardenne estão entre eles - entre os maiores mesmo - e a particularidade (particularidades são o que mantém as autoralidades, mesmo sob os mesmos céus e as mesmas preocupações) é que se nota mais e mais que no fundo, sempre lhes resta a possibilidade de salvação (esperança) que virá num futuro, na forma de uma criança. Olhando com carinho seu pregresso dá para perceber isso. E nesse forte e belo "O Silêncio de Lorna", tal esperança resitirá e definirá seu desfecho - mesmo que em campos imaginários, na loucura, no desespero que brotará pela nova "esperança desejada". O mundo atual está muito cruel por conta do dinheiro (já citeo o danado acima). Os filmes desses diretores belgas sempre o mostram ostensivamente, como que para fazer prova cabal de todo o infeliz poder que ele tem. A Lorna do filme (Arta Dobroshi) conta suas notas, trablah por elas, participa de tramóias por elas, e elas estão sempre coloridíssimas fechando momentos importantes da história. História que a traz da Albânia (um exemplo espetaculra da debaque; nesse caso da debaque do império socilaista), mostrando-a manupilada pela opção adotada para entrar no país e se fazer belga realmente; mostrando-a aceitando o jogo de uma máfia européia (há russos e italianso nas jogadas); mostrando-a até conivente com suas atitudes, até que seu "calo" (que se chama bondade) aperta e a faz ter atitudes não tão dentro do que seria desjado por esses donos de um dinheiro que flui fácil. Ela tem o sonho desses que se degredam, e a Bélgica é uma dessas possibilidades (se bem que os irmãos diretores já tenham sapientemente percebido o quão isso era ilusório, e o quanto interferiu em sua sociedade - eles sempre falaram de drogas, de pessoas más, de desespero, do desejo quase irreal de se ter um trabalho fixo ou um "negócio estabelecido"). Os primeiros momentos do filme mostram Lorna entrando em seu apartamento e encontrando nele um "companheiro", magro, tipicamente drogado (ou ex, ou que está tentando fugir das drogas), que com certeza divide com ela o mesmo teto, mas que obviamente não é bem visto por ela. Nota-se que ela é dura com ele, descrente, tenta evitá-lo e não agüenta mais a situação da proximidade; nota-se, em contrapartida, que ele "está" um coitado necessitado de auxílio e de carinho (aliás, ele se chama Claudy, magistralmente interpretado por Jérémie Rénier - ator dos diretores), e que percebe ser ela a única ajuda, ou que tem às mãos, ou de quem gostaria ela viesse. Todo esse início muito duro entre os relacionamnetos repete o estilo de confecção das essências das obras dos Dardenne; é um modo de eles fazerem perceber que por trás das durezas impostas pela vida complexa, pelas desavenças, pelo não conhecimento, a primeria (ou segunda, ou terceira) atitude será a do repúdio e do afastamento. Mas eles são "humanistas contumazes" - se tratam de denunciar a degradação de seu país por conta das imigrações e por conta do desespero pela grana é porque pensam no ser humano no geral, e não nos próprios umbigos - e sua idéia é a de que haverá sempre o interior verdadeiro do que "está" por cima que, num dado momento, com as sensaçõs abertas e de guardas baixas (o exterior duro é só fachada que busca impor algumas defesas), jogará o exterior e o todo dessa pessoa em defesa, em ajuda de quem clamava. Assim em todos os seus filmes, com as cenas mais emocionantes brotando desse momento de abrir a guarda - e nesse se repete, e é belo, emocionante, e faz o olhar de Lorna se modifcar. Só que aqui não há o desfecho propriamente nesse instante e a história caminha, ficando mais dura e tenebrosa: como se numa imitação do que ocorre cada vez mais nesse primeiro mundo entrando em parafuso geral com os últimos acontecimetos econômicos que o afetam na veia. Mas, como disse no início, parece que eles acreditam que ainda existe a possibilidade da continuação, que normalmente se traveste na figura de criança (metáfora mais manjada e mais direta do porvir). E aqui, em "O Segredo de Lorna", a possibilidade passa a ser possível, brotada do improvável, sem rumo certo ou certeza (aliás, quando surge essa possibilidade, e quando da tentativa de cessá-la, numa primeira reação, o filme nos entrega uma cena curtíssima - cinco, dez segundos - de fazer chorar, que mostra Lorna se agarrando em um abraço desesperado a um médico incrédulo), e talvez na forma de loucura. Loucura, que brota da esperança que só poderia ser gerada pela figura de uma criança possível... E esquecem-se dinheiro e bolsas - que de nada mais valem. E se sai de um produto com mensagem e categoria desses inacreditáveis irmãos belgas. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |