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FESTIVAL DO RIO

"Segurando as Pontas", de David Gordon Green

Por Cid Nader


Por causa desse tipo de filme que me recuso em dar palpites e dicas sobre filmes na hora que me pedem. Há trabalhos que realmente não devem ser recomendados para pessoas de coração fraco ou alma lúdica. Um modelo de cinema independente americano vem recheado demais de situações duvidosas, exploração do "mau gosto", piadas e sexistas e racistas, atitudes nada politicamente corretas e pior, contundentes no escracho - é razoável não se querer recomendar tais tipos de filmes para a maioria dos simples mortais. O pior - ou melhor - é que a maioria desse modelo que se pratica bastante nos EUA resulta em filmes divertidíssimos e, acreditem, bastante inteligentes.

O jovem ator Seth Rogen é figura específica para filmes desse modelo - grande, gordo, desleixado e muito engraçado - e optar por utilizá-lo para trabalhos escrachados é quase que garantia de sucesso (mais do que isso, garantia de que o trabalho será bem representado no campo da atuação). O diretor David Gordon Green surgiu no mundo do cinema indie com obras fortes e de características diferentes entre si - não pode ser classificado como autor engraçadinho e sarcástico como os irmãos Farrelly, por exemplo - e assumiu essa empreitada de maneira quase esplêndida. "Segurando as Pontas" é obra digna de ser vista como das mais irreverentes e engraçadas dos últimos tempos. Faz justiça às melhores similares do gênero, atacando para todos os lados e não deixando jamais o ritmo cair. Sexista ao extremo, não procura meios termos para a condução da dupla de personagens centrais, e emenda bombardeio para um monte de outras instituições americanas. Dale Denton (David, que também é um dos roteiristas do filme - daí fica fácil entender o tom adotado) trabalha como "entregador" de intimações a devedores e faz isso utilizando-se de uma enormidade de disfarces, ao mesmo tempo que o filme deixa evidente o quão "escroto" é tal tipo de serviço - ataca-se aí sem luvas de pelica a instituição mais poderosa da América que é a do capitalismo extorquidor (até porque Dale não é o melhor exemplo de bom moço da praça: vagabundo, maconheiro, malandro, tudo que os EUA rejeitam oficialmente).

O par de jornada de Dale - outro equivocado dentro do sistema, só que aí mais "estragado" pela maconha, meio lesado, da paz e amor, conselheiro e tal - é o passador e plantador de Canabis, Saul Silver (Evan Goldberg). Os dois se metem em encrenca brava quando Dale acidentalmente vê um assassinato - e aí quem entra na marca de pênalti para ser atacado é a polícia. Durante o filme várias vão entrando de roldão, enquanto o ritmo do filme vai ficando cada vez mais alucinado, com situações grotescas e agressivas sucedendo, arrancando risadas desbragadas de quem não seja preconceituoso com tal tipo de humor. E para esses, a festa é grande e de luxo. Repetem-se insinuações de homossexualidade com tom pejorativo; imita-se atitudes sexuais para chatear e ironizar o outro; situações nojentas (vômito, pedaços de corpos, tiros estúpidos) vão tomando corpo; velocidade e violência também, enquanto, do outro lado, a adorável e jovem namorada do personagem principal (tão idealizada no início, tão falada, tão desejada e até motivo maior de complicações nas situações de violência que vão se sucedendo) vai sendo deixada de lado, para a constatação bastante óbvia, no final, que é de filme de machos que se trata ali.

Filme de afetuosidade entre homens, que deveria causar estranheza a quem imaginasse estranhezas, que exclui ou reduz ostensivamente as mulheres na história, mas tudo, tudo, como provocação e, não como ideal empatia entre os masculinos. Além do mais, se algum dia tivesse a insanidade e ousadia de indicar filmes do gênero, talvez usasse como pontos positivos o fato de se tratar de cinema que vai na contra-mão do que a instituição (associada à "elite" hollywoodiana) "família americana" preconiza e faz de exemplo maior do cinema que se confecciona por lá; e também o fato de nesses filmes as verdadeiras pessoas que compõe a nação (diversas em comportamento e atitude, inovadoras e geradoras de tendências políticas, contestadoras) sempre terme espaço garantido - no caso desse desde os personagens centrais, até aqueles que aparecem num simbólico momento sentados num banco ao lado de Saul. Ah, e muita, muita imaginação no texto.








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados