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FESTIVAL DO RIO

"Renascimento", de Masahiro Kobayashi

Por Cid Nader

O último filme que vi de Masahiro Kobayashi não me agradou, por maneirismos estéticos,imitações óbvias (principalmente de diretores da nouvelle vague), e falta de força - perdida por conta dos maneirismos - quando o tema usado exigia certezas e decisões corretas: "Desonra", de 2005, que tratava do seqüestro de uma japonesa voluntária no conflito do Iraque, e foi recebida como uma desonrada por uma nação que cultiva alguns valores bem distintos dos nossos. Em "Renascimento", a secura e alguns maneirismos também são utilizados e repetidos quase à exaustão, e a idéia é a de que o filem acabará caindo na mesma armadilha. Mas é trabalho construído aos poucos, lentamente, e quando a atenção percebe verdadeiramente todo o processo executado para sua construção, o que parecia repetido por modismo e pirotecnia, nota-se, revela construção fílmica (em todos os sentidos que se poderia imaginar).

No início mesmo, câmera na cara, em estilo documental, captando depoimentos (um tanto afetados demais) da mãe Noriko (Makiko Watanabe) de uma garota que matou uma outra na escola a facadas (e aí, durante o depoimento, meio falsamente, fala-se das possibilidades malignas da internet, da não capacidade de uma mãe entender uma filha nos tempos modernos e numa cidade como Tóquio); alternadamente, um outro depoente, o pai da garota assassinada, Junichi (o próprio diretor), marcando forte na tela, e no espectador, o mesmo desconforto de um revelar meio estranho e atípico para alguém que acabou de sofrer tamanho baque. Durante os depoimentos, a mãe diz que gostrai de levar a filha "assassina" de volta a Hokaidô, e o pai também diz não sentir mais razão para continuar a viver numa cidade que divide ostensivamente as pessoas pelo poder aquisitivo.

Corte e estamos em Hokaidô (norte do Japão; região mais fria do país). O filme perde a fala e passa a ser conduzido por imagens e ações. Junichi trabalha agora numa siderúrgica e mora num albergue onde a Noriko encontrou paz como uma das cozinheiras. Imagens passam a ser repetidas por mais de uma hora e a impressão de maneirismo volta è mente forte: é ele entrando com capacete e roupas pesadas para trabalhar "braçalmente" num forno (ele, um ex-professor), voltando no final da tarde para pousada, deixando suas coisas no apartamento, mergulhando numa piscina aquecida do próprio local, descendo e indo jantar; é ela descascando batatas, fritando rolinhos de omelete um após outro, montando pratos individuais e disponibilizando-os numa espécie de prateleira (aliás, pratos bastante apetitosos e bem à moda japonesa). Volta para o homem que, sistematicamente pega seu alimento, enche sua cumbuca de arroaz cozido e uma outra de missoshiro (sopinha japonesa de peixe seco e missô), mas insiste em comer, sempre e sempre uma mistura que faz na hora de um ovo cru, shoyu e arroz, mais a sopinha, e uma caneca de chá - sempre devolve os belos pratos intactos para serem descartados.

A aparente repetição sucede com ela também, que lava os pratos, já sozinha na cozinha, sai, compra um sanduíche natural e um suco de caixinha, volta a seu apartamento e come sozinha. Há sempre e sempre um ostensivo demonstrar de solidão e desesperança no olhar dos dois, que, no início nunca se cruzam. Várias coisas sucedem e passa a se perceber que de um modo ou de outro eles se cruzarão, se procurarão, mas tudo sem diálogos e com as cenas que descrevi acima repetindo-se sem fim. Mas aí reside a beleza do filme que ameaçava ser inócuo e estiloso. Num dado momento passa-se a notar que não há repetição pura e simples dos gestos. Conforme as lentes captam os ambientes com um pouco mais de distância ou de variadas posições, um elemento que sempre esteve oculto é revelado ao olhar do espectador atento (aquele que resistir às risadas que espoucarão de repente da platéia). Sutilmente (de onde vinha o ovo cru, aonde ela dispunha mais especificamente os pratos que montava na cozinha?), sem nenhum tipo de estardalhaço, e sem que nada de "mais incrível ou assombroso" seja revelado, o filme vai se abrindo como a possibilidade de algum tipo de comunicação entre os dois (que até é tentada por algumas vias muito "nipônicas"). Resta, que o "maneirismo" ameaçado revela um trabalho de sutileza e tentativas quase impossíveis: que somente a paciência ou olhar atento e disciplinado podem fazer virar algum tipo de ato concreto - paciência entre os protagonistas (é bonito quando a bandeja volta vazia), e olhar do espectador.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados