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FESTIVAL DO RIO

"Noite e Dia", de Hong Sang-Soo


Por Cid Nader


O diretor coreano mais cultuado no Brasil está de volta. E volta com um trabalho tipicamente seu, mas não tão bom quanto "Mulher na Praia" (2007), ou o maravilhoso "A Mulher é o Futuro do Homem" (2004). Muitas das características - senão todas - do diretor estão nesse novo trabalho. Fala de amor e paixão que surgem como se fosse do nada para tomar o espírito e tirar do controle um homem, Sung-nam, que já está em Paris meio descontrolado - o motivo que o faz estar em Paris, ele um pintor sem sucesso na Coréia, é o esdrúxulo fato de ter sido pego fumando uma simples maconha, com uma conseqüente fuga acovardada da Coréia (nos filmes do diretor as pessoas apaixonam-se repentinamente por outras e passam a agir destemperadamente na ânsia de ver tal repente confirmado - de preferência com sexo feroz e repleto de prazer intenso - afora umas tantas anormalidades que até cabem quando o assunto é paixão veloz). Coloca um homem maduro sempre na linha de frente e uma garota (ou mais, normalmente mais) muito mais nova. Utiliza zooms e deslocamentos curtos laterais incessantemente, o que acaba por fazer com que seus filmes se pareçam plasticamente bastante com os de Woody Allen, principalmente na década de 80 - interessante lembrar que muita gente acha seu cinema, no geral, parecido como o do diretor norte-americano e, fora o fato dessas "coincidências" técnicas, há sempre o personagem masculino meio atrapalhado na manifestação amorosa, mais velho, cometendo gags do estilo das de Woody ator, e um humor de situações que também lembra bastante o ianque. Embebeda invariavelmente seus personagens, com conseqüências quase sempre sem volta - por conta desses embebedamentos, principalmente, as manifestações mais violentas ou emotivas aparecem com constância, num revelar da personalidade diferenciada dos coreano quando comparada ao resto dos extremo-orientais.

Outra característica que existe em "Noite e Dia" - título que remete aos momentos de Sung-nam falando com a mulher na Coréia enquanto na França ainda é dia, e que também tem a ver com o excesso de exposição solar normal no verão dos países quanto ao mais norte da Europa - e que é "copiada" dos outros filmes é sua longa duração. Sang-Soo não tem preocupação com a duração de seus filmes; muito ao contrário, passa a impressão de que faz do tempo alongado um aliado para contar suas histórias com intermináveis "parênteses", com a introdução de situações corriqueiras que muitas vezes não tem a ver com o momento do filme, mas que emprestam característica de normalidade à obra - isto é, as situações não são sempre determinantes ou fatais, e isso faz com que seus trabalhos (já suficientemente estranhos por conta das obsessões dos personagens principais) consigam um "caminhar" muito próximo da vida corriqueira, da vida de verdade, valendo notar também que tais situações corriqueiras normalmente são de alto teor de qualidade humana ou artística: só como um exemplo máximo, nesse filme há uma situação "deslocada" de uma filmagem na rua, onde um passarinho cai de um ninho, é socorrido por duas moças, acompanhadas por Sung-nam que diz ter ele caído de um ninho e batido em seu ombro antes de ir ao chão (belíssima e "corriqueira"). Lembra também das "desnecessárias" quedas de braço, do embate por palavras com o estudante da Coréia do Norte...

Mas há algo que faz com que "Noite e Dia" não seja tão bom quanto outros dele (apesar de ser bom), e talvez esteja mesmo na duração alongada, que dessa vez pareceu excessiva e necessitada de situações supérfluas para se sustentar. O problema não está no caso do reencontro com a ex-namorada de dez anos antes e com a seqüência dos fatos. Não está na tentativa obcecada de relacionamento com a jovem Yu-jeong (que rende as cenas mais típicas de seu cinema). Muito menos na comunicação por telefone com a mulher que o aguarda, ansiosa de volta à Coréia. Também não são problemático os momentos em que lê a Bíblia, ou quando vista os museus: são a base cômica do filme (coisa que o diretor sempre faz questão de manter - homenagem a Woody Allen?). Provavelmente o que impede que esse seja um de seus maiores filmes mesmo tenha a ver com a necessidade esticar o tempo do filme - aliás, dividido quase dia-a-dia desde a chegada do pintor a Paris (belamente fotografada, carinho dirigido, também, a alguns de seus habitantes).








Leia as matérias deste festival:

I - Release de abertura
II - En La Ciudad de Sylvia
III - Queime depois de ler
IV - Guerra sem cortes
V - Inútil
VI - Vocês, os Vivos
VII - Viagem do balão vermelho
VIII - Pan-Cinema Permanente
IX - Aquiles e a tartaruga
X - Glória ao cineasta
XI - Simonal
XII - Feliz Natal
XIII - A Raiva
XIV - O Céu, a Terra e a Chuva
XV - Puffball
XVI - Gomorra
XVII - Terra Vermelha
XVIII - Liverpool
XIX - A Fronteira da Alvorada
XX - Adoração
XXI - Boogie
XXII - Noite e Dia
XXIII - O sal desse mar
XXIV - Segurando as Pontas
XXV - Les Amours d'Astrée et de Céladon
XXVI - Sukiyaki Western Django
XXVII - Minha Mágica
XXVII - Fatal
XXVIII - Amor e Honra
XXIX - Renascimento
XXX - Alexandra
XXXI - Diego Rivera: A Revolução do Olhar
XXXII - Cinzas do Passado - Redux
XXXIII - O Silêncio de Lorna
XXXIV - Mais tarde, você vai entender...
XXXV - Premiados