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FESTIVAL DO RIO

"Sukiyaki Western Django", de Takashi Miike

Por Cid Nader


Filme realizado com todas as possibilidades do inusitado, do surreal, "Sukiyaki Western Django" faz parte daquela galeria de trabalhos específicos, que procuram um público muito específico. Filmes normalmente originários do extremo oriente e que se caracterizam por: excesso de imaginação - baseada normalmente em parâmetros puramente cinematográficos, tanto de estilos mitificados ocidentais, quanto de tradições tipicamente orientais (samurais, lutas marciais chinesas, clãs, períodos de governos...), quanto, também, das artes gráficas, que têm ponto forte e de grande reconhecimento mundial, justamente na região -; idealização e reverência por parte de diretores, críticos mais estudiosos e cinéfilos de carteirinha, ocidentais, a esse tipo de miscelânea de olhos puxados; e facilitação da divulgação desses trabalhos via veículos mais modernos, como Internet e afins.

Engraçado que esse tipo de importação parece mais caracterizar um mundo globalizado que não percebe onde as trocas se dão de verdade. Porque, se é óbvia a nossa aceitação e predileção por esses gêneros recheados de informações e referências, também tão óbvio deveria ser percebermos que esse tanto que nos enviam do lado de lá em excesso de "abastecimentos" à nossa cultura (abastecimento com cultura "suja", na realidade), é bastante baseado justamente em ícones, mitos, e caracterizações de nosso ocidente. Ao invés de lamentarem e combaterem - até via arte mesmo, como faz Jia Zhang-ke com seu maravilhoso cinema lamentoso -, alguns diretores se apropriaram de símbolos, tentaram perceber que um mundo "exclusivo" está cada vez mais distante de ser mantido e executado com pureza, passando a construir esse tipo de obra, que é recebido como novidade, com entusiasmo, sem que por vezes se note que tudo é uma eterna reciclagem.

O diretor norte-americano Quentin Tarantino é dos que mais se beneficia dessas possibilidades; cata um monte de coisas que o oriente oferece, mistura-as, "suja-as" e nos oferece. Com isso vem construindo uma obra autoral. Não por acaso, o próprio Tarantino faz um papel de destaque - engraçado, aliás; bem engraçado - nesse filme do cultuado Takashi Miike. Que é realizador atípico, bastante comentado em rodas mais "engajadas". Que é diretor que procura autoralismo em sua carreira, e usa bastante todos os tipos de referências possíveis em seus filmes. Notadamente em "Sukiyaki...", quando mescla modelos de captação de imagem e de edição diversos, hipersensibiliza as luzes e as cores, faz gato e sapato com as possibilidades digitais, usa desenhos e animações... Tudo, para contar história com a cara mais deslavadamente ocidental, copiando um modelo que já é cópia - o sapaghetthi-western -, fazendo de seu filme uma homenagem ao gênero, e, para cumprir a meta aguardada pelos fãs de plantão, injetando modelos absolutamente orientais, vilões orientais, histórias com teor oriental, e por aí afora.

Teria tudo para agradar os verdadeiros fãs desse tipo de miscelânea: elementos, velocidade, humor pretensamente sagaz, inteligência. Mas algo não funcionou a contento. Vi pessoas rindo nas situações mais sem graça - como se tivessem ido para isso e não quisessem admitir um momento de raciocínio sobre se o resultado estava sendo bom. O excesso - algo esperado - dessa vez pesou um pouco. O filme se arrastou, os momentos de riso foram logo suplantados pelo virtuosismo. Infelizmente. Quem deu pinta de que se divertiu de verdade foi o ator/convidado/diretor norte-americano: senhor Tarantino.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados