FESTIVAL DO RIO "O sal desse mar", de Annemarie Jacir Por Cid Nader Filmes de ideais juvenis são algo a não ser descartado da história do cinema por simples reação contra ou falta de boa vontade. Algumas experiências nesse sentido resultam trabalhos dos mais emocionantes - muito por conta da falta de "ambição" em atingir níveis de excelência, o que acaba "liberando" a imaginação idealista de possíveis amarras, permitindo que intuição e emoção fluam mais livremente. Filmes de ideais juvenis nem sempre são realizados por jovens recém-saídos da adolescência, e nem sempre têm jovens recém-saídos da adolescência compondo o time de protagonistas principais. Talvez o que mais caracterize esse tipo de película só se note com atenção, quando se percebe que a idéia provavelmente surgiu na cabeça do diretor em tempos antigos, quando provavelmente nem pensava seguir tal carreira. Daí a perceber a razão de prevenção por parte de alguns é fato bastante compreensível: o azar desses se dá quando algumas obras acabam resultando tão boas e emocionantes, que fica possível perceber em imagens e sons o frescor das idéias de um jovem em algum momento lá atrás de sua vida - e as idéias e sonhos imberbes ou em fase de novos hormônios costumam ser muito bacanas. Mas é para se dar a mão à palmatória quando alguns filmes não refletem o frescor das idéias e se tornam peças meio idiotizadas por falta de fluidez entre a intenção e a ação realizada. Disso padece bastante "O Sal Desse Mar", mas não a ponto de ser jogado no lixo, sem nenhum outro tipo de chance. Se visto somente por esse aspecto, é um filme realmente mal realizado, manco, sem ritmo adeqüado, com falta de coerência e com muitas soluções infantis - não juvenis. Se visto somente sob esse aspecto, as ações que se sucedem na tela sem nenhum tipo de preparo anterior - como a do assalto ao banco, ou a chegada ao mar. Mas, o falho aspecto de ideais juvenis, num filme que faz seus protagonistas adultos agirem como crianças, nem chega a ser o(s) ponto(s) principal(is) que deveria tomar as vezes por quem quiser discuti-lo. Há coisas bem piore e bem melhores para chamar a atenção. Alguns filmes palestinos e libaneses (todos com co-produção européia, onde seus realizadores estudaram) costumam abusar de idéias juvenis, mas embutem no meio das realizações discussões sobre o complexo jogo político da região. Os palestinos - principalmente e de maneira até bastante compreensível - costumam jogar o jogo de eternos sofrimento ante o poderio arrasador da instituição bélica que é o Estado de Israel. Isso é quase fato obrigatório. A diretora Annemarie Jacir faz desse o mote que conduz as atitudes de seus protagonistas. Uma das coisas realmente importantes a se discutir são os momentos belos que ela obtém por conta do rescaldo de memórias antigas de alguém que não viveu o momento da instituição do estado israelense (1948) onde era a Palestina - memórias de histórias narradas principalmente pelo seu avô: o início do filme com imagens raras de arquivo mostrando a demolição de prédios e casas, quando chega à casa da família, ou o mais belo e forte momento que acontece quando a câmera passeia por locais onde cadeira e móveis antigos dos palestinos estão à venda. Com esses momentos de resgate é possível perceber o sofrimento todo de um povo e, principalmente, o cinema cumpre uma função muito bonita de fazer perceber o quanto se perdeu de dignidade, acima dos valores materiais e físicos. Outra coisa importante a ressaltar - e aí de modo bem negativo para o filme, mais do que a má execução dos ideais juvenis - são os pequenos e grandes sinais que são jogados no transcurso da película com o intuito de enfatizar o sofrimento do povo, mas fazendo-o como o mais nobre de todos. A seqüência da chegada de Soraya a Israel, quando é humilhada no aeroporto - e se sabe que ocorre mesmo isso - já é um prenúncio de os "israelenses" serão o tempo todo tratados como demônios (um vício do cinema palestino); mas há uma situação muito menos fácil de se perceber, que mostra Soraya tentando alugar um apartamento num bairro ex-rico, onde ao final a corretora (ou dona) fala que o aluguel seria a "bagatela" de US$ 800,00 (isso num país onde tamanho valor realmente é exorbitante), com o detalhe de se perceber na parede um quadro com a imagem de Cristo, fazendo o que compõe o jogo de se achar sempre coitados e santificados, tanto perante os judeus quanto diante dos "exploradores" cristãos. Nunca há pessoas boas do outro lado e isso talvez seja o grande denunciador de intenções do filme e de um modelo que tem sido exportado de lá - não existem somente bons de um lado e maus do outro na história da humanidade. |
Leia as matérias deste festival: I - Release de abertura II - En La Ciudad de Sylvia III - Queime depois de ler IV - Guerra sem cortes V - Inútil VI - Vocês, os Vivos VII - Viagem do balão vermelho VIII - Pan-Cinema Permanente IX - Aquiles e a tartaruga X - Glória ao cineasta XI - Simonal XII - Feliz Natal XIII - A Raiva XIV - O Céu, a Terra e a Chuva XV - Puffball XVI - Gomorra XVII - Terra Vermelha XVIII - Liverpool XIX - A Fronteira da Alvorada XX - Adoração XXI - Boogie XXII - Noite e Dia XXIII - O sal desse mar XXIV - Segurando as Pontas XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon XXVI - Sukiyaki Western Django XXVII - Minha Mágica XXVII - Fatal XXVIII - Amor e Honra XXIX - Renascimento XXX - Alexandra XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar XXXII - Cinzas do Passado - Redux XXXIII - O Silêncio de Lorna XXXIV - Mais tarde, você vai entender... XXXV - Premiados |