FESTIVAL DO RIO "Minha Mágica", de Eric Khoo Por Cid Nader Esse diretor nascido em Cingapura parece que irá trilhar - ao menos nesse seu início de carreira internacional - aquele caminho bifurcado junto à apreciação cinéfila, que o coloca ou alvo de pedradas indignadas quando optado um caminho, ou por louvações cheias de lágrimas quando a opção for o outro. Ano passado foi muito detestado por boa parcela d amigos por conta de seu "Be With Me" - filme que adoro e que até imagino como "criador" de um novo jeito de imposição de linguagem (no sentido de contar a história, de narrá-la, subtraindo o comum do oral, e implementando a novidade que quebra a regra e tira o espectador da posição forçada e acostumada de entender via audição). Ontem, após a sessão de "Minha Mágica", o detestamento era muito mais violento, e sem nenhuma opinião a favor (ao menos, no filme do ano passado, na mesma sessão encontrei "dois" amigos que gostaram bastante). Pelo que se percebe, o número de empatia que ele causou até agora entre cinéfilos mais radicais e críticos mais próximos com essas duas obras que já passaram por aqui, acho que caminhará por muito tempo sob chuva de pedras e não de lágrimas. Mas "Minha Mágica" é belíssimo, bonito de se ver, com certeza um trabalho absolutamente pessoal, fato que faz com que o diretor não tenha em nenhum momento medo de conduzi-lo por caminhos típicos dos dramalhões mais rasgados. No quesito "dramalhão" - e sei que talvez isso seja o que mais incomodou quem não gostou -, todos os truques são utilizados: como a repetição de música (ou introdução de outras com a mesma toada entristecida) em alto em bom tom, nos momentos em que o filme sai da narração comum, que é a utilizada para embalar as obras por boa parte de seus trajetos, para os momentos mais catárticos (digamos assim); há também o excesso, o over, da interpretação do garoto Rajr (Jathishweran), de dez anos, que sempre atua acima do tom quando cobra atitudes do pai (o mágico e artista de circo Francis - Bosco Francis -), bêbado e jogado na vida por conta da ausência da mulher, mas que faz com que sua atuação (a do garoto) ganhe similaridade e paridade com obras clássicas da história do cinema (algumas do neo-realismo com certeza); e há a cena final do filme, que provavelmente será a mais criticada (e a que se mais aproxima o trabalho do dramalhão rasgado), mas que deixou a impressão maior da pessoalidade da história, pois a introduz numa outra dimensão, à parte de tudo que se contava até então, provavelmente remetendo o trabalho a apreciações filosóficas e religiosas que o Khoo professa. Ao contar a história do abrutalhadíssimo Francis e de "como fazer para dar uma vida melhor a seu filho", o diretor entra no mundo que fala da abnegação total em favor do rebento, do sacrifício em favor daquele que prosseguirá a própria estrutura genética e espiritual: isso é mais ou menos o padrão regedor que orquestrou boa parte da história da humanidade, ou seja, as conquistas, os martírios e até os crimes, desde que meu filho tenha a possibilidade de continuar ("e continuando, me continuando, automaticamente"). Mas o filme entra mais ainda em paralelo com a história humana por fazer com que alguém sem virtudes e que sempre foi ausente (um pecador para muitas religiões), num dado momento, "resolva" que é chegada a hora da redenção; e qual a melhor maneira de fazer isso (para alcançar o nirvana, ou o céu, também)? O martírio da própria carne (e na realidade isso já vinha sendo "executado" por ele, o que se constata na degradação do próprio corpo desfigurado pelos anos de bebedeira e sofrimento) sempre foi uma "solução", um caminho indicado e praticado, e a maneira mais garantida de fazer com que as maldições que "obtive por errar não ultrapassem meu ser pecador, para instalar-se na minha cria". O filme da possibilidade da salvação. E isso é a história humana. A primeira cena já é bastante enigmática e contundente, quando Francis bebe e bebe sem parar, numa atuação interessante de Bosco Francis (amigo do diretor e mágico profissional, portanto, um não ator), o que já dá um certo tom de como o filme caminhará no quesito atuação. São amadoras as atuações, mas com muita carga de sinceridade - talvez uma boa solução encontrada por Khoo para fazer com que o quer contar não sofra demais com outras interferências (mal comparado, é o que faz Straüb, quando opta pela encenação lida e não dramatizada) -: não há a necessidade de fazer com que os atores sejam travestidos com o modelo de atuação perfeita e daí o garoto super-atua, o pai se mostra contido e lento como seu corpo, o dono do estabelecimento tem cara e trejeitos de aproveitador, o bandido tem cara de mau e tarado (aliás, surge dessa sua tara por sofrimento o caminho de uma melhor vida a Rajr, ao qual Francis se agarra e onde encontra o pior dos martírios). De cenas destacadas é feito "Minha Mágica" (como nos dramas cinematográficos) e o que Khoo consegue com seus parcos doze dias de filmagens são algumas pérolas: além da inicial, as do momento em que o garoto passa a aprender e executar pequenos truques de mágica (simbologia infantil máxima que pode tanto representar nossos desejos, como os do diretor); ou as de perfuração que se auto-impõe Francis (fortes e reais, nada de bom para estômagos delicados); a relação de Rajr com o vendedor de "macarrão" (que faz ver o quanto alguém sofrido pela ausência de um pai mais presente acaba "adultecendo" antes da hora) e a iluminação brotada da barraca sobre seu rosto (aliás, importante dizer que a projeção erra horripilantemente escura e que muito de beleza e singeleza cenográfico foi perdido - dava para notar desenhos hindus por em algumas paredes que devem ser belíssimos, por exemplo); e também a Lynchiana seqüência de surra e prazer, sangue e dor, risadas e sofrimento, que acontece no momento mais drástico do filme, no qual o pai resolve que talvez dar a vida pelo bem estar do filho seja o único caminho. Mas como filme que não se envergonha de mostrar-se com todas as características de dramalhão, esse entrega duas belíssimas (tanto quanto questionáveis pelos detratores): o instante emocionante e realmente pungente no qual Francis conta para Rajr a verdadeira história de amor com sua mãe e o destino dela (chocante e impensável, tanto quanto simples demais); e o final que remete o filme a um outro patamar físico, e que faz perceber toda a intenção desse interessante Eric Khoo. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |