FESTIVAL DO RIO "Les Amours d'Astrée et de Céladon", de Eric Rohmer Por Cid Nader Autor dos mais clássicos no cinema atual ainda em atividade - e pense-se em "clássico" no sentido de capacidade intelectual acumulada com o passar dos anos e transferida para a obra (seja em que linguagem da arte for) -, Eric Rohmer vem fazendo do avançar do tempo (nasceu em 1920) o aliado que se manifesta como um dos responsáveis pelo acúmulo de informações cultas, que obtém quem continua transitando intensamente entre as coisas das artes, ao mesmo tempo que o "lentifica" no modo de confeccionar seu cinema. Essa "lentificação" (paciência, calma, manifestar atento e tranqüilo?) vem fazendo de seus últimos trabalhos, cada vez mais, grandes exemplos de condução precisa e econômica de suas histórias (de seus textos, da literatura escolhida - já que é autor que se abastece da letra escrita por outros para definir os seus mais precisos trabalhos dos tempos mais "lentos") entremeadas por imagens de textura leve e econômicas nas pirotecnias. Impossível não pensar no autor, atualmente, sem lembrar automaticamente da calma emanada de seus contos das estações (quatro, localizados todos na década de 90) - onde o domínio do ambiente físico era sempre muito preciso, enquanto suas letras contavam histórias que poderiam parecer simples demais para os desatentos, daí a calmaria delas - ou de "A Inglesa e o Duque", numa aglutinação que o aproxima muito mais ainda desse seu novo e belo "Les Amours d'Astrée et de Céladon" (aglutinação que ganha ainda o aditamento de ser baseado em texto literário). No início do filme um aviso escrito diz algo como "ele não poder ter realizado as filmagens na região onde nasceu a história, por conta de urbanização e modificações nos traços locais", o que fez com que ele procurasse outra regiões do interior francês com uma preservação maior do bucolismo indicado no texto do romance clássico, L'Astrée (escrito por Honorè d'Urfè, no século XVII). O que é escrito na tela aparece como se fosse um pedido de desculpas do diretor. Mas pensar nisso saindo dele é tão insano - se visto como um pedido de desculpas -, que a constatação do filme, quadro-a- quadro, take e take, que se projeta na tela só faz imaginarmos como modéstia desnecessária partida de pessoa educada e sabedora de sua capacidade e, não errar. Particularmente tive problemas com períodos da obra de Rohmer, mas o avançar da idade nele e o conhecimento tardio de algumas de suas obras me fizeram percebê-lo como autor que acerta preciosidades inquestionáveis - é profícuo, e continuo entendendo que mesmo sem minha ranhetice aquele que ousa e produz muito estará sempre propenso concluir trabalhos não tão bons como mereceria. Só para lembrar das obras mais antigas, que vista tardiamente me fizeram começar a entendê-lo e considerá-lo tão grande quanto merece: o belíssimo "O Joelho de Claire" (1970), "Pauline na Praia" (1983) e o seu melhor filme (para mim), "O Raio Verde" (1986). Voltando: as cores do filme emanam calma, que já começa se manifestando desde aquele letreiro inicial que anunciava sobre a escolha dos locais de filmagem - o filme todo é captado com sutilezas de luz e cores, carinho que se estende aos avisos escritos que dividem o trabalho e o trazem ao encontro de sua origem literária. Não há sobressaltos ou agressão ao olhar, que se perde hipnotizado ante a beleza plástica dos cenários, ante a capacidade de revelar e inventar tais cenários como se fossem singelezas pictóricas, singelezas que se estendem à escolha dos atores e atrizes, que parecem fundir-se com a natureza, por conta de seus traços delicados e claros. Vale lembrar que a história se passa em terras e tempos de druidas e ninfas, e que tal local fazia parte de domínios da Gália, se estendo a terras bretãs, o que indica as faces quase inumanas do filme, e o que justifica o tom fabular que a mescla natureza faces brancas gera. A história é generosa ao revelar entre os momentos do casal a sina da religião e dos seus seguidores (até que ponto verdadeiros, ou até onde modificados no texto romanceado, como maneira de satirizar o ocorrido): mostra as semelhanças com religiões de um Deus só, mistura os princípios do cristianismo (há a virgem) e vai mais atrás em busca das pedras dos dez mandamentos (o nascedouro de tudo com o judaísmo), mas pedras que têm em si, escritos mandamentos que falam de amor entre homem e mulher. Aproveitando-se dessa vertente "reveladora" do texto e para contar o que sucedeu a Céladon após a tentativa de suicídio que surgiu de uma rusga amorosa com sua bela amada, e temperamental pastora Astrée; para falar do "seqüestro" que ninfas quando o encontraram semi-morto à beira do rio; para dizer de como um Druida (sacerdote daquela região que professava e executava a relifgiaão local antes do surgimento dos romanos, e muito antes do extermínio a ela imposto pelo avançar do cristianismo) se "apoderou" de Céladon com o mais belo dos intuitos que era o de fazer com que ele voltasse aos braços de sua única amada que era Astrée, Rohmer criou um conto imagético (já que o escrito já existia) dos mais belos do cinema recente. As imagens captadas próximas do final quando da aproximação do dois (ele disfarçado de camponesa filha do Druida), com beleza plástica quase inacreditável de tão perfeita, e com as sensações confusas de amor e amizade expressadas por gestos e carinhos encaminham nosso olhar e nossos sentimentos sem que nos esforcemos para nada. Isso é fruto de trabalho de quem sabe com trabalhar em sua arte, de quem tem o domínio total do que faz, mesmo após aquele "moleque" aviso inicial. Mas mais do que isso: para obter esse domínio sobre sua arte e seus apreciadores, o artista já deve estar "lentificado" e domado pelo tempo; mais culto e em busca de mais cultura - fato que o avançar do tempo facilita. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |