FESTIVAL DO RIO "Amor e Honra", de Yoji Yamada Por Cid Nader Yoji Yamada é diretor que gosta das coisas bem filmadas. Elegante sua câmera, sempre. Utiliza muito e muito as luzes para criar cenários e momentos. Sabe como fazê-lo - é só lembrar a maneira como foi iluminada a cena de batalha, dentro de uma casa meio destruída, em seu último exibido aqui (exibido no ano de 2006, apesar de ser produção de 2002): nenhuma luz artificial, réstias cumprindo tal função, e um certo "negrume" na medida exata, para entregar e ocultar. Nesse filme de agora, o que caracteriza principalmente essa sua preocupação é a evidente passagem das estações do ano, que faz com que todos os momentos externos (que são os que acabam por iluminar os internos, na maior do tempo em que o filme se passa durante o dia) ganhem nuances e "temperatura" própria - o filme inicia no sempre quente verão japonês, embica no outono, terminando no inverno. Sem contar que, com toda essa ingerência da luz externa no trabalho, as cores dos cenários naturais modificam e emprestam mais belez plástica ainda a um filme de cuidadoso acabamento. Curiosidade: o início de Yoji Yamada se deu por conta do seriado de maior sucesso criado para o cinema do país - a bela, engraçada e emocionante saga, "É Triste Ser Homem", com o mitológico e atrapalhadinho Tora San. Um trabalho realizado na contemporaneidade da história (que iniciou em 1969 e terminou somente 48 episódios depois, em 1996) e que pelo longo prazo exigido de dedicação fazia crer que sempre trabalharia com filmes situados nos tempos atuais. Outra curiosidade: não só abandonou "seus tempos" para continuar a filmografia, como voltou muito lá para trás, fazendo de alguns de seus últimos filmes, sagas individuais (com certeza gosta de trabalhar personagens masculinos em sagas próprias) da época dos samurais - vale notar o fascínio que o tempo dos samurais causa aos japoneses (bastante similar ao que o tempo das diligências e os xerifes fazem com os norte-americanos). Mas é interessante perceber, também, que não só a "característica" não foi abandonada com essa mudança de estilo e tempos: seus filmes ainda jogam forte no apelo emocional e, ainda bem, mantém uma fina verve cômica. Verve cômica que talvez seja um dos maiores achados em "Amor e Honra", juntamente com o cuidado estético a que me referi acima (junte-se no pacote, além da iluminação e da elegância no filmar, o apuro e rigor com os elementos e comportamentos de época). Os sutis comentários entre ao pé de ouvido entre o samurai Shinnojo Mimura (Takuia Kimura) e sua mulher Kayo (Rei Dan), sobre a "tapadice" do emocionante e decisivo serviçal, o idoso Tokuhei (Mitsugoro Bando), são quase pérolas de leve humor - raramente tentadas em filmes de forte apelo dramático como esse; a participação da tia de Shinnojo, sempre afetada e um tanto falsa na maneira de demonstrar seus sentimentos, também beira em alguns momentos a um humor que poderia arrancar gargalhadas e não somente leves sorrisos. Mas esse humor é todo muito controlado, servindo apenas para lembrar um pouco da comicidade dos tempos de Tora San. Shinnojo é um samurai insatisfeito com seu trabalho "menor" - o de provador de comidas do senhor feudal da região, para que se evite seu envenenamento -, e planeja abrir uma escola de manuseio de espadas para crianças. Sua mulher e ele são apaixonados, mas um evento drástico muda o rumo de seus planejamentos, emprestando o mote que conduzirá a história entre o desespero, a esperança, a queda da confiança e o final. Como controlado é o filme no seu rigor estético - que também empresta a beleza da composição de alguns quadros, que mudam pelo simples e delicado deslocamento horizontal das lentes, revelando outros ambientes das casas (e aí há o esperto aproveitamento da estrutura arquitetônica das casas japonesas e seus modelos quadrados, "recheados" de ângulos retos) E como quase não é controlado Yoji com algumas manias que têm cultivado - fez isso com o final de "O Samurai do Entardecer", quando remete tudo a história contada sobre um túmulo, quase botando toda a beleza e força do filme a perder (e lá, isso estragou bastante a avaliação do filme) - de alguns truques emotivos que seriam desnecessários. Aqui também passou perto, dando uma certa cara de novela à opção final - manjada. Mas a história dos passarinhos "salvou um pouco mais sua pele", não comprometendo tanto um trabalho que se não é ousadíssimo, é com certeza muito bonito. E algumas falas são dignas de ser anotadas numa caderneta. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |